Única mestra de bateria do carnaval carioca, Laísa Lima conduziu o Arranco do Engenho de Dentro pela Marquês de Sapucaí na noite do último sábado, transformando a presença feminina no comando da bateria em marca histórica da Sapucaí. Terceira escola a desfilar pela Série Ouro, a agremiação levou para a Avenida o enredo “Gargalhada É o Xamego da Vida”, desenvolvido pela carnavalesca Annik Salmon, e reafirmou sua identidade marcada pela liderança de mulheres dentro e fora da pista, na disputa por uma vaga no Grupo Especial em 2027.
A proposta do desfile transformou a Avenida no “Grande Circo Falcão” do Engenho de Dentro para contar a história de Maria Eliza Alves dos Reis, a palhaça Xamego. Pioneira negra em um período de severas restrições, ela precisou vestir-se como palhaço homem para conquistar espaço e aplauso nos picadeiros, rompendo padrões e abrindo caminhos. Ao aproximar essa trajetória do presente vivido por Laísa Lima à frente da bateria, o Arranco constrói uma narrativa em que memória, cultura popular e protagonismo feminino se encontram como gesto político e afetivo.
À frente da bateria, Laísa Lima simboliza essa virada histórica. Ela detalhou ao CARNAVALESCO como pensou a construção de um espaço verdadeiramente inclusivo. “Comecei pensando justamente nisso e hoje temos a maior parte da bateria composta por mulheres, não só com instrumentos leves, não tem porque ter isso. Tivemos uma escolinha desde abril. Temos mulheres em todas as marcações, inclusive na diretoria. Cuíca, agogô, em todos os instrumentos. Para as pessoas entenderem que não é só a Laísa, queremos essa representatividade e inclusão dentro da bateria”, afirmou.
Sobre a cobrança por ocupar um posto historicamente masculino, Laísa reconhece o peso e o simbolismo da função. “É diferente, mas eu sinto que é uma responsabilidade e que bom que essa responsabilidade veio pra mim, não é fácil, é uma história de reconhecimento e pertencimento. Espero que entendam que a gente merece ter mais lugar dentro do carnaval”, declarou. A fala dialoga diretamente com o enredo que celebra uma mulher que precisou desafiar padrões para existir em cena.
A mestra ainda relacionou sua trajetória ao próprio samba-enredo apresentado na Avenida. “O samba já diz: ‘é uma história de coragem, garra e fé’ e o que não falta é fé em mim, aprendi a ter coragem e a garra é movida por 330 pessoas acreditando no nosso trabalho. Quero muito inspirar outras mulheres, não quero ficar sozinha aqui, quero ver muitas outras por aqui também”, afirmou Laísa Lima.
A liderança feminina também se reflete na condução artística do desfile. Annik Salmon imprime sua assinatura criativa ao transformar o picadeiro em alegorias, fantasias e cenas que dialogam com a resistência de Maria Eliza. A estética circense ganha contornos de celebração popular, sem perder a dimensão política da narrativa, que encontra na bateria regida por Laísa uma de suas traduções mais diretas na Avenida. Ao contar a história de uma mulher que precisou se reinventar para existir em cena, a escola também fala sobre tantas outras que seguem reinventando espaços de poder.
Na Avenida, a emoção foi construída em camadas: o riso como linguagem, o circo como metáfora e a mulher como centro da narrativa. O samba-enredo conduziu o público por essa viagem afetiva, evocando o brilho dos picadeiros e a força de quem transformou dificuldade em espetáculo. A Sapucaí acolheu uma história que mistura arte, amor e resistência, traduzindo em canto e movimento a importância de reconhecer pioneiras muitas vezes invisibilizadas.
Ao cruzar a Sapucaí como única mulher a reger uma bateria no carnaval carioca, Laísa Lima não apenas conduziu o ritmo do Arranco, mas projetou a imagem de um futuro em que a presença feminina à frente de uma bateria deixou de ser exceção para se tornar regra. Entre o riso do picadeiro e a força do tambor, sua passagem pela Avenida transformou representatividade em som, gesto e permanência.
A fofura tomou conta da Marquês de Sapucaí na segunda noite de desfiles da Série Ouro, neste sábado. Abrindo a apresentação da Botafogo Samba Clube, a ala infantil “Guardiã da Biodiversidade” coloriu a avenida com pequenas joaninhas alvinegras que traduziram em gesto simples a mensagem ambiental do enredo dedicado ao paisagista Roberto Burle Marx.
Daniela Cursino e o filho Bento. Foto: Carolina Freitas/CARNAVALESCO
Na fantasia, o tradicional vermelho do inseto deu lugar ao preto e branco do Botafogo. A escolha teve um motivo especial: símbolo de equilíbrio ecológico, a joaninha apresenta o cuidado com a flora brasileira e a preservação dos biomas celebrados no desfile.
Com linguagem lúdica, a ala transformou a infância em imagem de futuro. Na pista, asas, antenas e movimentos leves evocavam proteção à natureza, enquanto as crianças encarnavam valores que precisam ser cultivados desde cedo para florescer adiante.
Para a representante de atendimento Daniela Cursino, de 33 anos, mãe de Bento, falar de preservação com os pequenos é essencial:
“Eu acho que, para o futuro, eles já saberão o que tem que preservar. Sem a natureza não dá para sobreviver. Por isso, é importante criarem essa consciência desde pequenos e, lá na frente, aplicarem isso no dia a dia”.
Renata Pires e a filha Lara. Foto: Carolina Freitas/CARNAVALESCO
A pesquisadora Renata Pires, de 43 anos, mãe de Lara, destacou a memória afetiva construída na avenida: “É o segundo ano que ela desfila, e isso fica para a vida toda. É vínculo com a cidade, com o carnaval, com a escola e também com o time. Eu achei linda a ideia da ala. Colocar as crianças como representação da biodiversidade tem tudo a ver”.
Entre as próprias crianças, a mensagem ambiental apareceu com naturalidade. Bento, de 10 anos, contou o que aprendeu ao vestir a fantasia:
“Eu achei legal porque a gente entende que precisa preservar as florestas. As árvores dão oxigênio, e sem elas a gente não consegue respirar”.
Bento. Foto: Carolina Freitas/CARNAVALESCO
Lara, de 8 anos, foi direta no alerta: “Não se pode jogar lixo na natureza. Tem que preservar, porque sem as árvores a gente não tem oxigênio”.
Lara. Foto: Carolina Freitas/CARNAVALESCO
Helena Félix, de 7, resumiu a importância da mensagem: “Tem que preservar, porque a natureza é importante para todo mundo, para as pessoas e para os animais”.
Já Eduarda Toledo, de 11 anos, celebrou o aprendizado vivido no carnaval: “Gostei de saber o significado da joaninha. Se a gente não cuidar do ambiente, pode chegar uma hora em que o mundo acaba”.
Além da mensagem, o encantamento com a fantasia também marcou a experiência. Cada detalhe ganhou preferência própria.
“Gosto das asas, porque depois posso usar como almofada”, contou Lara, rindo.
“Eu amo que parece um macacão”, disse Helena.
Bento concordou: “Meu favorito é o capacete com as duas antenas. São bonitinhas”.
Entre asas delicadas, pequenas descobertas e lições ditas sem peso, a ala infantil transformou a avenida em jardim vivo — lembrando que o futuro da natureza talvez comece justamente na simplicidade do olhar de uma criança.
Um bom desfile da bateria “Sintonia de Cavalcante” da Em Cima da Hora, dirigida por mestre Léo Capoeira. Um ritmo bem vinculado e integrado ao enredo de vertente africana foi exibido, com bossas que auxiliaram a sincretizar a sonoridade da escola de modo notório. Infelizmente, penas elevadas no chapéu dos ritmistas fez com que diretores tivessem trabalho dobrado, sendo atuantes demais durante a pista, para passar sinalizações de forma visível.
Na cabeça da bateria da Em Cima da Hora, uma boa ala de cuícas ajudou no preenchimento musical das peças leves. Um naipe de agogôs eficiente exibiu uma convenção pautada pelas nuances do melodioso samba da escola. Uma ala de tamborins de virtude coletiva tocou interligada a um grande naipe de chocalhos. Simplesmente impressionante o carreteiro de uma ala de chocalhos que fez seu ritmo com um balanço bem apurado.
Na parte de trás do ritmo da “Sintonia de Cavalcante”, uma afinação acima da média foi percebida. Marcadores de primeira e segunda foram vigorosos, mas precisos. Surdos de terceira deram bom balanço entre os graves. Uma ala de repiques coesa e ressonante tocou junto de um naipe de caixas de guerra de qualidade musical.
Bossas altamente musicais e vinculadas à africanidade do enredo foram exibidas. O casamento musical entre o belo samba da agremiação e os arranjos se deu de modo intuitivo e orgânico. Uma criação conceitual bastante atrelada ao tema de matriz africana da escola do bairro de Cavalcanti, juntando a religiosidade solicitada pela obra à sonoridade produzida com fluidez pela bateria da Em Cima da Hora. Com destaque para a bossa do estribilho, com direito a tamborins fazendo “palminha de macumba” e atabaques tocando junto de agogôs.
Uma boa apresentação da bateria da Em Cima da Hora, comandada por mestre Léo Capoeira. Um ritmo com andamento mais quente e bastante fundamento foi exibido, altamente integrado ao tema da agremiação. Bossas com sonoridade africana mostraram seu impacto pela pista, algumas vezes até soltando o último verso do estribilho para ser cantado em coro. A passagem pelo primeiro módulo se deu de forma correta. Na segunda cabine, a exibição pareceu musicalmente superior, arrancando aplausos do julgador. Na última cabine (dupla) uma apresentação mais curta foi realizada, devido a proximidade do tempo limite.
A Em Cima da Hora teve um começo muito impressionante. Esteticamente, com comissão, casal, primeira ala e abre-alas bem alinhados na parte plástica, a escola prometia bastante. A ótima apresentação de Márcio Moura ajudou também e o samba colocou fogo na Sapucaí. Parecia que viria um desfile histórico para a escola, que já passou inclusive pelo Grupo Especial há muitos anos. Porém, problemas na pista e no que vinha depois acabaram atrapalhando o desfile. Após dificuldades com a entrada da segunda alegoria, a escola abriu buraco no primeiro módulo, ficou muito tempo parada e teve que correr do meio para o final. Na entrada da bateria no segundo recuo, também houve problemas de buraco na pista. O samba foi a grande estrela da noite; este se manteve forte o tempo todo, com ótima resposta do público.
Com o tempo de 55 minutos, a Em Cima da Hora, segunda escola a pisar na Sapucaí na segunda noite de desfiles da Série Ouro, levou para a Sapucaí o enredo “Salve Todas as Marias – Laroyê, Pombagiras”.
Coreografada por Márcio Moura, a comissão representou uma espécie de embate entre homens e mulheres, a partir das relações humanas e das forças que atravessam o indivíduo. Em seus movimentos era sugestiva a instabilidade, tensão e deslocamento, num ambiente em transformação. Os figurinos representavam, em parte do ato, homens e mulheres comuns, com essa tensão em que os homens parecem querer dominar as mulheres e fazê-las submissas.
Na apresentação nos módulos, com ajuda do tripé, o cenário se transporta para um cemitério, onde aparecem as figuras de pombagiras, cada uma com sua indumentária própria, seus signos em cores, formas e objetos. Entre elas, a Rainha das Sete Catacumbas aparece na parte maior do elemento cenográfico, toda de preto, com efeitos de fogo, representando sua proteção e poder, que conseguem estabilizar a situação quando os homens são jogados para dentro da tumba, no momento em que um pedaço da lápide se abre. Exu se faz presente, garantindo que todos os caminhos se abram, conduzindo a todos ali. As mulheres voltam e dançam com as pombagiras em coreografias bem marcadas e bem à vontade com o samba.
Elemento Alegórico da Comissão de Frente da Em Cima da Hora. Foto: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO
Trabalho muito bom de Márcio Moura, um dos seus melhores, comissão com dança, história, dentro do enredo e com um clímax leve e de fácil entendimento. A indumentária do início, se não chamava tanta atenção, estava bem relacionada com a proposta, e o cuidado de reproduzir a roupa original das entidades foi outro ponto positivo. O trabalho de expressão dos bailarinos também foi perfeito; pareciam incorporados.
O primeiro casal, Marlon Flores e Winnie Lopes, veio com a fantasia “Os Reis da Encruza”, toda em tom de vermelho muito forte. Ele fazendo alusão ao Rei das Sete Encruzilhadas, entidade de respeito máximo entre as falanges de Exu. Ela representando a Rainha das Sete Encruzilhadas, senhora das ruas, de sensata justiça, ornada em pedras, penas e brocados. Fantasia belíssima e bem trabalhada, que ornava inclusive com a paleta de cores da cabeça da escola.
Na coreografia, a dupla buscou mesclar o bailado mais clássico de casal de mestre-sala e porta-bandeira com alguns passos de dança de matriz africana, como no trecho do samba que falava “Em cada esquina meu povo vai incorporar”. Apesar de uma performance que não apresentou problemas aparentes com o pavilhão, faltou ao casal mais de intensidade na dança, até para estar em consonância com o samba que pulsava. A dupla fez bem seus giros e rodopios com correção, mas poderia ter apresentado maior energia. Um samba tão rico sugeria mais algumas inserções das danças de religião de matriz africana, mas, nesse sentido, vai da característica do casal.
O carnavalesco Rodrigo Almeida trouxe para a Sapucaí uma homenagem às Pombagiras, com foco na emancipação feminina, na resistência e no poder das mulheres. O primeiro setor narrou a chegada das Pombagiras, principalmente Maria Padilha, ao seu castelo em Sevilha, na Espanha. Nesse setor, a Pombagira foi tratada como rainha em terra, viva. Em seguida, a escola apresentou o imaginário coletivo dessas mulheres: a Bruxa de Évora, Joana d’Arc, entre outras figuras femininas poderosas da história.
No segundo setor, propriamente dito, a Em Cima da Hora mostrou onde esses espíritos foram cultuados: o Batuque no Rio Grande do Sul, a Umbanda, o Catimbó, a Jurema, até chegar à Quitanda, onde ela se consagra rainha espiritual. No último setor, a agremiação ofereceu presentes às Pombagiras, encerrando também com um grito contra a intolerância religiosa, desmistificando histórias e ressignificando imagens. Um enredo bem popular e necessário, principalmente se tratando de uma festa como o carnaval, assentada na religiosidade afro-brasileira. Início e final com uma mensagem muito clara de empoderamento feminino e, durante o percurso da escola, a apresentação da entidade e suas características. Enredo bem apresentado.
EVOLUÇÃO
A escola começava o seu desfile com um ritmo muito bom, na levada do samba, com garra, dançando e curtindo. Mas, devido a problemas com a segunda alegoria, que demorou a entrar na Sapucaí e, na pista, teve problemas de movimentação, com deslocamento muito lento, isso afetou o ritmo da escola, que ficou muito tempo parada entre a apresentação da comissão e do casal no segundo módulo.
Além disso, no primeiro módulo de julgamento, abriu um buraco entre a segunda alegoria, a musa e a ala da frente, que evoluíram enquanto o carro passava por problemas de movimentação. Depois, quando a escola conseguiu resolver a situação da alegoria, começou a evoluir muito mais rápido a fim de compensar o tempo perdido. Além de uma evolução menos espontânea do meio para o final, com os componentes das últimas alas tendo pouca chance de aproveitar o carnaval, a escola ainda teve outro problema quando a bateria entrou no segundo recuo. Após os ritmistas entrarem, a ala da frente já havia avançado e a ala logo atrás da “Sintonia de Cavalcanti” demorou a evoluir, apresentando mais um buraco em um lugar bem visado pelo jurado do terceiro módulo, onde está a cabine dupla. O quesito deve fazer a escola perder alguns décimos.
HARMONIA
Igor Pitta e Carlos Junior aproveitaram bem o excelente samba da Em Cima da Hora, desde o início com os pontos que abriram o desfile e fizeram o alusivo para o samba. É muito positivo ver o domínio que Pitta já tem da Sapucaí; não é à toa que foi elogiado por Neguinho há um tempo, sendo colocado pela lenda do samba como seu possível sucessor.
A presença das vozes femininas no carro de som também abrilhantou a apresentação, fazendo as entradas nos momentos em que a obra mais pedia e deixando também os momentos em que os intérpretes tinham que conduzir. Já o canto da comunidade foi mais irregular, devido aos problemas que a escola teve na pista. No início e até o meio do desfile o canto estava muito forte, porém, na parte final, já com a escola evoluindo de forma mais rápida para compensar os problemas e não estourar o tempo, a intensidade do canto diminuiu consideravelmente.
SAMBA-ENREDO
A obra foi composta por Marcota de Cavalcante, Serginho Aguiar, Gabriel Simões, Alexandre Reis, Marcio de Deus, Silvio Romai, Raphael Gravino, Camila Lucio, Gigi da Estiva, Jorginho da Flor, Mateus Pranto, Caio Rodrigo, Gabrielzinho e Orlando Ambrózio. Uma das melhores obras da Série Ouro, samba popular, carregado de referências das religiões de matriz africana, com refrões fortes e de muita vibração, que convidam não só a cantar, como também a dançar e mexer o corpo.
O refrão “Abre a roda” era, sem dúvida, o ponto mais alto. Quando os intérpretes perceberam que ele já havia ganhado a Sapucaí, inclusive, deixavam só para o povo o verso final “Porque a Dona da Casa Chegou”. Refrão do meio também com ótimo rendimento e, na verdade, uma apresentação de muita interação com a Sapucaí. Um dos melhores do grupo e que passou na Avenida com mais força.
FANTASIAS
A primeira ala, “Estende um tapete de rosas para ela passar”, que trazia uma evocação às pombagiras, ornando o vermelho e preto com o dourado, já dava o tom de um bonito conjunto estético para os figurinos. No segundo setor, a Em Cima da Hora começou a trazer um pouco mais de colorido, como a ala das baianas, “Rainha de Todas as Bandas”, representando as baianas como princípio do samba, mães e geradoras que detêm o conhecimento. A saia, bem colorida, ia dos tons mais quentes para os mais frios.
Outra ala, “Na boca de quem não presta ela é vagabunda”, que cruzava a ideia de uma pombagira cortesã em contraste com a sensibilidade, relacionou o branco com tons mais sutis de rosa. Muito caprichada, a fantasia ainda tinha maquiagem. E, na parte final, destaque ainda para a fantasia “Ouro que te enfeita”, toda em dourado, com a saia vazada. Muito bem feita. No geral, um trabalho primoroso do carnavalesco Rodrigo Almeida. Fantasias bem acabadas, com uso de materiais de ótima qualidade e paleta de cores ornando muito bem com cada momento do desfile.
ALEGORIAS
Rodrigo Almeida levou para o desfile da Em Cima da Hora três alegorias. O abre-alas, de alta qualidade plástica, representou o poder e a realeza de uma Pombagira, seu lugar como Dona, Senhora e Rainha. O carro trouxe uma grande carruagem guiada por cavalos imponentes, símbolo notável de poder, valentia e coragem. Em sua parte central, a alegoria tinha uma grande escultura de Maria Padilha, imprimindo ainda um cenário de autoridade, realeza e feminilidade.
A segunda alegoria, “O Reino da Quimbanda”, fez referência ao universo da Quimbanda ou Kimbanda, cujas raízes ancestrais estão ligadas ao culto Bantu (Angola), focado nos cultos de Exus e Pombagiras. Os signos mais populares da Quimbanda estavam presentes nesta alegoria, que vinha introduzida por dois semidestaques representando Belzebu. Um cenário repleto de velas pretas e vermelhas e chamas de fogo personificadas por composições; por todo o carro alegórico se viam oferendas, fazendo dele um altar. Ornando o carro, ainda estavam destaques e outras composições que acrescentavam a sensação mística do lugar e do universo da Quimbanda.
O último carro, “Ela é Resistência Contra a Intolerância”, encerrou o desfile como um templo contra a intolerância. Nesta alegoria vieram diversas autoridades espirituais. No centro do carro, no alto, foi encenado um ataque de intolerantes a um terreiro. Sua principal escultura fez direta referência ao tema do enredo e seu entrelaçamento com as Marias de todas as denominações, através da releitura da figura da Pietà, que em seu colo protege e acolhe essa mãe de santo que vê destruído seu local sagrado. Apesar de um início arrebatador pelo ótimo trabalho no primeiro carro, houve uma queda de apuro estético do abre-alas para as demais alegorias. Inclusive porque, nos dois carros seguintes, havia várias composições no alto sem fantasia, o que comprometeu também a qualidade plástica das alegorias. No geral, um conjunto irregular.
OUTROS DESTAQUES
A rainha de bateria, Marianne Hipólito, representou a Pombagira menina com sua fantasia. A bateria “Sintonia de Cavalcanti”, comandada por mestre Leo Capoeira, veio vestida em homenagem ao Tranca-Rua das Almas, com calça, camisa e cartola, acompanhados de uma capa em tons de branco e preto. Os passistas vieram com a fantasia “No feitiço do catimbó”, retratando o cruzamento das linhas espirituais onde a Pombagira atua, possuindo um imponente costeiro, como asas.
No esquenta, a escola cantou o clássico “Os Sertões”, samba de 1976, recebendo uma boa resposta do público. No alusivo, a escola cantou os pontos “Sino da Igrejinha”, “É uma casa de pombo” e “Arreda homem”, entre outros cantos para saudação de pombagiras.
A última alegoria da Em Cima da Hora trouxe um manifesto contra a intolerância religiosa. A escola do bairro de Cavalcanti foi a segunda a desfilar neste sábado de Carnaval e levou para a Avenida o enredo “Salve Todas as Marias: Laroyê, Pombagira!”, idealizado pelo carnavalesco Rodrigo Almeida, em homenagem às Pombagiras, entidade que representa a força e o poder feminino.
Última alegoria da Em Cima da Hora FOTO: Maria Estela Costa/CARNAVALESCO
No carro alegórico, há uma releitura da obra “Pietà”, de Michelangelo. Na versão original, a Virgem Maria segura o corpo de Jesus. Na leitura feita pela agremiação, a Pombagira assume o papel de mãe que protege e acolhe os seus, enfatiza o papel da entidade nas religiões afro-brasileiras e desconstrói a visão preconceituosa.
Paulo César, de 57 anos, desfila na agremiação há 8 anos FOTO: Maria Estela Costa/CARNAVALESCO
Paulo César, de 57 anos, desfila na agremiação há 8 anos. Neste ano, veio na alegoria para representar o mensageiro da paz. Para ele, estar nesse papel é maravilhoso, já que Oxalá é o seu Orixá de cabeça. Paulo defendeu o combate ao preconceito religioso e afirmou a importância da escola abordar esse tema.
“É racismo, é guerra, é intolerância religiosa. Tem que acabar! A gente precisa de paz, a violência está muito grande. Eu estou trazendo até uma pomba da paz na roupa”, enfatizou Paulo.
O pai de santo e advogado Fernando de Oxóssi, de 50 anos FOTO: Maria Estela Costa/CARNAVALESCO
O pai de santo e advogado Fernando de Oxóssi, de 50 anos, foi convidado pelo carnavalesco para integrar à terceira alegoria por ser parte da Comissão de Combate à Intolerância religiosa da OAB do Rio de Janeiro. Para ele, o carro transmite o respeito a todas as religiões.
“Tem que ser bastante elevado, porque cada vez mais o que está acontecendo é intolerância religiosa na cidade. Os terreiros sendo atacados, primordialmente, pela criminalidade”, pontuou Fernando.
A professora Tatiane dos Santos, de 41 anos FOTO: Maria Estela Costa/CARNAVALESCO
A professora Tatiane dos Santos, de 41 anos, desfila na Em Cima da Hora há 11 anos e já passou por diversos postos na agremiação. Ela interpreta a alegoria como uma forma de reafirmar a ancestralidade do povo preto.
“Se buscar a história do Carnaval, dá para ver que ele começou nos terreiros, começou com o povo preto. É uma forma de combater a intolerância religiosa. É mostrar para a população que o Carnaval vem disso. O carnaval é a nossa cultura, é ancestralidade, é a representação do nosso povo”, comentou Tatiane.
O técnico de enfermagem João Victor Proença, de 24 anos FOTO: Maria Estela Costa/CARNAVALESCO
O técnico de enfermagem João Victor Proença, de 24 anos, desfila na escola há dois anos. João diz que sente uma energia diferente com o enredo por se tratar de uma homenagem aos seus ancestrais.
“Eu acho que o carnaval, em si, já é festa do pobre, do preto, do macumbeiro, do favelado. É a forma de nós, que somos minoria, mostrar a nossa força. Mostrar que a minoria, na verdade, não é minoria, e sim maioria”, disse João Victor.
A mãe de santo e agente funerária, Viviane Rosa, de 42 anos FOTO: Maria Estela Costa/CARNAVALESCO
A mãe de santo e agente funerária, Viviane Rosa, de 42 anos, está em seu primeiro desfile pela Em Cima da Hora. Para ela, a escola mostra e esclarece a religião para o mundo. Viviane acredita que é uma mensagem para os políticos promoverem mais campanhas contra o preconceito religioso e motivar a união entre as religiões.
“É uma forma de você esclarecer a religião, de poder mostrar para o mundo, porque não está mostrando só para o Rio de Janeiro. Está mostrando para vários países a cultura afrodescendente e afro-brasileira”, declarou Viviane.
Abrir a noite na Sapucaí é assumir o peso da primeira impressão. A Botafogo Samba Clube, em seu segundo ano na Avenida, encarou a responsabilidade com um desfile plasticamente exuberante e uma comissão de frente surpreendente. Com o enredo “O Brasil que floresceu em arte”, de autoria dos carnavalescos Raphael Torres e Alexandre Rangel, a escola alvinegra apresentou uma homenagem ao paisagista, autor da clássica calçada da Avenida Atlântica, em Copacabana.
A comissão de frente, intitulada “A arte que nasce da terra”, coreografada por João Pedro, contou com 15 componentes, vestidos de jardineiros, guardiões do bioma e um pivô representando Roberto Burle Marx. A comissão vestia figurinos predominantemente verdes, exceto o pivô.
A dança foi muito bem executada nos três módulos. O tripé, intitulado “Jardim do Mundo”, representou um jardim que se abria simbolicamente ao mundo, fazendo referência à projeção internacional da obra de Roberto Burle Marx e à valorização da flora brasileira em seus projetos. A bromélia no topo do tripé se abria, e um globo terrestre ganhava destaque.
No primeiro módulo, um guardião do bioma deixou o chapéu cair, pequeno deslize que não comprometeu a leitura da coreografia, mas pode ser observado com rigor pela cabine. Nos demais módulos, a comissão passou sem nenhuma adversidade.
Em suma, foi uma apresentação segura, coesa e visualmente impactante. Era notável o empenho no figurino, na coreografia e na elaboração do tripé.
MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA
Com a fantasia chamada “Arte abstrata de Burle Marx”, o casal Diego Moreira e Beatriz de Paula teve uma dança ousada, mas algumas intercorrências podem comprometer a pontuação.
Com uma belíssima fantasia preta, mas muito colorida, brilhante e bem-feita, Diego representou o pintor, simbolizando Roberto Burle Marx e sua produção abstrata. Sua indumentária fez referência à formação europeia do artista e ao diálogo estético que influenciou sua trajetória inicial. Beatriz também representou a arte abstrata presente na obra do homenageado. Sua fantasia apresentou cores e formas inspiradas nas experimentações visuais desenvolvidas pelo artista ao longo de sua carreira.
No primeiro módulo, ambos apresentavam leve nervosismo, que logo foi dissipado. Passaram pelo segundo módulo sem problema algum, executando com maestria a dança.
No terceiro módulo, além da espera causada pela saída tardia da comissão de frente, o vento interferiu diretamente na apresentação. Mesmo com o pavilhão molhado para dar peso ao tecido, a bandeira acabou enrolando, um erro visível que pode impactar a avaliação técnica do casal.
A Botafogo Samba Clube apresentou na avenida o enredo “O Brasil que floresceu em arte”, em homenagem a Roberto Burle Marx, artista reconhecido por transformar o paisagismo em expressão estética e identidade nacional. Formado no ambiente modernista, iniciou sua trajetória na pintura, desenvolvendo traços e composições que já evidenciavam referências tropicais. Ao se distanciar de padrões europeus, consolidou uma linguagem própria, marcada por curvas, geometrias e pela valorização da vegetação nativa.
Dividida em quatro setores, a narrativa percorreu a transição do pintor ao paisagista, do suporte da tela ao espaço do jardim. Em expedições realizadas por biomas como Amazônia, Cerrado, Caatinga, Pantanal, Mata Atlântica e Pampa, o artista pesquisou espécies nativas e ampliou seu uso em projetos paisagísticos. Seus trabalhos passaram a integrar arte, ciência e preservação ambiental, antecipando debates que posteriormente ganhariam maior projeção pública.
Ao abordar sua trajetória, a escola ressaltou a contribuição de Burle Marx para a cultura e para o pensamento ambiental brasileiro.
EVOLUÇÃO
A escola cruzou a linha final com 54 minutos, administrando o tempo no limite. Houve momentos de leve estagnação, especialmente na espera do casal pelo terceiro módulo, mas nada que comprometesse a fluidez geral do cortejo.
Ala 18 da Botafogo Samba Clube FOTO: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO
Faltou também um pouco de ânimo aos componentes, que pouco evoluíram durante o desfile.
ALEGORIAS E ADEREÇOS
Todas as alegorias da Botafogo apresentaram um apuro estético impressionante. Com acabamento sem nenhuma avaria, a escola desfilou plasticamente impecável.
A primeira alegoria, “O jardim que floresceu no imaginário”, apresentou a consolidação de uma linguagem modernista no paisagismo brasileiro, inspirada na obra de Roberto Burle Marx, com cores intensas e a valorização da flora nacional.
Abre-Alas da Botafogo Samba Clube. Foto: Carolina Freitas/CARNAVALESCO
No segundo carro, as iguanas que se movimentavam demonstravam primor visual. A alegoria representou o Brasil descoberto pelo olhar do artista, com as expedições realizadas por Burle Marx pelos diferentes biomas brasileiros, evidenciando a diversidade de formas, cores e texturas que influenciaram sua produção paisagística.
Na última alegoria, um laboratório botânico e artístico retratou o espaço de pesquisa e experimentação mantido pelo artista em sua residência, onde desenvolveu estudos sobre espécies nativas, composições paisagísticas e combinações cromáticas.
FANTASIAS
De mãos dadas com o enredo, as fantasias traduziam a narrativa com muita didática. O IPHAN, o calçadão de Copacabana, as flores, a Unesco etc. são elementos da vida artística de Roberto e estavam refletidos nas fantasias.
As fantasias dialogaram com o enredo de forma didática e elegante, sem problemas de acabamento ou leitura.
HARMONIA
O grande intérprete Nêgo, em mais uma noite de gala, conduziu o samba com imenso conforto e empenho, fazendo com que a escola cantasse relativamente bem. No entanto, após a passagem pelo terceiro módulo, o canto perdeu intensidade, especialmente nas alas finais. Embora o samba fosse conhecido, faltou vigor para transformar o bom desempenho em imposição sonora.
Em suma, o canto da comunidade foi bom, mas poderia ser melhor. Eles sabiam o samba e poderiam ter cantado com mais vigor para marcar o território da comunidade na Série Ouro.
SAMBA
O samba-enredo foi assinado por Diego Nicolau, Samir Trindade, Marcelo Adnet, Fabrício Senna, Binho Simões, Maurício da Pizzaria, Gabriel Machado, Gilsinho da Vila, Rodrigo Escócia, Cláudio Emiliano, Edu Botafogo, Liane Harmonia, Denis Moraes, Tange Botafogo, Juca, Laura Romero, Piter Fogoró e Pinóquio do Cavaco.
A letra é didática e foi a trilha sonora perfeita para o desfile que a escola apresentou na avenida. O refrão “Vamos semear o bem como o Mestre ensinou / Entreguei meu alvinegro pra você encher de cor / O amor floresceu nesse lindo jardim / História que não vai ter fim”, da maneira com a qual o carro de som cantou, cadenciava o andamento do samba e levantava a escola na avenida.
OUTROS DESTAQUES
A ala das crianças, “Guardiã da Biodiversidade”, estava vestida de joaninha, exalando ternura na avenida.
E, destacando novamente, o conjunto alegórico da escola merece todos os louros pelo que apresentou.