Início Site Página 983

Série Barracões: Mocidade aposta em brasilidade ao falar da obra dos discípulos de Mestre Vitalino

0

Nos últimos dois anos a Mocidade apostou em enredos que tinham uma ligação maior com sua própria história, o desfile da Elza também apresentava a relação que a cantora tinha com o samba e especialmente com a escola. Já em 2022, sobre Oxóssi, o padroeiro da escola independente, trazia muito da relação do toque da “Não Existe Mais Quente” com a religião, homenageando grandes mestres que passaram pela agremiação, entre eles o grande mestre André. Agora a agremiação vai ter a estreia de Marcus Ferreira a frente da produção criativa do desfile da Verde e Branca. Campeão do Grupo Especial de 2020, desta vez em trabalho solo no Grupo Especial, o carnavalesco quer no desfile de 2023 retomar a relação que a Mocidade já teve em diversos carnavais com temas de brasilidade e regionalidade. “Terra de meu Céu,Estrelas de meu Chão” pretende contar a história e valorizar o legado da obra daqueles considerados por Marcus Ferreira como primeiros discípulos de mestre Vitalino, que começaram a colocar a arte figurativa como grande expoente das artes plásticas brasileiras pelo mundo afora.

mocidade barracao23 1
Fotos: Lucas Santos/Site CARNAVALESCO

Seis vezes campeã do carnaval carioca, o último em 2017, a Mocidade pretende, com este desfile, esquecer os erros cometidos no carnaval passado que tiraram a escola das campeãs. Principal contratação para 2023, o carnavalesco Marcus Ferreira foi parte fundamental na escolha e desenvolvimento do enredo. O artista conta como se deu o entendimento entre o profissional e a diretoria da Verde e Branca no processo de escolha do tema.

“Eu gosto desses temas regionais, de brasilidade, que a gente redescobre um pouco da história do nosso povo, de maneira muito inédita. Acho que o carnaval tem que ter esse dom de revelar novos personagens e novas histórias para o grande público. Eu indo para a Mocidade, a gente tinha algumas ideias, a escola tinha ideias, e a gente foi costurando qual seria esse novo momento com a minha chegada, entendendo um pouco de ambas as partes, aquilo que poderia envolver o conceito que marca a identidade da escola, uma das mais fortes do carnaval, e um pouco do que eu apresentei nos meus trabalhos. A gente chegou em um consenso que esse ano a Mocidade gostaria de dar um respiro nessa fato de falar de si, já que a escola veio de dois anos que fez Elza e Oxóssi, dois grandes enredos que tinham um pouco de identidade da escola. Eu sempre enxerguei a Mocidade como uma das escolas que gosta desses temas que envolvem muito a brasilidade. Grandes artistas que passaram por aqui exploraram essa temática, o Arlindo, Fernando Pinto, Renato Lage, como é algo que eu já gostava e me deu um título na minha estreia no Especial na Viradouro em 2020, com ‘as ganhadeiras’, eu sempre tenho temas que eu guardo, quando eu descubro e eu tive o prazer de estar duas vezes no Alto do Moura, antes de vir a Mocidade, por ser fã mesmo do panteão destes mestres que fazem o legado deixado por Vitalino”, revela o carnavalesco.

mocidade barracao23 2

O contato com o Alto do Moura e com o legado do mestre Vitalino e seus discípulos por Marcus é anterior à sua chegada à Mocidade. O profissional revela que teve o prazer de conhecer e se impressionar com a obra e com a relação do povo daquela região com as artes plásticas.

“É um vilarejo tão pequeno que expõe de maneira tão linda e potente as artes plásticas da cultura popular brasileira. Na primeira vez que eu estive lá eu conheci o filho de mestre Vitalino. Era ele quem cuidava da Casa Museu, a última casa que Vitalino residiu no Alto do Moura, e ali é o ponto de cume do vilarejo, tem um pouco do acervo deixado por Vitalino, as ferramentas dele. Quando eu cheguei lá, o filho dele estava sentado em um canto, no chão, e ele me deu uma aula do que é arte figurativa. Eu passei a entender que esses artistas têm diferentes personalidades. A ideia inicial que a gente tem é a de Mestre Vitalino, que são aqueles bonequinhos de barro com aqueles olhinhos imitando óculos, mas eu me encantei pela valorização que esses artistas têm pelo chão.Todos ganharam a vida, seu sustento através das suas obras, daquilo tudo que passaram a criar a partir desse legado deixado pelo mestre. Por aí eu pude entender um pouco do que é a arte figurativa e depois passei por alguns ateliês, entendendo essa rede de discípulos que Vitalino deixou, e que hoje são a terceira geração, os filhos da primeira geração dos mestres que conviveram com Vitalino”, esclarece Marcus Ferreira.

mocidade barracao23 8

Após a definição do enredo entre carnavalesco e diretoria da agremiação, Marcus e uma comitiva de profissionais da Mocidade voltaram ao Alto do Moura para conhecer um pouco mais do trabalho e desenvolver melhor o enfoque que seria dado no desfile.

“Eu entendi que deveria revelar essa história, revelar o legado deixado por esses discípulos de maneira tão diferente, tão múltipla, trouxe à Mocidade, eles toparam, acharam que tinha um pouco do viés de brasilidade que a Mocidade já mostrou em alguns carnavais. Fomos para o Alto do Moura com a Mocidade e fomos conhecer. Eu passei a conhecer mais artistas, mais desses discípulos que são reconhecidos agora mundialmente, nacionalmente, para quem conhece de artes. A cada visita que a gente teve, foi uma emoção diferente”.

Com temática relacionada às artes visuais, enredo promete render belas imagens 

Após ida ao Alto do Moura, a escola divulgou o enredo no final de julho e definiu a linha que iria seguir para contar essa importante história. Marcus pesquisou mais a fundo a vida daqueles que considera como discípulos do mestre Vitalino, apostando, então, em contar mais da obra e do legado que esses artistas deixaram. O carnavalesco pretende dar ênfase também nesta conexão entre as artes plásticas e a temática do regionalismo cultural e as atividades cotidianas, do homem do campo, do trabalho, da seca, além das relações familiares.

mocidade barracao23 3

“Acho que em termos de conceito é um enredo que permite a criatividade. A gente não passa pela obra do Vitalino. A gente começa com o que eu encaro como se fosse os seus primeiros discípulos, que são os filhos. Eu tenho um livro que tem fotos dos filhos aprendendo o ofício, de como preparar o massapê, que é o barro que eles utilizam, das ferramentas mais simples, até esse momento de criação mesmo. E aí é um legado que foi deixado para outros grandes mestres, Manuel Eudócio, Manoel Galdino, Zé, Caboclo, e o único vivo até hoje que é o Luíz Antônio. Esses são os primeiros discípulos que eu encaro. A gente inicia o desfile com esse mundo criado por Vitalino e deixado pela família, a principal obra que é a ‘Rota da Roça’, que é a obra dos trabalhadores, uma referência imediata a essa questão dos retirantes do Nordeste e que é muito veiculado ao meio natural, a seca, da vegetação que resiste, da falta de água, do ambiente do Nordeste. Primeiramente foi o que Vitalino deixou para seus filhos e que hoje os netos já reproduzem essa obra. Neste momento, a gente encontrou com os netos de Vitalino que cuidam da Casa Museu. E eles disseram que a ‘Rota da Roça’ era esse expoente deixado para a família. A gente não conta a história de Vitalino, é o legado desses discípulos que são o desfile da Mocidade”, esclarece Marcus.

mocidade barracao23 6

Falar de artes plásticas é falar de imagem. E mais ainda falando sobre a arte figurativa. O carnaval além da linguagem do samba, tem a linguagem desenvolvida pelos carnavalescos que é justamente a linguagem visual. Então, é de se esperar um enredo que traga um grande desenvolvimento ilustrativo.

“É um enredo imagético, o samba da Mocidade é uma obra de imagem. Essas imagens permeiam o pensamento de quem conhece o Alto do Moura, desde o preparativo para fazer as peças de cada artista. A gente foi no São João, ali tem um aura criativa que permeia hoje 700 famílias. Essas imagens são um facilitador para a plástica da escola. É um enredo que trata de coisas muito simples. O chão é algo que está no quintal dessas pessoas. Do chão eles fazem as coisas mais lindas que são expostas no mundo. Por isso, a criatividade vai estar bem aflorada no desfile. Pelo uso de materiais, pelo uso de texturas diferentes. É um enredo que me permite isso”, entende o carnavalesco.

mocidade barracao23 5

Artista buscou a utilização e valorização de novos materiais 

A relação do homem com as coisas regionais, com a simplicidade do cotidiano, de falar sobre coisas palpáveis às pessoas comuns estará aflorada no desfile, o que não vai mascarar a complexidade com que a Mocidade pretende desenvolver na produção do desfile. O carnavalesco Marcus Ferreira percebe que a criatividade será, inclusive, um dos pontos altos deste desfile, além da procura por trazer novos tipos de elementos que não tem despertado tanta atenção dos artistas do universo da folia.

“Acho que a criatividade é um grande trunfo. Optei pela criatividade para poder fazer um carnaval grandioso. Acho que às vezes a gente fica muito preso a utilizar materiais que já existem no mercado, ou que já estão impregnados no dia a dia de todas as escolas. Fica bonito, claro. Mas acho que essa questão da criatividade, da utilização de alguns materiais diferentes, de repensar como propor um estética grandiosa, bonita esteticamente, mas diferente. Eu sou fã do artista plástico Vik Muniz, acompanho ele nas redes sociais, tenho fotos de tudo que ele já fez. É um cara que faz coisas maravilhosas com materiais que o ser humano descarta. Eu já fiz algumas coisas no Acesso, com um pouco mais de criatividade e que deram certo. Acho que o ponto alto do meu trabalho é esse”, define Marcus.

mocidade barracao23 7

Mas o carnavalesco também entende que a Mocidade terá outros grandes trunfos alheios a plástica e estética da agremiação, como a força da comunidade e o trabalho desenvolvido no samba-enredo.

“Falando da Mocidade como um todo, acho que a emoção será um grande trunfo. É um enredo e um samba que as pessoas passaram a achar tão bonito, tão latente, tocante, e isso você vai aprendendo ouvindo. Acho que os ensaios na Rua Guilherme da Silveira tem provado isso. É uma escola de uma torcida quente que faz de tudo para contribuir com a escola, a gente tem hoje um outro conceito de Mocidade para este carnaval”.

Símbolo maior da Mocidade, a estrela, tem grande função dentro do desfile

O próprio título do enredo traz o símbolo maior da Mocidade,”Terra de meu Céu,Estrelas de meu Chão”. “Estrelas” que podem sugerir ser os próprios profissionais que representam o legado de mestre Vitalino daquela região que são hoje aclamados por críticos de arte do mundo todo. Ou até mesmo aqueles que estão sendo retratados dentro da arte figurativa, gente simples, gente que mora naquela localidade, que são os protagonistas dentro da ótica de observação dos artistas do Alto do Moura. Marcus Ferreira revela mais sobre o que pretende ao retratar o ícone da Mocidade no desfile.

mocidade barracao23 4

“A estrela vem dentro do enredo esse ano. Ela vem no abre-alas, vem pontuando alguns setores do desfile também, setores da religiosidade, até pelo título ‘estrelas de meu chão’, que é um título que surgiu na fala de uma das mestras, de uma das expoentes que é a Terezinha Gonzaga, que me deu essa frase, mostrando o quanto o solo dessa terra é tão sagrada para eles. Eles que viraram as estrelas desse universo fantástico das artes brasileiras. As estrelas estão em todos os momentos”, finaliza o carnavalesco.

Conheça o desfile da Mocidade 2023

A Mocidade Independente de Padre Miguel vai levar para a Sapucaí no próximo carnaval 5 alegorias divididas em 7 chassis, 3 tripés, com 2700 componentes e 25 alas . O carnavalesco Marcus Ferreira contou mais sobre como está dividido o carnaval da Verde e Branca da Zona Oeste em 2023.

mocidade barracao23 9

“Os setores são pontuados pelos grandes mestres, naqueles que acho que são os mais próximos desse legado deixado por Vitalino”.

Primeiro Setor
“O início é a família , o ciclo da vida que é inspirado na ‘Rota da Roça'”.

Segundo Setor
“É inspirado nas temáticas de trabalhos rurais, o agreste pernambucano, aquilo que todos os habitantes do vilarejo enxergavam do Alto do Moura, os trabalhos manuais nos engenhos e nas fazendas que circundam o Alto do Moura, que é inspirado na obra de Zé Caboclo que é um dos primeiros discípulos de Vitalino”.

Terceiro Setor
“É inspirado em Manoel Galdino, que é um surrealista da obra das artes figurativas. Ele tem essa questão de retratar no barro as coisas mais imaginárias do Alto do Moura, as lendas locais, os personagens andarilhos do vilarejo. A obra dele é muito peculiar”.

Quarto Setor
“É a fé, a religiosidade, inspirado em Terezinha Gonzaga, é uma mestra que faz coisas divinas que envolvem santidade, anjinhos, expressões divinas, incensários, ela retrata a arte figurativa, digamos assim, de forma barroca. Vamos dizer que ela seja a barroca das artes figurativas”.

Quinto Setor
“No final trazemos as festividades que cercam a obra de Manuel Eudócio, que eu sou muito fã, já era, é o artista do colorido, das festividades, dos folguedos populares que fazem a alegria durante o ano nesse vilarejo. A gente termina o carnaval com festividade, com a alegria de Manuel Eudócio que conviveu diretamente com mestre Vitalino”.

Reforma no barracão do Salgueiro pretende melhora na logística e mira em um carnaval mais sustentável

0

O Salgueiro concluiu antes de iniciar o desenvolvimento propriamente dita do Carnaval 2023 uma ampla reforma no quarto andar do barracão localizado na Cidade do Samba, onde fica a produção de fantasias e adereços. A ideia principal foi concentrar este trabalho na área destinada à escola na Cidade do Samba e evitar que alguns elementos tivessem que ser feitos em ateliês externos. O carnavalesco Edson Pereira conta que a medida foi planejada para a construção de um carnaval mais sustentável, evitando o desperdício e tornando o trabalho mais homogêneo.

mudanca salgueiro1
Fotos: Lucas Santos/Site CARNAVALESCO

“Na verdade, da até mais trabalho porque você concentra tudo em um lugar só. Porém te da mais conforto de pensar, de reutilizar. Se a gente está falando de um carnaval de sustentabilidade, concentrar tudo ali dá um aproveitamento melhor dos recursos. É reestruturar o barracão do Salgueiro. Quando eu cheguei aqui, a gente veio com a proposta de realocar tudo e criar um novo pensamento não só para o salgueirense, mas para o carnaval. A gente criou baias, nessas baias são construídas todas as fantasias, cada setorização está em um lugar e a gente batizou estas baias com pessoas que foram muito importantes para o Salgueiro”, explicou Edson.

A divisão em baias seguiu uma setorização e deu aos profissionais do ateliê um entendimento maior daquilo que estavam produzindo. Além da homenagem aos carnavalescos que passaram pela agremiação, na porta de cada espaço tem a identificação de cada fantasia que está sendo produzida ali e o setor que ela faz parte. Novidade na escola para o Ccarnaval 2023, o diretor Julinho Fonseca explica que as medidas geraram economia e ajudaram no controle de estoque, entre outras possibilidades.

mudanca salgueiro2

“Em todas as baias dá para ver o que está acontecendo, às vezes está precisando de um material do lado, pega do outro, as costureiras estão de comum acordo com todos os ateliês, ou seja, o empreiteiro não precisa pegar a fantasia aqui para levar para fazer, costurar, é tudo dentro do barracão do Salgueiro. E para a gente, em nível de logística, é muito bom, já fica pronto para entrega, já estou ensacando minhas fantasias. A economia é absurda. Só depois do carnaval que a gente vai fazer um levantamento para saber de verdade o que foi gasto. Mas com essa arrumação do carnaval, a gente controla melhor. Por exemplo, chega um rolo de tecido de 100 metros, você manda para um ateliê fora, não que você não vá confiar, mas como que controla isso? Aqui não tem desperdício. Foi um investimento que o Salgueiro fez para a vida. Vai passar o André, vai passar eu, vai passar o Edson e o quarto andar vai continuar. E queremos mudar a logística do primeiro andar também neste sentido para a questão de estoque dos carros e menos desperdício”, esclarece o diretor de carnaval da Vermelha e Branca.

Julinho também esclareceu que hoje praticamente todas as fantasias estão sendo produzidas no barracão e elogiou a interação entre a equipe que chegou para este carnaval, como o próprio diretor de carnaval e o carnavalesco Edson Pereira, com os integrantes antigos da parte de produção da agremiação.

“O Salgueiro tem de 95 a 98 por cento de suas alas sendo confeccionadas no Barracão. Edson tem um grupo muito bom, tudo no barracão vem sendo comandado pela Alessandra, que tem um timaço de reprodução de fantasia que uniu os que vieram de fora com os que são da casa, que fazem Salgueiro há anos. Hoje a gente tem a tia Arlete que tem 50 anos de Salgueiro, fazendo a ala de compositores, tem o tio Fernando que tem mais de 40 de Salgueiro. Pra gente unir essa rapaziada jovem com o pessoal antigo da escola, foi muito bom. É um ajudando o outro”, revela Julinho Fonseca.

A equipe do CARNAVALESCO ao visitar o quarto andar teve o prazer de conversar com Tia Arlete, citada por Julinho na entrevista. Só produzindo fantasias para a Academia do Samba, a costureira tem 27 anos. Como integrante do Salgueiro, a baluarte vai fazer 50 anos em 2023. A simpática Tia Arlete, que tem sempre um cafezinho com bolo para oferecer em sua baia, aprovou a reforma realizada pela diretoria.

mudanca salgueiro3

“Eu comecei fazendo a roupa da diretoria, e depois no barracão fazia a roupa do filho do Maninho (ex-presidente), fazia roupa de artistas e alas. Sempre fiz velha guarda, depois de muito tempo eu vim fazer compositores. Esse ano estou só com a velha guarda. Gostei muito da reforma, das homenagens e tudo. No início até estranhei um pouco, porque você está acostumado há 20 anos em uma linha. Mas, o espaço para mim está bom, esse espaço ficou ótimo e até cedi um pedacinho para o meu amigo (risos)”, contou de forma bastante descontraída Tia Arlete.

Após o carnaval, a intenção da diretoria é realizar mais homenagens no quarto andar a artistas do passado da Vermelha e Branca, além de realizar um evento para inaugurar oficialmente o espaço.

Ele é cria! Tinga ressalta força da Vila Isabel: ‘escola canta forte, vibra e evolui bastante’

0

Cria da Vila e um dos grandes nomes dos carnavais do Rio de Janeiro e de São Paulo, o intérprete Tinga, com apoio da comunidade, promete entoar o Evoé na Marquês de Sapucaí e assim entregar um bonito desfile da Vila Isabel. Na série “Entrevistão” do CARNAVALESCO, o cantor falou sobre sua carreira, a importância da Vila Isabel para ele, as referências que possui no mundo do samba, além da expectativa para o carnaval deste ano.

vilaisabel minidesfile23 27
Foto: Nelson Malfacini/site CARNAVALESCO

Após tantas carnavais, qual o balanço que você faz da sua carreira? 

Tinga: “É maravilhoso. Eu sempre procuro fazer o meu melhor. Sempre ajudar a nossa escola e chegar ao nosso objetivo que é sempre ser campeão do carnaval. O meu balanço é esse: sempre dando o meu melhor”.

Qual o seu desfile inesquecível? 

Tinga: “Tenho muitos (risos). Para citar um fica até difícil, mas posso dizer que foi o de 2013, que a Vila Isabel foi campeã do carnaval. Foi um desfile muito lindo, a escola feliz, cantando muito forte e bonito. Graças a Deus, a Vila foi campeã do carnaval – e com um samba maravilhoso. Esse é inesquecível”.

Tem algum desfile que prefere não lembrar muito?

Tinga: “Não. Na verdade, todos os carnavais, para mim, foram muito bonitos e lindos. Até mesmo os que tiveram alguma dificuldade, porque sempre é um aprendizado. É tudo sempre maravilhoso”.

vilaisabel minidesfile23 30

No desfile de 2017, na Tijuca, você foi fundamental para segurar a comunidade no momento do acidente com a alegoria. O que passou na sua cabeça naquele momento?

Tinga: “Foi justamente isso. 2017 foi uma dificuldade muito grande. Eu procurei sempre ajudar a escola e motivar para que ela não desistisse do desfile. Muita gente já estava chorando, andando, e eu pensei: ‘tenho que fazer alguma coisa aqui para poder mudar essa história’. Graças a Deus a gente conseguiu motivar a escola de novo. A escola continuou, terminamos o nosso desfile e a Tijuca continuou no Grupo Especial – essa era a nossa intenção. Foi maravilhoso. Foi um trabalho muito grande feito pelo presidente Fernando Horta, na época, e eu só lembrava dele, por todo esforço para fazer aquele carnaval. Eu tinha quase certeza que se a Tijuca terminasse o desfile, ela seria a campeã daquele ano. Mas é assim, carnaval é desse jeito: na Avenida”.

Qual seu samba preferido da Vila Isabel?

Tinga: “Angola (2012), com certeza. Angola é um samba sensacional e o samba de 2013, maravilhoso também. Angola e o samba de 2013 são dois sambas realmente muito bonitos”.

Quais são suas referências como intérprete?

Tinga: “Minhas referências como intérpretes são os antigos: Nosso querido falecido Dominguinhos do Estácio, o querido Jamelão. Eles são as minhas maiores referências na área”.

Qual o segredo que a Vila Isabel tem em ter formado você e o mestre Macaco Branco, dois pilares da escola?

Tinga: “A gente começou muito cedo no Herdeiros da Vila, nossa escola mirim. Cantei com o Gera, assim como o Macaco Branco tocou com o mestre Mug. A Vila Isabel, a gente costuma dizer que é uma família – todo mundo ali. Eu conheço todos ali – todos os ritmistas, conheço todas as baianas – todos que estão lá a gente conhece, porque estamos ali desde sempre. Todos os garotos que são da bateria eram da minha época também. Somos todos uma família”.

São dez anos sem título da Vila Isabel. O que está faltando?

Tinga: “Só está faltando ganhar (risos). Acho que a Vila faz sempre um carnaval muito bonito e acredito que já mereceu ganhar em algumas vezes, como no ano de 2019, com Petrópolis, em que a Vila fez um carnaval muito bonito. 2022 também. Claro, não tirando o mérito da Grande Rio, que acredito que a Grande Rio é a merecedora desse título, mas a Vila também fez um grande carnaval. É isso: fazer o nosso melhor sempre e esperar o resultado”.

O ‘evoé’ pegou? Qual o segredo para levantar o samba?

Tinga: “O samba é alegre demais. É um samba maravilhoso. Eu costumo dizer que o samba tem que ser feito com o desfile. Não adianta: ‘ah, o samba é bonito’. O samba tem que acontecer para ajudar a escola, e esse samba da Vila ajuda a escola e a comunidade. Ela está feliz com ele e dá para perceber. A escola canta forte, vibra e evolui bastante. Acho que isso é o importante, porque o samba é para aquele momento. Às vezes o samba é muito bonito, mas ele não ‘acontece’ na avenida. Eu tenho certeza que o samba da Vila vai ‘acontecer’ na Avenida, porque é favorável ao enredo e a escola, que está feliz demais com o samba”.

O ‘abraço da comunidade’ foi fundamental para o samba vencer a disputa e ser impulsionado nos ensaios?

Tinga: “A comunidade tem que ser sempre exaltada. Eles que vão para a Avenida, eles que vão cantar e vibrar. É o que acontece quando escolhem um samba que eles gostam. Eles estão cantando o samba que escolheram. Isso é muito importante, porque eles vão chegar na Avenida e darão o resultado. Evoé vamos com tudo!”

Império Serrano cuida da saúde dos componentes para o Carnaval 2023

O Império Serrano, além do encontro das bandeiras, na noite desta terça-feira, uma ação social para seus integrantes e os componentes da Beija-Flor de Nilópolis que estavam presentes neste ensaio. Foi feita a medição de a pressão arterial e glicose, além do aconselhamento para cuidados básicos de saúde. A vice diretora de cultura do Império falou um pouco dessa importância dos cuidados da saúde para com seus componentes.

saude serra1
Fotos: Cristiano Martins/Site CARNAVALESCO

“Estamos fazendo uma ação em prol da saúde dos nossos componentes, onde está sendo verificado a glicose e pressão. Tudo feito gratuitamente. É uma preparação para o carnaval. Parceria do Império Serrano, departamento cultural e o curso Grau”, disse Paula Maria.

A diretora ainda ressaltou a importância desses cuidados e disse que a ação pode acontecer em outros eventos pré-carnaval que acontecem na quadra da agremiação.

saude serra2

“É importantíssimo ainda mais nesse pré-carnaval onde as pessoas costumam ficar nervosas e esse calor excessivo que está fazendo ajuda a previnir algumas situações. É o Império Serrano cuidando do seu componente, para que ele esteja na avenida cantando o samba rumo a vitória”.

Superliga divulga ocupação dos novos espaços na ‘Nova Intendente’

0

Dentre tantas novidades do carnaval da Superliga, na “Nova Intendente”, estão os novos espaços como camarotes, lounges e frisas. Sem perder a essência do carnaval do povo, a entidade divulgou como será a liberação desses espaços na Avenida Ernani Cardoso nos dias dos desfiles do Grupo de Avaliação, Série Bronze e Prata.

Projeto Nova Intendente 3
Fotos: Divulgação

Todas as frisas serão liberadas para o público, que as ocuparão por ordem de chegada no local. Já os lounges serão destinados aos convidados de cada agremiação que desfilarão no dia, cabendo a cada escola o repasse desses convites. Já os camarotes serão ocupados pelos patrocinadores do evento.

Projeto Nova Intendente 4

“Apesar das novidades, manteremos a essência do carnaval do povo. Teremos os espaços para quem gosta de levar sua cadeira de praia, seu cooler, levar as crianças. O carnaval da Intendente sempre foi familiar e isso jamais mudará. Proporcionaremos um grande espetáculo todos os dias. As agremiações estão dando o melhor de si para essa estreia em um novo local”, revelou o presidente Clayton.

Projeto Nova Intendente 1

Além dessas novidades, a Nova Intendente também contará com um novo sistema de som e iluminação, além da pintura da pista. O novo local contará com a capacidade de 5 mil pessoas, número maior que o dobro da antiga estrutura. Também contará com praça de alimentação e segurança.

Projeto Nova Intendente 2

Os desfiles do Grupo de Avaliação acontecerão no dia 19 de fevereiro. As agremiações da Série Bronze entram na Nova Intendente nos dias 20 e 21. Já as 32 escolas da Série Prata entram na passarela nos dias 24 e 25, em busca de três vagas na Série Ouro para o carnaval de 2024, na Marquês de Sapucaí.

Governo do Rio libera patrocínio para escolas de samba por meio da Lei de Incentivo à Cultura

0

O Governo do Estado do Rio de Janeiro concluiu nesta terça-feira (31/01) o processo que viabiliza o patrocínio das 12 escolas de samba do Grupo Especial do Carnaval. O investimento será feito pela Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa do Rio de Janeiro (Sececrj) via Lei Estadual de Incentivo à Cultura e o valor a ser dividido entre as agremiações é de pouco mais de R$ 9 milhões.

castro
Foto: Rogério Santana/Governo do Estado

“O Carnaval é o principal evento do calendário do Rio de Janeiro, quando todo o estado recebe turistas e viajantes de todo o mundo, fomentando mais que a nossa Cultura, mas todo o setor de serviços, garantindo aquecimento da economia. É fundamental a gente olhar para o Carnaval com esses dois conceitos: valorização da identidade cultural e oportunidade de geração de emprego, renda e arrecadação. A festa será linda e todos são bem-vindos”, diz o governador Cláudio Castro.

A verba destinada ao Carnaval é fruto de pedido da Liga Independente das Escolas de Samba (Liesa), que solicitou o apoio, possível a partir da renúncia fiscal com uma Declaração de Patrocínio (DEP). O mecanismo funciona com a concessão de benefício fiscal para empresas contribuintes de Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), garantindo a reversão da renúncia dos valores em investimento a projetos culturais e financiamento da arte fluminense. Assim como no ano passado, a Light cumpriu todos os requisitos e mais uma vez será parceira do Estado no financiamento da festa.

“A busca pela democratização do acesso aos recursos da pasta passa diretamente pelo fortalecimento da Lei Estadual de Incentivo à Cultura. Trabalhamos para fomentar, ajudar a estruturar e para celebrar a cultura fluminense. Não podemos deixar de exaltar nossa identidade”, avalia a secretária de Estado de Cultura e Economia Criativa, Danielle Barros.

Além do valor que será destinado via Lei de Incentivo à Cultura, o governo lançou, em novembro do ano passado, o pacote Folia RJ 2023, com quatro editais, totalizando investimento de cerca de R$ 12 milhões ao Carnaval. Deste valor, R$ 4.3 milhões são destinados exclusivamente às escolas de samba, por meio da chamada ‘Não Deixa o Samba Morrer RJ 2’. Os projetos estão em fase de envio de documentação, com prazo vigente até o dia 9/02, para posterior pagamento.

Lilian Martins, diretora executiva do Camarote do King, diz que espaço cresceu para o Carnaval 2023

0

Os clientes, acostumados a frequentar o Camarote do King durante o carnaval na Marquês de Sapucaí, já podem se preparar para entrar em um camarote completamente diferente das últimas cinco edições. A começar pelo tamanho, o King cresce e passa a ter 2.000 m², uma expansão de 25% quando comparados com o ano anterior. A capacidade aumenta e pode comportar até 2 mil pessoas, mas a organização prevê receber, no máximo, 1.200 pessoas por noite.

lilian king
Lilian Martins é a Diretora Executiva do Camarote do King

O terceiro andar ocupou todo o módulo do setor 8 e agora são 60 metros de frente para a Avenida e um robusto crescimento em espaço interno, que contempla um novo lounge, banheiros, áreas de circulação e uma reformulação da boate. A diretora executiva do Camarote, Lilian Martins, explica que essa preocupação de crescer na área interna se dá por conta da possibilidade de chuva.

“Eu quis aumentar o espaço interno por medo de chuva, pois quando chove as pessoas fogem, então quando tem muita frisa e pouco espaço interno e chove, acaba não comportando. Aí já que aumentamos, também colocamos mais banheiros”, explicou.

O buffet também sofreu mudanças. As ilhas para servir a alimentação aumentaram de tamanho e disposição, visando dar mais agilidade para reposição da comida. O sushi bar também cresceu e foi para a nova parte interna do 3º andar. Nas escadarias, dois antigos parceiros: Café Três Corações (entre 1º e 2º andar) e Sorvetes Kibon, que agora ganha um lounge entre os 2º e 3º andares.

“O camarote é muito reconhecido pela gastronomia e nós quisemos valorizar ainda mais, essa marca que atrai nossos clientes”, contou Lilian.

Outra mudança estrutural bastante significativa foi a boate, que teve o palco reposicionado e algumas paredes internas derrubadas, com isso, os shows irão acontecer de modo que o público terá um espaço maior e integrado para aproveitar os shows de praticamente todo o primeiro andar. O Camarote do King reforça o compromisso com os desfiles e assegura que as paredes da boate têm isolamento acústico reforçado.

Durante o carnaval os shows na boate costumam acontecer no intervalo entre as escolas de samba e neste ano não será diferente. No entanto, o King, em 2023, esticará a festa após a última escola, iniciando um show após os desfiles de domingo (19), com Xande de Pilares e também na segunda (20), com Caju pra Baixo. A organização ainda está planejando a atração para fechar o carnaval após o último desfile do sábado das campeãs.

Desde sua fundação o King já proporcionou aos seus clientes algumas viagens por meio da decoração do camarote, que todos os anos tinha um tema, tais como Veneza, Turquia e Marrocos. Em 2023, o King não terá tema, mas terá uma decoração completamente high tech e repleta de sons e luzes automatizadas.

As bebidas alcoólicas do open bar seguem por conta do grupo Petrópolis, que patrocina o camarote com a cerveja Petra, Go Draft e Itaipava 100% e o grupo Pernod Ricard, detentor das marcas patrocinadoras Vodka Absolut, Gin Beefeater e Whisky Ballantines.

E com tantas novidades, o camarote do King também lançou um novo produto: O Pagode da Abelhinha, que vem acontecendo durante todos os ensaios técnicos, na frisa do camarote. O público do evento é convidado e a organização prioriza clientes e parceiros do camarote. Esses foliões vêm aos ensaios já para entrarem no clima de carnaval.

Lilian conta que esse pagode da abelhinha surgiu na casa da família King e se trata de uma homenagem para Dona Eliane, a matriarca. “Estava todo mundo na cozinha de casa e o pessoal estava tocando. De repente ela pediu para todo mundo sair da cozinha para tocar do lado de fora. O João viu aquilo e já falou que o pagode da abelhinha era um produto. Aí agora nos ensaios técnicos começamos a fazer esse evento e queremos que ele continue após o carnaval, pois é uma forma de tratar bem o nosso cliente e de mostrar como é a nossa estrutura”, explicou.

Hoje a quantidade de ingressos vendidos para o carnaval está na casa dos 70%. Confira as atrações do Camarote do King para os dias de desfile:

Sexta (17): Papatinho, Bola Preta, Chacal do Sax e Adriano Ribeiro
Sábado (18): Thiago Soares, Dj Sammi, Dj Netto, Chacal do Sax e Adriano Ribeiro
Domingo (19): Xande de Pilares, Carrossel de Emoções, Chacal do Sax e Adriano Ribeiro
Segunda (20): Pique Novo, Julio Sereno, Dj Sammi, Chacal do Sax e Adriano Ribeiro
Sábado (25): Molejo, Swing e Simpatia, Chacal do Sax e Adriano Ribeiro

Milton Cunha reflete sobre sua carreira e o carnaval na atualidade

0

Milton Cunha é um dos sambistas mais relevantes do carnaval carioca. Produtor cultural, organizador de eventos e pensador da nossa festa, ele está presente na cobertura dos ensaios de técnicos do Grupo Especial pelo Rio Carnaval, na função de comentarista dos desfiles do Rio de Janeiro, na Rede Globo, e apresentando diversas lives com o carnaval como protagonista. O carnavalesco reverenciado começou na Beija-Flor, em 1994, e fez sua carreira visando ter espaço como comunicador. Essa última tarefa foi conquistada em 2013 quando pediu um espaço na TV Globo. Milton Cunha explicou para o site CARNAVALESCO a pretensão de mudar de carreira.

milton cunha
Fotos: Matheus Vinícius/Site CARNAVALESCO

“Era um plano desde sempre. Eu chego no Rio, em 1982, para ser ator e diretor. Aí eu trabalho com a noite, com Chico Recarey e desfiles de moda, conheço Anísio [Abraão David] e ele me bota no Carnaval em 1993. Eu disse assim: ‘Milton, fica uns anos aqui, mas volta a estudar, faz mestrado e doutorado. Quando tu puder, Milton, te manda, porque teu projeto é a TV, a fala’. Por isso eu animava a quadra, eu era um carnavalesco que subia em palco. Eu sempre quis a luz e o microfone. Eu sempre quis essa papagaiada. Mesmo carnavalesco, eu fazia jornal: eu tive uma coluna 6 anos em O Dia, eu fazia rádio, eu fazia Leda Nagle, ‘Sem censura’. Eu nunca saí da comunicação. Quando chegou 2010, eu disse ‘chega’. Fiquei desempregado entre 2010, 2011 e 2012. 3 anos desempregado e eu não desisti. Em 2012, eu bati nas costas do Miguel Athayde, diretor da Globo, e disse ‘Eu quero uma chance’. Eu digo, hoje, passados 60 anos da minha vida, que eu cumpri exatamente os meus tempos, os meus ciclos. Tem a virada de sair de Belém do Pará. Tem a virada de entrar no Carnaval. E tem a virada de 2012 e 2013, eu estou no lugar que eu sempre quis estar”, reflete Milton.

A meta do paraense agora é crescer na televisão. Com um carisma inegável, a pergunta sobre ter mais espaço para um conteúdo autoral e com a sua cara se faz necessária. Cunha sonha em levar o carnaval de escola de samba para outros contextos e outras culturas brasileiras e provocar esse choque cultural positivo.

milton cunha2

“Acredito que o público pode sonhar com um programa de cultura popular, não só de carnaval. Eu vou muito bem com artesãos, com mendigos, com bordadeiras. Eles vão adorar, porque eu sou muito solto, muito brincalhão. Seria um programa de bom humor sobre o povo brasileiro. Claro que eu enfiaria em todo esse programa, sempre, um sambista, uma baiana, um artesão. Eu faria uma linguagem que seria o diálogo dos sambistas com o resto do Brasil e suas festas populares. O samba e o maracatu. O samba e o boi de Parintins. O samba e a polca do Rio Grande do Sul. Eu acho que daria maior pé”, exemplificou ele.

Milton e as lives

Nos tempos de pandemia e indecisão sobre o carnaval, as lives no YouTube e no Instagram foram as responsáveis por manter o coração do folião batendo. Com a inovação dos mini-desfiles e outros eventos ao vivo para o povo do samba, Milton Cunha despontou com uma figura importante para comunicar o Carnaval. Hoje, ele ancora as lives dos ensaios técnicos do Grupo Especial, diretamente no setor 3 da Sapucaí, com uma equipe de repórteres na pista. Isso é a tecnologia em prol da ampliação do alcance do carnaval.

“A tecnologia está nos dando cada vez mais condições de escapar dos grandes canais, porque cada um tem o seu canal. Com essa nova janela, quem ganhou foi o público. Não podendo ir à Sapucaí, não tinha como desligar a TV aberta para ver. Agora a gente tem um leque de olhares sobre o ensaio, sobre a quadra”, comentou Cunha.

milton cunha3

“Essa transmissão dos ensaios é um sonho antigo da Liesa, do Gabriel David e meu. A Globo nunca vai me colocar para ancorar isso, eu ia ficar ali e os jornalistas iam ficar de âncora. Então minha chance era o Gabriel e era isso que ele me deu, porque ali eu imprimo um olhar da minha experiência, eu chamo as minhas repórteres e vou imprimindo um ritmo meu. A Globo, no ano seguinte, já me chamou para fazer o Multishow. Acaba que a live, essa nova tecnologia, é uma porta fantástica para novos comunicadores. Eu fico vendo as lives para catar gente do samba que fale e seja interesse, porque o segredo é colocar alma, não pode ser só técnico e ter boa voz. Sim, as lives podem melhorar, as tecnologias também, mas que bom que já existe esse canal para nós nos colocarmos como sambista e comunicador”.

A volta da “normalidade” e o futuro

Segundo Milton Cunha, o Carnaval passou por anos muito difíceis até chegar ao primeiro carnaval com certa normalidade, que será o de 2023. Na sua retrospectiva, ele aponta a instabilidade da gestão do prefeito Marcelo Crivella (de 2017 a 2020) e a pandemia de Covid-19 que impediu os desfiles em 2021 e os adiou em 2022. Depois de 3 anos, o Carnaval volta a ser celebrado na data correta marcada no calendário. Essa percepção não deixaria de refletir na evolução estética das escolas de samba.

“Nós sobrevivemos à intolerância do bispo, ao vírus e aos cancelamentos. Com esses cancelamentos, surgiram novos produtos que foram ótimos. [Parafraseando Annik Salmon e Gui Estevão] A dor que pariu a pandemia pariu soluções e saídas para fazermos novas coisas. Eu espero uma consciência que essa diversão, esta cultura de bloco, baile e Sapucaí é importantíssima para gente sobreviver enquanto cidade. Na hora que a cidade do Rio perder o ‘tchica tchica bum’, como ela perdeu na pandemia que não tinha quadra, não tinha botequim, ela perde a identidade. Este ano é a retomada da consciência de que esse período momesco define a identidade carioca”, disse.

Para o futuro das concepções de desfile, Milton considera que não há mais espaço para evocar preconceitos como racismo, machismo, homofobia e etarismo e exaltar a branquitude. “Esse Carnaval de museu, de endeusamento da branquitude, já foi. Eu não quero nunca mais que eles tirem 10 em Enredo. É preciso que os enredos e os sambas tragam a modernidade. É preciso que as escolas sejam socialmente observadoras desse estilhaçar de valores. Não dá mais para ficar na Princesa Isabel”.

Nessa esteira, Cunha considera que enredo bom precisa ter uma conexão com o público por sua simplicidade de narrativa. Ele exemplifica por meio da facilidade do entendimento do enredo que Rosa Magalhães e João Vítor Araújo desenvolveram para 2023 sobre a chegada dos búfalos na Ilha de Marajó, no Pará. Para Milton Cunha, os enredos e os sambas precisam ser mais “povão” e mais diretos através de temáticas populares. Outro aspecto que impactou a arte de fazer carnaval foi a abertura maior para entender a comunidade em que as agremiações estão inseridas.

“Houve uma revolução a partir de 2015 quando as escolas caíram em si, primeiro, na importância das comunidades. Houve uma varredura das alas comerciais. Isso esquentou os ensaios de rua e eles passaram a ser um programa da cidade. Com o esquentar das propostas de ensaios e valorização da comunidade, os artistas tiveram a liberdade de propor coisas que tem a ver com a cara do nosso povo. Acho que estamos vivendo uma fase áurea, uma fase dourada, das escolas de samba”, argumentou Milton.