
Mestre Monarco,
Escrevo esta carta de amor como quem abre as janelas de uma antiga casa da infância e deixa o vento da memória entrar. Um vento manso, que atravessa os quintais onde você cresceu, as calçadas onde o samba era rei, as rodas onde a panela fumegava na mesa e o cavaquinho nunca descansava. É o vento que traz o cheiro da comida simples, da rua molhada, da madrugada que só termina quando o samba decide. Hoje, quero lembrar de você com o respeito que tua história inspira e com o carinho que tua presença sempre despertou.
Você fez poesia ao nos contar as histórias dos teus tempos de menino, coisas belas da vida, tempos que não voltam mais: pegar “laranja no pé” pelos sítios de Nova Iguaçu, soltar pipa nos dias quentes da Baixada; em casa, o compasso matinal incessante do bater das roupas no tanque. Animada pelo som do rádio de pilha, tua mãe ganhava o sustento, enquanto a música encantava a alma daquele menino, que seria mestre e poeta. Foi desse tempo feliz que nasceu o apelido que virou nome, marca, destino. O personagem “Monaco”, um mágico dos gibis da época, que, por brincadeira dos amigos, acabou batizando o artista que o mundo aprenderia a chamar de Monarco.
O tempo correu e te trouxe para o meu lado, no solo sagrado de Oswaldo Cruz. A vida pedia coragem, e você foi à luta. E, quando o trabalho dava trégua, o cabo de vassoura virava um estandarte. Ali, menino-homem, você já dançava com o futuro, ensaiando os passos da tua paixão. Na feira, o teu grito vendendo peixe já trazia a cadência do samba animando a freguesia.
As letras e partituras começaram a brotar da tua alma como flores em um jardim de primavera. Versos puros, cercados pelo voo leve de borboletas coloridas, ganharam vida. Você cantou a ilusão de uma “Vida de Rainha” e chorou a saudade dobrada num “Lenço” esquecido. Mas o destino te reservava a consagração. Quando dedilhou o teu amado cavaquinho – extensão do teu corpo, cúmplice de tantas madrugadas – e soltou os versos de “Coração em Desalinho”, o mundo se rendeu. A dor virou hino. O amor virou eternidade.
Mestre, tua estrela brilhava em todos os cantos. Minha ala de compositores te recebeu de braços abertos. Você caminhava pela quadra como quem caminha pela própria casa. E era mesmo. A Portela era sua sala, sua varanda, seu quintal, seu templo. E nós, seus filhos de samba, aprendemos a te ouvir como quem escuta um conselho que salva. É assim que você chega até nós: no sopro manso da lembrança, no passo tranquilo de quem sempre soube o próprio caminho, na elegância de linho, terno alinhado, pisante branco e chapéu panamá. Você não precisava anunciar que era mestre. Era um farol sereno que iluminava sem ofuscar. A Velha Guarda te abraçou como guardião – e ali você ensinou que tradição é raiz. Hoje, devolvo esse ensinamento com ternura e fervor, inspirada nas flores que recebi da tua história.
Sua luz também iluminou outros terreiros: vestiu o manto do “Boi Vermelho” e se sagrou campeão de samba-enredo na Unidos de Padre Miguel. No Jacarezinho, te coroaram “Coringa”, porque você era isso: versátil, genial, imprevisível como a própria poesia.
Mas teu coração, Mestre, batia forte pelas coisas simples e bonitas da vida. Batia pelo pavilhão do teu América Futebol Clube, o eterno “sangue” que você defendia com paixão. Batia na esperança bem-humorada de fazer uma “fezinha” na loteria, sonhando com a sorte que a vida já tinha te dado em forma de dom. E, acima de tudo, batia de amor por Olinda – o amor da tua vida, a companheira eterna, com quem você celebrou o sagrado matrimônio dentro da minha quadra, sob a bênção do meu chão azul e branco. E sua fé sempre foi teu norte. Quantas vezes teus pés caminharam em direção à Igreja de Santo Antônio, no subúrbio, buscando a luz que guiava teus passos elegantes e teu terno impecável? E é essa mesma religiosidade que hoje nos une no mistério mais profundo da nossa existência.
Como bem dizia um dos meus fundadores, “a Portela nasceu da graça do Espírito Santo”. Essa essência divina e portelense se manifesta agora em sua plenitude. Convocamos nesse momento o Divino Espírito Santo e os padroeiros Nossa Senhora da Conceição e São Sebastião! Que toda a religiosidade e a ancestralidade portelense se unam em uma só prece, um só clamor, para erguer na Sapucaí um magnífico monumento. Um monumento de som, cor e poesia para eternizar você que foi, é, e sempre será um dos meus maiores baluartes.
Monarco, seus versos repousam nas flores do meu jardim. São aquarelas que o tempo pintou com cuidado. São estradas de vida que levam sempre ao mesmo destino: o manto azul e branco. Sua paixão tingiu-se dessas cores – e tingiu a minha história junto. Hoje, sua voz ecoa entre as estrelas. Mas não se engane, Mestre: ela continua aqui, firme, viva, necessária. Vibra no couro do surdo, no repique que chama, no cavaco que responde, no coro que agradece. Mora no coração de cada portelense que aprendeu a me amar através de você.
E é por isso que escrevo esta carta, com toda a força da minha águia altaneira, para te dizer que você é o meu enredo. Vou transformar tua vida em canto, tua memória em poesia, tua dignidade em desfile. Em 2027, vou te levar pela Avenida como você sempre me levou pela vida. Abrirei as asas para te acolher. Vestirei o manto azul e branco em tua homenagem. Cantarei teus versos, tua serenidade, tua elegância, tua raiz, tua história. Mostrarei ao mundo que vivo em cada passo seu.
E, quando a águia surgir no alto, iluminada, altaneira, majestosa, ela não estará apenas abrindo o desfile. Ela te levará pela Avenida, Mestre. Como sempre fez. Como sempre fará. Enquanto o rio correr em nossas veias e a procissão do samba abençoar a festa do divino Carnaval.
Agora é a alegria de te abraçar mais uma vez. O Mestre Monarco de todos os tempos. Saudades. No livro da minha história, há conquistas a valer – e tantas foram escritas no teu caminhar. Se eu for falar de ti, hoje não vou terminar.
Obrigada, Monarco. Com amor, respeito e eterna gratidão, Tua Portela.
Autores da Sinopse: Simone Martins, Isabel Azevedo e Paulo Barros.
Enredo: Paulo Barros.








