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Estrela do Terceiro Milênio empolga em diversos momentos e quesitos em desfile no Grupo de Acesso I

Fazendo a criação do mundo na visão de Vovó Cici, histórica contadora de histórias soteropolitana, escola do Grajaú faz desfile bastante competente no domingo no Anhembi

Por Will Ferreira e fotos de Fábio Martins

Desde a revelação do enredo para a comunidade do samba paulistana e para os torcedores, muito se esperava da Estrela do Terceiro Milênio para 2024. Sétima (e penúltima) escola a desfilar no Grupo de Acesso I, no domingo de carnaval, a agremiação do Extremo Sul de São Paulo cumpriu com tudo o que prometeu – e que também incluiu a escolha de um samba-enredo bastante bem quisto pelo universo carnavalesco da cidade e ensaios técnicos extremamente bem feitos. Defendendo “Vovó Cici conta e o Grajaú canta: O Mito da Criação”, temática desenvolvida pelo carnavalesco Murilo Lobo, a escola teve ótimo rendimento do samba-enredo, da comissão de frente e do estreante casal de mestre-sala e porta-bandeira.

Comissão de Frente

Vencedora do Estrela do Carnaval do Grupo Especial de 2023, o segmento, mais uma vez coreografado por Régis Santos, teve nome “A missão de Vovó” nesta temporada. Para marcar o único segmento que trata da Vovó Cici enquanto pessoa, e não sobre a Criação do Mundo narrada por ela, a agremiação, antes de mais nada, trouxe a própria homenageada no alto de um baobá. Em um ato, sempre marcando o samba, é narrada a história da jovem soteropolitana Cici, que renegava a própria religião e vai se encontrar com sua espiritualidade apenas ao sofrer um atropelamento no Rio de Janeiro. Ao passar a fazer parte do candomblé, ela se ilumina e é abraçada por crianças e criaturas especiais.

Mestre-Sala e Porta-Bandeira 

Estreando como o primeiro casal da agremiação, Arthur Santos e Waleska Gomes, com a fantasia “Mitologia Ancestral”, tiveram ótima atuação. Nos quatro módulos, foram observados giros potentes, muita sincronia, expressividade e balizamentos obrigatórios cumpridos. Nos dois últimos módulos, é bem verdade, Arthur teve discretíssima hesitação em desfraldar o pavilhão da escola do Grajaú, mas nada capaz de despontuar a dupla. Vale destacar também um fato externo ao casal que mostra que, além da técnica refinada de ambos, os dois também são guerreiros. O abre-alas, que vinha logo atrás de Arthur e Waleska, emitia uma luz piscante bastante forte, que incomodava quem estava a metros de distância – imagina, então, quem estava religiosamente na frente de tal iluminação. Nada, porém, que pudesse atrapalhá-los.

Enredo

Embora o título do enredo enfoque o Mito da Criação na visão de religiões de matriz africana, em alguns momentos, a própria história de Vovó Cici é contada. A comissão de frente, por exemplo, traz uma jovem Cici que renegava a própria ancestralidade e sofria, encontrando paz de espírito apenas ao se aproximar do candomblé. Interessada em contar a visão de mundo dos afrodescendentes para pessoas cada vez mais próximas de uma única cultura dominante, completamente caucasiana, ela passou a trabalhar na Fundação Pierre Verger, em Salvador, onde pesquisa e compartilha conhecimento sobre entidades africanas. A partir da primeira ala, se inicia a história do Mito da Criação propriamente dito contada por Vovó Cici – destrinchado aqui. No final, uma mensagem de amor e tolerância encerra toda a história pedindo respeito e apreço pelo próximo – independentemente de religiões, cores, credos ou opções.

Alegorias

O abre-alas, com dois chassis acoplados (o primeiro deles seguia a estética do pede-passagem, que vinha antes do casal de mestre-sala e porta-bandeira), mesclava muito bem tons de tourado no início (intitulado “Olodumare no orun entrega o saco da criação”) e bastante escuros no final (com o nome de “Obatalá no nada adormece à sombra da palmeira”). Já o segundo, “O Ayê (planeta) criado e o triste despertar de Obatalá”, mais claro, ilustra o momento no qual a divindade africana percebe que errou com Olodumare. Por fim, com uma mensagem positiva para o futuro, a terceira alegoria, “As 3 raças, as bênçãos e os griôs (do axé e do samba), mesclava esculturas joviais com pessoas claramente de mais idade – indicando o respeito que cada uma delas merecia. Também havia o quadripé “A árvore ancestral e o chorar feito menino”, que não tinha papel colante inteiramente liso na totalidade do espaço, criando um efeito diferente do encontrado na imensa maioria do mesmo. O tripe também possuía rodinhas aparentes.

Fantasias

Para quem prestou atenção no samba-enredo, bastava ter uma linha cronológica mental bastante simples para identificar o que era cada fantasia. Vale pontuar que, após o segundo carro, “O Ayê (planeta) criado e o triste despertar de Obatalá”, as alas de 06 a 10 (respectivamente: “O ser de nuvem”, “O ser de areia”, “O ser de fogo”, “O ser de ferro” e “O ser de pedra”), como os próprios nomes deixam claro, tinham assimilação praticamente instantânea. Vale destacar, também, o quanto, no geral, cada fardamento tinha costeiros com envergaduras largas, demonstrando opulência. O bom gosto na escolha de cores e materiais também ficou bastante evidente ao longo de toda a exibição. Como ponto de observação, o destaque da segunda alegoria teve a fantasia quebrada na frente do primeiro módulo de julgamento – o que pode acarretar em perda de pontuação no dia da apuração.

Harmonia

Desde quando começou a aparecer nos grupos da Liga-SP, a Estrela do Terceiro Milênio sempre chamou atenção, entre outros motivos, pela força da comunidade. Além de sempre levar ótimo contingente em cada evento, absolutamente nada abala o canto dos componentes. Em 2024, mais uma vez, a sina se repetiu. Sem oscilação, não houve percalços – e o volume emitido pelos desfilantes foi sempre algo próximo de um grito a cada verso. Em alguns momentos, era possível ouvir com mais clareza o som que vinha da passarela, não o que saía das caixas de som – algo raríssimo no Anhembi em 2024.

Samba-enredo

Muito elogiado pela comunidade do samba paulistana desde quando foi revelado aos torcedores e ao público e composto por Rodrigo Schumacker, Thiago Meiners, Darlan Alves, Pitty de Menezes e Claudio Mattos, a canção defendida pela Estrela do Terceiro Milênio destrincha de maneira bastante poética o enredo – sendo, inclusive, muitas vezes utilizado pelo carnavalesco para explicar a própria temática da agremiação do Grajaú. Se o refrão principal busca apresentar Vovó Cici como pessoa e contadora de histórias (fazendo um paralelo com a própria escola, como é de praxe), boa parte do restante da obra foca na história contada pela griô, com expressões e entidade citadas por ela própria de maneira nominal. No final da obra, ainda há espaço para um pedido por mais respeito e tolerância para com o próximo – algo que também está incluso no enredo.

Evolução

Empoderada e ciente da própria força, a agremiação, desde o primeiro instante, fez questão de ter andamento mais célere que a maioria das outras escolas da noite. A preocupação com o quesito parecia ser tão grande que, enquanto o primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira se apresentava em cada módulo, os setores que vinham à frente (comissão de frente, uma ala e um pede-passagem) não paravam de avançar. Se seria necessário ou não ter tal atuação, jamais conseguiremos saber. O fato é que, no cronômetro, o Grajaú não teve problema algum em tal aspecto.

Outros Destaques

Na corte da bateria, estavam a musa Mirela Birnfeld Leite, Giovana Pyetra e Marcela Caval – as duas últimas oriundas do projeto Estrelas do Amanhã, tocados pela escola. Por falar na Pegada da Coruja, comandada por Mestre Vitor Velloso, é importante mencionar que, em diversos momentos, ele realizava duas convenções distintas: a primeira delas era apenas nos instrumentos de marcação, enquanto outro continha atabaques.

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