Por Eduardo Frois e fotos de Fábio Martins

Era pouco mais de meia noite de segunda-feira quando a agremiação da Vila Madalena adentrou a passarela do samba para iniciar sua apresentação. Quarta a desfilar no Grupo de Acesso do carnaval paulistano, a Pérola Negra contou a história das quebradeiras de côco babaçu. Destaque para o potente canto da escola e para a bateria Swing da Madá. Porem, problemas de evolução comprometeram o desfile. Com o título do enredo “Pérola – No encanto dos balaios das quebradeiras”, a escola fechou sua passagem pela avenida aos 56 minutos.

Comissão de Frente

A fantasia da comissão de frente veio representando “As guardiãs da natureza e os conflitos da vida”. Havia um tripé com três coqueiros de babaçu. O segmento inicial da escola foi subdividido em dois grupos distintos, mas que se encontravam em determinada parte da dança. Oito dos integrantes estavam vestidos de folhagem, dois deles com roupa vermelha, dois de amarelo, dois de verde e os outros dois de azul.

Enquanto isso, o outro grupo era composto por três mulheres representando as ganhadeiras do côco, três homens vestidos de labaredas da floresta e mais uma figura feminina. Coreografados por Alê Batista, os componentes desse segundo grupo travavam uma espécie de disputa. Num primeiro momento, os rapazes das labaredas enfrentavam as ganhadeiras, fazendo gestos corporais as ameaçando. Depois, na parte final da coreografia, as ganhadeiras surgem empoderadas para desafiar as chamas que ameaçam a biodiversidade da floresta.

Mestre-Sala e Porta-Bandeira

O primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira, Kadu e Camila, desfilou com uma fantasia nas cores da Pérola Negra simbolizando a ancestralidade dos povos que sobrevivem do côco babaçu. Kadu veio com o rosto pintado, vestindo uma roupa vermelha e dourada, com diversas penas rubras. Enquanto Camila utilizou uma requintada indumentária repleta de penas azul turquesa, com o corpo da saia em dourado.

A coreografia executada pelo casal da Pérola foi feita com sucesso ao longo da passarela. Apesar do tripé da comissão de frente “os esconder” por alguns instantes, os dois realizaram corretamente os balizamentos do quesito para apresentar o pavilhão da escola. Nos dois primeiros módulos de jurados foi observado certa desaceleração no bailado de ambos, talvez por conta dos problemas de evolução no início do desfile.

Enredo

O enredo entitulado “Pérola – No encanto dos balaios das quebradeiras”, assinado por André Marins, se propôs a carnavalizar a história das mulheres encarregadas de manter viva a tradição da colheita do fruto de palmeira, que é abundante na região nordestina. A passagem da escola foi iniciado com uma grande floresta de babaçueiros, onde as ganhadeiras simularam a catação do côco babaçu.

Ao longo do desfile, a Pérola Negra explorou a cultura maranhense e o artesanato desenvolvido com as diferentes partes do côco. No último setor da vermelho e azul da Vila Madalena, o enredo se propõe a falar sobre o futuro das quebradeiras, passando pela Lei do Babaçu Livre e finalizando com uma alegoria carregada de referências tecnológicas. Lei essa que foi sancionada para as quebradeiras poderem usufruir do côco e entrarem dentro das fazendas para fazerem a colheita do babaçu.

Alegorias

O carro abre-alas da escola da Vila Madalena trazia em sua base frontal um grande letreiro escrito “Pérola” em azul. Mais acima, um rosto africano com ornamentação dourada e o brasão da entidade. Nas laterais, haviam esculturas de mulheres negras com o corpo pintado e diversos chifres de marfim. No alto da alegoria, atrás do destaque central, uma enorme escultura articulada representava o encanto das florestas.

O segundo carro da Pérola Negra trazia um belo casarão maranhense, repleto de azulejos português. A escola faz uma brincadeira relembrando o rei Sebastião, em uma espécie de analogia com o enredo, em que o babaçu se torna o grande Rei dessa cultura maranhense. Diversas esculturas de bois que se movimentavam estavam presentes nas laterais do carro, que ainda trazia um grande boi no centro. O quadripé “As quebradeiras” passou com sua iluminação apagada.

A terceira e última alegoria da Pérola retratou as possibilidades tecnológicas a partir do trabalho das ganhadeiras. O carro era todo em tons de azul e prata, repleto de engrenagens distribuídas pelas laterais. Pequenas esculturas de rostos prateados fizeram parte da lateral do carro, porém alguns espelhinhos que faziam o acabamento dessas esculturas estavam descolando.

Fantasias

A Pérola Negra percorreu o sambódromo do Anhembi com suas 15 alas devidamente bem fantasiadas. Destaque para a bela roupa das alas 06 – A Preservação, em rosa e verde, e 07 – A coroação do Rei Babaçu, em amarelo e dourado. O segundo casal de mestre-sala e porta-bandeira, que veio entre as duas alas representando “A riqueza da terra” também vestia uma belíssima indumentária. Porém, a ala 08 – A culinária veio com um integrante sem algumas das penas do costeiro da fantasia.

Harmonia

A escola da Vila Madalena apresentou uma harmonia coesa e constante em relação ao canto. Os componentes da Pérola Negra entoaram o samba-enredo de forma empolgante, contagiando todos os setores da agremiação. Do começo ao fim do desfile pode-se observar todas as alas da escola cantando (exceto a comissão de frente, que não é obrigada a cantar o samba) sem deixar abaixar o nível. Mérito também do carro de som e da bateria.

Samba-enredo

O belo samba-enredo da Pérola Negra foi um dos pontos altos do desfile sobre as ganhadeiras do côco babaçu. A obra que foi composta por Liso, Rogerinho Tavares, André Ricardo, Professor Ph, Professor Oderlan, Myngal e Chacal do Sax rendeu bastante na voz do intérprete Bruno Ribas e seu time de canto. O trecho do segundo refrão, que se inicia com “quebra côco, quebradeira” era a parte mais cantada pelos componentes.

Evolução

A evolução foi o quesito mais problemático deste desfile da Pérola Negra, especialmente na montagem da escola na concentração. No primeiro setor do sambódromo abriu um buraco entre as alas 02 “A riqueza que a terra dá – A colheita” e 03 “Sangue do óleo”, que só foi corrigido um pouco mais a frente. Outro buraco no setor inicial pode ser observado entre a ala 09 “O artesanato” e o quadripé “As quebradeiras”, também corrigido já durante a avenida. Por conta desses buracos a escola começou sua evolução de forma mais lenta do que terminou seu desfile.

Outros Destaques

Vale destacar a excelente apresentação da bateria Swing da Madá, de mestre Fernando Neninho, que veio homenageando seu pai, mestre Neno, nas peles dos instrumentos. As bossas executadas ajudaram a impulsionar o samba-enredo e o canto da escola. A Pérola trouxe ainda, a frente da batucada, uma ala de tam-tam, instrumento que também já foi muito utilizado por mestre Neno. A frente da bateria, vieram: a rainha Ana Itikawa e a madrinha Joyce Rocha, sambando ao som da bateria.