Encerrando a noite de ensaios da Liga-RJ na Sapucaí no sábado, a Porto da Pedra mostrou porque tem sido apontada como uma das favoritas e uma das principais candidatas a conquistar o acesso, que bateu na trave no carnaval passado com o vice-campeonato. Assim como já havia se destacado no mini-desfile na Cidade do Samba, a agremiação de São Gonçalo fez um treino com padrão Grupo Especial, tendo como grande destaque o canto da comunidade, além de não apresentar erros em outros quesitos. O primeiro casal, a comissão de frente e a bateria fizeram grandes apresentações no sambódromo. O treino do Tigre teve duração de 50 minutos. Em 2023, a Vermelha e Branca de São Gonçalo será a quinta escola a desfilar na segunda noite da Série Ouro, e vai apresentar o enredo “A invenção da Amazônia: Um delírio do imaginário de Júlio Verne”, que está sendo produzido pelo carnavalesco Mauro Quintaes. * VEJA AQUI FOTOS DO ENSAIO

“Hoje foi excelente. Nós vamos fazer melhor ainda no dia 18. Tudo surpresa. Vamos apresentar um excelente carnaval. Não desmerecendo as nossas coirmãs, mas vamos brigar pelo título. Eu gostei de tudo, mas vamos cantar mais. Melhorar o canto”, comentou Aluízio Mendonça, diretor de canraval.

Harmonia

O canto da comunidade da Porto da Pedra foi o ponto alto do ensaio. Os componentes cantaram de forma intensa, homogênea, com praticamente todo o contingente da escola e cantando durante todo o tempo de ensaio. Comissão de frente, bateria, baianas e passistas também mostraram que estão com o samba na ponta da língua. O intérprete Nêgo foi outro show à parte. Experiente na Sapucaí, de várias escolas, estreando na Porto da Pedra, no ensaio mostrou que ainda tem muita lenha para queimar.

Fotos de Nelson Malfacini/Site CARNAVALESCO

Muita intensidade na condução da obra, correção e a utilização de cacos completamente inseridos no contexto do samba e utilizados no momento certo.O samba foi trabalhado pelo cantor de forma limpa. A voz esteve potente até os minutos finais da apresentação amparado por um carro de som que fez o simples de uma forma muito correta, sem erros e bonita.

“Foi muito bom o ensaio, fizemos o andamento certo. Estamos ensaiando toda quinta-feira e está maravilhoso. Ensaio muito bom e harmonia certinha, porque, carnaval hoje em dia é um teatro e nós passamos bem na avenida, no andamento certo. O ensaio melhorou bastante. A Amazônia é o pulmão do mundo. O enredo é muito rico e falar da maneira que ele fala sobre a Amazônia é uma felicidade incrível para o carnavalesco”, disse o intérprete Nêgo.

Samba-Enredo

O samba da parceria de Vadinho e companhia é um dos melhores do grupo, tem uma linha melódica bastante interessante com algumas resoluções métricas bastante criativas como o trecho já no final da segunda do samba “O dom de proteger seringueiras, Matitas Pereiras, Chicos e irmãs desse lugar”, que foi muito bem colocado pela comunidade, sem deixar embolar em nenhum momento, mostrando o bom trabalho da diretoria com os ensaios de canto e de rua em São Gonçalo.

Outro destaque também vai para a segunda do samba, dessa vez em sua plenitude, que possui uma melodia muito harmônica e doce. Ela prepara para a força que tem o refrão principal, que poderia gerar alguma dificuldade em termos de letra, mas que é outro ponto de elogio a comunidade da Vermelha e Branca gonçalense, que neste treino, mais uma vez, dominou o “Warrãna-rarae” do início ao fim. O trabalho de mestre Pablo com a bateria Ritmo Feroz fez com que um samba já bastante elogiado aqui melodicamente valorizasse justamente a sua melodia. Pois, o andamento deixou a obra bastante agradável para quem cantava e acompanhava do lado de fora.

Comissão de Frente

Aclamado no carnaval passado pela trabalho desenvolvido na Porto da Pedra, o que lhe rendeu convite para este ano também estar no Especial pela Mocidade, Paulo Pina trouxe para este ensaio bailarinos vestidos com uma fantasia que trazia traços do modelo imitando pele de onça com saias em tom marrom, criando um clima que invocava a Amazônia para a Sapucaí. Esse personagem que estava presente na fantasia da comissão de frente, ao mesmo tempo tinha muito de bicho, de fera, mas sem perder as características humanas, constituindo o imaginário onírico amazônico que está presente no enredo proposto por Mauro Quintaes.

O que também impressionou no quesito, foi a maquiagem tanto corporal quanto facial dos bailarinos que lhes deu uma aura bastante selvagem. Nos movimentos se destacaram danças com mais pegada tribal e movimentos homogêneos dos componentes. Um exemplo dessa movimentação , acontecia no giro das saias que gerava um interessante efeito quando os integrantes da comissão se aproximavam. No final, em um momento de grande emoção, uma faixa com os dizeres “Lutem pela Amazônia” foi aberta.

Mestre-sala e Porta-bandeira

Com a missão de substituir Cintya Santos que agora está na Mangueira, Laryssa Victória, em sua estreia ao lado de Rodrigo França, mostrou não sentir a pressão do legado deixado pela antiga dona da função. A nova primeira porta-bandeira do Tigre mostrou muita sintonia com Rodrigo. O casal apostou em uma coreografia muito delicada e de contato. Em um dos momentos de mais doçura, Rodrigo entrega beijava um girassol que carregava na mão e entregava para bailarina.

Mas também havia momentos de muita intensidade, principalmente nos giros e quando a dupla de repente se abaixava ao mesmo tempo em que realizava um movimento de esticar a perna. A roupa do casal chamava bastante atenção por possuir uma característica que fazia referência a um pássaro. Tanto nas mangas da porta-bandeira, quanto nas mangas do mestre-sala havia penas e uma extensão em formato de asas, que gerava um bonito efeito no giro.

“Foi sensacional para nós. Uma experiência incrível. Hoje é a estreia da Laryssa como primeira porta-bandeira num ensaio técnico. Ela foi o máximo, arrasou demais. Nosso esforço valeu a pena, ensaiamos todos os dias. Está sendo incrível dançar com ela. Gostamos muito de sentir o calor da comunidade. Para mim, ela é a bateria da minha dança. Quando vemos as pessoas gritando, aí mesmo que dá aquele gás para nos soltarmos e nos doarmos mais, até chegarmos nos 110%. Buscamos a perfeição aqui”, disse o mestre-sala.

“Sempre tem, principalmente porque esse ensaio é o parâmetro do desfile oficial. Somos gratos pela oportunidade de vir para cá e consertar o que não deu certo, tendo a certeza do que dá certo. É maravilhoso não só para a gente, como para a escola num tudo. Estamos trabalhando muito para que tudo vá bem no desfile, e gritarmos por sermos campeões na quarta-feira”, completou a porta-bandeira.

Evolução

A evolução da escola no geral foi bastante satisfatória. Não se identificou buracos ou mesmo grandes espaçamentos no desfile todo, mesmo entre a comissão de frente, o casal e a ala que vinha logo depois. O único ponto a se colocar é que após a apresentação do casal e da comissão no segundo módulo a escola passou um pouco mais acelerada, não chegou a correr e não comprometeu a grande apresentação que a comunidade de São Gonçalo fez.

O final do desfile se deu de volta com a boa fluência que a Porto da Pedra havia iniciado. A agremiação não apostou em alas coreografadas, valorizando a espontaneidade dos foliões, que em sua maioria trouxeram apetrechos de cabeça indígenas. Muitos foliões estavam com uma pequena maquiagem indígena. Para simular os carros, a escola trouxe pequenos caminhões com telões. Alguns traziam imagens relativas ao enredo e outros passavam desfiles antigos da Porto da Pedra.

Outros destaques

A bateria Ritmo Feroz, de mestre Pablo, fez mais uma grande apresentação, volumosa, grande destaque para o toque de caixas. Pablo, como é costume vir fantasiado, trouxe um chapéu e calça de pescador ribeirinho. A rainha Tati Minerato exibiu toda a sua beleza em uma fantasia indígena com um cocar enorme que cobria quase toda a beldade. No caminhão que simulava o abre-alas em um determinado momento apareceu a imagem de Júlio Verne, autor do livro que inspirou o enredo.

“O ensaio foi nota 11! Eu sempre falo com a galera da bateria: ‘Toquem e divirtam-se!’, porque eles são batalhadores e aqui eles extravasam, mostram a garra do tigre de São Gonçalo. No dia do desfile, a gente não vai só pela Porto da Pedra, viremos buscar o título e levar para São Gonçalo. Que assim seja. Vamos vir com 250 ritmistas. Eu vou manter [como está], porque time que está ganhando não se mexe. Hoje, foi um ensaio, para mim, tecnicamente perfeito. Vou vir com duas paradinhas. Uma abertura bacana. Uma convenção da segunda para a primeira do samba. O público pode esperar muita ousadia e alegria do povo de São Gonçalo”, prometeu mestre Pablo.

Antes do desfile, o prefeito de São Gonçalo fez um discurso à comunidade da Porto da Pedra pedindo garra no treino oficial, assim como o presidente de honra Fábio Montibelo. A ala de passistas teve alguns momentos apresentando uma coreografia de forma muito sincronizada e bonita, sem tirar a espontaneidade e o samba no pé.

Colaboraram Augusto Werneck, Luisa Alves, Matheus Vinícius e Rhyan de Meira