Imperatriz abriu desfile com alas representando dias de sorte e azar
Campeã do Carnaval em 2023, a Imperatriz Leopoldinense foi a última escola a desfilar neste primeiro dia de espetáculo das escolas do Grupo Especial. A Rainha de Ramos levou o enredo “Com a sorte virada pra lua segundo o testamento da cigana Esmeralda”. O carnavalesco da agremiação criou duas alas que fizeram referência ao calendário da cigana: a ala nove representou os dias de sorte, enquanto a dez retratou os dias de azar.
As fantasias eram acompanhadas de estandartes de mão. Em cada uma, uma data que, segundo a cigana, traria sorte ou azar. É o que explica o diretor da ala, Lucas Santiago, de 28 anos. Para ele, a quarta-feira de cinzas pode representar um dia de sorte ou de azar: tudo depende do resultado do carnaval.
“A ala representa os dias de sorte, aquele dia que você acorda com sorte. Por isso que a ala vem com estandartes e com várias datas, como 4 de fevereiro e 16 de dezembro. Esses são os dias de sorte segundo o testamento da Cigana Esmeralda. O dia feliz será a quarta-feira de cinzas – se a Imperatriz for campeã. Se não for, será um dia de azar (risos)”, disse Lucas.
Em meio a expectativa para o bicampeonato, o 11 de fevereiro realmente entrou no calendário da sorte, segundo os leopoldinenses. Confiante, Raphaela Jesus, 22 anos, componente da ala, acredita que a quarta-feira de cinzas será o grande dia de sorte para a comunidade de Ramos.
“Deus queira que a quarta-feira de cinzas seja um dia feliz com a Imperatriz sendo campeã. Hoje é um dia feliz, porque estou muito confiante e acreditando que a vitória virá. A fantasia está impecável e surreal e destaca a busca pelo bicampeonato”, disse Raphaela.
Apesar da fé no testamento da cigana Esmeralda e com a sorte virada pra lua, a Imperatriz Leopoldinense ainda vai precisar esperar e torcer para a quarta-feira ser de sorte: Nesta segunda-feira, passam pela Marquês de Sapucaí Mocidade Independente de Padre Miguel, Portela, Vila Isabel, Mangueira, Paraíso do Tuiuti e Viradouro.
Mocidade Unida da Mooca encerra desfiles do Acesso I com chave de ouro e vira uma das favoritas pelo título
Por Gustavo Lima e fotos de Fábio Martins
Fechando todo o carnaval paulistano, a Mocidade Unida da Mooca deu ao público um desfile de gala. Digno de Grupo Especial. A MUM gabaritou praticamente em todos os quesitos e a escola conseguiu homenagear a escritora Helena Thedoro perfeitamente. A comissão de frente onde havia uma Helena criança interagindo com a sua mãe de religião africana, Iansã, foi um dos pontos altos do desfile. Além disso, o canto, bateria e as alegorias foram de uma enormidade. O abre-alas vale um destaque especial por sua grandiosidade, foi algo monumental que deu a escola um conjunto alegórico que viria a ficar em evidência logo após. Contudo, vale ressaltar que tudo o que foi feito nos ensaios técnicos, a agremiação da Zona Leste repetiu no desfile oficial e, com isso, a briga pela vaga no Especial é uma realidade novamente para a comunidade da Mooca sonhar.
Com o enredo “Oyá Helena”, a Mocidade Unida da Mooca fechou o grupo de Acesso I e todos os desfiles das agremiações filiadas á Liga..
Comissão de frente
A ala mostrou uma coreografia criativa e de fácil leitura. Nela, uma criança representava Helena Theodoro criança e interagia com outra bailarina que representava a orixá Iansã. Aparentemente, a entidade dava à criança o dom da leitura. No grande tripé elaborado, ela subia, abria um livro e começava a jogar borboletas. Uma encenação lúdica, mas que indicava o perfeccionismo que a escritora iria herdar no futuro. Grande sacada do coreógrafo do coreógrafo Nilson Jeffer e, com certeza, um dos destaques do desfile da MUM.
Mestre-sala e Porta-bandeira
O estreante casal, Jefferson Gomes e Karina Zamparolli, não sentiram o peso de pisar pela primeira vez em um desfile oficial pela Mocidade Unida da Mooca. A dupla realizou uma apresentação para lá de satisfatória. O entrosamento desde a Mocidade Alegre nitidamente permanece e dá para analisar que os dois saem felizes com o desempenho. A sincronia entre os movimentos na coreografia fora vital para o sucesso da atuação.
Enredo
O tema da MUM consistia em homenagear a escritora Helena Theodora em forma de religiosidade, visto que ela é filha da orixá Iansã, na ótica da matriz africana.
Tudo foi explicado perfeitamente, principalmente na comissão de frente. A ala já decifrou o enredo inteiro, onde acima foi explicado, que ambas interagiam entre si e a entidade dava o dom para a criança que representava a Helena.
Alegorias
O abre-alas veio com uma grande escultura realista logo à frente. Na alegoria, havia bastante água, parecia até uma pequena chuva e deixou um pouco a pista molhada. Belo jogo de cores e abriu bem o conjunto alegórico que a Mocidade levou ao Anhembi.
A segunda alegoria foi totalmente dedicada à escola de samba Acadêmicos do Salgueiro. Não é segredo que Helena tem uma paixão pela agremiação. Com isso, a MUM fez um carro com iluminação toda vermelha e uma escultura de Xangô com martelo e segurando o brasão da ‘academia do samba’.
O terceiro carro foi visto com uma gigante escultura de um búfalo. Acoplado, a homenageada desfilou nesta alegoria, sendo na primeira parte da própria. Um tom todo dourado destacou o elemento.
Fantasias
Vestimentas bem acabadas e com fácil domínio dos componentes deram o tom do quesito. A Mocidade Unida da Mooca abriu mão do luxo, mas não deixou de colocar a grandiosidade em suas roupas. Foi visto que a escola abusou bastante do vermelho, cor predominante da agremiação, o que deu certo. Sobre a evolução com as próprias, os desfilantes se sentiram à vontade e conseguiram se movimentar facilmente, bem como fizeram nos ensaios técnicos.
Harmonia
O canto da MUM, como sempre, foi forte. Esse samba claramente foi o mais abraçado desde o ano de 2020. Só para recapitular, na apresentação da quadra, quase toda a quadra já sabia a letra. E isso já foi levado para a avenida nos ensaios técnicos e sacramentado no desfile oficial. Uma harmonia forte do início ao fim foi destaque e, além disso, vale destacar que os integrantes da harmonia estavam leves e havia pouca cobrança para cima dos componentes.
Samba-enredo
Impressionante a performance do trio Bico-Doce, Gui Cruz e Clayton Reis, especialmente do primeiro, que teve o tom mais evidente que os demais. Os outros, apareciam nos cacos dentro do samba. Talvez pelo fato do forte grave que a voz do Bico tem. A performance do carro de som casou perfeitamente com a bateria e tudo deu certo no quesito. Mais um tópico gabaritado.
Evolução
O quesito fluiu naturalmente. Em todos os setores, mesmo com os vários tripés levados, a evolução foi satisfatória. O espaçamento foi válido entre as alas e as fileiras conseguiram evoluir bem entre si. Foi uma noite em que deu tudo certo para a Mocidade Unida da Mooca, e o quesito evolução é um grande termômetro para avaliar tais questões.
Outros destaques
A bateria “Chapa Quente”, regida pelo mestre Dennys, deu um andamento diferenciado. De longe, parece uma batucada acelerada e, de perto, cadenciada. Um dos destaques do desfie também.
A rainha de bateria, Waleska Reis, sambou na frente da bateria e se destacou por uma coreografia que realizava junto a um grupo cênico. Tal feito, provocou uma grande reação do público.
Vários tripés foram levados, com destaque para sambistas ligados à Helena, como Beth Carvalho, Jorge Aragão e Zeca Pagodinho.
Estrela do Terceiro Milênio empolga em diversos momentos e quesitos em desfile no Grupo de Acesso I
Por Will Ferreira e fotos de Fábio Martins
Desde a revelação do enredo para a comunidade do samba paulistana e para os torcedores, muito se esperava da Estrela do Terceiro Milênio para 2024. Sétima (e penúltima) escola a desfilar no Grupo de Acesso I, no domingo de carnaval, a agremiação do Extremo Sul de São Paulo cumpriu com tudo o que prometeu – e que também incluiu a escolha de um samba-enredo bastante bem quisto pelo universo carnavalesco da cidade e ensaios técnicos extremamente bem feitos. Defendendo “Vovó Cici conta e o Grajaú canta: O Mito da Criação”, temática desenvolvida pelo carnavalesco Murilo Lobo, a escola teve ótimo rendimento do samba-enredo, da comissão de frente e do estreante casal de mestre-sala e porta-bandeira.
Comissão de Frente
Vencedora do Estrela do Carnaval do Grupo Especial de 2023, o segmento, mais uma vez coreografado por Régis Santos, teve nome “A missão de Vovó” nesta temporada. Para marcar o único segmento que trata da Vovó Cici enquanto pessoa, e não sobre a Criação do Mundo narrada por ela, a agremiação, antes de mais nada, trouxe a própria homenageada no alto de um baobá. Em um ato, sempre marcando o samba, é narrada a história da jovem soteropolitana Cici, que renegava a própria religião e vai se encontrar com sua espiritualidade apenas ao sofrer um atropelamento no Rio de Janeiro. Ao passar a fazer parte do candomblé, ela se ilumina e é abraçada por crianças e criaturas especiais.
Mestre-Sala e Porta-Bandeira
Estreando como o primeiro casal da agremiação, Arthur Santos e Waleska Gomes, com a fantasia “Mitologia Ancestral”, tiveram ótima atuação. Nos quatro módulos, foram observados giros potentes, muita sincronia, expressividade e balizamentos obrigatórios cumpridos. Nos dois últimos módulos, é bem verdade, Arthur teve discretíssima hesitação em desfraldar o pavilhão da escola do Grajaú, mas nada capaz de despontuar a dupla. Vale destacar também um fato externo ao casal que mostra que, além da técnica refinada de ambos, os dois também são guerreiros. O abre-alas, que vinha logo atrás de Arthur e Waleska, emitia uma luz piscante bastante forte, que incomodava quem estava a metros de distância – imagina, então, quem estava religiosamente na frente de tal iluminação. Nada, porém, que pudesse atrapalhá-los.
Enredo
Embora o título do enredo enfoque o Mito da Criação na visão de religiões de matriz africana, em alguns momentos, a própria história de Vovó Cici é contada. A comissão de frente, por exemplo, traz uma jovem Cici que renegava a própria ancestralidade e sofria, encontrando paz de espírito apenas ao se aproximar do candomblé. Interessada em contar a visão de mundo dos afrodescendentes para pessoas cada vez mais próximas de uma única cultura dominante, completamente caucasiana, ela passou a trabalhar na Fundação Pierre Verger, em Salvador, onde pesquisa e compartilha conhecimento sobre entidades africanas. A partir da primeira ala, se inicia a história do Mito da Criação propriamente dito contada por Vovó Cici – destrinchado aqui. No final, uma mensagem de amor e tolerância encerra toda a história pedindo respeito e apreço pelo próximo – independentemente de religiões, cores, credos ou opções.
Alegorias
O abre-alas, com dois chassis acoplados (o primeiro deles seguia a estética do pede-passagem, que vinha antes do casal de mestre-sala e porta-bandeira), mesclava muito bem tons de tourado no início (intitulado “Olodumare no orun entrega o saco da criação”) e bastante escuros no final (com o nome de “Obatalá no nada adormece à sombra da palmeira”). Já o segundo, “O Ayê (planeta) criado e o triste despertar de Obatalá”, mais claro, ilustra o momento no qual a divindade africana percebe que errou com Olodumare. Por fim, com uma mensagem positiva para o futuro, a terceira alegoria, “As 3 raças, as bênçãos e os griôs (do axé e do samba), mesclava esculturas joviais com pessoas claramente de mais idade – indicando o respeito que cada uma delas merecia. Também havia o quadripé “A árvore ancestral e o chorar feito menino”, que não tinha papel colante inteiramente liso na totalidade do espaço, criando um efeito diferente do encontrado na imensa maioria do mesmo. O tripe também possuía rodinhas aparentes.
Fantasias
Para quem prestou atenção no samba-enredo, bastava ter uma linha cronológica mental bastante simples para identificar o que era cada fantasia. Vale pontuar que, após o segundo carro, “O Ayê (planeta) criado e o triste despertar de Obatalá”, as alas de 06 a 10 (respectivamente: “O ser de nuvem”, “O ser de areia”, “O ser de fogo”, “O ser de ferro” e “O ser de pedra”), como os próprios nomes deixam claro, tinham assimilação praticamente instantânea. Vale destacar, também, o quanto, no geral, cada fardamento tinha costeiros com envergaduras largas, demonstrando opulência. O bom gosto na escolha de cores e materiais também ficou bastante evidente ao longo de toda a exibição. Como ponto de observação, o destaque da segunda alegoria teve a fantasia quebrada na frente do primeiro módulo de julgamento – o que pode acarretar em perda de pontuação no dia da apuração.
Harmonia
Desde quando começou a aparecer nos grupos da Liga-SP, a Estrela do Terceiro Milênio sempre chamou atenção, entre outros motivos, pela força da comunidade. Além de sempre levar ótimo contingente em cada evento, absolutamente nada abala o canto dos componentes. Em 2024, mais uma vez, a sina se repetiu. Sem oscilação, não houve percalços – e o volume emitido pelos desfilantes foi sempre algo próximo de um grito a cada verso. Em alguns momentos, era possível ouvir com mais clareza o som que vinha da passarela, não o que saía das caixas de som – algo raríssimo no Anhembi em 2024.
Samba-enredo
Muito elogiado pela comunidade do samba paulistana desde quando foi revelado aos torcedores e ao público e composto por Rodrigo Schumacker, Thiago Meiners, Darlan Alves, Pitty de Menezes e Claudio Mattos, a canção defendida pela Estrela do Terceiro Milênio destrincha de maneira bastante poética o enredo – sendo, inclusive, muitas vezes utilizado pelo carnavalesco para explicar a própria temática da agremiação do Grajaú. Se o refrão principal busca apresentar Vovó Cici como pessoa e contadora de histórias (fazendo um paralelo com a própria escola, como é de praxe), boa parte do restante da obra foca na história contada pela griô, com expressões e entidade citadas por ela própria de maneira nominal. No final da obra, ainda há espaço para um pedido por mais respeito e tolerância para com o próximo – algo que também está incluso no enredo.
Evolução
Empoderada e ciente da própria força, a agremiação, desde o primeiro instante, fez questão de ter andamento mais célere que a maioria das outras escolas da noite. A preocupação com o quesito parecia ser tão grande que, enquanto o primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira se apresentava em cada módulo, os setores que vinham à frente (comissão de frente, uma ala e um pede-passagem) não paravam de avançar. Se seria necessário ou não ter tal atuação, jamais conseguiremos saber. O fato é que, no cronômetro, o Grajaú não teve problema algum em tal aspecto.
Outros Destaques
Na corte da bateria, estavam a musa Mirela Birnfeld Leite, Giovana Pyetra e Marcela Caval – as duas últimas oriundas do projeto Estrelas do Amanhã, tocados pela escola. Por falar na Pegada da Coruja, comandada por Mestre Vitor Velloso, é importante mencionar que, em diversos momentos, ele realizava duas convenções distintas: a primeira delas era apenas nos instrumentos de marcação, enquanto outro continha atabaques.
Pérola Negra canta forte para exaltar as quebradeiras do côco babaçu, mas peca em problemas de evolução
Por Eduardo Frois e fotos de Fábio Martins
Era pouco mais de meia noite de segunda-feira quando a agremiação da Vila Madalena adentrou a passarela do samba para iniciar sua apresentação. Quarta a desfilar no Grupo de Acesso do carnaval paulistano, a Pérola Negra contou a história das quebradeiras de côco babaçu. Destaque para o potente canto da escola e para a bateria Swing da Madá. Porem, problemas de evolução comprometeram o desfile. Com o título do enredo “Pérola – No encanto dos balaios das quebradeiras”, a escola fechou sua passagem pela avenida aos 56 minutos.
Comissão de Frente
A fantasia da comissão de frente veio representando “As guardiãs da natureza e os conflitos da vida”. Havia um tripé com três coqueiros de babaçu. O segmento inicial da escola foi subdividido em dois grupos distintos, mas que se encontravam em determinada parte da dança. Oito dos integrantes estavam vestidos de folhagem, dois deles com roupa vermelha, dois de amarelo, dois de verde e os outros dois de azul.
Enquanto isso, o outro grupo era composto por três mulheres representando as ganhadeiras do côco, três homens vestidos de labaredas da floresta e mais uma figura feminina. Coreografados por Alê Batista, os componentes desse segundo grupo travavam uma espécie de disputa. Num primeiro momento, os rapazes das labaredas enfrentavam as ganhadeiras, fazendo gestos corporais as ameaçando. Depois, na parte final da coreografia, as ganhadeiras surgem empoderadas para desafiar as chamas que ameaçam a biodiversidade da floresta.
Mestre-Sala e Porta-Bandeira
O primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira, Kadu e Camila, desfilou com uma fantasia nas cores da Pérola Negra simbolizando a ancestralidade dos povos que sobrevivem do côco babaçu. Kadu veio com o rosto pintado, vestindo uma roupa vermelha e dourada, com diversas penas rubras. Enquanto Camila utilizou uma requintada indumentária repleta de penas azul turquesa, com o corpo da saia em dourado.
A coreografia executada pelo casal da Pérola foi feita com sucesso ao longo da passarela. Apesar do tripé da comissão de frente “os esconder” por alguns instantes, os dois realizaram corretamente os balizamentos do quesito para apresentar o pavilhão da escola. Nos dois primeiros módulos de jurados foi observado certa desaceleração no bailado de ambos, talvez por conta dos problemas de evolução no início do desfile.
Enredo
O enredo entitulado “Pérola – No encanto dos balaios das quebradeiras”, assinado por André Marins, se propôs a carnavalizar a história das mulheres encarregadas de manter viva a tradição da colheita do fruto de palmeira, que é abundante na região nordestina. A passagem da escola foi iniciado com uma grande floresta de babaçueiros, onde as ganhadeiras simularam a catação do côco babaçu.
Ao longo do desfile, a Pérola Negra explorou a cultura maranhense e o artesanato desenvolvido com as diferentes partes do côco. No último setor da vermelho e azul da Vila Madalena, o enredo se propõe a falar sobre o futuro das quebradeiras, passando pela Lei do Babaçu Livre e finalizando com uma alegoria carregada de referências tecnológicas. Lei essa que foi sancionada para as quebradeiras poderem usufruir do côco e entrarem dentro das fazendas para fazerem a colheita do babaçu.
Alegorias
O carro abre-alas da escola da Vila Madalena trazia em sua base frontal um grande letreiro escrito “Pérola” em azul. Mais acima, um rosto africano com ornamentação dourada e o brasão da entidade. Nas laterais, haviam esculturas de mulheres negras com o corpo pintado e diversos chifres de marfim. No alto da alegoria, atrás do destaque central, uma enorme escultura articulada representava o encanto das florestas.
O segundo carro da Pérola Negra trazia um belo casarão maranhense, repleto de azulejos português. A escola faz uma brincadeira relembrando o rei Sebastião, em uma espécie de analogia com o enredo, em que o babaçu se torna o grande Rei dessa cultura maranhense. Diversas esculturas de bois que se movimentavam estavam presentes nas laterais do carro, que ainda trazia um grande boi no centro. O quadripé “As quebradeiras” passou com sua iluminação apagada.
A terceira e última alegoria da Pérola retratou as possibilidades tecnológicas a partir do trabalho das ganhadeiras. O carro era todo em tons de azul e prata, repleto de engrenagens distribuídas pelas laterais. Pequenas esculturas de rostos prateados fizeram parte da lateral do carro, porém alguns espelhinhos que faziam o acabamento dessas esculturas estavam descolando.
Fantasias
A Pérola Negra percorreu o sambódromo do Anhembi com suas 15 alas devidamente bem fantasiadas. Destaque para a bela roupa das alas 06 – A Preservação, em rosa e verde, e 07 – A coroação do Rei Babaçu, em amarelo e dourado. O segundo casal de mestre-sala e porta-bandeira, que veio entre as duas alas representando “A riqueza da terra” também vestia uma belíssima indumentária. Porém, a ala 08 – A culinária veio com um integrante sem algumas das penas do costeiro da fantasia.
Harmonia
A escola da Vila Madalena apresentou uma harmonia coesa e constante em relação ao canto. Os componentes da Pérola Negra entoaram o samba-enredo de forma empolgante, contagiando todos os setores da agremiação. Do começo ao fim do desfile pode-se observar todas as alas da escola cantando (exceto a comissão de frente, que não é obrigada a cantar o samba) sem deixar abaixar o nível. Mérito também do carro de som e da bateria.
Samba-enredo
O belo samba-enredo da Pérola Negra foi um dos pontos altos do desfile sobre as ganhadeiras do côco babaçu. A obra que foi composta por Liso, Rogerinho Tavares, André Ricardo, Professor Ph, Professor Oderlan, Myngal e Chacal do Sax rendeu bastante na voz do intérprete Bruno Ribas e seu time de canto. O trecho do segundo refrão, que se inicia com “quebra côco, quebradeira” era a parte mais cantada pelos componentes.
Evolução
A evolução foi o quesito mais problemático deste desfile da Pérola Negra, especialmente na montagem da escola na concentração. No primeiro setor do sambódromo abriu um buraco entre as alas 02 “A riqueza que a terra dá – A colheita” e 03 “Sangue do óleo”, que só foi corrigido um pouco mais a frente. Outro buraco no setor inicial pode ser observado entre a ala 09 “O artesanato” e o quadripé “As quebradeiras”, também corrigido já durante a avenida. Por conta desses buracos a escola começou sua evolução de forma mais lenta do que terminou seu desfile.
Outros Destaques
Vale destacar a excelente apresentação da bateria Swing da Madá, de mestre Fernando Neninho, que veio homenageando seu pai, mestre Neno, nas peles dos instrumentos. As bossas executadas ajudaram a impulsionar o samba-enredo e o canto da escola. A Pérola trouxe ainda, a frente da batucada, uma ala de tam-tam, instrumento que também já foi muito utilizado por mestre Neno. A frente da bateria, vieram: a rainha Ana Itikawa e a madrinha Joyce Rocha, sambando ao som da bateria.
Unidos de Vila Maria exalta o Orixá Ogum com destaque para o bom aproveitamento nos quesitos técnicos
Por Lucas Sampaio e fotos de Fábio Martins
A Unidos de Vila Maria realizou na noite de domingo seu desfile no Sambódromo do Anhembi no carnaval de 2024. Os quesitos técnicos foram o grande destaque do desfile da agremiação, mas diferentes problemas, em especial com fantasias e em uma alegoria, comprometeram a passagem da comunidade da Zona Norte. A Mais Famosa foi a sexta escola a se apresentar pelo Grupo de Acesso 1, fechando os portões após 57 minutos.
Comissão de Frente
A comissão de frente intitulada “Gira de Ogum” se apresentou em dois atos marcados por passagens do samba. O grupo era dividido em três, sendo um ator caracterizado como um Orixá de roupas vermelhas segurando correntes e os demais atores divididos em metade caracterizados como Ogum e a outra metade como São Jorge.
No primeiro ato ocorre muita interação entre os Oguns e os santos, enquanto na segunda parte a corrente do Orixá solitário é utilizada para uma interação entre eles. A dança foi marcada pelo vigor explícito. Os agrupamentos, empunhando espadas, arrastavam elas pelo chão e trocavam golpes, fazendo barulhos chamativos. Foi observado que ao longo do desfile a corrente passou a apresentar um nó, que pode ou não ser apontado pelos jurados.
Mestre-Sala e Porta-Bandeira
O primeiro casal da Vila Maria, formado por Mauro César e Geisle Siqueira, desfilou com fantasias nomeadas “Energia do Irin”, e foi acompanhado de um grupo de guardiões chamados “Sabedoria”. O desempenho da dupla no desfile foi irregular. No primeiro módulo, o mestre-sala derrubou o adereço de mão (lenço) o qual é obrigado a carregar durante a apresentação. Nos módulos dois e três houveram falhas de sincronismo dos movimentos, com o mestre-sala parando giros antes da porta-bandeira em diferentes oportunidades. O quarto módulo foi o mais correto da dupla, mas a porta-bandeira girou em falso para um lado no início da coreografia.
Enredo
O enredo da Unidos de Vila Maria em 2024 foi “Forjados na luta, guiados na coragem e sincretizados na fé: a Vila canta Ogum!”, assinado pelo carnavalesco Fábio Ricardo. A proposta da Mais Famosa foi falar de Ogum através das diferentes manifestações do Orixá guerreiro. A luta cotidiana da vida das pessoas é refletida nas armas de Ogum e de São Jorge, sua representação na umbanda. A ideia foi, ao final dessas diferentes retratações, Ogum é coroado o “Rei do Irê” após uma apresentação tomada pela fé o sincretismo religioso.
A leitura do desfile da Vila foi fácil ao longo de toda a Avenida. As alas se comunicavam com as alegorias dentro da proposta do enredo e contribuíram positivamente para carnavalização da proposta da escola.
Alegorias
A Mais Famosa se apresentou com três carros alegóricos. O Abre-alas foi intitulado “Agbará de Ogum”, enquanto a segunda alegoria recebeu o nome de “Tem Festa no Xirê” e a terceira foi nomeada de “Salve Jorge”. As alegorias tiveram como representação a força das manifestações do Ogum, destacando na primeira alegoria a figura de Ogum no candomblé, na segunda os diferentes Oguns nas rodas de evocação dos Orixás e por fim a presença de São Jorge, santo católico ao qual o Ogum é atribuído na umbanda.
O conjunto de alegorias da Vila Maria foi belo, bem acabado e marcante, a destacar especialmente o segundo carro com a grande escultura em ferro representando Ogum. Os carros contribuíram positivamente para a leitura da narrativa no geral, porém, a terceira alegoria passou pela Avenida com a iluminação totalmente apagada.
Fantasias
As fantasias da Vila Maria formaram a composição do sincretismo religioso proposto pela escola. As primeiras alas faziam referência a Ogum e seus diferentes elementos, como seus ritos, chegando na parte final com a passagem às referências a São Jorge.
A vestimenta da escola foi capaz de permitir uma leitura bem clara do enredo ao longo de toda a Avenida, mas alguns segmentos apresentaram problemas com a peça da cabeça. Em dois diferentes módulos, o chapéu de um dos guardiões do primeiro casal caiu, algumas baianas também tiveram problemas com o adereço e a queda do adereço também foi percebida na ala “Salve São Jorge”
Harmonia
Um dos quesitos fortes da Vila Maria no desfile, o canto da comunidade se destacou em todo o desfile. O samba foi clamado pelas alas com clareza e desenvoltura pelos componentes, que em algumas alas demonstravam muita empolgação. Destaque especial para a ala “Ritual de Axexê”, que continha desfilantes especialmente animados.
Samba-enredo
O samba da Unidos de Vila Maria foi composto por Véia, Roberto Garcia, Martins, Zeca do Cavaco, Didi Pinheiro, Maradona e Dão, e foi defendido pela ala musical liderada pelos intérpretes Royce do Cavaco e Nêgo. Um samba funcional, capaz de narrar o enredo com clareza e que costurou bem com as representações das alegorias e fantasias, e que foi clamado animadamente pela comunidade da escola.
Evolução
O quesito mais forte da Vila Maria. A escola conseguiu fluir com tranquilidade por toda a Avenida, fazendo o recuo com segurança e dando liberdade para a comunidade brincar o carnaval, fechando os portões após 57 minutos de desfile.
Outros Destaques
A bateria “Cadência da Vila” esteve em grande noite sob comando do mestre Moleza. Bossas criativas e bem executadas, pensadas para enriquecer o andamento do samba, se destacaram no segmento musical da escola. A Rainha Savia David reinou soberana diante dos ritmistas com uma bela fantasia chamada “Me Visto de Mariwo”.

