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Rodado de fé e memória: baianas da Estácio de Sá celebram Iemanjá e a origem do Réveillon carioca

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Se a bateria pulsa, a ala das baianas é o coração. No desfile da Estácio de Sá, elas chegam como “As Mães do Réveillon”, vestidas de prata e branco, levando para a Sapucaí a memória da festa de Iemanjá em Copacabana. A celebração foi idealizada por Tata Tancredo e se tornou marco cultural da cidade, dando origem ao atual Réveillon do Rio.

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Baianas da Estacio de Sa
Baianas da Estácio de Sá
FOTO: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO

A fantasia “Festa para Iemanjá em Copacabana” carrega no figurino os traços do icônico calçadão, um barco dedicado à Rainha do Mar com vela acesa e uma estrutura leve que valoriza o rodado. Beleza e movimento caminham juntos.

Crueza de Souza Xavier conhecida na escola como Xavier
Crueza de Souza Xavier, conhecida na escola como Xavier
FOTO: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO

Crueza de Souza Xavier, conhecida na escola como Xavier, de 54 anos, auxiliar de serviços gerais e estreante na ala, fala da responsabilidade de vestir a fantasia das baianas.

“É uma responsabilidade muito grande. A ala das baianas representa o coração de qualquer escola. O público anseia para ver o rodado da baiana. Nós representamos a mãe baiana de todas as escolas, com muito axé, muita força e amor. Não é fácil. Hoje, cada giro nosso é como se estivéssemos levando embora o que é ruim e trazendo o que é bom: força, caminho aberto e boa energia. Vai ficar para trás tudo que for intolerância religiosa ou preconceito”, comenta.

Amanda Ferreira de 63 anos
Amanda Ferreira, de 63 anos
FOTO: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO

Para Amanda Ferreira, de 63 anos, empresária e há seis anos na escola, a fantasia toca uma vivência pessoal profunda. Ela relaciona o desfile a um episódio marcante de sua vida.

“É muito importante ver a ala das baianas trazendo o calçadão de Copacabana junto de Iemanjá. É exatamente o que eu vivo no Réveillon do Rio. Estou apaixonada. A Rainha do Mar salvou a minha vida. Eu caí de uma pedra de quatro metros na praia, e hoje não era para estar aqui se não fosse Iemanjá. Eu renasci. Só entende esse sentimento quem desfila. Não adianta explicar, é preciso viver a energia”, revela.

Laucilene Silva de 56 anos
Laucilene Silva, de 56 anos
FOTO: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO

Já Laucilene Silva, de 56 anos, biomecânica e há quatro anos na Estácio, descreve a emoção como algo que atravessa o corpo.

“É um misto de emoções representar Iemanjá. Meu corpo arrepia e meus olhos enchem de lágrimas só de pensar em tudo que vivi nessa noite. A ala das baianas veio para lavar a alma e fazer a Estácio ser campeã. Já está na hora desse título. Vamos abrir os caminhos para sermos ainda mais felizes”, comenta.

Conjunto plástico e criatividade na comissão de frente se destacam no desfile da Tom Maior

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Penúltima escola a desfilar, a Tom Maior realizou sua apresentação no Carnaval 2026. A agremiação da Zona Oeste levou para a avenida a cidade de Uberaba e a história de Chico Xavier, com o objetivo de alcançar a melhor colocação possível, já que retorna do Acesso 1. No entanto, o que se viu na pista foi uma escola que jamais deveria ter deixado o Grupo Especial. O nível de investimento no conjunto estético foi altíssimo, com fantasias de elevado padrão e alegorias que podem figurar entre as melhores do carnaval. O grande destaque esteve justamente na estética, aliada ao empenho da comunidade, que mostrou por que a Tom Maior tem trajetória de Grupo Especial.

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A escola encerrou seu desfile às 1h02min com o enredo “Chico Xavier: Nas entrelinhas da alma, as raízes do céu em Uberaba”, desenvolvido pelo carnavalesco Flávio Campello.

COMISSÃO DE FRENTE

Sob o comando do estreante Gandhi Tabosa, a comissão de frente apresentou o segmento “Manancial de uma Terra Sagrada”. Toda a coreografia foi executada sobre um tripé que representava as raízes ancestrais. A proposta cênica traduziu a ancestralidade da terra de Uberaba, especialmente no período da pré-história e da era dos dinossauros. Os componentes vestiam figurinos em tom cinza, com pinturas corporais que, combinadas com lentes de contato, reforçaram a atmosfera pré-histórica, sem remeter ao contexto indígena.

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Em determinado momento, um integrante realizava uma transmutação cênica e surgia com cabeça de dinossauro. Uberaba é fortemente associada a esse período da história do planeta, e a representação foi satisfatória.

MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA

O casal Ruhanan Pontes e Ana Paula Sgarbi desfilou com a fantasia intitulada “Um manancial de terra sagrada”. A vestimenta marcou a abertura monocromática em azul. Experientes e parceiros de longa data em outras agremiações, apresentaram uma performance segura e sincronizada. A coreografia foi bem executada, com movimentos obrigatórios realizados corretamente. Foi uma atuação consistente de ambos.

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HARMONIA

A comunidade da Tom Maior demonstrou canto forte ao longo de todo o desfile. Embora o conjunto tenha transmitido certa sensação de frieza, é importante considerar que o samba possui andamento cadenciado, assim como a bateria, o que naturalmente imprime maior lentidão à apresentação. Ainda assim, a escola mostrou uma comunidade aguerrida, que manteve o canto potente do início ao fim. Destacaram-se os apagões promovidos pela bateria Tom 30, que incendiaram os componentes.

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ENREDO

A proposta foi levar Uberaba para a avenida, cidade marcada pela presença histórica do médium Chico Xavier. O município é rico em referências culturais e históricas, com forte ligação à pré-história e aos povos originários, ponto bem introduzido na comissão de frente. A Índia também apareceu na narrativa, assim como o Geoparque dos dinossauros, apresentado no abre-alas como Terra de Gigantes, além de elementos da culinária local. A ideia de conduzir o enredo por meio de uma carta psicografada por Chico Xavier foi um recurso criativo e bem aplicado desde a sinopse até o samba-enredo. As alegorias, principalmente, facilitaram a compreensão da narrativa, aliando clareza e beleza estética.

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EVOLUÇÃO

A escola evoluiu com leveza e alegria, ocupando a pista de forma correta. Mesmo com o ritmo cadenciado, a intensidade foi mantida, como já havia sido observado nos ensaios técnicos. Os componentes dançaram de um lado para o outro sempre sendo incentivados e orientados pelas lideranças. Em certos momentos havia pedidos para colocar na grade, com o objetivo de não deixar espaçamentos na lateral da pista. Não foram percebidos buracos, divisão de alas ou falhas que comprometessem o quesito.

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SAMBA

O samba foi bem interpretado pelo também estreante Léozinho Nunes. O cantor repetiu o desempenho dos ensaios técnicos e conduziu a obra com animação, utilizando cacos que incentivaram os componentes, como o chamado “Vamos lá, geral”. Ele assumiu o microfone no meio do ciclo e demonstrou total domínio da obra, que se encaixou bem em sua voz. O entrosamento com a bateria Tom 30, especialmente nos apagões, foi preciso, sem qualquer atravessamento, evidenciando sintonia entre intérprete e ritmistas.

FANTASIAS

Flávio Campello apostou em uma estética refinada na concepção das fantasias. A abertura completamente azul deu unidade visual ao início do desfile, seguida por um conjunto mais colorido que dialogou harmoniosamente com as alegorias. As indumentárias chamaram atenção pelo acabamento e pela riqueza de detalhes. Vale destacar que as indumentárias não atrapalharam a evolução e o canto da escola. Uma Tom Maior leve, apesar de esteticamente bem servida de materiais.

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ALEGORIAS

A primeira alegoria, intitulada “Das águas emana o perfume! A Terra das Águas Claras e Berço de Gigantes”, foi um carro de grande impacto visual que completou a abertura azul da escola, composta pelo casal, pela ala e pelo próprio abre-alas. Uma grande escultura central, em constante movimento, destacou-se ao representar de forma carnavalizada a pré-história de Uberaba.

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O segundo carro, “Tem boi pra lá e pra cá! O Zebu: Da Índia para Uberaba”, apresentou esculturas de elefantes e bois, além de forte iluminação e brilho. Houve, porém, um problema técnico: a alegoria teve sua iluminação apagada por um período durante o percurso e passou assim pelo segundo módulo de jurados. Posteriormente, o sistema foi restabelecido e o carro seguiu normalmente.

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A terceira alegoria, “O futuro chegou! Nos caminhos para a industrialização”, trouxe engrenagens e esculturas com olhos iluminados, remetendo ao avanço tecnológico e à modernização da cidade.

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Encerrando o desfile, o último carro, “Chico de luz e amor! Um templo de fé: eterno Chico Xavier”, apresentou uma alegoria em formato de templo, com escultura realista do médium escrevendo uma carta. A representação emocionou especialmente os admiradores do espiritismo e da trajetória de Chico Xavier.

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OUTROS DESTAQUES

A bateria Tom 30, comandada pelo mestre Carlão, executou bossas estratégicas, com destaque para o apagão coordenado envolvendo toda a escola, realizado tanto na pista quanto no recuo. Mais uma vez, Carlão demonstrou experiência à frente da cadenciada Tom 30.

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A rainha de bateria Pâmela Gomes e a madrinha Andreia Gomes também se destacaram, sambando com garra e presença durante todo o percurso.

Unidos da Ponte 2026: Galeria de fotos do desfile

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Maricá faz desfile campeão, mas estouro do tempo e alegoria apagada tiram a escola da briga por título da Série Ouro

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A Maricá, caçula da Série Ouro, pisou na Sapucaí, em seu terceiro desfile no grupo, mais uma vez se postulando fortemente ao título. Com plástica de Grupo Especial, musicalidade de excelência e força nos quesitos de chão, a Vermelha e Branca da Região dos Lagos ouvia gritos das frisas e arquibancadas de “vai subir”. A escola estaria na briga pelo título, mas a última alegoria, “Reluz o Amuleto”, passou apagada do primeiro ao último módulo de julgamento e teve dificuldades para deixar a pista, fazendo com que a agremiação estourasse em dois minutos o tempo máximo de desfile. Já na dispersão, um momento triste: a última alegoria, “Reluz o Amuleto”, foi responsável por deixar quatro pessoas feridas. A alegoria bateu na grade da frisa do setor 12.

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Com comissão e casal tendo ótimo rendimento e boa resposta do público, evolução sem intercorrências e canto satisfatório da comunidade, a Maricá tem tudo para, pelo menos, estar nas primeiras colocações. Com o enredo “Berenguendéns e Balangandãs”, a União de Maricá foi a sexta escola a pisar na Sapucaí na segunda noite de apresentações da Série Ouro, com o tempo de 57 minutos.

COMISSÃO DE FRENTE

A comissão foi assinada mais uma vez pelo renomado coreógrafo Patrick Carvalho, que mais uma vez fez essa dobradinha com o carnavalesco Leandro Vieira, assim como na Imperatriz. Composta exclusivamente por mulheres negras, a comissão esteve intimamente ligada à ideia de empoderamento feminino e à construção simbólica da mulher negra como vitrine para o luxo e a exuberância das joias. O traje apontou para a memória africana de negras engalanadas, cobertas por adornos de ouro. Simbolicamente, o dourado presente no figurino lançou luz de forma poética sobre o acúmulo de poder traduzido por joias, enquanto o vermelho que tingiu a saia das componentes remeteu, de maneira metafórica, às lutas individuais de mulheres negras que se tornaram protagonistas de suas emancipações.

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Já o elemento cenográfico que serviu de “palco” para a apresentação fez referência ao espaço público das ruas (local onde grande contingente de mulheres negras desenvolveu suas atividades de trabalho), num misto de arquitetura colonial acrescida de artigos diretamente associados ao imaginário afro-brasileiro. Coreograficamente, a luta de mulheres negras foi apresentada com garra e exuberância, enquanto o balangandã, artigo fundamental dentro do enredo, foi revelado em meio a imaginários de ancestralidade e devoção, quando a estrutura subiu acima das componentes, em união de duas partes que estavam inseridas em cada lado do elemento e se uniram no meio da alegoria.

Em consonância com isso, figuras cobertas de ouro, orixás femininos, também surgiam vindas do interior do carro através de elevadores. Na parte da frente do elemento, abaixo da figura da figa e dentro dela, na parte inferior do braço, uma mulher, como que em um domo utilizado para se colocar imagens de santos. Comissão com tamanho de Grupo Especial, bem desenvolvida, com clímax e efeitos. Serviu muito bem para apresentar o enredo. Indumentária e elemento cenográfico primorosos, de alto nível.

MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA

O experiente casal Fabrício Pires e Giovanna Justo se apresentou com a fantasia “Realeza e identidade”. Vestindo-se à moda africana, o primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira ostentou signos de realeza para mencionar o universo estético que o enredo aborda. Reforçando a ideia de que o uso de joias revela status e poder, o traje emplumado, luxuoso e ornamentado por búzios e joias douradas que vestia o primeiro casal impôs a narrativa de empoderamento negro proposta pelo enredo, debruçado sobre o balangandã.

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A dança do casal mostrou bastante vitalidade, com a dupla aproveitando bastante as bossas que a bateria fazia para incluir algumas inserções de passos mais voltados para o afro. Fabrício, já de início, mostrou muita desenvoltura no refrão principal, riscando o chão com muita energia. E Giovanna, mesmo em um momento em que o vento estava mais forte, segurou muito bem e manteve o pavilhão bem desfraldado. O casal foi seguro, não ousou tanto, focando mais no bailado clássico. A dupla não teve intercorrências em seu bailado, e todas as apresentações nos módulos foram limpas, com correção e qualidade. A dupla é muito experiente e foi pelo caminho mais seguro.

ENREDO

“Berenguendéns e Balangandãs”, desenvolvido pelo carnavalesco Leandro Vieira, transformou uma joia produzida por mãos pretas em linguagem de resistência, autonomia e orgulho ancestral, reposicionando o corpo feminino negro no centro da narrativa carnavalesca. Nesse sentido, o enredo apresentou um artefato conhecido visualmente, mas com significado esvaziado ao longo do tempo. A abertura da escola apresentou as negras quitandeiras, mulheres fundamentais no Brasil colonial, responsáveis por gerar a renda que possibilitou o acúmulo de joias.

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Na sequência, o desfile mergulhou nos antecedentes do balangandã, passando pela influência das joias portuguesas, pela expertise dos negros malês na forja do metal e pela relação do artefato com Ogum, senhor da forja. Nessa parte, o visual priorizou o tom metálico. O terceiro setor mostrou a individualidade de cada peça que compõe o balangandã: figa, estrutura metálica, dentes de animais e pingentes ligados aos orixás. No encerramento, a Maricá exaltou o empoderamento feminino por meio de mulheres pretas cobertas de joias, senhoras autônomas de sua própria história.

Outra ótima sacada de Leandro Vieira ao revestir uma joia de muito significado e ancestralidade. Fácil leitura das fantasias para apresentação de um tema com tamanho para os desfiles da Série Ouro, fácil de contar com três alegorias e o número de alas próprio para este grupo. O empoderamento feminino no final também foi um acerto e justificou a importância da história contada.

EVOLUÇÃO

A Maricá fazia um desfile de bom nível na evolução, cadenciado no início, mas com espontaneidade dos componentes. Parecia ter boa dosagem do tempo, fazendo suas apresentações sem correria, de forma controlada. Mas, no final, o último carro da escola, “Reluz o Amuleto”, teve dificuldades para deixar a pista, fazendo com que a agremiação estourasse em dois minutos o tempo máximo para encerrar o desfile.

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Com isso, pelo regulamento, a agremiação deverá perder dois décimos, cada décimo referente a cada minuto ultrapassado do tempo limite. No final, também houve pequena correria da escola para fechar. Na pista, não se viram problemas de buracos. Como detalhe informativo, a União de Maricá optou pela não entrada da bateria no segundo recuo a fim de não prejudicar ainda mais a questão do tempo.

HARMONIA

Fazendo dobradinha neste carnaval, Zé Paulo Sierra, que também vai comandar o carro de som da Portela, mostrou que as preocupações com a maratona de trabalho em duas agremiações não afetaram seu rendimento, pelo menos não na Maricá. Com um carro de som de excelente musicalidade, Zé esteve bem à vontade e mostrou entrosamento das vozes e trabalho muito bem feito de preparação e ensaio. Zé Paulo fez, em diversos momentos, solos com a resposta do coro, em alguns trechos apenas com as vozes femininas, como no refrão do meio, em que ele cantava sozinho o “Balanço que lembra meu adarrum”, com a resposta das vozes cheias no “Na amargura de Ogum, memória ancestral”. Fantástico.

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Excelente trabalho das cordas e ótima consonância entre carro de som e bateria, abrilhantando ainda mais a obra que a Maricá levou para a Sapucaí. Já o canto da comunidade foi satisfatório. Alguns momentos com um pouco mais de força, mas sempre presente. Em alguns trechos, o carro de som deixava a escola cantar sozinha o “Claro, tinha que ser preto” do refrão principal. A comunidade comprou a ideia e mostrou força e rendimento para nota máxima.

SAMBA-ENREDO

A obra escolhida pela Maricá para este carnaval foi composta por Babby do Cavaco, Rafael Gigante, Marcelo Adnet, Hélio Porto, Jefferson Oliveira e André do Posto. O trabalho realizado pela direção musical da escola fez com que o samba fosse levado ao máximo na Sapucaí. Com andamento muito adequado à obra, a escola aproveitou todas as partes para que a bateria “Maricadência” pudesse inserir bossas muito pertinentes ao contexto da música. Logo na cabeça, no verso “Nega da Ladeira do Pelô”, foi introduzida uma bossa com levada de axé. E, no refrão do meio, “Balanço que lembra meu adarrum…”, uma bossa de atabaque com batida para orixá, totalmente dançante e evocando ancestralidade.

No geral, um samba muito gostoso de se ouvir, conduzindo bem o desfile, com pegada para frente sem prejudicar a melodia e a métrica. Além disso, ótima interação com o público. O trecho mais cantado, obviamente, foi o último verso da segunda parte do samba, “Vai dormir com esse barulho”, algumas vezes com o carro de som deixando para a escola cantar sozinha.

FANTASIAS

O conjunto de fantasias da União de Maricá teve nível dos conjuntos apresentados por Leandro em títulos da Série Ouro com Imperatriz e Império Serrano, e até mesmo de desfiles que ele assinou no Grupo Especial. Entre os pontos altos, destaca-se o bom uso da paleta de cores para retratar cada ponto do enredo, variando o uso do prata, dourado e branco com tons de marrom e palha quando o enredo pedia mais ancestralidade. Costeiros e adereços de mão muito bem desenvolvidos, como nas alas “Herança dos Malês” e “Armadura de Ogum”.

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No último setor, por exemplo, houve excelente mistura entre o dourado, os tons pastosos, o acabamento mais metálico das joias com estampas africanas, como nas alas que vinham antes do último carro, destacando-se as fantasias “Espelho e Orgulho” e “Pretas Consagradas”. O primeiro figurino, inclusive, com saias rodadas que produziam bonito efeito. Um conjunto estético primoroso, de acabamento luxuoso. Assinatura de Leandro. Outro destaque para a ala das baianas, que recriou de forma carnavalesca o imaginário das negras que praticavam a venda ambulante e, por meio do trabalho diário e de estratégias de existência e resistência, passaram a adquirir variada sorte de joias de ouro e prata como uma espécie de poupança financeira.

ALEGORIAS

Leandro Vieira trouxe para a Sapucaí, assim como no conjunto de fantasias, um conjunto alegórico primoroso e impactante. Com esculturas com a assinatura do carnavalesco e traço fino, as alegorias apresentaram boa volumetria, principalmente para o que Leandro vinha trazendo para a Série Ouro. Alegorias com movimento e bem inseridas no enredo. Porém, a última alegoria, “Reluz o Amuleto”, causou muitos problemas na Sapucaí. O primeiro deles foi passar em todos os módulos completamente apagada, o que deve fazer com que a escola perca vários décimos. A alegoria também foi responsável por deixar quatro feridas. A alegoria bateu na grade da frisa do setor 12.

O abre-alas, “Nêga da Ladeira do Pelô”, reproduziu cenograficamente o espaço público das ruas da Bahia colonial. Inspirado nos registros de artistas como Jean-Baptiste Debret (1768-1848), o conjunto cênico reproduziu, de maneira carnavalesca, os velhos casarões que testemunharam mulheres escravizadas realizando o comércio ambulante nas ruas. A segunda alegoria, “Ogum é a Forja do Metal”, fez menção ao imaginário do orixá Ogum dentro da simbologia da joia de tradição afro-brasileira. Caracterizado como o “deus-ferreiro” e o “senhor da forja”, o saber africano da manipulação de metais, que tanto foi usado para a produção dos berloques que compõem a penca, é associado ao universo simbólico da divindade. No centro do conjunto alegórico, o orixá foi representado como uma espécie de guerreiro retinto que veste sua armadura de prata. No topo, o conjunto escultórico fez menção carnavalesca ao assentamento de Ogum e às pencas feitas com artigos de ferro e prata que tradicionalmente estão penduradas, imbuídas de devoção. São reproduções carnavalescas de espadas, martelos e outras ferramentas de trabalho que, pendendo em uma estrutura igualmente metálica, reforçam as semelhanças entre os símbolos associados ao universo votivo do orixá e o design dos balangandãs usados como uma espécie de “joia-amuleto”.

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O último carro, “Reluz o Amuleto”, encerrou o desfile apresentando o balangandã como uma joia que traduz o status e o empoderamento de mulheres pretas. Predominantemente dourada e ricamente decorada, a cenografia geral mencionou a narrativa de poder revelada pelo artigo e celebrou o corpo preto como vitrine de luxo, ostentação e beleza, apesar das limitações raciais impostas por uma sociedade racista marcada pelo sistema escravocrata.

OUTROS DESTAQUES

Os passistas vestiram a fantasia “Força Animal”, utilizando uma estética “selvagem e animal” para mencionar uma prática comum junto às pencas de balangandãs: a utilização de dentes de javalis, onças, gatos-maracajás e jacarés como amuletos de proteção e evocação de força por aqueles que os levavam junto ao corpo. A bateria “Maricadência”, de mestre Paulinho Steves, foi vestida pelo carnavalesco Leandro Vieira, ostentando como signo imagético de seu traje um popular, simbólico e recorrente artigo presente em boa parte das pencas como uma espécie de amuleto capaz de propiciar a evocação de caminhos abertos: a chave. Na pista, os ritmistas mostraram segurança.

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A rainha Rayane Dumont veio com o figurino “Joias da Princesa”, vestindo o brilho dos artigos dourados que compuseram seu figurino, ostentando luxo e exibindo estética exuberante influenciada pelo contorno africanizado, personificando todo o imaginário de luxo e ostentação associado à joalheria negra.

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No esquenta, Zé Paulo Sierra cantou a obra do carnaval passado, “O Cavalo do Santíssimo e a Coroa do Seu 7”. Com drones, antes do desfile, a escola escreveu no céu “Vai dormir com esse barulho”, além de seu nome e símbolo, sendo ovacionada pela Sapucaí nesse momento.

Estrela do Terceiro Milênio faz apresentação coesa sobre Paulo César Pinheiro

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A Estrela do Terceiro Milênio apostou na força da obra de Paulo César Pinheiro e construiu um desfile seguro no Anhembi. Com o enredo “Hoje a poesia vem ao nosso encontro, Paulo César Pinheiro, uma viagem pela vida e obra do poeta das canções”, a escola apresentou uma narrativa organizada, sustentada por um samba eficiente e por uma comissão de frente impactante, entregando na avenida aquilo que vinha anunciando na proposta.

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Sem grandes erros, a Milênio fez uma apresentação tranquila, com leitura clara dos quadros e boa resposta da comunidade. A plástica veio mais simples em comparação a outras escolas da noite, mas coerente com a proposta e sem comprometer o conjunto.

A agremiação encerrou seu desfile em 1h03min47seg, dentro do tempo regulamentar, mantendo regularidade na maior parte da pista.

COMISSÃO DE FRENTE

A comissão de frente da Estrela do Terceiro Milênio apresentou uma coreografia teatral que revisitou momentos da vida e da obra de Paulo César Pinheiro. O elemento alegórico, com a escultura de Olodumarê ao fundo segurando o grande espelho funcionou como palco. Em determinados momentos, o espelho se abria como portais, permitindo a entrada e saída de personagens e revelações ao longo da coreografia.

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No palco do elemento alegórico, o ator caracterizado como Paulo César Pinheiro observava sua própria trajetória ganhar forma diante dele. A criança que representa o compositor em sua juventude teve papel central. Em diferentes momentos, foi elevada nos braços, dançou com desenvoltura ao lado dos demais componentes e ajudou a dar leveza à cena. O menino se destacou pela segurança e pelo molejo, executando toda a coreografia com naturalidade.

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A roda de capoeira foi o ápice da apresentação. Os capoeiristas surgem de dentro do elemento alegórico, formando a roda na pista ao som do trecho “Zum Zum Zum quero ver capoeira jogar”. A cena cresce com palmas ritmadas, que são acompanhadas pela arquibancada. O clima festivo é quebrado pela entrada da figura da repressão, que dispersa a roda, criando contraste claro entre liberdade e censura, ponto importante na vida do homenageado.

MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA

Arthur dos Santos e Waleska Gomes defenderam o pavilhão com segurança e muita sintonia. O casal dançou para além dos movimentos obrigatórios, construindo uma apresentação que dialogava diretamente com o samba. Em trechos como “zum zum zum quero ver”, era possível perceber a marcação clara dos passos no ritmo da música, sem perder a elegância da condução.

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A fantasia do casal representava a força criadora e luminosa da obra de Paulo César Pinheiro, dialogando com a ideia de inspiração, poesia e espiritualidade que atravessa o desfile. Em dourado, branco, laranja e amarelo, remetia à luz e à força criadora, em sintonia com a ideia de inspiração e espiritualidade que atravessa o enredo.

Na frente da cabine, mantiveram a mesma postura solta e segura apresentada ao longo do desfile. Não houve interferências visíveis do figurino na condução do pavilhão. Foi uma apresentação consistente, que reforçou a harmonia visual do conjunto e sustentou bem o quesito.

HARMONIA

O samba de fácil assimilação, com refrão de cabeça explosivo, funcionou muito bem para a proposta da escola e sustentou o rendimento do desfile. A comunidade respondeu, cantando de forma consistente ao longo da pista. A ala 12 se destacou puxando o canto com mais força, ajudando a manter o volume coletivo.

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No geral, as alas sabiam a letra e demonstravam vontade de envolver as arquibancadas, que reagiam principalmente nas bossas. Havia troca entre pista e público, algo que favoreceu a atmosfera do desfile.

ENREDO

A proposta de revisitar a vida e a obra de Paulo César Pinheiro foi cumprida. Os blocos narrativos se organizaram de forma compreensível: a formação nos morros, a resistência política, os amores, a religiosidade e a consagração artística do compositor. A escola optou por uma leitura direta, sem construções muito abstratas, o que favoreceu a compreensão do público.

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A ideia do altar sincrético é conceitualmente interessante e dialoga com o universo espiritual e musical do homenageado. A narrativa forte se manteve organizada e compreensível ao longo do desfile.

ALEGORIAS

O abre-alas foi um dos momentos visuais mais fortes da escola. A lua estrelada girando no alto, combinada ao efeito das lâmpadas nas laterais, criou uma imagem marcante na avenida.

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Um dos destaques fica para a segunda alegoria, inspirada em “O Canto das Três Raças”, apresentou imponência, a proposta era traduzir visualmente o lamento das três matrizes que formaram o Brasil: indígenas, negros e brancos. As coreografias realizadas no alto do carro, em cativeiros, reforçaram o peso simbólico da canção.

O quadripé das “Tesouras de Chumbo” dialogou de forma eficiente com a ala seguinte sobre a anistia, criando uma sequência coerente dentro da proposta política do enredo. Já o altar sincrético trouxe uma proposta interessante ao unir elementos religiosos e musicais, embora a representação literal de Clara Nunes possa não ter alcançado o resultado visual desejado e tenha dividido opiniões.

O último quadripé, com o encontro da coruja da Milênio com a águia da Portela, encerrou com boa leitura, já que ele quem compôs a exaltação “Portela na Avenida”.

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FANTASIAS

As fantasias utilizaram materiais simples, mas cumpriram a função proposta. A escola foi honesta na execução: sem luxo excessivo, porém coerente. A ala 3, representando a boemia, é um exemplo claro disso, a leitura era imediata, ainda que com uso de plástico e materiais mais básicos.

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As baianas, homenageando Ivone Lara, reforçaram o eixo musical do enredo e contribuíram para a construção simbólica do desfile. No conjunto, as fantasias foram justas e comunicativas, mesmo sem grande requinte de acabamento.

EVOLUÇÃO

Não houve buracos na pista, mas ocorreram momentos de organização irregular entre as alas. Uma baiana passou mal na altura do setor H, momentaneamente exigiu aceleração das duas alas seguintes para recompor o fluxo. A ala 6 apresentou embolamento no mesmo ponto, forçando o carro atrás a correr na frente do quinto módulo de julgamento.

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As alas 7 e 8, por conta do volume das fantasias, tiveram mais dificuldade de deslocamento e se embolavam com maior frequência. Ainda assim, os problemas foram pontuais e mais relacionados à organização interna das alas do que a falhas estruturais na ocupação da pista.

SAMBA

O samba foi o ponto alto da apresentação. De fácil canto e com refrão principal mais explosivo, funcionou plenamente para a escola e sustentou a energia do desfile do início ao fim. A resposta foi tanto na pista quanto nas arquibancadas.

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O carro de som ajudou a manter a energia, especialmente com Grazzi Brasil, que atuou ao lado de Darlan Alves. A condução segura ajudou a potencializar o rendimento do conjunto, reforçando o samba como principal trunfo da escola.

OUTROS DESTAQUES

O paradão da bateria em frente à Monumental foi bem respondido pelo público e criou um dos momentos de maior interação da apresentação.

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O berimbau segue como marca registrada da bateria. Enquanto amplificado, tem impacto e dialoga com enredo. No entanto, quando a bateria passa e as caixas de som são desligadas, o instrumento perde projeção e parte do efeito se dilui.

Sávia David teve boa atuação como rainha de bateria, com ritmo natural, especialmente nos momentos em que a bateria executava as bossas.

 

Homem no pavilhão: Morango constrói legado como porta-bandeira do Arranco

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Coincidências atravessam o enredo do Arranco do Engenho de Dentro e a trajetória de Anderson Morango. Assim como Maria Eliza dos Reis, a primeira palhaça negra do Brasil que se vestia de homem para seguir no picadeiro, o artista transforma-se em porta-bandeira para preservar o próprio legado e escrever um novo capítulo na história do pavilhão.

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Morango Arranco
Anderson Morango é porta-bandeira no Arranco. Foto: Mariana Santos/CARNAVALESCO

Há sete anos, Anderson se transforma em Morango para ocupar a função de segunda porta-bandeira do Arranco do Engenho de Dentro, posição que consolidou sua trajetória no bailado do pavilhão. A presença masculina no posto, ainda incomum no universo das escolas de samba, ecoa a própria história narrada pelo enredo e reforça, na avenida, a ideia de permanência pela arte e pela tradição familiar.

No enredo deste ano, as aproximações entre Maria Eliza e a própria história do Arranco aparecem como fios que costuram passado e presente. A artista nasceu em 21 de fevereiro, mesma data de fundação da escola, ainda que separadas por mais de seis décadas. No circo, cozinhava, costurava e tocava tamborim; na quadra, a presidente Diná mantém viva a tradição das feijoadas, enquanto o instrumento segue essencial à bateria. Espelhamentos que reforçam, na avenida, a permanência de um legado construído pela arte e pelo trabalho coletivo.

Gabriel e Morango
O segundo casal de mestre-sala, Gabriel Coleto, e porta-bandeira, Anderson Morango, do Arranco. Foto: Mariana Santos

Para Morango, o paralelo com Maria Eliza ultrapassa a coincidência narrativa do enredo e se torna experiência pessoal. 

“Falo que o enredo tem tudo a ver comigo porque Eliza se fantasiava de homem para manter o legado da família e o sonho do pai dela. Eu digo que me visto de mulher para manter o meu sonho e o legado da minha família, que é o samba”, afirmou.

Antes de assumir o pavilhão do Arranco, Anderson trabalhou nos bastidores do carnaval, vestindo o então primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira da Mangueira, Marquinhos e Giovanna. O convívio despertou o interesse pelo bailado, que o levou inicialmente ao posto de mestre-sala. 

A mudança para porta-bandeira veio depois, a partir do convite de um carnavalesco durante um enredo sobre intolerância religiosa na Acadêmicos do Sossego. Uma experiência que revelou contradições de um universo que, embora marcado pela celebração da diversidade, ainda preserva traços de conservadorismo.

A chegada ao posto também aconteceu de forma inesperada.

“A princípio, o presidente queria que eu fosse rainha de bateria. Achei que ele estava louco e disse que aquilo não era para mim, mas ele insistia que eu tinha bons giros. Fomos almoçar e, quando cheguei em casa, já tinha emissoras me ligando porque a assessoria tinha vazado a história. Era para ser só um ano, mas permaneci, fui promovida a segunda porta-bandeira e hoje estou há sete anos na função, quatro deles no Arranco”, contou.

Mais do que ocupar o posto, Morango projeta continuidade. No Arranco, ele mantém um trabalho de formação de novas porta-bandeiras, compartilhando técnica e experiência com alunos de diferentes idades e trajetórias.

“Acho importante passar o que você sabe, não guardar para tentar se eternizar. Eu aprendo todos os dias com meus alunos, inclusive com crianças autistas e pessoas com deficiência, que me ensinam com o próprio sonho. Segurar um pavilhão é segurar a história de uma escola e tudo o que os ancestrais construíram. O Arranco é uma dinastia familiar. A gente vive a escola todos os dias. Agora só saio daqui quando Deus quiser”, concluiu.

Estácio de Sá retrata a continuidade do legado de Tata Tancredo

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Neste sábado, a Estácio de Sá foi a quinta escola a passar pela Marquês de Sapucaí e apresentou o enredo “Tata Tancredo: O papa negro no terreiro da Estácio”, idealizado pelo carnavalesco Marcus Paulo. A obra celebra o pai de santo e a sua contribuição cultural e religiosa para os cariocas. Tata foi um dos grandes responsáveis por iniciar a tradição do famoso Réveillon de Copacabana, no Rio de Janeiro, além de auxiliar na organização da umbanda no Brasil.

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Detalhes da terceira alegoria
Detalhes da terceira alegoria
FOTO: Maria Estela Costa/CARNAVALESCO

A agremiação resolveu dar um novo significado ao falecimento do homenageado através da alegoria 03: “Xirê Infinito do Axé: Tata Tancredo Entre Òrun e Àiyé”. Ela levou para a Avenida a ideia de que Tancredo fez a transição de plano espiritual e foi recebido pelos orixás, tornando-se um mensageiro de Ifá. O carro tem o formato do símbolo do infinito para trazer a ideia de uma vida cíclica, mesmo após a morte.

Sobrinho de Tata Tancredo Rosenberg Teodoro
Sobrinho de Tatá Tancredo, Rosenberg Teodoro
FOTO: Maria Estela Costa/CARNAVALESCO

Sobrinho de Tata Tancredo, o bombeiro hidráulico Rosenberg Teodoro, de 53 anos, desfila na Estácio de Sá desde a infância e afirma que já esteve em quase todos os postos e viveu intensamente o processo criativo da agremiação. Neste ano, com muita emoção, ele esteve na alegoria que celebra o pós-morte de seu tio-avô.

“O final do ano do Rio entrou pro Guinness Book. E esse enredo é o cara que inventou isso. O Tata Tancredo que inventou as festas, oferenda pra Iemanjá lá no mar e inventou esse Carnaval inteiro. Não tenho palavras para explicar como está sendo bom esse festejo todo, esse final de ano eterno”, contou Rosenberg.

Para ele, resgatar a história de Tancredo é voltar à própria infância. Um momento único que ficará marcado na memória.

“Aquilo ali foi muito marcante. A Estácio com esse enredo resgatou minha infância. Graças a Deus, eu me lembro dessa infância, eu sentado no colo dele”, completou Rosenberg.

Bruno Rocha cozinheiro de 35 anos
Bruno Rocha, cozinheiro de 35 anos
FOTO: Maria Estela Costa/CARNAVALESCO

Bruno Rocha, cozinheiro de 35 anos, desfila na Estácio há três anos e esteve na alegoria como representação da imagem de Oxalá. Ele pontua a importância de levar a história do pai de santo para a Passarela do Samba.

“O carnaval é afro, carnaval é do povo preto, carnaval é da macumba. Quanto mais a gente puder exaltar esses temas na avenida, porque a Marquês de Sapucaí é uma escola audiovisual, a gente aprende assistindo, ao ouvir, isso é muito importante, a gente consegue quebrar muitos preconceitos”, afirmou Bruno.

Acidente com último carro da Maricá deixa feridos

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A União de Maricá encerrou seu desfile com um acidente na Marquês de Sapucaí que deixou ao menos quatro pessoas feridas, uma delas em estado grave, com fratura grave na perna. As vítimas foram prensadas pelo último carro alegórico no momento em que a agremiação encerrava sua apresentação.

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Acidente com último carro da União de Maricá deixa três feridos. Foto: Reprodução de TV

Segundo informações do jornal O Globo, a alegoria bateu na grade da frisa do setor 12 durante a tentativa de chegada à Praça da Apoteose. Profissionais de apoio da escola tentaram manobrar a alegoria enquanto foliões alertavam que havia um homem preso sob a estrutura. Um dos envolvidos conseguiu se soltar pulando para dentro da frisa, enquanto outro só foi retirado após a remoção do carro, já com a perna ensanguentada, sendo atendido pelo Corpo de Bombeiros.

Em nota, a Secretaria Municipal de Saúde informou que o homem que teve fratura grave na perna foi transferido para o Hospital Municipal Souza Aguiar, no Centro, onde será submetido à cirurgia. Outras duas pessoas foram atendidas no posto local e liberadas. Uma quarta pessoa foi encaminhada para o Hospital Miguel Couto, na Gávea, pra exames complementares.

Veja a nota da União de Maricá na íntegra:

“A União de Maricá informa que, ao término do desfile, foi registrado um incidente envolvendo a última alegoria da escola e o Sr. Itamar de Oliveira.

Desde o ocorrido, a equipe da agremiação acompanha a situação de forma permanente, prestando todo o suporte necessário, inclusive com representantes no Hospital Municipal Souza Aguiar.

A União de Maricá manifesta sua solidariedade ao Sr. Itamar de Oliveira e seus familiares. Neste momento, nada é mais importante do que a saúde e o pleno restabelecimento do envolvido”

Veja a nota da Secretaria Municipal de Saúde na íntegra:

“Na saída do último carro da União de Maricá, um homem foi atingido pela alegoria. Foi socorrido pelos bombeiros, atendido e estabilizado no posto médico da Secretaria Municipal de Saúde na Apoteose, com fratura grave na perna direita. Ele foi transferido para o Hospital Municipal Souza Aguiar e será submetido a cirurgia.

Outros dois homens tiveram ferimentos leves e foram levados por maqueiros ao posto. Um deles foi atendido e liberado. O outro foi encaminhado para o Hospital Municipal Miguel Couto, para exames complementares”.

Porto da Pedra 2026: Galeria de fotos do desfile

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Com alegoria “Casa de Preto Também é Academia”, o Império Serrano consagra a intelectualidade negra na avenida

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O Império Serrano transformou a Sapucaí em uma grande casa do saber no segundo dia de desfiles da Série Ouro do Carnaval carioca. Fechando a homenagem a Conceição Evaristo, uma das maiores escritoras do Brasil, veio o carro alegórico mais impactante da apresentação. Intitulado “Casa de Preto Também é Academia”, ele transformou a chamada “Casa Escrevivência” em um imponente palácio da intelectualidade.

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Detalhes da alegoria

A alegoria trouxe a escultura de uma menina negra sobre uma motocicleta, empunhando uma caneta como arma e avançando sobre a figura de um homem branco e rico, que representa a classe média alta como o “monstro”. O carro enfatiza a mensagem de que a periferia e o samba também são lugares de saber acadêmico.

A caneta erguida pela menina não é apenas um instrumento de criação literária, mas o símbolo da vitória coletiva de toda uma população que é estigmatizada como ignorante.
Grandes nomes da cultura, da política e da academia brasileira estavam na alegoria, como a prima da homenageada e ministra dos Direitos Humanos e da Cidadania, Macaé Evaristo. Ela destacou o alcance político do desfile.

“Casa de Preto também é academia, está na letra desse samba-enredo. Eu acho que toda a pedagogia política que a Conceição Evaristo faz por meio da literatura exalta o grande potencial da periferia, porque, muitas vezes, as pessoas só enxergam as favelas e os povos de comunidades tradicionais como um lugar de falta. Eu acho que ela vem exatamente exaltar esse lugar da potência, da inventividade, da criatividade, e ao mesmo tempo que ela não deixa em segundo plano a denúncia da desigualdade da população negra. Eu acredito que esse carro mostra bem isso, a potência da coletividade negra, já que é um carro que vem com pessoas aqui de todas as áreas, de todos os aspectos do saber”, pontuou a ministra.

Prima de Conceicao e ministra Macae Evaristo
Prima de Conceição e ministra Macaé Evaristo
FOTO: Carolina Freitas/CARNAVALESCO

Ao comentar a frase “a gente combinamos de não morrer”, de Conceição Evaristo, que é um dos destaques da parte de trás do carro, Macaé reforçou o sentido simbólico de estar ali: “É um pacto de sobrevivência que não é individual. Ele vem da luta e do exercício de uma vida coletiva”.

Rosemery Santana de 77 anos integrante do Departamento Feminino da escola
Rosemery Santana, de 77 anos, integrante do Departamento Feminino da escola
FOTO: Carolina Freitas/CARNAVALESCO

Rosemery Santana, de 77 anos, integrante do Departamento Feminino da escola, pontuou o fato da alegoria ressaltar o poder intelectual feminino.

“Ele está exaltando o poder de uma escritora maravilhosa, já que faz referência ao livro dela. Essa representatividade na Avenida é um novo passo para a visibilidade mundial de todas nós, mulheres negras que vencemos nesse âmbito”, diz.

A jornalista Eliana Alves Cruz
A jornalista Eliana Alves Cruz
FOTO: Carolina Freitas/CARNAVALESCO

A jornalista e escritora brasileira Eliana Alves Cruz comentou a emoção de vir ao lado de figuras femininas importantes.

“É muito emocionante vir aqui do lado da Ainá Evaristo (Filha de Evaristo). Todas mulheres e figuras importantes desse carro são incríveis. Eu acho que o Império vai fazer um filme histórico”, pontua.

Osvaldo Barao de 82 anos
Osvaldo Barão, de 82 anos
FOTO: Carolina Freitas/CARNAVALESCO

Componente da ala dos cabelos brancos da velha guarda, Osvaldo Barão, de 82 anos, também celebrou a mensagem do poder feminino e comentou a escultura presente na alegoria:
“Significa que ela venceu. Ela é resistência. Nós estamos torcendo por isso. O nosso enredo é sobre isso, o poder da mulher. A Evaristo é uma mulher de raça”.

Ele também não deixou de falar da garra que o povo preto tem para ocupar todos os lugares, associando com a força do Reizinho de Madureira.

“Nós somos negritude, somos imposição. Império Serrano é luta, é raça e nós vamos ganhar esse carnaval. Nós somos da velha guarda, da ala dos cabelos brancos da velha guarda da escola. Quarenta anos de ala. Nós somos resistentes”.