Por Júnior Azevedo e Gabriel Gomes

A Porto da Pedra já tem o samba-enredo que levará para a Marquês de Sapucaí no Carnaval 2027. O samba 13, da parceria formada por Bira, Oscar Bessa, Márcio Rangel, Rafael Raçudo, Miguelzinho, Jarrão, Éric Costa, Vinícius Ferreira e Rafael Gigante, foi escolhido como o grande vencedor da disputa realizada na quadra da escola, em São Gonçalo. O resultado foi anunciado na madrugada deste domingo. A obra será o hino do Tigre para o desfile de ‘Porto Kalunga’, enredo desenvolvido pelos carnavalescos Alex Carvalho e Caio Cidrini. A vitória também teve um significado especial para a parceria, que chegou ao bicampeonato na disputa da Porto da Pedra.

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Fotos: Júnior Azevedo e Gabriel Gomes/CARNAVALESCO

O samba mergulha na ancestralidade africana e estabelece uma conexão entre Angola e Brasil, construindo sua narrativa a partir da cultura, da religiosidade e da identidade negra. Ao longo da letra, aparecem referências a cidades e regiões angolanas, como Luanda, Catumbela, Benguela e Lobito, além de homenagens a nomes fundamentais da música brasileira, como Martinho da Vila, Dorival Caymmi, João Nogueira e Djavan.

O compositor Miguelzinho resumiu a emoção após a confirmação do resultado. “É uma emoção indescritível. Nós somos bicampeões, é sempre uma emoção nova. A gente sempre tem que se segurar. Sempre que é campeão, a gente tem que comemorar muito, porque nós somos parceiros de briga boa. E, quando a gente ganha, a gente tem que comemorar”.

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Compositor Miguelzinho

Vitória dedicada a Fernando Macaco

Um dos compositores da parceria, Oscar Bessa, celebrou a conquista pelo significado pessoal e pela relação com a escola. O compositor destacou que a vitória foi dedicada a Fernando Macaco, integrante da história recente da agremiação que morreu no ano passado.

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Compositor Oscar Bessa

“Tenho a oportunidade de ser campeão dessa escola, que é a minha escola de coração. O que nós fizemos foi pelo Fernando Macaco, a quem nós dedicamos essa vitória. É uma alegria muito grande, uma honra sempre participar da competição da Porto da Pedra e fazer parte do carnaval que vai representar a comunidade de São Gonçalo. Macaco, a vitória é para você. A vitória é sua”, celebrou Oscar Bessa, que venceu pela terceira vez na disputa da Porto da Pedra.

O compositor Rafael Raçudo também destacou a trajetória da parceria e a identidade construída pelo samba escolhido para 2027. Segundo o compositor, a obra foi pensada para levar a força da cultura negra para a Sapucaí.

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Compositor Rafael Raçudo

“A Porto da Pedra é a nossa casa, a nossa parceria, que é a parceria 13, já está nessa estrada há muitos anos e, toda vez que a gente pisa aqui nesse palco, é para plantar o nosso coração. O samba coloca a identidade preta e consegue transmitir uma explosão de emoção que vai contagiar a Marquês de Sapucaí, tenho certeza disso. Nosso parceiro Bira é o maior campeão na história da escola. A gente, como parceria dele, já deve ter passado dos dez sambas”.

‘A verdadeira essência’

O compositor Jarrão explicou que o processo de criação foi facilitado pela riqueza cultural do enredo e revelou as principais ideias que nortearam a construção da obra. A intenção foi colocar a negritude, a religiosidade e a força da África no centro da composição.

“Quando a gente pega para trabalhar um enredo muito rico e profundamente cultural como esse, o caminho facilita bastante para a parceria. A matéria-prima era excelente. O samba foi nascendo passo a passo, de forma orgânica, até se transformar nessa coisa linda, uma verdadeira obra de arte que a gente tem o orgulho de entregar para a escola. A ideia era falar bastante sobre a negritude, resgatar a nossa verdadeira essência e trazer toda a força, a religiosidade e a energia da Mãe África para dentro da letra e da melodia do samba”.

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Compositor Jarrão

O compositor também apontou dois momentos da obra que considera especialmente marcantes. Um deles é a homenagem a Martinho da Vila e Dona Ivone Lara. “Sou apaixonado pelo samba inteiro, mas tem dois momentos específicos que tocam muito o meu coração. O primeiro é quando a gente canta: ‘Chama o nosso rei para cantar: Lara, Laíá’. Essa parte é mágica porque faz uma exaltação direta ao nosso grande mestre e rei Martinho da Vila, além de saudar a memória e o legado da eterna Dona Ivone Lara. O outro trecho carrega um significado ainda mais pessoal para Jarrão. A passagem “Ao ver o mar, maré de saudade, clareia o terreiro” foi construída como uma homenagem a Fernando Macaco. E a outra parte que me arrepia demais é o trecho ‘Ao ver o mar, maré de saudade, clareia o terreiro’. Esse pedaço foi feito com um carinho muito especial para homenagear o meu grande amigo e irmão, Fernando Macaco, que infelizmente nos deixou no ano passado”.

Como passaram os sambas na final

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Parceria de Porkinho: A parceria de Porkinho foi a primeira a se apresentar na noite de final, com uma passagem forte e aguerrida pela quadra da Unidos do Porto da Pedra. Defendida por Guto e Ronaldo Ylê, a obra contagiou os presentes e contou com grande participação da torcida. A letra parte da ancestralidade do tambor, com destaque para os versos: “Porto da Pedra, eu te chamo pelo nome / Como um dia o tambor chamou pelos ancestrais”. Outro momento de riqueza poética e melódica aparece no refrão do meio: “Retinta é a noite em Luanda / O céu é o espelho da cor”. O refrão principal foi um dos pontos altos da apresentação: “(Ê Kalunga) / Ê Kalunga nação / O batuque da canção é Brasingola / Eu sou o Porto da Pedra fundamental / O terreiro original do samba”. A parceria teve grande torcida na quadra, com bandeiras com o símbolo da escola.

Parceria de Leon Azevedo: O samba de Leon Azevedo, Rafael Ferreira, Jeánn Bessa, JC Couto, Eduardo Katata, Dionízio, Gilsinho da Vila, Leozinho Nunes e Paulinho Ferreira foi o segundo a se apresentar. Conduzida por Clovis Pê, a obra teve uma passagem segura. A letra inicia a narrativa com elementos como o vento, a maré e a voz dos ancestrais. Um dos destaques está nos versos “Quando a Kalunga se abriu / A minha alma sorriu e navegou”. O refrão do meio — “Teve gente que chorou / Ouvindo o tambor ecoar” — apresenta uma melodia com potencial para contagiar o público. O principal momento da obra, porém, ficou no refrão: “Angola, tua voz me chamou / No peito, orgulho e paixão / Porto da Pedra é Brasingola / A travessia é agora”. A parceria levou um grande número de torcedores para quadra e contou com a presença de um grupo cênico, com um barco alegórico durante a apresentação.

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Parceria de Vadinho: Terceiro samba da noite, a obra de Vadinho, Marquinho Coração, Zé Alex, Denil, Marcos Pimentel, Isaías Demócrito, Adenor e Miltinho foi conduzida por Leonardo Bessa e Niu Souza e fez uma grande apresentação. O principal destaque está na melodia, marcada por variações e passagens bastante inspiradas. A letra desenvolve bem o enredo e ganha força ao mencionar Martinho da Vila: “Um dia Martinho José Ferreira / O poeta embaixador / Juntou a negritude brasileira / Pra mãe terra embarcou”. Outro momento de destaque aparece em “Tambor de jongueiro, fez semba virar samba / Desfila o cortejo, rodopia na ciranda”, trecho em que a melodia encontra um caminho especialmente interessante. O refrão principal teve ótimo rendimento na quadra: “Porto da Pedra é quilombo feiticeiro / Somos Brasingola, flor do velho embondeiro / Preto na pele, na alma e no sangue / Os filhos de Zambi, herdeiros de Zambi”.

Parceria de Cristiano Teles: O quarto samba a se apresentar foi o de Cristiano Teles, Leandro Gaúcho, Paulo Beckham, Rod Torres, Ornellas Jr, Kiko Ribeiro, Duda SG, Richardson Catarino e Matheus Rangel, defendido pelos intérpretes Tem-Tem Jr e Rafael Tinguinha. A obra começa forte nos versos: “Vem de lá / Nossa gente arrancada de seu ventre / Quando o mar abismado / Viu nobreza retornar”. A melodia ganha força a partir de “O tambor me chamou / Eu vou ôô / Sou filho de África / Canta pra saudar”. Mas o trecho que mais mobilizou a quadra foi o refrão do meio: “Ê Luandê, ê Luanda / Bate cabeça pra pisar no meu terreiro / Incendeia, jindungo na veia de punho cerrado / Nas garras do povo que teve seu corpo marcado”. O refrão principal também teve bom desempenho, especialmente na passagem “É a Porto da Pedra quebrando correntes / Liberta do peito uma voz singular”. Com vozes bem ensaiadas e uma torcida participativa, que balançou bandeiras com o símbolo da escola, a parceria fez uma apresentação aguerrida. A torcida, em bom número, contava com balões e bandeiras e cantou o samba a capela antes mesmo da apresentação.

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Parceria de Bira: Quinto e último samba da final, a obra de Bira, Oscar Bessa, Márcio Rangel, Rafael Raçudo, Miguelzinho, Jarrão, Éric Costa, Vinicius Ferreira e Rafael Gigante encerrou as apresentações em grande estilo. O samba foi conduzido por Rodrigo Tinoco, cuja voz potente deu um tom especial à apresentação. A obra se destacou tanto pelo bom encaixe da letra com o enredo quanto por uma melodia inspirada e marcada por diferentes variações. Um dos pontos altos foi o refrão do meio: “Ê, criança que corre as areias da ilha / Mussulo é feito Bahia, e o Rio, espelho de quem vem de lá / Dança de preto, descalço, em Lobito / Crença que eu acredito / Feitiço que abraça o olhar!”. A passagem faz referência a Mussulo e Lobito, localidades que integraram a viagem dos artistas brasileiros por Angola. O refrão principal também teve excelente rendimento: “Meu Porto Kalunga hoje é Porto da Pedra / Forte feito macumba, enverga e não quebra! / O meu povo é liberdade, união de samba e pemba / O tigre é feito no semba”. A torcida, em bom número, contou com balões e um bandeirão da Porto da Pedra.