A Riotur informa que recebeu os presidentes da Liesa e Liga RJ nesta terça. Na reunião, as questões levantadas pela Liga RJ em manifestações recentes foram devidamente esclarecidas junto à Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro (Liesa).
Ambas as ligas renovaram seu compromisso de manter sua comunicação institucional em constante desenvolvimento, evitando conclusões precipitadas, e o melhor comprometimento do Carnaval 2026. Tanto Liesa, quanto Liga RJ manifestaram disposição em esclarecer os pontos levantados e debater, agora e após o carnaval, pontos de interesse conjunto, sempre buscando o desenvolvimento do maior espetáculo da Terra.
A Riotur reafirma seu compromisso com a organização do carnaval carioca e destaca o trabalho desenvolvido pelas Ligas, empenhadas em garantir que todas as agremiações, do Grupo Especial e da Série Ouro, tenham as condições necessárias para realizar um grande Carnaval.
A inauguração do Carnaval Fan Fest, no dia 20 de janeiro, foi marcada por um encontro simbólico entre o samba, o povo e um dos cartões-postais mais emblemáticos do Rio de Janeiro. Em plena praia de Copacabana, Mayara Lima, rainha de bateria do Paraíso do Tuiuti, comandou um grande aulão de samba que reuniu centenas de pessoas em um movimento coletivo de celebração à cultura popular.
O evento, que já nasce com a proposta de se tornar um marco no calendário carnavalesco da cidade, reforçou a valorização do sambista e da arte que sustenta o maior espetáculo da Terra. Para Mayara, estar à frente dessa iniciativa carrega um significado que ultrapassa a dimensão da dança.
“Esse evento é histórico para o carnaval e vai fazer parte dessa história linda que é a nossa arte, do maior espetáculo da Terra. Tudo nasce de uma gestão que pensa no sambista, que faz de tudo para valorizar quem vive do carnaval. Fui convidada para esse aulão e estou muito feliz de estar aqui. Ainda vamos ter mais duas aulas. O carnaval está chegando, e a gente já está nesse pré-aquecimento”, destacou a rainha.
Mesmo com uma trajetória consolidada no samba, Mayara revelou que a grandiosidade do público trouxe um sentimento especial antes da aula começar. “Deu nervosismo, sim. Já dei aula para muita gente, mas nunca para um público tão grande quanto o do Rio de Janeiro. As pessoas presentes querem cada vez mais fazer parte do nosso carnaval e somar com a nossa cultura. No final, foi muito bom viver essa experiência”.
Durante a atividade, a rainha fez questão de reforçar que o samba vai além dos passos ensinados. “Se joga, seja você mesma e treine, mas entendendo que não é só fazer uma aula de samba. É viver a história da nossa cultura, a fundação de tudo, a história do nosso povo. O samba vai muito além de dançar. Eu tenho muito orgulho de dizer que sou uma artista do samba e que vivo da cultura do meu país. É isso que eu quero levar para as pessoas”.
A relação de Mayara com o Paraíso do Tuiuti também esteve presente em sua fala, reafirmando o vínculo com a escola que moldou sua trajetória pessoal e artística. “Eu sou uma pessoa que hoje vive um sonho, muito por conta das oportunidades que o Tuiuti me deu, que é a escola que é o meu chão, meu pilar. Já fui passista, musa, princesa. Construí minha vida pessoal ali, hoje tenho meu filho, sou casada com uma pessoa que também ama o carnaval. Poder viver esse momento junto com a minha família, com a minha comunidade e com a minha bateria é muito especial. Espero que venham muitos e muitos anos para a gente continuar vivendo essa cultura que é tão mágica”.
Entre os participantes do aulão, o impacto da experiência foi imediato. Juan Barros, de 17 anos, morador do Méier, destacou a força simbólica da ação. “Achei incrível a ideia de fazer um mutirão com milhares de pessoas no meio da praia de Copacabana para um aulão de samba. Foi genial. Teve um momento em que eu parei de dançar só para ver ela dançando, porque é apaixonante”.
Para ele, iniciativas como essa deveriam se espalhar ainda mais pela cidade. “O Rio devia tornar o aprendizado do samba ainda mais acessível. Imagina um aulão assim em outros bairros. A aula dela é apaixonante”.
Laura Isabel, de 17 anos, também acompanhou a atividade e saiu contagiada pela energia da rainha. “Eu achei maravilhoso. Ela é muito boa, contagiou a plateia, me deu alegria. Mesmo cansada, eu tentei sambar, tentei me mexer e gostei muito”.
A jovem reforçou a importância da valorização do samba como identidade cultural. “O samba é parte da nossa cultura, da nossa alma, do brasileiro. Tem que ser valorizado a cada dia”. Animada, ela já planeja colocar em prática os passos aprendidos. “Vou começar já, até no show do Belo”.
O aulão de samba no Carnaval Fan Fest mostrou que, quando o samba ocupa os espaços da cidade, reafirma sua potência como linguagem coletiva, memória viva e expressão de pertencimento. Em Copacabana, a dança se transformou em encontro, aprendizado e celebração da essência do carnaval carioca.
A Unidos de Vila Isabel finaliza, nesta quarta-feira (28), sua temporada de ensaios de rua. Iniciados em novembro, os encontros chegam à reta final com a presença de todos os segmentos da escola.
Com o fim dos ensaios de rua, a Vila Isabel volta suas atenções para os ensaios técnicos, que começam já neste fim de semana. A escola será a primeira a passar na avenida no sábado (31), abrindo a segunda noite.
No Carnaval 2026, a azul e branca do bairro de Noel desfilará com o enredo “Macumbembê, Samborembá: Sonhei que um sambista sonhou a África”, assinado pelos carnavalescos Gabriel Haddad e Leonardo Bora, com pesquisa de Vinícius Natal. A proposta celebra a ancestralidade africana, os fundamentos do samba e a trajetória de Heitor dos Prazeres, um dos maiores ícones da cultura popular brasileira e da história do samba.
A Unidos de Vila Isabel será a segunda escola a desfilar na terça-feira, 17 de fevereiro de 2026.
A Mocidade Unida do Santa Marta, que desfila na Série Prata, revelou os primeiros detalhes de seu enredo de 2026, “Samba é Minha Cachaça”, na entrevista que os carnavalescos Carila Matzenbacher e Patrick Felipe cederam ao CARNAVALESCO. A dupla explicou que o tema foi encomendado pela diretoria e encerra uma trilogia criada nos últimos anos.
“Começamos no Sextou, onde nosso Malandro vai curtir a sexta-feira, depois chegamos no AG1, que era a hora de comer. Agora é hora de celebrar bebendo”, resumiu Carila.
Patrick destacou que a pesquisa precisou trilhar caminhos diferentes dos já explorados, lembrando o desfile histórico da Imperatriz em 2001: “A Rosa já contou a história da cachaça. Agora tivemos que invocar a nossa próproa Santa Cachaça.”
O enredo começa pela parte histórica, mas sem se prender totalmente a ela. “Não tem como fugir da história, até para contextualizar que a bebida nasceu no Brasil. Nós brincamos com os alemães que tentam roubar a cachaça e patentear o nome”, diz Carila.
Patrick completa: “A partir disso ela passa a ser protegida pelo nosso próprio governo e vira identidade brasileira, patrimônio nosso. Só é cachaça se for produzida no Brasil”.
Os parceiros também conectam o enredo à construção simbólica do país. “Cachaça, samba e futebol são ícones da nossa identidade, nascidos na cultura preta e que sofrem preconceito até hoje. Ser cachaceiro é pejorativo, enquanto quem bebe vinho e Uísque é desgustador”, afirmam. Essa compreensão levou à criação da Santa Cachaça, figura central do desfile.
“Percebemos que não existia um deus da cachaça, como Dionísio é do vinho, quem as pessoas invocam e se conectam quando bebem, por isso criamos a Santa Cachaça, e o enredo virou uma oração a ela”, explica Carila. Ambos acreditam que, dentro da simplicidade e brasilidade do tema, o público vai se identificar. “Quem é que não tem uma história com cachaça, né?”, completa a carnavalesca.
Destaque do enredo
Os carnavalescos esperam que o grande destaque seja o samba-enredo. “Somos a primeira escola a pisar na Intendente no dia do desfile. Precisamos de um samba alegre, para cima, que contagie o público desde o início”, diz Carila. Patrick reforça a importância de uma boa comunicação musical: “Uma melodia agradável, um refrão fácil. Mesmo que a pessoa chegue para assistir no meio do desfile, ela tem que conseguir cantar.”
Eles apontam que o samba deve refletir a ligação afetiva e cotidiana com a cachaça, não apenas seu aspecto histórico. “Não nos prendemos só à história da bebida, porque a Rosa já fez isso. Nós permeamos pelo cotidiano, por como os compositores entendem a cachaça no dia a dia”, explica Patrick. A identificação, para eles, é fundamental, de modo a fazer com que o público lembre de suas próprias histórias de celebração, de alegria, de vida.
Artes plásticas e estética do desfile
Na parte estética, a agremiação promete um carnaval leve, de fácil leitura e pensado para a dança dos componentes.
“Desde que entramos na escola, fazemos fantasias leves. Nada que bloqueie a movimentação. A ideia é que o componente chegue arrasando em harmonia, cantando e orgulhoso do manto”, destaca Carila. Patrick ressalta que os signos serão claros: “A gente quer que o público entenda o que está vendo. Carnaval é para o público, não só para o jurado.”
Carila define o conceito como uma simplicidade inteligente, que privilegia a compreensão sem ser didática: “É objetivo, sem rodeios. A identificação cria empatia e movimento de chão, que é a grande potência do carnaval.” Ela reforça que essa escolha estética ajuda a construir um desfile memorável, que conversa com a massa e fica guardado na memória coletiva.
Dificuldades da Intendente Magalhães
Produzir um carnaval na Intendente Magalhães exige criatividade, reaproveitamento e trabalho manual intenso.
“É feito com muita reciclagem. Eu tenho uma peça que reciclo há cinco anos. Eu não jogo nada fora, pois serve para várias fantasias”, conta Carila. Ela transforma indumentárias antigas em novas possibilidades: “Às vezes eu faço uma ala inteira com as pedrinhas que tiro de uma fantasia do Especial. É criar a partir do que se tem.” Patrick reforça: “Esse trabalho é dificultoso. Você não pode imaginar nada muito grande. É criar a partir do que existe.”
Carila explica que desenha sempre pensando na execução real: “O papel aceita tudo, mas a execução tem que ser melhor que o desenho. Criar já pensando em como executar.”
A artista faz questão de ressaltar o trabalho da comunidade, que também participa ativamente desse processo, especialmente nos mutirões de confecção. “Os colares das baianas viraram símbolo da reciclagem. Já fizemos com caixinha de ovo, tampinha de garrafa, e agora vamos usar bagaço de cana. E a comunidade vem, coloca a mão, chega na avenida com orgulho”, diz.
Patrick resume: “Carnaval é sobre isso: a comunidade. Ainda mais para uma escola da Intendente. Mesmo com as limitações, os profissionais mantém o foco: “Queremos ganhar. Fazemos carnaval para isso. Mas, principalmente, para a escola e para os componentes. Não tem preço ver a comunidade defendendo o próprio carnaval”, afirma Carila.
De uma coisa não resta dúvida: a Santa Marta fará um desfile cheio de criatividade, identidade, irreverência e brasilidade, para todo mundo curtir com sua cachaça na mão!
O legado de Paulo César Pinheiro atravessará o Sambódromo do Anhembi em 2026. Aos 76 anos, a obra do poeta e compositor será transformada em desfile pela Estrela do Terceiro Milênio, no sábado de Carnaval, dia 14 de fevereiro, pelo Grupo Especial de São Paulo. Nada mais justo que a escola que carrega em seu pavilhão a coruja, animal símbolo da sabedoria, celebre uma das grandes mentes da música brasileira por meio do enredo “Hoje a poesia vem ao nosso encontro: Paulo César Pinheiro, uma viagem pela vida e obra do poeta das canções”, assinado pelo carnavalesco Murilo Lobo.
A convite da agremiação do Grajaú, o CARNAVALESCO entrevistou este que é um dos mais brilhantes letristas da MPB. Para conduzir a conversa, a reportagem adotou uma proposta pouco convencional: percorrer a trajetória do artista a partir dos versos do samba-enredo da Milênio. A ideia foi ir além dos sentimentos do mais novo torcedor da escola e usar a letra oficial como fio condutor para uma viagem pela vida, pela obra e por um pouco do Brasil retratado em mais de duas mil canções.
Quando a poesia encontra a Avenida
O convite para ser homenageado surpreendeu Paulo César Pinheiro, que definiu como “estranha” a sensação de ver a própria trajetória transformada em enredo. “Eu me sinto lisonjeado, envaidecido, orgulhoso. Me pegou de surpresa”, afirmou o poeta, que já se diz na torcida pela Estrela do Terceiro Milênio, escola cujo nome considera “uma poesia”. “É uma homenagem maravilhosa, e eu já estou torcendo pela escola. Torço até o fim, e a poesia agradece, sem sombra de dúvidas”, completou.
Com uma relação histórica com o Carnaval, o compositor carioca, que é um dos fundadores da escola de samba Tradição ao lado de nomes como João Nogueira, destacou que o samba-enredo ocupa um lugar próprio dentro de sua obra.
“É um tipo de música completamente diferente do samba normal. É um samba que conta uma história estabelecida, composta, que eu gostava muito de fazer. Eu e João Nogueira compusemos quatro sambas de enredo para a Tradição, e valeu a pena. Vencemos o último grupo, passamos para o seguinte, até desfilar com as principais. É muito bom você ganhar e compor um samba de enredo, é um trabalho maravilhoso”, afirmou.
Ao comentar as transformações do gênero ao longo dos anos, Paulo observou que, em sua experiência, compor para uma escola sempre significou envolvimento direto. “Atualmente mudou tudo. Antigamente, até um certo ponto da vida, o samba-enredo transmitia a história da escola, os compositores eram das escolas. Hoje qualquer compositor faz para qualquer escola, e já não é o que eu penso. Eu visto a camisa e vou embora. Mudou tudo”, explicou.
Obra de uma vida contada em samba
Antes mesmo de o samba começar a ser lido verso a verso, Paulo César Pinheiro voltou ao ponto onde tudo teve início. Foi ali, ainda muito jovem, que a poesia passou a conduzir sua trajetória e deu origem a uma obra que hoje atravessa mais de seis décadas.
“Eu comecei muito jovem. Eu tinha de 14 para 15 anos quando comecei. A escola, inclusive, o enredo dela montou-se em cima da minha primeira música, que foi A Viagem. A minha trajetória é a poesia o tempo inteiro, e a música vem junto. Eu também fiz música, tenho compostas na carreira mais de duas mil músicas, das quais cerca de 1.500 foram gravadas. Isso já é uma história que merece ser contada. Além disso, eu escrevi livros, fiz peças de teatro, fiz uma série de coisas, e é bonito ver isso na Avenida sendo contado”, celebrou.
‘Ouvi lá do alto do morro um canto forro encontrando um violão’
Os versos iniciais do samba da Milênio apresentam Paulo César Pinheiro como um menino acolhido pelas rodas de samba, imagem com a qual o compositor se identifica. “O samba me representa. Eu represento o samba. Não há roda de samba no Brasil que não cante um samba meu. Eu me sinto representado completamente”, afirmou.
Na sequência, o verso “E a madrugada foi inspiração” reforça o caráter simbólico da criação artística como vocação e destino. Para o poeta, trata-se menos de literalidade e mais de imagem. “É uma imagem poética. Sempre foi uma das coisas, mas é uma imagem poética bonita também, bem-feita”, disse.
‘Poeta, sim! Não tem mordaça que me diga não’
Os versos reforçam a imagem de um compositor movido por um impulso criativo que dispensa explicações racionais. “Isso nasceu comigo. Eu nunca tive explicação para isso. Não tem explicação”, afirmou.
O poeta destacou a coerência da obra escolhida com sua trajetória artística, fazendo questão de pontuar sua isenção na avaliação, apesar de ter uma relação pessoal com a disputa do samba-enredo. “O samba inteiro faz sentido, foi bem-feito e foi bem escolhido. Inclusive, meu filho foi um dos compositores que disputou o samba-enredo, mas infelizmente não ganhou. Então eu estou isento para falar que o samba está bem representado”, pontuou.
Ao refletir sobre a ideia de o carnaval funcionar como ferramenta de conhecimento, como mencionado nos versos “Fiz das raízes do país canção, abrindo livros desse meu Brasil”, Paulo observou que essa função não está necessariamente no compositor, mas na própria festa. “O carnaval é a festa popular mais importante do Brasil, e o que ele faz é motivar as pessoas a lerem livros dos homenageados, a se interessarem pelas histórias, pela história como um todo. Ele chama a atenção do povo para que se veja, leia e entenda as coisas”, explicou.
‘O dia em que o morro descer’
O trecho a seguir foi inspirado no samba O dia em que o morro descer e não for Carnaval, escrito em parceria com Wilson das Neves, que projeta um cenário em que a ida às ruas se dá por um motivo diferente da celebração da festa popular.
“Os versos foram feitos em cima dos meus, que são uma realidade, infelizmente, do Brasil e principalmente do Rio de Janeiro, onde eu moro. Eles montaram o samba em torno desse que eu fiz com o Wilson das Neves, falando da violência que, infelizmente, tomou conta do país e dos morros cariocas, das periferias brasileiras. Eles fizeram os versos de acordo com o que eu disse. Está muito bem-feito”, explicou.
A leitura também abriu espaço para uma reflexão sobre a trajetória histórica do samba, expressão cultural marginalizada que, ao longo do tempo, conquistou centralidade na identidade nacional. Para o compositor, o gênero venceu os obstáculos impostos desde sua origem. “Eu acho que sim, claro. Para se tornar a maior festa popular do mundo, ele venceu”, resumiu.
‘Zumzumzum, quero ver firmar o seu berimbau’
O refrão do meio do samba da Milênio carrega uma dupla inspiração diretamente ligada à trajetória artística de Paulo César Pinheiro. A primeira vem de Lapinha, parceria com Baden Powell e primeira música do compositor a ser gravada, eternizada na voz de Elis Regina em 1968. A segunda é o disco Capoeira de Besouro (2010), que reúne canções do musical Besouro Cordão de Ouro (2006), vencedor do Prêmio Shell de 2006 na categoria direção musical, sob comando de Luciana Rabello, esposa do poeta. Em comum, ambas as obras exaltam a figura do capoeirista Besouro Cordão de Ouro.
“O primeiro samba que eu gravei na vida falava da Bahia, o Lapinha. É o primeiro samba gravado pela Elis Regina. Então eu tenho uma ligação profunda com a Bahia, principalmente se tratando de capoeira. Gravei um disco com toques de capoeira falando do Besouro, que é uma figura importante da Bahia, citada pelo Jorge Amado, inclusive em mais de um livro. É um herói popular, um herói da rua que foi citado em Tenda dos Milagres e em Mar Morto. Eu fiz o samba Lapinha em homenagem ao Besouro, falando da Bahia, o Besouro da Bahia, Besouro Cordão de Ouro”, destacou.
Ao refletir sobre a presença recorrente da ancestralidade nos sambas e enredos atuais, Paulo fez uma ressalva importante sobre a história do gênero. Para ele, o samba não possui uma origem única. “O samba não nasceu na Bahia. O samba baiano nasceu na Bahia, o samba carioca nasceu no Rio de Janeiro, o samba mineiro nasceu em Minas. O samba nasceu no Brasil, é brasileiro”, explicou. Segundo o poeta, são diferentes manifestações de uma mesma expressão cultural. “O samba que se faz no Rio não é o mesmo que se faz na Bahia. O samba é brasileiro”, afirmou.
A observação ecoa a própria diversidade do gênero, que também encontrou caminhos próprios em São Paulo, como no samba de Bom Jesus de Pirapora, reconhecido e estudado por Mário de Andrade. “É um grande samba, um grande samba, sim”, completou o poeta.
‘Ninguém ouviu a prece em seus grilhões’
A segunda parte do samba começa dialogando com um dos períodos mais sombrios da história do Brasil. Ao tratar da censura e da repressão, o enredo encontra eco na própria trajetória de Paulo César Pinheiro, que teve diversas composições barradas durante a ditadura militar.
Mas, como o próprio samba diz, “se um verso era rasgado, outro nascia”. Apesar de ser uma constante em sua carreira, o compositor valeu-se da inteligência e, com isso, “a censura sucumbia às canções”, utilizando metáforas como estratégia de sobrevivência artística. Paulo destacou uma obra em especial, marcada justamente pela frontalidade do discurso.
“Eu fui muito censurado, o tempo inteiro. Consegui muitas vezes burlar a censura inteligentemente, por metáforas, até que fiz uma música sem metáforas, que se tornou um hino de guerrilha, o Pesadelo. ‘Você corta um verso e escrevo outro’. Foi a música mais direta que se fez no Brasil contra a censura brasileira, contra a censura de modo geral. Fui muito perseguido, mas consegui vencê-los”, afirmou.
Ao ser provocado sobre o papel da música em um contexto contemporâneo de tensão política e de reaproximação com discursos autoritários, Paulo foi categórico ao reafirmar a força da arte como instrumento de resposta e resistência.
“A música consegue responder a qualquer coisa estranha que seja perguntada a ela. É a música que tem poder. Não é o poder que tem poder, é a música que tem poder”, resumiu.
‘Quando o cantar da Sabiá se calou em todo altar’
O trecho é inspirado no samba Um Ser de Luz, de 1983, e retrata um momento sensível da vida de Paulo César Pinheiro. “Foi quando morreu a minha ex-esposa, Clara Nunes, e eu fiz o samba no tempo da morte dela. Eles tentaram transmitir exatamente isso no samba que eles fizeram e foram felizes”, afirmou.
Os versos seguintes também apontam para um movimento de reconstrução afetiva, traduzido na imagem de um coração que encontra “um novo lugar, feito a letra quando abraça a melodia”.
“Foi a música que me trouxe tudo isso. Eu devo tudo à música. Eu sou a música, como diria meu amigo Pedro Sorongo, que já morreu. Ele dizia assim: ‘Eu sou a música’. Quando um maestro falou para ele: ‘você precisa estudar a música’, ele falou: ‘não preciso não, eu sou a música’”, disse o poeta.
‘A música me deu parceiros e enredos para contar’
Os versos celebram os encontros que marcaram a trajetória de Paulo César Pinheiro e ajudam a entender a dimensão coletiva de sua obra. Ao longo da carreira, o poeta construiu parcerias fundamentais para o desenvolvimento de sua linguagem, especialmente no período em que esteve mais próximo do samba-enredo e da vida das escolas de samba, marcado pela fundação da Tradição.
“No mundo do samba, eu tive grandes parceiros e devo muito a eles também. Eles devem a mim e eu devo a eles, nós nos casamos”, afirmou, antes de citar alguns dos nomes que atravessaram sua trajetória. Paulo Duarte, João Nogueira, Eduardo Gudin, Maurício Tapajós, Miltinho, do MPB4, João de Aquino e, em especial, Baden Powell, um parceiro fundamental de sua carreira, formam parte desse universo de encontros que moldaram sua obra.
Segundo o compositor, essas parcerias foram decisivas não apenas no plano afetivo, mas também na construção técnica de sua escrita. “Aprendi com eles alguma coisa. Cada um deles me deu alguma coisa, me deixaram heranças boas e me fizeram o que sou. Eu me desenvolvi com as melodias que consegui com eles. Os meus versos nasceram das melodias deles, então eu sou fruto deles também”, explicou.
‘Ninguém faz samba se não for pra emocionar’
O desfecho do samba assume tom de manifesto e dialoga diretamente com ideias que atravessam a obra de Paulo César Pinheiro há décadas. Para o compositor, a emoção não é consequência, mas origem do samba. As referências citadas no refrão final não são aleatórias.
“Como eu disse antes, já em um samba: ‘ninguém faz samba só porque prefere’”, citou, em referência ao samba O Poder da Criação, composto em parceria com João Nogueira. O poeta também mencionou a referência à obra Mordaça, da parceria com Eduardo Gudin, que traz o verso “o importante é que a nossa emoção sobreviva”. “Eles juntaram a necessidade de uma coisa com outra e ficou bonito o que eles fizeram”, avaliou.
Questionado sobre o papel do samba na atualidade, Paulo não vê perda de força ou de sensibilidade. Para ele, a função permanece intacta. “Com certeza. O importante é que a nossa emoção sobreviva. Eu vou repetir essa frase a minha vida inteira, sempre, e o samba faz isso: desperta as emoções. Se estiverem adormecidas, ele acorda as emoções”, resumiu.
‘Reflete no espelho o dom que Deus me deu’
Por fim, o refrão principal do samba-enredo da Estrela do Terceiro Milênio fecha a narrativa com um movimento circular, em que os primeiros versos funcionam como síntese da trajetória do poeta, enquanto o último dialoga diretamente com o início da letra. Ao ser questionado se o samba fala mais sobre o homem Paulo César Pinheiro ou sobre sua obra, o compositor foi direto ao apontar onde reside, para ele, o verdadeiro legado.
“Fala mais sobre a obra. O homem tanto faz. A obra é o que prevalece, é o que é importante. O homem é só um homem, como qualquer outro, mas a obra permanece”, afirmou. Para Paulo, a história pessoal pode ser contada, como foi no enredo, mas é a criação artística que resiste ao tempo.
A reflexão abriu espaço para um debate mais amplo sobre o lugar do compositor na música popular brasileira, muitas vezes ofuscado pela figura do intérprete. Questionado se o enredo da Milênio pode estimular um olhar mais atento ao legado dos autores, o poeta demonstrou esperança. “Tomara. É o que eu torço. Eles fizeram um belíssimo trabalho em tudo: no samba, na composição do enredo, dentro da escola. Isso é importante. Espero que tudo dê certo”, disse.
Paulo reforçou o desejo de reconhecimento por meio da sensibilidade ao falar sobre o que gostaria que o público compreendesse de seu legado. “Eu espero que aconteça o que acontece sempre: uma homenagem bem-feita, que o público goste do que foi apresentado, se veja nisso. É isso que eu espero. É ver se eu valho a pena como autor”, afirmou.
Mensagem de Paulo César Pinheiro para a Estrela do Terceiro Milênio
“Adorei tudo o que eles fizeram. Foi muito bonito, não esquecerei. Eu não esperava uma homenagem como essa. É muito grandioso para mim, é diferente, muito diferente. Eu vou ficar na torcida, na primeira cadeira, completamente na torcida, para poder ganhar o carnaval. Torço por eles para sempre, virou minha escola também. Eu sou Mangueira, sou Paraíso do Tuiuti porque fui criado lá e sou agora Estrela do Terceiro Milênio. Eu estou com a comunidade do Grajaú e não abro mais”, concluiu.
Em entrevista exclusiva ao CARNAVALESCO, o carnavalesco Sandro Gomes adiantou detalhes sobre o enredo e o desfile de 2026 da Unidos da Barra da Tijuca, escola que se apresenta na Intendente Magalhães pelo Grupo Série Bronze. Em seu primeiro ano na agremiação, o artista contou como surgiu a proposta do novo tema e o que o público pode esperar na Avenida.
“É o meu primeiro ano na escola, e o presidente me sugeriu esse enredo”, contou. Segundo ele, a escolha foi inspirada no momento vivido pela escola. “Devido à tristeza de ter sido rebaixada no ano passado, ele sugeriu que falássemos de algo que trouxesse animação, que, no caso, é o sonho de conseguir chegar ao topo, no grupo da elite do carnaval.”
O enredo, que fala sobre os sonhos em diferentes perspectivas, promete emocionar o público. “Viremos contando a história do sonho, desde o início do Sopro da Vida, conduzido pelos anjos, até a pessoa que sonha em ser rica, que sonha em ser alguém na vida, em ter uma vida estável. E a escola que sonha em chegar à Marquês de Sapucaí”, explicou o artista.
O destaque do enredo
Para Sandro, o ponto alto do desfile será justamente essa identificação do tema com o público. “Acredito que, ao contar a história dos sonhos, a comunidade que está assistindo vai se identificar com o cotidiano da vida de cada um, com o que cada indivíduo sonha para si. Estaremos representando tudo isso na Avenida.”
Artes plásticas e estética do desfile
Mesmo com as dificuldades financeiras típicas das escolas que desfilam na Intendente Magalhães, o carnavalesco garante que a parte visual virá com muita criatividade e cor. “A base plástica que estamos procurando são materiais alternativos, porque os recursos são muito poucos. Estamos trazendo esses materiais alternativos também para trazer o colorido, com bastante pintura em verde-limão e azul, para representar esse sonho que todo mundo deseja.”
Desafios da Intendente Magalhães
Gomes também comentou sobre os desafios de realizar um carnaval com recursos limitados. “As dificuldades são grandes, porque hoje em dia o material é muito caro, e a subvenção não é proporcional ao que a gente apresenta. Temos que lidar com isso com muita reciclagem. Desmonto uma fantasia para montar outra, aproveito o material, o galão, as esculturas, e vamos enfrentando as dificuldades dessa forma.”
Com um enredo que fala sobre esperança e superação, a Unidos da Barra da Tijuca promete levar para a Avenida o sonho coletivo de toda a comunidade: voltar a brilhar até conquistar o tão desejado acesso à Sapucaí.
O ensaio de rua do Paraíso do Tuiuti deixou claro que a escola não está apenas aquecendo os motores: está afirmando um discurso estético, musical e simbólico consistente para o Carnaval 2026. Com o enredo “Lonã Ifá Lukumí”, que mergulha na religião Ifá a partir da vertente Lukumí e promove um encontro sonoro entre Brasil e Caribe, a agremiação apresentou uma exibição coesa, vibrante e de forte impacto, da comissão de frente ao último componente em desfile. Com “Lonã Ifá Lukumí” como enredo de 2026, o Paraíso do Tuiuti desfila no dia 17 de fevereiro, terça-feira de carnaval.
Comandada por David Lima, a comissão de frente foi um dos pontos altos do ensaio. A coreografia aposta em dinamismo constante, com movimentos precisos e forte carga teatral, dialogando diretamente com elementos afro-cubanos. A figura central, representando Changó Lukumí, integra-se organicamente ao conjunto, criando uma narrativa corporal potente e bem amarrada. O resultado é uma comissão de forte impacto visual, com excelente sincronismo e leitura clara, que prende o olhar e sustenta a proposta do enredo desde o primeiro momento.
MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA
O casal Vinícius Antunes e Rebeca Tito apresentou uma dança de grande entrosamento e conexão. Há firmeza no chão e, ao mesmo tempo, leveza nos gestos, formando um equilíbrio muito bem executado. Em alguns momentos, surgem referências sutis à dança afro-cubana, incorporadas com elegância. Vinícius impressiona com giros precisos, muitas vezes sustentados com apenas um pé tocando o solo, enquanto Rebeca conduz o pavilhão de forma segura, emblemática e majestosa, valorizando cada desenho da coreografia.
EVOLUÇÃO
A evolução do Tuiuti foi bastante fluida e consistente nos setores, com a escola avançando em ritmo constante, transmitindo firmeza e controle. As alas mantiveram bom preenchimento dos espaços. Na altura da bateria, o grande público presente no ensaio acabou travando momentaneamente a passagem, mas, com mais abertura logo adiante, a escola retomou uma evolução mais solta, vibrante e pulsante, sem perder o ritmo ou o canto.
Fotos: Marielli Patrocínio e Júnior Azevedo/CARNAVALESCO
HARMONIA E SAMBA
Mesmo trazendo termos específicos da cultura afro-cubana e da vertente Lukumí, o samba apresenta uma melodia envolvente, e o canto dos componentes se potencializa de forma natural. A escola canta alto do início ao fim, com muita força e entrega. A ala musical tem papel central nessa construção, muito bem estruturada, e o samba, na voz do intérprete Pixulé, ganha magnitude especial.
“Olhando hoje, é um samba que chegou desacreditado. Ninguém acreditava na potencialidade dele”, lembra Pixulé. “Com o tempo, foi caindo no gosto do povo, foi crescendo, e hoje o samba do Paraíso do Tuiuti está aí, acontecendo. O mundo do samba já abraçou. Não tem mais o que falar”, afirma o intérprete.
OUTROS DESTAQUES
A bateria SuperSom, comandada por mestre Marcão, deu um verdadeiro show. As bossas são criativas, bem encaixadas e ganham ainda mais riqueza ao dialogar com elementos da música afro-cubana, ampliando a identidade sonora do enredo.
“Isso aqui é uma construção”, explica mestre Marcão. “A gente começa pela planta, vai vendo o que pode fazer, o que não pode, e vai botando cada tijolinho. Hoje o prédio já está construído, mas ainda tem ajustes, mudanças e melhorias. É assim que o trabalho vai ganhando forma”.
Sobre o ensaio técnico na Sapucaí, o mestre não esconde a ansiedade. “Não é nem expectativa, é ansiedade. Todo mundo quer chegar logo. Os ritmistas perguntam: ‘não chega?’. E eu falo: calma, é sábado. Mas é assim, essa ansiedade vai batendo cada dia mais”.
Ele também comentou sobre os ensaios da bateria na Sapucaí. “Fizemos o ensaio no setor 11 sem carro de som. A gente não coloca o carro de som para poder ter uma noção exata do que está acontecendo. Você para, você vai, faz isso aqui, faz aquilo dali, e é isso.” Na penúltima segunda-feira de ensaios de rua da agremiação, mestre Marcão reforçou que o trabalho tem sido de constante construção.
Já Pixulé reforçou a segurança da escola ao declarar que “não tem muita expectativa, não. O que se viu aqui hoje é o que vai acontecer no ensaio técnico. A escola está pronta. Se o desfile fosse amanhã, o Paraíso do Tuiuti estaria pronto. A escola toda cantando, fantasias prontas, dedo no gatilho”.
A rainha de bateria, Mayara Lima, uma das mais renomadas do carnaval atual, brilhou à frente da SuperSom. Durante a bossa que explora a musicalidade afro-cubana, Mayara incorporou elementos da dança afro-caribenha com um repertório corporal multifacetado e impressionante. Destaque também para a ala de passistas, que deu um verdadeiro show de carisma, identidade e muito samba no pé.
Ao fim do ensaio, a sensação era de certeza. Como resumiu Thor, presidente da agremiação, emocionado ao falar sobre o que foi apresentado na rua: “Se o Tuiuti repetir no ensaio técnico na Sapucaí o que vem fazendo nos ensaios de rua, pode ter certeza de que vai ser mais um ensaio e um desfile avassalador”.
A Lins Imperial já tem definido o enredo que levará para a Intendente Magalhães em 2026. A proposta é falar de sustentabilidade e preservação da natureza, tendo a água como fio condutor da narrativa. Em entrevista ao CARNAVALESCO, os carnavalescos Agnaldo Correa e Edgley Cunha revelaram detalhes do projeto.
Segundo Agnaldo, a ideia surgiu da própria ligação da escola com suas comunidades.
“O enredo é sobre sustentabilidade e preservação da natureza. A água vai ser o elemento de ligação da nossa história. A Lins tem as comunidades Cachoeira e Cachoeirinha, e essas águas nos levaram até Cachoeiras de Macacu, onde estão as águas cristalinas. Através delas, vamos contar a ancestralidade pelo olhar da importância da preservação da água como elemento essencial para a vida.”
Edgley fez questão de complementar a declaração do amigo. “A escola reflete essa influência das águas e tudo o que elas trazem de benefício cultural e de sustentabilidade. O foco é aprender com o exemplo de Cachoeiras de Macacu e dar esse grito de alerta para a preservação do meio ambiente, principalmente no que se refere à água.”
O destaque do enredo
Correa apontou a simbologia do Jequitibá como o ponto mais forte do enredo.
“O grande destaque vai ser a representação do Jequitibá de mil e um anos, que está em Cachoeiras de Macacu. Ele simboliza ancestralidade, resistência e preservação. Junto com a velha guarda, vamos mostrar que a natureza pode renascer sempre, desde que o ser humano esteja disposto a preservar.”
Cunha, por sua vez, ressaltou que a Lins mantém uma tradição de levantar pautas importantes relacionadas ao meio ambiente.
“A escola traz de volta a identidade de sempre ao fazer esse alerta pela natureza, lembrando Chico Mendes e a Eco-92. A comunidade volta a vestir essa camisa.”
Artes plásticas e estética do desfile
Agnaldo destacou que a estética estará fortemente ligada ao tema.
“A plástica vai ser muito voltada para o verde, para a natureza e para a preservação. Vamos ilustrar as crenças, a ancestralidade e as práticas ribeirinhas. Claro que vamos falar da mamãe Oxum, que protege as águas da cachoeira, as águas de Oxalá e as águas de todos nós.”
“Essa influência dos povos originários e também dos povos bantos estará presente. Vamos refletir essa questão da sustentabilidade também no uso de materiais alternativos. A escola vem alegre e colorida, como a própria natureza nos inspira”, reforçou Edgley.
Desafios da Intendente Magalhães
Sobre as dificuldades da Intendente Magalhães, Agnaldo foi direto: “É difícil, mas a gente trabalha com o que tem. Vamos fazer um carnaval sustentável. Não podemos jorrar água pela avenida, porque não há estrutura, mas vamos usar de forma artificial, driblando as dificuldades para causar um impacto visual bonito.”
“Não tem jeito: é arregaçar as mangas, reaproveitar materiais, correr atrás de contatos. O presidente está sempre buscando apoio e, com a soma de todo mundo, conseguimos colocar o carnaval na avenida”, acrescentou Edgley.
Da cachoeira à avenida, a Lins Imperial promete emocionar e conscientizar o público da Intendente Magalhães e de todo o carnaval em 2026.
A Alegria do Vilar prepara um desfile marcante para o Carnaval 2026 na Intendente Magalhães, com o forte enredo “Regido e guiado pelas lâminas do Rei da Justiça”, que carrega a simbologia e a inspiração espiritual de Xangô. Em entrevista exclusiva ao CARNAVALESCO, o carnavalesco Laerte Gulini contou como surgiu a ideia do tema e adiantou detalhes da produção para o grande dia, que já está em ritmo acelerado. Segundo ele, a proposta nasceu de uma experiência pessoal do presidente da escola.
“A ideia do enredo é do Júnior Reis. Além de ser o orixá dele, ele já tinha sonhado com isso duas vezes. E, quando foi ao barracão, durante a preparação do carnaval passado, deu de cara com o Oxê de Xangô na sua frente. Quase um ano depois, voltamos ao barracão e lá estava o Oxê novamente, em outro lugar. Assim, ele decidiu: tem que ser esse o enredo, ‘Oxê de Xangô’, não apenas Xangô”, relatou.
O destaque do enredo
O carnavalesco destacou que a mensagem principal do enredo é o grande diferencial da apresentação.
“Estamos acostumados a pedir justiça a Xangô contra as injustiças individuais que fazem conosco, mas Xangô é o rei da justiça por todos. O Oxê, seu machado, representa a dualidade humana: o justo e o injusto”, explicou. “Não adianta pedir justiça se você também pode ter sido injusto. Em vez disso, devemos pedir misericórdia, porque a justiça de Xangô vem naturalmente por meio da sua misericórdia. É isso que queremos provocar na Avenida: uma reflexão sobre o que é ser justo”.
Artes plásticas e estética do desfile
Em relação à parte plástica, Gulini afirmou que o trabalho está adiantado e que o presidente não tem medido esforços para realizar um desfile grandioso.
“O presidente, por ter escolhido o enredo, não está poupando esforços. Já temos dez alas prontas e ensacadas, esculturas organizadas e protótipos prontos. Se continuarmos nesse ritmo, ao fim de novembro já estaremos tranquilos. Ele está custeando tudo com recursos próprios e com a ajuda de amigos, porque é muito querido por todos”.
Dificuldades da Intendente Magalhães
Com 35 anos de experiência na Intendente Magalhães, o artista garante que a equipe está preparada para lidar com as dificuldades típicas do grupo.
“A comissão de carnaval é formada por pessoas experientes, com muitos anos de estrada. Aprendemos a prever tudo com criatividade. Hoje, com o carnaval sendo estudado em faculdades e escolas específicas, conseguimos aplicar conhecimentos como ergonomia e segurança na confecção das fantasias e alegorias”.
Para Laerte, o segredo de um bom desfile está no equilíbrio entre beleza, segurança e eficiência.
“Não adianta fazer um desfile lindo, mas que ultrapasse limites e cause acidentes. A prioridade é cumprir o regulamento, prezar pela segurança e fazer algo bonito e funcional. O presidente tem essa cabeça de gestor, e isso faz toda a diferença. Assim, conseguimos um desfile bom, bonito e dentro da realidade da escola”.
Com muita fé e dedicação, a Alegria do Vilar promete emocionar a Intendente Magalhães com um espetáculo de devoção, beleza e consciência coletiva.
O Feitiço Carioca irá conduzir o público da Intendente Magalhães em uma viagem nostálgica com o enredo “Meu Malvado do Fundo do Coração”, que homenageia os vilões carismáticos de desenhos, quadrinhos, séries e filmes, mostrando como eles conquistam as pessoas apesar de suas maldades. O carnavalesco Jean Rodrigues contou com exclusividade ao CARNAVALESCO como está sendo esse mergulho no universo da animação durante os preparativos para o desfile de 2026.
“É um passeio pela animação. Representa a busca do homem pela diversão humana”, explicou. Segundo ele, o enredo percorre uma linha histórica e simbólica da criatividade humana. “Primeiro, ela passa pelos autômatos. Júlio César e Cleópatra provavelmente tiveram autômatos, até chegar ao que conhecemos hoje. De início, foram dados personagens a animais, depois veio o que se tornaria um grande salto na animação: o vilão, que passa a ser uma figura importante no gênero”.
Jean destaca que sua principal proposta é mostrar essa evolução por meio dos contrastes. “A ideia é traçar um paralelo entre os opostos: o super-herói bonzinho, a fada boazinha e o vilão hipercarismático, mostrando como esses extremos acabam se encontrando durante o desfile”.
O destaque do enredo
O artista acredita que o grande destaque do enredo será justamente essa reflexão leve sobre a necessidade humana de se entreter. “Acho que o ponto central é a tentativa do homem de se divertir sempre. Mesmo em meio a guerras, conflitos e opressões, ele busca formas de se entreter. O Feitiço Carioca vai levar isso para a Avenida: a alegria de se divertir em qualquer tempo, apesar das adversidades”.
Artes plásticas e estética do desfile
Sobre o visual do desfile, Jean garante uma apresentação vibrante e cheia de referências ao universo dos desenhos. “Vai ser um desfile divertido. Eu levo o cartoon, o desenho animado, para a Avenida. Não é clássico, mas é divertido, isso eu garanto”.
Dificuldades da Intendente Magalhães
Mesmo reconhecendo as dificuldades de produzir um carnaval na Intendente Magalhães, o carnavalesco reforça a importância do trabalho coletivo e da persistência. “Como todos, enfrentamos os mesmos problemas. Isso é histórico. Não vamos mudar com críticas ou apontando o dedo. A solução, na minha opinião, é fazer o que o Feitiço e outras escolas irmãs fazem: trabalhar. Começar cedo e tentar chegar o mais próximo possível dos 100%”.
Com esse enredo criativo, lúdico e cheio de cor, que vai tocar no fundo da memória afetiva dos que cresceram assistindo a desenhos animados, o Feitiço Carioca promete levar à Avenida um verdadeiro espetáculo animado, celebrando, acima de tudo, o poder da imaginação para a alegria humana.