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Comissão de Frente e Alegorias impactantes marcam desfile do Império de Casa Verde

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O Império de Casa Verde abriu, no último sábado, o segundo dia de desfiles do Grupo Especial em São Paulo. No Carnaval de 2026, a escola fez uma apresentação marcada pelo impacto inicial da comissão de frente e pelo imponente conjunto alegórico, com o cortejo sendo encerrado após 62 minutos. O Tigre Guerreiro desfilou com o enredo “Império dos Balangandãs: Joias Negras Afro-Brasileiras”, assinado pelo carnavalesco Leandro Barbosa.

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É preciso aplaudir a iniciativa de celebrar a conquista das mulheres negras que lutaram por sua liberdade de forma inteligente e criativa. A proposta do desfile foi de levantar o público com um desfile leve e alegre, e inicialmente a escola estava obtendo grande êxito. Mas o excesso volumétrico das fantasias atrapalhou o próprio esforço da comunidade imperiana de fazer a sua parte, e é algo que fica como reflexão para o futuro. O luxo das alegorias é uma marca que o Império nunca deve deixar de ter, faz parte de sua identidade, mas a pista é lugar de brincar o Carnaval, e os componentes precisam ter melhores condições de fazer isso.

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COMISSÃO DE FRENTE

Coreografada por Sérgio Cardoso, a comissão de frente do Império representou na Avenida “Dona Fulô e o sonho de liberdade”. O quesito contou com um elemento alegórico imponente, no qual, do alto do tablado, uma personagem interpreta a narradora do enredo, e em cada parte o grupo cênico mudava. Analisando as duas passagens do samba em que o quesito performa, percebeu-se que no primeiro ato havia uma interação entre atores com vestes compostas por correntes interagindo em pares com outros vestidos com um tipo de chama. A protagonista parecia sofrer na alegoria enquanto isso, até que surge uma segunda mulher, com roupas parecidas, mas mais rústicas, interage com ela e desce ao chão. O elenco muda, e essa mulher, sorridente e com um cesto cheio de vegetais, passa a interagir com mulheres cobertas por ouro.

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A conclusão obtida é que a segunda mulher que surge é a própria Dona Fulô, mas em sua versão “do mundo dos sonhos”, que encontra a liberdade graças ao ganho e passa a aproveitar a vida feliz. Se foi isso mesmo que o quesito quis representar, a ideia foi maravilhosa e funcionou muito bem na Avenida. Um dos principais destaques do desfile imperiano.

MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA

Estreando como guardiões do pavilhão oficial do Tigre Guerreiro, o casal formado por Patrick Vicente e Sofia Nascimento desfilou com fantasias representando “Joias em fios de contas de ouro”. Definitivamente não sentiram o peso de defender o manto imperiano. A dança foi sublime, com elementos originais de finalização de movimentos obrigatórios, e o talento do mestre ao manipular o cetro nas mãos enquanto performava é admirável. Ventou em demasia durante o desfile, mas em todos os quatro módulos a porta-bandeira foi valente e desempenhou muito bem.

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ENREDO

“Império dos Balangandãs: Joias Negras Afro-Brasileiras” é um enredo que celebra o empoderamento e a ancestralidade das mulheres escravizadas no século XVIII. Em busca de comprar a própria liberdade, as chamadas ganhadeiras precisavam ser criativas para angariar os fundos necessários. A narrativa ocorre sob a perspectiva de Dona Fulô, uma das primeiras a obter o ganho através da venda de joias.

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Apesar de abordar os desafios enfrentados pelas vítimas do sequestro praticado pelos europeus na chamada diáspora africana, o enredo deixa essa parte em segundo plano para irradiar leveza e mostrar a forma como o ganho era obtido. A temática lembrou muito o desfile campeão da Unidos do Viradouro, ocorrido no Carnaval do Rio de Janeiro em 2020, mas mostrando uma outra forma de se obter a alforria. Na Avenida, a leitura do enredo foi muito fácil, tornando a apresentação especialmente cultural e didática dentro da combinação entre conjunto visual e musical.

FANTASIAS

O conjunto de fantasias do Império complementou a narrativa das alegorias ao trazer elementos necessários para a compreensão da narrativa de cada carro. É uma forma de enriquecer a narrativa dos principais elementos visuais, e que funciona positivamente para a compreensão do desfile até para os mais leigos. Visualmente belas, as vestimentas impactaram positivamente na impressão transmitida de uma escola luxuosa e imponente. Na Avenida, porém, notou-se que as fantasias em diversas alas eram muito volumosas e pesadas, dificultando aos componentes brincarem o Carnaval e reduzindo o andamento do samba conforme a escola atravessava a Passarela do Samba.

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ALEGORIAS

O Império de Casa Verde apresentou na Avenida um conjunto de quatro carros alegóricos e um tripé. A leitura das alegorias era simples e prática de acordo com os nomes que cada uma recebeu. São eles: o Abre-alas, “Império de joias negras”, o Carro 2, “Joias como roupa e o corpo como cofre ancestral”, o Carro 3, “Sincretismo no altar”, o tripé “Afrojoia de quitute – Tia Ciata”, e o Carro 4, “Liberdade. O grito das ganhadeiras”.

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Dentro da proposta do enredo, as alegorias cumpriram seu papel narrativo. Esteticamente, cumpriram o esperado de grande volumetria e luxo, que são marcas tradicionais do Tigre Guerreiro. Não foram observadas irregularidades de acabamento, o que complementa a impressão de que o quesito pode render boas notas no dia da apuração.

HARMONIA

O samba imperiano começou bem explosivo sua passagem pelo Sambódromo do Anhembi. Nos primeiros setores, a comunidade cantou vigorosamente e animada a excelente obra escolhida pela escola. Só que, conforme o cortejo passava pela Avenida, notou-se uma queda de andamento, com os desfilantes demonstrando certo cansaço em meio a uma noite de sensação térmica mais intensa do que o esperado.

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EVOLUÇÃO

A fluidez inicial do desfile do Império permitiu que a escola fechasse os portões em tranquilos 62 minutos de desfile. O recuo da bateria foi bem-executado, contando com auxílio da comprometida corte de bateria da escola. Mas, posteriormente a esse momento, na altura do módulo três, percebeu-se que o cortejo não foi tão fluido como se esperava, com a escola oscilando entre andar, acelerar e parar. Não foram observadas aberturas de buraco em nenhum momento no alcance da visão, mas se essa observação quanto ao andamento foi registrada em mais setores, pode tirar alguns décimos importantes para as pretensões do Tigre.

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SAMBA-ENREDO

O samba do Império para o Carnaval de 2026 foi assinado por Diogo Nogueira, André Diniz, Arlindinho Cruz, Bocão, Darlan Alves e Fabiano Sorriso, e na Avenida foi defendido pela dupla de intérpretes Tinga e Tiago Nascimento, esse que foi promovido do elenco de apoio para o posto principal da ala musical. Trata-se de uma das obras mais elogiadas da safra, apostando em uma melodia dançante e animada, mas que consegue narrar a proposta do enredo com riqueza de detalhes.

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A letra cumpriu bem o seu papel de contribuir para a narrativa do enredo, com seus elementos sendo observados nas fantasias e alegorias imperianas. O carro de som esteve em grande noite, performando com excelência a obra e levantando o público por onde passou. O samba não teve culpa nas observações feitas quanto à harmonia da escola.

OUTROS DESTAQUES

A “Barcelona do Samba”, do veterano mestre Zoinho, novamente deu um belo espetáculo no Sambódromo do Anhembi, com direito a um breve ‘pagodinho’ contagiante durante a passagem pela arquibancada Monumental. A corte de bateria, comandada pela Rainha Theba Pitylla, precisa de um destaque especial, por trabalhar ativamente quando foi necessária, durante a execução do recuo dos ritmistas. Parabéns ao quesito pela excelente performance.

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Águia de Ouro 2026: Galeria de fotos do desfile

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Ala da Em Cima da Hora representa a força espiritual feminina ao evocar Pombagiras

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A segunda agremiação a desfilar neste sábado levou à Marquês de Sapucaí o enredo “Salve Todas as Marias: Laroyê, Pombagira!”, idealizado pelo carnavalesco Rodrigo Almeida, em celebração à entidade Pombagira, que personifica o sagrado feminino e reflete o pertencimento desses corpos, que há décadas lutam por direitos.

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O enredo reafirma o poder feminino ao colocar a imagem das Pombagiras como a real dona das festas e das ruas, com sua liberdade, mistério e sedução. A primeira ala da agremiação se chama “Estende um tapete de rosas para ela passar: As donas da rua”, indicando uma evocação, para que os caminhos se abram para o desfile. Além disso, a ala também representa a essência feminina de mistérios, magias e poder, por meio dos tecidos de renda, saia com babados e, principalmente, pela presença das cores vermelho, dourado e preto.

Kelly Cristina costureira de 52 anos
Kelly Cristina, costureira de 52 anos
FOTO: Maria Estela Costa/CARNAVALESCO

Kelly Cristina, costureira de 52 anos, desfila pela primeira vez na agremiação. Motivada pelo enredo, ela decidiu entrar na Passarela do Samba com emoção, representando não só sua religião e as Pombagiras, mas também a essência feminina.

“Eu não digo que eu tenho uma Pombagira, eu digo que eu tenho uma fada madrinha. É ela que me ajuda muito. Nos momentos mais difíceis da minha vida era ela que estava ao meu lado. Foi ela que me levantou. Ela ensina justamente você a ser liberta, a você se empoderar”, contou Kelly.

O administrador Wagner Guimaraes de 40 anos
O administrador Wagner Guimarães, de 40 anos
FOTO: Maria Estela Costa/CARNAVALESCO

O administrador Wagner Guimarães, de 40 anos, desfila na escola há 22 anos, mas neste ano acredita que será diferente: com uma emoção que vem da alma e com o respeito pela ancestralidade do samba, além da honra, por representar uma entidade feminina.

“É o poder da mulher, o poder da mãe, e isso é muito importante. Eu sendo homem e poder representar uma mulher é uma honra. É uma honra, é uma oportunidade única”, disse Wagner.

Luciana Joaquim advogada de 45 anos
Luciana Joaquim, advogada de 45 anos
FOTO: Maria Estela Costa/CARNAVALESCO

Luciana Joaquim, advogada de 45 anos, também foi motivada a desfilar em 2026 na Em Cima da Hora por conta do enredo, justamente por ter muita admiração e devoção pelas Pombagiras, que representam, para ela, o amor próprio.

“Essa intolerância de achar que são entidades que fazem coisas do mal, e não são. São entidades que fazem o bem, que ajudam, que dão proteção, que abrem caminhos”, afirmou Luciana.

Abre-alas da Botafogo Samba Clube floresce no imaginário da Sapucaí um jardim

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A Botafogo Samba Clube trouxe toda a exuberância da natureza para a avenida, ao abrir a segunda noite de desfiles da Série Ouro na Sapucaí. O abre-alas “O Jardim que floresce no imaginário” é uma alegoria repleta de elementos da flora brasileira, em homenagem ao paisagista no paisagismo brasileiro conduzida por Roberto Burle Marx. 

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Abre-Alas da Botafogo Samba Clube. Foto: Carolina Freitas/CARNAVALESCO

Com esculturas bem elaboradas e muita cor, a alegoria apresentou ao público um Brasil que aprecia a própria paisagem, rompendo com padrões europeus e americanos de estética decorativa.

O carro simboliza a mensagem principal do artista: fazer da natureza protagonista e do jardim uma obra de arte viva. Folhagens e flores foram como pinceladas tropicais, dialogando com a pintura abstrata e a escultura moderna, em uma explosão de movimento e volume que tomou a avenida.

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Gabriele Rodrigues. Foto: Carolina Freitas/CARNAVALESCOS

A engenheira e integrante da escola há quatro anos, Gabriele Rodrigues, de 40 anos, moradora de Campo Grande, se emocionou ao ver a alegoria pronta.

“Me impressionei com tudo. Com o tamanho, principalmente. É a primeira vez que eu vejo um carnaval assim tão colorido e tão volumoso”, revelou. 

Botafoguense declarada, ela destacou a importância do tema, e reforçou a ideia de que jardins podem ser obras de arte sim. 

“Eu acho que é muito importante a gente falar sobre isso no mundo que a gente vive hoje. O Botafogo homenageia hoje uma pessoa que buscou através da sua arte valorizar o nosso meio-ambiente. Isso conversa muito com os meus valores. Ele fez as pessoas sentirem emoção com imagens e uma organização de cores e plantas, eu acho que é bem coisa de arte mesmo”, disse.

Sophie Rosele
Sophie Rosele. Foto: Carolina Freitas/CARNAVALESCO

A francesa Sophie Rosele, de 37 anos, que está no Brasil especialmente para o Carnaval e desfilou pela primeira vez, também ficou impactada com o carro:

“É um carro muito elegante, com flores, e representa para mim o florescer da natureza brasileira. É muito bonito. Foi uma ideia muito boa essa homenagem. E a história fica ainda mais interessante por meio das esculturas e pinturas que as representam das flores do Brasil”. 

Cristina Mendonca
Cristina Mendonça. Foto: Carolina Freitas/CARNAVALESCO

Musa da escola e destaque de alegoria este ano, Cristina Mendonça também não conteve a emoção ao ver o abre-alas. Morando em Nápoles, na Itália, ela viajou especialmente para desfilar. Sobre a homenagem, ela fez questão de frisar a força simbólica da escolha do enredo, e o quanto ama ser brasileira.

“Eu acho que é uma representatividade cultural enorme, porque a gente fala da vitória-régia e de vários elementos da nossa flora brasileira. O Botafogo Samba Clube acertou muito, principalmente nesse samba-enredo, que está lindo. Eu vejo arte em tudo, principalmente no Brasil. A brasilidade latina está tomando conta do mundo agora. Como o Bad Bunny falou, ‘todo mundo quer ser latino, mas não tem o tempero, não tem o molho’, e a gente tem de sobra. Estou muito feliz de participar desse momento”, declarou.

Com um jardim que pulsa como tela viva, o abre-alas da Botafogo transformou a natureza em manifesto artístico e reafirmou a paisagem brasileira como raiz do Brasil moderno que floresce na avenida.

Em Cima da Hora 2026: Galeria de fotos do desfile

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Império de Casa Verde 2026: Galeria de fotos do desfile

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Sob a guarda das Sete Catacumbas: comissão da Em Cima da Hora transforma medo em soberania feminina

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Na Em Cima da Hora, a comissão abre caminhos para o desfile “Salve Todas as Marias – Laroyê, Pombagiras!”. Com o título “Sob a Proteção das Sete Catacumbas”, o segmento ressignifica o cemitério, tradicionalmente associado ao temor, e o apresenta como espaço de força espiritual, transformação e poder feminino.

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Elemento Alegórico da Comissão de Frente da Em Cima da Hora. Foto: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO

A encenação propõe um embate simbólico entre energias masculinas e femininas até a manifestação soberana de Maria Padilha das Sete Catacumbas, conduzida por Exu. No centro da narrativa, não está a morte, mas o renascimento.

Em entrevista ao CARNAVALESCO, o coreógrafo Márcio Moura explicou que a proposta parte de uma mudança de olhar sobre o território representado em cena.

Comissao ECDH
Comissão de Frente da Em Cima da Hora. Foto: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO

“O cemitério não é um lugar de fim, é um espaço de passagem. Ele representa ciclo, despedida, continuidade da energia. Dentro das religiões de matriz africana, muitos rituais acontecem próximos a esse espaço porque ali existe força espiritual. A nossa comissão mostra mulheres que sofreram violência, que foram silenciadas, e que buscam auxílio em uma entidade que habita esse território sagrado”, explicou o coreógrafo.

Segundo Márcio, o confronto apresentado em cena não é gratuito, ele traduz uma realidade social.

“A força masculina na coreografia simboliza transformação. Já chegou a hora do protagonismo feminino aparecer com clareza. Quando mulheres assumem seus espaços de poder, isso incomoda. A comissão é essencialmente feminina. O único personagem masculino é Exu, e ele não está ali para confrontar, mas para reverenciar essas mulheres”, disse.

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Márcio Moura e Suellen Gonçalves. Foto: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO

Para o coreógrafo, a Umbanda e o culto às Pombagiras trazem uma mensagem direta ao público:

“Quando falamos de Pombagira, falamos de sincretismo, de resistência e de força feminina. Elas são fundamentais no plano espiritual. São protagonistas dessa história e dessa festa”.

A assistente de coreografia, Suellen Gonçalves, destacou que a construção cênica foi pensada para evidenciar o conflito estrutural entre homens e mulheres, tema que dialoga com a trajetória de muitas Pombagiras.

“A gente trabalhou o embate entre o masculino e o feminino porque, infelizmente, essa violência ainda é uma realidade. Muitas histórias atribuídas às Pombagiras falam de agressões, abusos físicos ou emocionais. A comissão traz esse contexto para a Avenida, mostrando dor, mas principalmente superação”, afirmou.

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Foto: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO

Ao transformar o cemitério em palco de afirmação feminina, a comissão da Em Cima da Hora deslocou o olhar do público: o que antes era associado à escuridão se revela território de proteção e soberania.

Maria Padilha das Sete Catacumbas surge não como figura temida, mas como símbolo de autonomia e reorganização das forças. Sob sua presença, o conflito se dissolve e o feminino ocupa o centro.

Mais do que um espetáculo coreográfico, a comissão apresenta um posicionamento: onde houve silenciamento, haverá voz. Onde houve medo, haverá poder.

Freddy Ferreira analisa a bateria da Botafogo no desfile no Carnaval 2026

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Um bom desfile da bateria “Ritmo Alvinegro” da Botafogo Samba Clube, na estreia de mestre Marfim pela escola. Um andamento confortável e um ritmo equilibrado, ainda sofreu impacto positivo de bossas bem casadas com o samba, além de possuírem pressão sonora de surdos nos arranjos.

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Na parte da frente do ritmo da Botafogo, uma ala de cuícas consistente deu seu contributo. Um naipe de tamborins de boa técnica coletiva tocou interligada a uma ala de chocalhos de nítida virtude musical. O desenho rítmico simples se mostrou plenamente casado ao samba-enredo, valorizando o trabalho em conjunto de ambos os naipes.

Na cozinha da bateria “Ritmo Alvinegro”, uma boa afinação de surdos foi notada. Marcadores de primeira e segunda foram firmes ditando o andamento. Surdos de terceira sólidos deram bom balanço entre os graves. Um naipe de caixas com bom volume, tocou junto de repiques coesos, complementando o preenchimento sonoro dos médios.

Bossas pautadas pelas variações melódicas da obra foram exibidas, sempre com pressão sonora de surdos. As levadas nordestinas intercaladas do arranjo do refrão foi um ponto de destaque musical, além de garantir boas execuções sempre que realizadas. Uma nuance rítmica envolvendo surdos, na segunda do samba, ajudou a dar dinamismo sonoro à bateria da escola preta e branca.

Uma boa apresentação da bateria da Botafogo Samba Clube, dirigida pelo mestre Marfim, que estreou na escola. Uma bateria “Ritmo Alvinegro” com boa afinação de surdos, que permitiu pressão sonora em bossas, sempre buscando as nuances da melodia para consolidar o ritmo. Após uma apresentação correta e segura na primeira cabine, uma boa exibição foi realizada no segundo módulo. Já na última cabine julgadora (dupla), mas uma apresentação sólida confirmou o bom desfile da bateria da Botafogo, com potencial para garantir uma grande pontuação.

Fé, força e liberdade: estreantes da Em Cima da Hora desfilam movidos pela energia das Pombagiras

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A Azul e Branca de Cavalcanti aposta na força feminina e na espiritualidade para conquistar a Marquês de Sapucaí. Com o enredo “Salve todas as Marias – laroyê, Pombagiras!”, a Em Cima da Hora transforma a Avenida em território de reverência às entidades que simbolizam liberdade, resistência e empoderamento.

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Componentes da Em Cima da Hora
Componentes da Em Cima da Hora
FOTO: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO

O desfile propõe uma reflexão sobre como as Pombagiras desafiaram estigmas e preconceitos ao longo dos séculos ao se afirmarem como figuras de poder, acolhimento e transgressão. Presentes nas ruas e encruzilhadas, espaços historicamente marginalizados, elas permanecem vivas na fé de quem encontra nelas orientação e proteção.

Entre os componentes, um detalhe chama atenção: todos os entrevistados estão desfilando pela primeira vez na escola. O motivo? O enredo.

O professor Leandro Avelar de 46 anos
O professor Leandro Avelar, de 46 anos
FOTO: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO

O professor Leandro Avelar, de 46 anos, decidiu atravessar a Avenida impulsionado por sua própria vivência espiritual. Ele conta que a relação com a entidade é pessoal e também acadêmica, já que Maria Mulambo faz parte de sua pesquisa de mestrado.

“Desfilar falando de Pombagira é um momento de alegria para mim. É incrível mostrar a força delas dentro de uma sociedade que ainda exclui e marginaliza. Quando penso em Pombagira, penso em empoderamento. Eu me conecto com aquelas que falam direto, sem rodeio. Hoje me sinto ainda mais ligado à minha Pombagira, que me orienta na vida social, afetiva e pessoal”, revela o componente.

Sheila Monsanto de 56 anos
Sheila Monsanto, de 56 anos
FOTO: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO

Para Sheila Monsanto, de 56 anos, secretária e também estreante na escola, a relação é de devoção e entrega emocional. Ela resume a entidade como base da sua vida espiritual.

“A Pombagira é tudo na minha vida. É força, proteção, caminhos abertos e prosperidade. Ela me orienta nas decisões e me mostra qual caminho seguir. Só de cantar o samba na Avenida, meu corpo arrepia inteiro. É impossível conter a emoção”, conta Sheila.

Eduardo Jesus de 63 anos
Eduardo Jesus, de 63 anos
FOTO: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO

Já Eduardo Jesus, de 63 anos, contador, vive a experiência pela admiração e respeito à fé alheia. Mesmo vindo de outra tradição religiosa, ele reconhece a potência simbólica das entidades.

“Eu sempre ouvi falar da Pombagira, mas admiro a força e o empoderamento que ela desperta nas pessoas. Essa espiritualidade não é diferente da cristã ou católica: a relação de fé é a mesma. Vejo principalmente mulheres ganharem mais autoconfiança, mais proximidade com sua força interior e se sentirem mais prósperas”, comenta.

Ao levar as Pombagiras para o centro do desfile, a Em Cima da Hora rompe estigmas e transforma a Sapucaí em espaço de reconhecimento e respeito. Na encruzilhada entre tradição e resistência, a Azul e Branca canta: Laroyê.

Componente fala! Desfilantes da Botafogo defendem o verde como direito à cidade no desfile sobre Burle Marx

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A Botafogo Samba Clube abriu o segundo dia de desfiles da Série Ouro, na Marquês de Sapucaí, exaltando a obra de Roberto Burle Marx, com o enredo “O Brasil que floresce em arte”, desenvolvido pelos carnavalescos Alexandre Rangel e Raphael Torres. Ao transformar a avenida em um grande jardim, a escola levou para o centro do debate uma pergunta que ecoa além da Passarela do Samba: qual é o lugar da natureza no cotidiano urbano?

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ALA PARA CAPA
Foto: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO

Na concentração, a reportagem do CARNAVALESCO ouviu três componentes que ajudaram a construir essa reflexão na prática. Fábio Amaral Vasconcelos, de 39 anos, dentista e estreante na escola; Isabelle Pereira dos Santos, 39 anos, professora de artes visuais e há três anos na agremiação; e André Souza, 53 anos, engenheiro de software, também desfilando pela primeira vez na Botafogo Samba Clube.

Eles falaram sobre a presença, ou a ausência,  do verde em seus bairros, sobre como a natureza impacta o dia a dia e sobre a possibilidade de enxergar praças e jardins como verdadeiras obras de arte.

Sente falta de áreas verdes no seu bairro?

FABIO AMARAL
Fábio Amaral. Foto: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO

Morador do Recreio, Fábio reconheceu que vive em uma região com mais áreas abertas, mas acredita que ainda é possível avançar. “Eu sou morador do Recreio, é até um bairro que tem um pouco mais de verde, prédios mais baixos e áreas de parques, mas sinto que poderia ter mais. A questão do verde faz muito bem, traz paz, segurança e alegria”, afirmou.

Já Isabelle, que mora em Bonsucesso, sente de forma mais evidente a desigualdade na distribuição das áreas arborizadas pela cidade. “Eu moro em Bonsucesso e lá sinto essa diferença, não é tão arborizado quanto na Zona Sul. Eu trabalho na Zona Sul e percebo o frescor do ar. Quando volto para Bonsucesso, sentimos a diferença da poluição”, disse.

ISABELE PEREIRA
Isabele Pereira. Foto: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO

André, morador de Jacarepaguá, próximo ao RioCentro, avalia que a região onde vive ainda preserva boas áreas verdes. “Por incrível que pareça, não sinto tanta falta. Poderia ter um pouco mais, mas é bem verde. Agora, minha família é de Campo Grande e lá é uma selva de pedra. É terrível”, afirmou.

Como o verde muda o dia a dia das pessoas?

Para Fábio, o impacto é direto no estado emocional. “O Rio de Janeiro é uma cidade bonita por natureza. Temos a Floresta da Tijuca e, quando você vê uma área verde, uma floresta, isso traz paz e tranquilidade. Você fica mais calmo”, afirmou.

Isabelle reforçou que a arborização interfere inclusive na saúde e no bem-estar coletivo. “Ajuda com certeza. Inclusive penso em um projeto no bairro, junto aos moradores, para criar áreas verdes. Isso melhora o ar e a qualidade de vida das pessoas”, disse.

ANDRE SOUZA
André Souza. Foto: Júnior Santos/CARNAVALESCO

André destacou a importância prática, sobretudo nos períodos mais quentes. “Principalmente no verão. Ter sombra para caminhar faz diferença. Eu trabalhava na Barra e precisava levar uma sombrinha para sair do BRT por causa do calor de 40 graus com sensação de 50. O verde é aprazível, relaxa, traz passarinhos. É bom para viver”, afirmou.

Praças e jardins podem ser obras de arte?

Se o enredo da Botafogo propõe essa leitura, os componentes parecem concordar. Fábio, que já visitou o Sítio Roberto Burle Marx, em Guaratiba, recomenda a experiência. “Com certeza podem ser obras de arte. Eu sugiro visitar o Sítio de Burle Marx, é um passeio muito interessante. Já fui com minha filha e ela adorou”, disse.

Isabelle amplia o olhar para o aspecto educativo e cultural desses espaços. “Com certeza são obras de arte. Essas áreas podem ser revitalizadas e podemos ensinar as crianças a plantar e valorizar a natureza como cultura”, afirmou.

André lembra que o paisagismo vai além da estética e envolve convivência e memória afetiva. “Com certeza são obras de arte. A praça não é apenas uma questão social, mas também cultural. As pessoas se encontram ali. Cresci perto de uma praça onde todos se reuniam à noite para conversar. As árvores dão sensação de lar, de contato com a natureza. Nós nos sentimos bem quando estamos perto dela”, concluiu.

Para eles, ao levar Burle Marx para a avenida, a Botafogo Samba Clube não apenas homenageia um artista que redesenhou o Brasil com curvas, cores e espécies tropicais. Também convida a cidade a se repensar: se o jardim pode ser arte, e talvez o verde não deva ser privilégio, mas, um direito.