O Tucuruvi foi a segunda escola a desfilar na noite deste sábado, pelo segundo dia do Grupo Especial do Carnaval de São Paulo 2023. Com destaque para as divertidas e irreverentes fantasias e alegorias, nem a chuva impediu o Zaca de levantar o público, que se divertiu e aprendeu com a mensagem que a escola quis transmitir. A agremiação encerrou o desfile com uma hora e três minutos. A escola da Zona Norte apresentou este ano o enredo “Da Silva, Bezerra. A Voz do Povo!”. * VEJA FOTOS DO DESFILE

Comissão de Frente
A comissão de frente da Tucuruvi representou “Os Da Silvas”. Um protagonista, representando o homenageado, interagiu com os demais atores dançando no ritmo do Partido Alto, em um bailar característico do malandreado. De um elemento cenográfico, simbolizando uma favela em estilo antigo, o protagonista surgiu à frente de uma cruz e começou sua evolução junto com os demais na própria alegoria, que contou também com uma espécie de tablado rotatório, girando por vezes de acordo com o repertório proposto.

A malandragem dos morros se fez presente. Com uma coreografia tomada pela dança, Bezerra, seus malandros e malandras levaram o público a entrar de cabeça no desfile. A entrada triunfal do protagonista ascendendo com a cruz no topo da alegoria enquanto os dançarinos tocavam seus instrumentos logo abaixo arrancou aplausos, e a coreografia se desenrolou em alto nível ao longo de duas passagens do samba. A chuva não comprometeu em nada a evolução do grupo cênico, que pode ir para terça-feira otimista quanto a suas notas.
Mestre-Sala e Porta-Bandeira
Luan Caliel e Waleska Gomes dançaram pela Avenida representando em suas fantasias “Sua Majestade, a Malandragem”. Um casal que se trata como se fossem mãe e filho fora da Avenida, e que ao defender o pavilhão demonstram o porquê disso com sincronia, elegância e beleza de movimentos. A chuva resolveu enfrentar a dupla duramente, com direito a ventos que obrigaram Waleska a mostrar o porquê é uma das melhores porta-bandeiras da atualidade.

Nos giros com Luan, a dançarina não teve apenas que cumprir o seu papel habitual, mas também duelou com a intempérie com a valentia de uma guerreira, fazendo o público vibrar mais que o habitual durante as passagens do segmento. O mestre-sala foi irretocável em seus movimentos, executados de acordo com o que tem que ser. Uma pequena observação é preciso ser feita, porém. Perto do final da apresentação obrigatória diante do primeiro módulo, o vento empurrou o pavilhão para o mastro e enroscou levemente, o que pode render dedução do jurado. Agora, se o casal passou pelos últimos módulos do mesmo jeito que passou pelo segundo, será mera nota de descarte.
Harmonia
Se tem que ter fé para viver nesse país, cantar diante de uma imparável chuva gelada não é diferente. Nesse aspecto, a comunidade do Zaca cumpriu bem o seu papel, muito ajudada pela irreverência do samba da Tucuruvi. O conjunto de fantasias foi tão divertido que o público inevitavelmente reagia a cada uma, o que contagia inevitavelmente os componentes na pista. Alguns componentes aparentando cansaço em certas alas, porém, podem ter sido notados pelos jurados.

Enredo
Com o título “Da Silva, Bezerra. A Voz do Povo!”, a proposta da Tucuruvi para 2023 foi mais do que homenagear Bezerra da Silva. O famoso sambista este inserido no enredo com fio condutor, através de sua vida e obra, de uma temática com cunho social falando da realidade dos moradores das favelas. Um enredo que, tal qual as músicas de Bezerra, pode ser interpretado das mais variadas maneiras possíveis dependendo da classe social a qual o expectador pertence. Quem não sabe o que é viver em uma favela entende de forma caricata e bem-humorada, mas quem já passou pelas difíceis provações da vida das comunidades consegue perceber o quão sério o conteúdo dos sambas de Bezerra da Silva é e quão criativa era a maneira como o artista era para conseguir furar as diferentes bolhas sociais de sua época.

Um dos enredos de mais fácil leitura a passar pelo Sambódromo do Anhembi nesse ano. As propostas de cada segmento eram muito claras de serem entendidas, e as músicas escolhidas pelos carnavalescos Dione Leite e Yago Duarte foram estrategicamente posicionadas para permitir uma linha narrativa irretocável e divertida.
Evolução
A chuva pode atrapalhar muito as escolas, ainda mais se for de forma constante. Não foi totalmente o caso da Tucuruvi, que desfilou de maneira constante do início ao fim, parando apenas para as manobras de entrada e saída do recuo da bateria. Em alguns momentos foram observados espaçamentos excessivos à frente dos carros dois e três, mas para ser considerados falhas dependerá da interpretação de cada jurado. Com portões fechados em uma hora e três minutos, sem correr, foi um desempenho no geral correto da escola. Vale destacar o trabalho do vice-presidente Rodrigo Delduque, que liderou a harmonia com muita habilidade nos momentos chave do quesito.

Samba-Enredo
Um samba digno da obra de Bezerra da Silva. A primeira parte da letra tem um tom descontraído, descrevendo o sambista como mais um dentro da comunidade em que vivia. O refrão do meio cita a religiosidade de Bezerra, elemento fundamental para que ele conseguisse sair das ruas. A parte final da obra trata da realidade das pessoas sofridas da favela de maneira séria, apelando para palavras fortes e pouco comuns em sambas-enredo, entregando para o refrão principal uma autêntica síntese do que é o dia-a-dia do povo brasileiro e como a vida de Bezerra se assemelha com a de tantos outros “Da Silvas” que vivem no Brasil. A obra, composta pela ala de compositores da Tucuruvi e anunciada junto ao próprio enredo, é assinada por: Paulo César Feital, Marcelo Casa Nossa, André Diniz, Rodrigo Minuetto, Rodolfo Minuetto, Evandro Bocão e Carlos Júnior.

Se na letra o samba tem jeito de Bezerra, na voz não foi diferente. Mais um desempenho arrebatador para a conta do intérprete Carlos Junior, que estreou na Tucuruvi esse ano com o pé direito. A obra é de tão fácil assimilação e tem tantos elementos de identificação com as pessoas que até mesmo o público dos camarotes foi contagiado. Chega a ser curiosa essa observação se lembrar do comentário feito a respeito das “bolhas” no quesito Enredo.
Fantasias
As fantasias das alas da Tucuruvi utilizaram em grande parte das obras de Bezerra da Silva para ilustrar a realidade dos moradores da favela. Quando o tema não eram as músicas do sambista, registros de sua história de vida se fizeram presente para costurar o fio condutor de acordo com a proposta do enredo.

Parece até que foi uma continuidade ramificada para o lado musical do desfile que passou antes. A irreverência das fantasias em contar a realidade do povo periférico e a facilidade como a leitura aconteceu deram ao desfile da Tucuruvi cores raramente vistas em enredos com teor crítico. Se o luxo não reinou nas roupas da escola é porque seria elemento estranho ao desfile, já que falar do povo brasileiro é apelar para o popular e o discurso direto de quem quer ter sua voz ouvida. Risadas foram muitas em alas, com grande destaque para a ala “O Presidente Caô”, com direito a uma cabeça de jacaré com uma coroa e faixa com o nome da fantasia, e também para a ala “O Dia a Dia em Família” que retratou de forma inconfundível a música “Sequestraram Minha Sogra”.
Alegorias
Os carros da Tucuruvi ilustraram diferentes elementos formadores das comunidades que fizeram parte da vida de Bezerra da Silva. O Abre-alas veio com o nome “A Arte que Pulsa ao Som dos Meus Batuques”, com o segundo carro trazendo a religiosidade do sambista com o título “Quem me Protege Não Dorme”. A terceira alegoria foi uma exaltação aos “Talentos Brasileiros à Serviço da Canção”, com o quarto carro finalizando o desfile com um “Salve o Povo da Favela!”.

Um Abre-alas monumental, na forma de grande exaltação ao próprio símbolo da Tucuruvi e em tons de azul com laranja. O segundo carro foi uma exaltação à religiosidade do povo brasileiro através dos símbolos religiosos que ajudaram Bezerra da Silva a superar o momento em que viveu nas ruas de Copacabana. O terceiro carro, porém, é muito similar a uma das alegorias apresentadas no ano anterior, e destoou do conjunto geral. Já o quarto carro finalizou o desfile com maestria ao trazer uma grande favela com componentes interpretando pessoas no dia-a-dia da periferia em diferentes aspectos e espalhados por todos os cantos. As alegorias passaram impecáveis em acabamento, e a leitura de todas elas foi muito clara tal qual as fantasias. Os décimos perdidos em 2022 no quesito podem ser recuperados pela escola este ano.

Outros destaques
Aplausos para a “Bateria do Zaca”, liderada por Mestre Serginho, que junto com o irretocável carro de som deram ao desfile da Tucuruvi um ambiente digno do povo das favelas. A Rainha Carla Prata deu o toque de beleza diante de toda a malandragem das roupas dos ritmistas, e foram um conjunto de alto nível para um desfile de alto nível.

A Tucuruvi se preparou para o Carnaval de 2023 com muita consciência a respeito da própria realidade e de suas pretensões. O resultado disso foi um pré-Carnaval todo moldado sem ter metas ambiciosas, o que resultou em um desfile acima das expectativas e de muito bom gosto. Não seria de se estranhar que a agremiação da região da Cantareira tenha um resultado muito melhor do que o planejado. Desfile para tal, ao menos, eles certamente fizeram.

As baianas da Unidos de Bangu no desfile que conta a história da qualidade do Xangô menino, apresentando os festejos de Aganju, reservou para as baianas, matriarcas do samba e bastiões das religiões de matriz africana, uma parte central. Em “Awá Dupé… a roda de Xangô”, nome do figurino produzido para as guardiões do samba e religião, nos ritos Nagô, Ketu, Efon, Awá Dupé é um agradecimento a presença do rei de Oyó, o orixá Xangô.
Componentes da ala das baianas da Bangu, Maria Inês e sua irmã Maria Nazaré, falaram um pouco sobre a importância do figurino das matriarcas do samba apresentarem uma temática ligada ao afro e sua ancestralidade.
A Unidos de Bangu levou para a Sapucaí em 2023 o enredo “Aganjú: a visão do fogo, a voz do trovão no Reino de Oyó”. O desfile contou a história de uma qualidade de Xangô, apresentando os festejos de Aganju, o Xangô menino, na cultura afro-brasileira. Para quem não o conhece é o orixá ainda criança, diferente da sua qualidade mais conhecida, até sua data de comemoração é diferente, no sincretismo religioso Aganjú é São João e não São Jerônimo
O site CARNAVALESCO conversou com alguns dos integrantes da “Caldeirão Vermelho e Branco” para saber mais sobre a relação que tiveram com a roupa e como está conectada também com o ritmo que produziram. Bruno Bangu, que toca surdo de segunda na bateria, além de ser intérprete da Vila Carioca que desfila na Intendente, falou da importância da bateria retratar uma parte tão importante para o enredo e para a musicalidade de Xangô em geral.
Na linha de Bruno, Gustavo Oliveira, que toca surdo de primeira na Unidos de Bangu comentou a importância de a escola principalmente retomar a apresentação de um tema afro, o que em sua opinião facilita o trabalho dos ritmistas.
Gustavo, nascido e criado na umbanda, também ressalta que a temática escolhida pela escola é importante para que a cultura possa ser grande artifício para vencer a intolerância contra as religiões de matriz africana.
Da ala de cuíca, Ralf Dias e Jairo Carvalho, falaram um pouco sobre como a energia de trazer um toque importante não só para o ritmo, mas para a religiosidade, interferiu até mesmo no astral da agremiação.
” Acho que o tema trouxe uma energia que é sempre positiva para escola, uma fantasia leve, boa para tocar, e Xangô ajudou para que o desempenho fosse satisfatório. E o alujá que é um toque importante para Xangô não podia faltar no desfile”, ressaltou Ralf.













Renato Araújo, repórter da Rádio ABC que é da região metropolitana de Porto Alegre, admitiu que sem o “livrinho”, ele ficaria perdido.
Alexandre Moreira, comentarista da Rádio Roquette-Pinto, também falou da importância do roteiro em suas análises.









Com o nome “Invasões, prisões e confiscos”, o segundo carro da Unidos da Ponte abordou a histórica intolerância religiosa contra as religiões afro-brasileiras que ocorre até hoje. A alegoria falou sobre as apreensões das religiosidades de matriz africana feitas pela polícia, em casas de santo, no começo do Brasil republicano, contando com acervos de objetos da época. Mesmo falando de uma época muito antiga, a alegoria levou a reflexão aos dias atuais, marcados por ataques a terreiros e pela discriminação religiosa.
“A minha fantasia representa Pomba Gira, que é um Exu mulher. Ela serve para desmistificar a maneira como somos conhecidos. Muita gente vê Exu como algo ruim, sendo que não é. Exu é luz, caminho e as pessoas precisam se conscientizar disso. Esse é o papel deste carro”, explicou Lorena.
Paula chegou a ver parte do carro alegórico antes do desfile. Ela lembrou o papel que ele teve no enredo de representar as apreensões feitas na época.
Segunda escola a desfilar neste sábado de carnaval a Unidos da Ponte apresentou-se com o enredo “Liberte Nosso Sagrado: O Legado Ancestral de Mãe Meninazinha de Oxum”. Em um enredo que homenageia uma mãe de santo é claro que a ala de baianas seria um dos pontos alyos da apresentação. As senhoras de São João de Meriti enalteceram o figurino.
Suas fantasias, repletas das cores branco e dourado, formavam um belo conjunto na Sapucaí. “As fantasias estão belíssimas e esplendorosas”, comentou Alda.