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Entre o impacto da narrativa e os percalços técnicos, a Niterói narrou a trajetória de Lula sob os olhos do próprio homenageado

A Acadêmicos de Niterói abriu os desfiles de domingo com a missão de transformar a biografia de Luiz Inácio Lula da Silva em uma epopeia de resistência e democracia. Em uma noite marcada pela presença histórica do próprio homenageado, que quebrou o protocolo ao descer para a pista na altura do segundo recuo de bateria para beijar o pavilhão niteroiense, a agremiação entregou um desfile de forte apelo emocional. Sob o comando do carnavalesco Tiago Martins, a escola buscou equilibrar o rigor histórico com a plasticidade do Carnaval, enfrentando, porém, desafios de evolução e acabamento.

COMISSÃO DE FRENTE

A apresentação intitulada “O amor venceu o medo”, coreografada por Handerson Big e Marlon Cruz, foi um verdadeiro manifesto político em movimento. Nove bailarinos, vestindo figurinos em tons terrosos que remetiam às origens nordestinas de Lula, executaram passos sincronizados que culminavam na ocupação de elementos cênicos em formato de andaimes. Esses módulos, equipados com quatro telões frontais, exibiam imagens reais da trajetória do presidente. Em um segundo momento, a narrativa ganhou densidade dramática no tripé “A capital do povo”, deslocado à frente do primeiro módulo. Ali, encenou-se a passagem da faixa para Dilma Rousseff, o golpe, o período de prisão e a figura satírica de Bolsonaro (referenciado como “Bozo”).

* LEIA AQUI: Componente fala! Acadêmicos de Niterói reacende debate sobre os limites da Avenida

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A catarse ocorreu na representação da subida da rampa em 2023, quando Lula apareceu cercado por representantes de minorias, negros, indígenas, LGBTQIA+ e PCDs, sob um jogo de luzes nas cores da bandeira nacional e o vermelho do partido. A performance arrancou gritos eufóricos do público, deixando clara a mensagem. Porém, o tripé ficou deslocado um pouco mais à frente que o módulo na apresentação diante da primeira cabine de jurados.

* LEIA AQUI: Acadêmicos de Niterói transforma Lula em símbolo da nação brasileira e conta sua história na Sapucaí

MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA

O primeiro casal, Emanuel Lima e Thainara Matias, trouxe para a avenida a fantasia “Luar do Sertão”, uma homenagem à infância de Lula sob as histórias de Dona Lindu e as canções de Luiz Gonzaga. A dupla entregou uma exibição pautada pela segurança e pela coesão. Com um bailado harmonioso, demonstrou conexão em cada giro, mantendo a bandeira esticada e a elegância no cortejo.

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Um ponto alto da performance foi a introdução de uma “baixada” coreográfica, movimento de altíssimo grau de dificuldade executado com boa precisão, o que evidenciou o entrosamento técnico do par. A passagem pelos módulos de jurados foi considerada segura, honrando o pavilhão azul e branco com dignidade e técnica.

* LEIA AQUI: tempo em disputa na Sapucaí: Ala 21 da Niterói transforma escala 6×1 em manifesto

HARMONIA E SAMBA-ENREDO

O samba, de fácil leitura e forte apelo melódico, foi abraçado pela escola e pelo público desde o esquenta. A condução do intérprete Emerson Dias e de sua ala musical foi fundamental, garantindo que a obra não perdesse o vigor em nenhum momento. No início do desfile, a harmonia explodiu, com os componentes cantando a plenos pulmões.

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Entretanto, o quesito sofreu oscilações quando a escola precisou parar devido aos problemas de pista com a segunda alegoria, e o canto da comunidade dava sinais de queda. O que impediu uma piora maior foi a cadência da bateria de mestre Branco Ribeiro, que segurou o ritmo com firmeza, mantendo uma sustentação positiva para que os desfilantes não abandonassem o samba.

EVOLUÇÃO

Embora o início tenha sido fluido, a evolução sofreu um colapso técnico na altura do segundo módulo de jurados devido a problemas com a segunda alegoria. O carro, extremamente lento, causou um congestionamento que deixou a escola estática por cerca de quatro minutos, gerando um risco real de punição. O atraso quase provocou um buraco no setor 3 da avenida. Após esse período de tensão, a direção de harmonia conseguiu retomar o fluxo, e a escola voltou a andar de modo menos robótico, recuperando o tempo perdido e o ritmo da festa.

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ALEGORIAS E FANTASIAS

O projeto visual de Tiago Martins foi grandioso em escala, com carros altos e uso moderno de painéis de LED. Contudo, a execução técnica deixou a desejar em detalhes de acabamento. O abre-alas, dividido em três chassis, apresentou fios aparentes. A segunda alegoria desfilou com um refletor apagado em sua traseira, enquanto a quarta alegoria enfrentou dificuldades para entrar na pista.

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No último carro, uma rachadura na escultura principal, a cabeça do presidente, era visível para os observadores mais atentos. As fantasias com volumetria impressionaram, mas o peso foi notado especialmente na ala das passistas, comprometendo a desenvoltura de alguns componentes. Foram registradas ainda falhas pontuais, como cactos soltos na ala das baianas e componentes sem costeiros na ala cênica de militares, que contou com a presença dos atores Paulo Vieira e Juliana Baroni representando Lula e a ex-primeira-dama Marisa Letícia.

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OUTROS DESTAQUES

No primeiro setor da escola, a atriz Dira Paes emocionou o público ao representar Dona Lindu cercada pelos filhos pequenos no sertão. No último carro, a cantora Fafá de Belém esteve presente após emprestar sua voz potente ao entoar o clássico “O que é, o que é?” durante o esquenta da escola. A alegoria também contou com personalidades como Antônio Pitanga e Paulo Betti. Embora a participação da primeira-dama Janja fosse amplamente comentada nos bastidores, ela não chegou a desfilar com a agremiação. O momento definitivo, contudo, foi o encontro do homenageado com a comunidade de Niterói. Lula, que assistia a tudo do camarote, desceu à avenida em um gesto de reverência, beijou o pavilhão da escola e selou a carga emocional do desfile.

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Alegoria “Vale uma nação, vale um grande
enredo”, da Acadêmicos de Niterói. Foto: Ana Júlia Agra/CARNAVALESCO

Componente fala! Acadêmicos de Niterói reacende debate sobre os limites da Avenida

A Acadêmicos de Niterói foi a primeira escola a pisar na Marquês de Sapucaí neste domingo, abrindo os desfiles do Grupo Especial 2026. A Azul e Branca da Cidade Sorriso levou para a Avenida o enredo “Do alto do mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”, desenvolvido pelo carnavalesco Tiago Martins e pelo enredista Igor Ricardo. O tema narra a trajetória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva desde a infância em Garanhuns até a Presidência da República eprovocou debates nas redes sociais e entre parte do público: existe limite para o que o Carnaval pode contar?

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Para ouvir quem constrói o espetáculo na prática, o CARNAVALESCO conversou com quatro componentes que estrearam ou retornaram à Sapucaí com a Niterói.

O bibliotecario Paulo Garrido
O bibliotecário Paulo Garrido
FOTO: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO

O bibliotecário Paulo Garrido, servidor da Fundação Oswaldo Cruz e presidente do Sindicato Nacional dos Trabalhadores da Fiocruz, defendeu que a cultura tem um grande potencial de mobilização e que a liberdade de criação e de pensamento deve ser preservada.

Para ele, o enredo da Niterói integra a história do Brasil e da política internacional ao retratar “um metalúrgico que foi liderança sindical e tem uma trajetória de compromisso com a população brasileira. A escola foi ousada e corajosa ao levar esse tema à Avenida, mesmo que o carnaval sempre tenha dialogado com a política. Na minha visão isso deve continuar acontecendo”.

Rilke Publio farmaceutico 62 anos
Rilke Públio, farmacêutico, 62 anos
FOTO: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO

Rilke Públio, farmacêutico, 62 anos, também estreante na agremiação, pontuou que o samba-enredo percorre a trajetória de Lula desde o nascimento até a atuação sindical e política, sem recorrer a especulações. “Não há nenhuma novidade escondida. É a história de vida e de liderança política de uma figura pública. E eu acho que homenagear alguém vivo é uma escolha legítima da escola”.

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Camila Mateus, de 46 anos
FOTO: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO

Já Camila Mateus, de 46 anos, acrescentou que a homenagem ultrapassa a dimensão partidária e se concentra no percurso pessoal: “Estamos homenageando o ser humano, o cidadão que veio de Garanhuns e construiu uma trajetória. É a história de um brasileiro que deu certo, não é apenas a história de um político”.

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Jaqueline Deister
FOTO: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO

Jaqueline Deister, por sua vez, avaliou que parte das críticas decorre do ambiente de polarização e de disputas ideológicas. Segundo ela, há setores que recorrem com frequência a questionamentos e ações judiciais para impedir manifestações culturais.

“São pessoas que não têm um respeito legítimo com a democracia e tentam vetar o exercício artístico”, afirmou a componente.

Imperatriz 2026: Galeria de fotos do desfile

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Acadêmicos de Niterói transforma Lula em símbolo da nação brasileira e conta sua história na Sapucaí

Na abertura do primeiro dia de desfiles do Grupo Especial no Carnaval 2026, a Acadêmicos de Niterói levou à Marquês de Sapucaí um desfile que ultrapassou o espetáculo visual. A última alegoria, intitulada “Vale uma nação, vale um grande enredo”, transformou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em uma figura de enorme representatividade do país. 

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Alegoria “Vale uma nação, vale um grande
enredo”, da Acadêmicos de Niterói. Foto: Ana Júlia Agra/CARNAVALESCO

O último carro consolidou a narrativa proposta pelo enredo “Do Alto do Mulungu Surge a Esperança: Lula, o Operário do Brasil” do carnavalesco Tiago Martins. Mais do que biografia, a escola apostou na construção de uma ideia de nação associada à soberania e ao Estado democrático. A presença de convidados ligados ao presidente ampliou a dimensão do momento, transformando a alegoria também em acontecimento político, sem abandonar a estética.

Ator Paulo Betti
o ator Paulo Betti, 73 anos, desfilou na alegoria da Niterói. Foto: Ana Júlia Agra/CARNAVALESCO

Para o ator Paulo Betti, de 73 anos, o Brasil representado ali é o de um país que deseja ser mais justo e menos desigual. Ele destacou a força da trajetória de quem saiu “do meio daqueles que não têm” e chegou à presidência, enxergando na figura homenageada a prova de que é possível romper barreiras sociais profundas. “O Lula é um fenômeno, o Brasil precisa acreditar que é possível você ser um menino pobre, que saiu do nada e vencer”.

Atriz Malu Valle 68
Malu Valle, 68 anos, atriz. Foto: Ana Júlia Agra/CARNAVALESCO

A atriz Malu Valle, que desfila pela primeira vez pela agremiação, afirmou ver no carro a imagem de uma nação soberana, sustentada pelo trabalho e pelas próprias riquezas. Para ela, a escolha de homenagear Lula reforça o papel do Carnaval como uma das principais expressões culturais do país, capaz de transformar trajetórias políticas em narrativa artística. 

Malu completou ainda: “Eu acho a coisa mais linda ver uma escola de samba que é uma das principais formas de expressão cultural escolher homenagear uma trajetória como a do Lula, que é um cara que saiu de pau de arara praticamente com a Dona Lindu e hoje é uma liderança mundial incontestável, na minha opinião a maior. A função da arte é transformar, fazer as pessoas refletirem, espero que a Acadêmicos de Niterói leve para a Avenida esse pensamento: um país livre e soberano”.

Inez Viana 60 atriz e diretora teatral
Inez Viana, 60 anos, atriz e diretora teatral. Foto: Ana Júlia Agra/CARNAVALESCO

Já Inez Viana interpretou o encerramento como o retrato de um país que ainda acredita em dias melhores, evocando o “esperançar” de Paulo Freire. “Enxergo através desse carro um Brasil que ainda acredita, que tem esperança de dias melhores. E o Lula é essa figura histórica, então a gente está homenageando esse cara que vem de um lugar muito humilde e se torna essa liderança mundial, realmente a gente está aqui esperançando por dias melhores, do verbo esperançar mesmo, como já dizia Paulo Freire. Ele é uma figura histórica, tem um papel importantíssimo na história do Brasil desde a luta sindical, depois três vezes presidente da República”. 

Sobre a questão do carnaval dialogar com a política, ela diz acreditar nesse diálogo e completou ainda: “o povo acredita, coloca suas expectativas, esperanças, seus anseios, é um modo de expurgar, mas também reivindicar coisas que você deseja”.

Angela Rebello 73 atriz
Angela Rebello, 73 anos, atriz. Foto: Ana Júlia Agra/CARNAVALESCO

A atriz Angela Rebello destacou a pluralidade do Brasil retratado na alegoria. Para ela, o enredo não homenageia apenas um líder, mas também a força de mulheres como Dona Lindu, mãe do presidente, representando tantas brasileiras do interior e do Nordeste. 

“Vejo também como uma homenagem a uma mulher brasileira, do interior, do Nordeste, que lutou pelos seus filhos e que é a razão de um dos seus filhos ser esse homenageado, pela sua criação. É um exemplo de brasileiro que não se rende, que é forte, tem esperança e luta corajosamente pelo que quer. E esse fecho com essa pluralidade do último carro representa muito isso também. Para mim qualquer ato cultural é também um ato político, não vejo como se o carnaval estivesse fazendo política e o carnaval é essa metáfora, você vê a história sendo colocada em alegorias na Avenida”, afirmou.

Daniel de Lima 38 enfermeiro
Daniel de Lima, 38, enfermeiro. Foto: Ana Júlia Agra/CARNAVALESCO

Entre os componentes, a percepção também apontou para valores como igualdade, respeito e resistência. O enfermeiro Daniel de Lima viu no carro um Brasil que fala de amor e união, enquanto o técnico do DIEESE Lucas Lima destacou a centralidade da luta por direitos e melhores condições para os trabalhadores. 

Lucas Lima 25 tecnico de DIEESE
Lucas Lima, 25 técnico da DIEESE. Foto: Ana Júlia Agra/CARNAVALESCO

“Enxergo um Brasil de luta, que tem como seu principal líder um presidente que veio da luta sindical, que reconhece a necessidade do diálogo da melhoria e da luta por melhores condições para os trabalhadores”, encerrou Lucas.

Tempo em disputa na Sapucaí: Ala 21 da Niterói transforma escala 6×1 em manifesto

Relógios que marcaram horas invisíveis e engrenagens simbolizando corpos transformados em extensão da máquina abriram espaço para um dos debates mais atuais do país na Marquês de Sapucaí. No desfile que inaugurou o Grupo Especial de 2026, a Acadêmicos de Niterói levou para a Avenida, dentro do enredo “Do alto do mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”, um recorte direto sobre a vida de quem enfrenta a escala 6×1. Na Ala 21, intitulada “Pelo fim da escala 6×1”, o tempo deixou de ser apenas alegoria e virou denúncia.

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Componentes da ala 21
Componentes da ala 21
FOTO: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO

Com figurinos marcados por relógios e engrenagens, a ala materializou o debate sobre a redução da jornada semanal e o impacto da escala 6×1 na vida de milhões de brasileiros. A proposta estética trouxe uma pergunta: quem controla o tempo do trabalhador?

A reportagem conversou com componentes da alas diferentes: Denise Rosa, de 49 anos, professora de educação infantil, há cerca de cinco anos na escola; Jerônimo de Oliveira, 59 anos, segurança, com 12 anos de trajetória no Carnaval acompanhando a agremiação desde os tempos de Sossego; e Cristiane Maciel, assistente social e massoterapeuta, há três anos na Niterói.

O que representa desfilar em uma ala que pede o fim da escala 6×1?

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Denise Rosa, de 49 anos
FOTO: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO

Denise Rosa afirmou que a sensação é de fazer parte da história e contribuir para a mudança de uma realidade que já viveu. Ela contou que antes de se tornar professora trabalhou em telemarketing e em mercado, período em que enfrentou jornadas exaustivas.

“Eu vivi isso na pele e sei como é complicado. Estar nessa ala é lutar para que essa história mude para tantas pessoas. Fico muito feliz em ver um tema como esse sendo pautado”, comentou.

Jerônimo de Oliveira destacou que desfilar representando o próprio cotidiano é uma experiência profundamente emocionante. Segurança, ele encara diariamente a escala 6×1: “É pura emoção sentir que a minha realidade e o meu esforço diário estão sendo representados na Avenida. É como se a minha vida estivesse passando ali. Essa representatividade é importante demais para mim, com certeza traz um sabor especial ao meu desfile”.

Cristiane Mael relatou que já trabalhou na escala 6×1 e que, ao mudar a jornada, passou a ter mais tempo para a família e para si: “Representa muito para mim, porque eu deixava de conviver com meu filho, meu marido, meus pais. Hoje, tenho outra realidade e sei o quanto isso faz diferença. É sobre ter uma melhor qualidade de vida”.

O que simbolizam os relógios e o controle do tempo no figurino?

Para Denise, os relógios representam o controle rígido exercido sobre a vida de quem depende do emprego para sobreviver. “A gente fica à mercê de decisões que comandam a nossa vida. Precisando do trabalho, muitas vezes a pessoa se sujeita a tudo isso. Por isso, não vejo a hora de essa realidade mudar para que milhares de brasileiros possam ter mais tempo livre”, afirmou.

Jeronimo de Oliveira
Jerônimo de Oliveira
FOTO: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO

Jerônimo avaliou que o símbolo é forte porque traduz a perda concreta de tempo de convivência e lazer: “Essa escala tira o nosso tempo de forma forte. Existem muitas coisas que eu gostaria de viver, momentos com a família, que acabam ficando pelo caminho por causa dessa jornada”.

Cristiane associou o controle do tempo à impossibilidade de cuidar da própria saúde. Ela relatou que, quando trabalhava sob a escala 6×1, não conseguia sequer ter acesso regular ao sol ou praticar atividade física: “É muita coisa para um dia só. Sem tempo, a pessoa deixa de cuidar da saúde, da alimentação e até do próprio descanso. Existem pessoas que estão adoecendo por não terem tempo para se cuidar. Isso é muito sério”.

Como a escala 6×1 impacta a vida pessoal e familiar?

Denise lembrou que a jornada afetava diretamente datas e momentos especiais: “Eu não passava Dia das Mães, Dia dos Pais, Natal ou Ano Novo com a família quando caíam em dias de trabalho. O impacto era negativo em todos os sentidos”.

Jerônimo ressaltou que o tempo é o bem mais precioso e que a escala 6×1 compromete a convivência com quem se ama: “Faz falta para simplesmente viver além do trabalho, para estar presente na vida dos netos e da esposa. É a diferença entre sobreviver e realmente aproveitar a vida.

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Cristiane Mael
FOTO: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO

Cristiane reforçou que conhece pessoas que adoecem por falta de tempo para se cuidar. Ela observou que muitos trabalhadores não conseguem realizar atividades simples, como caminhar ou descansar adequadamente: “Não têm tempo para a saúde, para a família, para se amar. A vida passa e a pessoa não consegue vivê-la da maneira que deseja”.

Bateria se destaca positivamente no desfile do Camisa 12

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Abrindo os desfiles de domingo pelo Grupo de Acesso 1, o Camisa 12 apresentou um desfile de fácil compreensão no Anhembi. Com o enredo “Princesas Nagô, Rainhas do Brasil – A origem da fé, herança de Ketu”, a escola apostou na força ancestral das matrizes africanas e construiu uma narrativa organizada, sustentada por boa harmonia e leitura clara dos setores.

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A apresentação foi linear na maior parte do percurso, com canto consistente e componentes envolvidos com a proposta. Houve oscilação no andamento na parte final da pista, mas sem configuração de buraco. A escola encerrou sua apresentação em 57 minutos, dentro do tempo regulamentar.

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Foto: Woody Henrique/Felipe Araujo – Liga SP

COMISSÃO DE FRENTE

A comissão de frente, coreografada por Walmir Rogério, optou por não utilizar tripé e desenvolveu toda a apresentação no chão. A escolha favoreceu a leitura direta da proposta, com coreografia alinhada à letra e à melodia do samba-enredo.

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Foto: Woody Henrique/Felipe Araujo – Liga SP

A encenação apresentou dois grupos em cena e três personagens centrais representando as Princesas Nagô, homenageadas do enredo. O destaque ficou para o recurso de figurino com dupla face, que em determinado momento era invertido pelas personagens principais, criando efeito visual simbólico e reforçando a ideia de transformação e resistência ao longo da narrativa.

A apresentação foi clara e conectada ao enredo, cumprindo o papel de introduzir o tema com objetividade.

MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA

Luã e Estefany realizaram os movimentos obrigatórios durante as apresentações aos módulos, mantendo boa postura e condução segura do pavilhão.

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Foto: Woody Henrique/Felipe Araujo – Liga SP

No segundo módulo, o pavilhão chegou a enrolar por alguns segundos, mas a porta-bandeira conseguiu reabri-lo rapidamente, dando sequência à coreografia sem maiores prejuízos visíveis.

No restante da apresentação, o casal manteve regularidade e sintonia, concluindo o percurso sem novas intercorrências.

HARMONIA

A harmonia foi um dos pontos altos do desfile. O Camisa 12 manteve o canto de forma linear do início ao fim, com componentes respondendo no mesmo tom e demonstrando domínio da obra.

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Foto: Woody Henrique/Felipe Araujo – Liga SP

Nos momentos de bossa, o rendimento crescia. A bateria elevava a energia e os intérpretes Tim Cardoso e Clovis Pê utilizavam sua experiência para incentivar ainda mais os componentes e manter a atenção das arquibancadas. Houve troca constante entre pista e público, favorecendo o conjunto musical da apresentação.

ENREDO

O enredo “Princesas Nagô, Rainhas do Brasil – A origem da fé, herança de Ketu”, assinado por Delmo de Moraes, é uma proposta que dialoga com a ancestralidade e com a formação da fé de matriz africana no Brasil.

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Foto: Woody Henrique/Felipe Araujo – Liga SP

Durante o desfile, a narrativa se mostrou de fácil leitura. Foi possível compreender visualmente o que o samba anunciava, fator que favorece a avaliação técnica. A escola organizou bem seus quadros, permitindo que o público acompanhasse o desenvolvimento histórico das personagens homenageadas.

EVOLUÇÃO

No quesito evolução, houve oscilação no andamento na parte final da Avenida. Algumas alas aceleraram o passo, não mantendo o mesmo ritmo do início do desfile.

Nesse momento, era perceptível a atuação da equipe de harmonia orientando os componentes para que retomassem o andamento adequado. Entre algumas alas surgiu um espaçamento maior do que o habitual, mas que não configura buraco de acordo com a contagem das grades e o regulamento.

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Foto: Woody Henrique/Felipe Araujo – Liga SP

Apesar dessas oscilações, os componentes desfilaram animados e soltos, mantendo energia ao longo do percurso.

SAMBA-ENREDO

A obra de Turko, Maradona, Cláudio Russo, Imperial, Silas Augusto e Rafa do Cavaco é considerada uma das mais fortes do Grupo de Acesso 1.

Trata-se de um samba de fácil entendimento, com melodia harmoniosa e empolgante. A letra traduz com clareza a proposta do enredo, o que favoreceu o canto coletivo e a assimilação rápida por parte do público.

FANTASIAS

O conjunto de fantasias foi bem distribuído e utilizou a paleta de cores de forma coerente com o enredo.

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Foto: Woody Henrique/Felipe Araujo – Liga SP

Destaque para a ala das baianas, que desfilaram com indumentária em alusão ao orixá Oxalá, reforçando o eixo religioso da narrativa.

As fantasias eram funcionais e permitiam boa mobilidade, possibilitando que os componentes evoluíssem com liberdade.

ALEGORIAS

As alegorias apresentaram leitura clara dentro da proposta do enredo. O Camisa 12 trouxe carros com bom acabamento e investiu em papel picado, recurso que potencializou o impacto visual, especialmente no primeiro setor.

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Foto: Woody Henrique/Felipe Araujo – Liga SP

O conjunto alegórico cumpriu o papel de sustentar a narrativa sem comprometer a compreensão da história apresentada.

OUTROS DESTAQUES

A parte musical da agremiação foi novamente um ponto positivo. A bateria do mestre Lipe e os intérpretes Tim Cardoso e Clovis Pê demonstraram sintonia e consistência ao longo da apresentação.

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Foto: Woody Henrique/Felipe Araujo – Liga SP

As destaques de chão investiram em indumentárias luxuosas e muito samba no pé durante todo o percurso, contribuindo para a energia da escola na Avenida.

Conjunto animado e de fácil leitura no desfile credenciam Vila Maria a sonhar alto em 2026

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A Unidos de Vila Maria foi, no último domingo, a segunda escola a desfilar pelo Grupo de Acesso I do Carnaval de São Paulo em 2026. Com o enredo “Do chão que alimenta à culinária que encanta: Brasil, um banquete de sabores”, assinado pelo carnavalesco Vinícius Freitas, a Mais Famosa apresentou um conjunto de quesitos uniforme, destacado especialmente pela técnica exemplar e pela facilidade de leitura do enredo. O desfile foi encerrado sem maiores preocupações, após 55 minutos de passagem pela Avenida.

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Em um ano no qual várias escolas disputam intensamente as duas vagas na elite, a Vila Maria apresentou um conjunto tão consistente que pressiona as concorrentes a não errarem. Com exceção de alguns poucos apontamentos no quesito Alegorias, todo o desfile foi agradável e dentro do que se espera para o cumprimento do regulamento. Os jurados realizam avaliações ainda mais minuciosas, mas descartar a Mais Famosa como candidata ao acesso antes da apuração é um equívoco. A disputa da Vila vai além: a escola surge como candidata real ao título do Grupo de Acesso I em 2026.

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Foto: Woody Henrique/Felipe Araujo – Liga SP

COMISSÃO DE FRENTE

Coreografada por Taiana Freitas, a comissão de frente da Vila Maria representou na Avenida “Entre lembranças e memórias: as feiras, uma mistura de cores e sabores”. Sem grandes mistérios, a apresentação foi concebida para ser facilmente compreendida dentro da temática explicitada no próprio título, algo que ficou bastante claro na Avenida.

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Foto: Woody Henrique/Felipe Araujo – Liga SP

O protagonista era um senhor idoso, um cliente da feira da Vila, que observava as várias frutas ao seu redor, representadas nas roupas das dançarinas, cada uma estampada com um tipo diferente. O personagem interagia com os feirantes, negociando preços para realizar suas compras. Em determinado momento, de um dos tripés em forma de banca de feira surgiu uma criança vestida com uma fantasia que reunia todas as frutas das demais personagens, formando um verdadeiro “tutti-frutti”. A coreografia foi agradável e abriu de maneira acolhedora o desfile da Vila.

MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA

Estreando no posto principal do quesito pela Mais Famosa, o casal formado por Kadu e Camila Moreira desfilou com fantasias intituladas “Guaraná: os olhos da vida”. A dupla correspondeu às expectativas da cria que retorna à casa, realizando uma apresentação segura, mesmo com o vento severo que atingia a pista.

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Foto: Woody Henrique/Felipe Araujo – Liga SP

As obrigatoriedades foram bem executadas, e a porta-bandeira soube ser paciente ao lidar com o pavilhão instável. O quesito tem boas chances de render um resultado positivo no dia da apuração.

ENREDO

“Do chão que alimenta à culinária que encanta: Brasil, um banquete de sabores” celebrou na Avenida a gastronomia como pilar da identidade brasileira. O desfile propôs uma experiência sensorial, unindo aromas, cores e tradições para exaltar a comida não apenas como alimento, mas como ato de resistência, criatividade e gratidão.

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Foto: Woody Henrique/Felipe Araujo – Liga SP

A proposta da Vila foi exatamente o que se viu na Avenida: um desfile colorido, repleto de frutas, referências à natureza e à vida no campo, com direito a um agradável aroma de café saindo de um bule gigante e, literalmente, um bar encerrando o cortejo. A escola divertiu o público e cumpriu sua missão.

ALEGORIAS

A Vila Maria levou para o desfile um conjunto de três carros alegóricos. São eles: o Abre-alas, “Raízes ancestrais: cio da vida na terra”, o Carro 2, “Da colheita ao cozimento: uma mistura de sabores”, e o Carro 3, ““Um brinde à vida, o banquete da Vila”.

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Foto: Woody Henrique/Felipe Araujo – Liga SP

O abre-alas representou os alimentos da natureza dos quais os povos originários usufruíam quando o Brasil ainda era conhecido como Pindorama. O segundo carro, que retratou a vida na roça, contou com efeito aromático de café e tinha tudo para ser o grande destaque do quesito, não fosse a força cênica da última alegoria.

O Carro 3 transformou-se literalmente em um bar na Avenida, onde a Velha Guarda brindou durante o desfile. O conjunto alegórico apresentou pequenas falhas de acabamento, especialmente no abre-alas, mas isso não diminuiu o impacto do espetáculo preparado pela Vila Maria.

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Foto: Woody Henrique/Felipe Araujo – Liga SP

FANTASIAS

Um dos conjuntos de fantasias mais fáceis de se compreender passou pela Avenida com a Mais Famosa. Todas as alas representaram algum tipo de alimento, evoluindo em grau de elaboração conforme o cortejo avançava. Grãos, frutas e hortaliças foram os destaques ligados à terra, mas também estiveram presentes o acarajé na ala das baianas, os doces, o café como bebida e, no encerramento, a cachaça.

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Foto: Woody Henrique/Felipe Araujo – Liga SP

As vestimentas funcionaram como um verdadeiro “tapete” para a narrativa apresentada pelas alegorias, tornando a experiência do desfile leve e agradável de acompanhar. As fantasias eram bem acabadas e leves, permitindo que os componentes brincassem o Carnaval com liberdade.

HARMONIA

A comunidade abraçou o samba da Vila com determinação. Durante toda a Avenida, os componentes cantaram animadamente, o que permitiu que a bateria executasse alguns apagões. Foi mais um quesito bastante positivo para a escola.

EVOLUÇÃO

A Vila foi tecnicamente irretocável. O cortejo evoluiu de forma tranquila do início ao fim da Avenida, sem pontos preocupantes nos setores observados. Em um quesito que tem sido responsável por grandes perdas de pontos para diversas escolas, apresentar segurança pode ser fundamental para as pretensões da agremiação.

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Foto: Woody Henrique/Felipe Araujo – Liga SP

SAMBA-ENREDO

O samba da Vila Maria é assinado por Alemão do Pandeiro, Anderson Magrão, Mazinho Argenta, Renne Campos e Márcio Biju, e na Avenida foi defendido pelo carro de som comandado pelo intérprete Clayton Reis. Não figurava entre as obras mais aclamadas antes do desfile, mas apresenta uma letra funcional e que narra o enredo proposto de forma clara.

Na Avenida, o samba mostrou seu valor. Funcionou perfeitamente dentro do ambiente criado pelo desfile da escola, com a comunidade cantando forte e o carro de som desempenhando papel decisivo. Ao final, a escolha musical se mostrou acertada.

OUTROS DESTAQUES

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Foto: Woody Henrique/Felipe Araujo – Liga SP

Agora sob o comando do mestre Marcel Bonfim, promovido do cargo de diretor de bateria, a “Cadência da Vila” fez questão de provar que continua entre as melhores do Carnaval de São Paulo. Solta, confiante e aproveitando bem as oportunidades de bossas oferecidas pelo samba, a bateria agregou ainda mais qualidade ao excelente conjunto apresentado pela Unidos de Vila Maria em 2026.

Povo Fala! Público analisa desempenho de escolas no segundo dia de desfiles da Série Ouro

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Júnior Azevedo e Mariana Santos, do CARNAVALESCO
A segunda e última noite de desfiles da Série Ouro 2026 terminou com sentimentos diversos na Sapucaí. Da homenagem a Roberto Burle Marx apresentada pela Botafogo Samba Clube, passando pela celebração da palhaça Xamego com o Arranco do Engenho de Dentro, até o encerramento vibrante da Unidos da Ponte, o público saiu com favoritos diferentes e a certeza de que a disputa pode ser apertada. O CARNAVALESCO ouviu torcedores para avaliar desempenho, samba-enredo e as chances de campeonato.

Raimunda Cruz de Jesus 76 anos
Raimunda Cruz de Jesus, 76 anos, aposentada, se encantou com a Botafogo Samba Clube: “Eu gostei muito da Botafogo. Foi um desfile bonito, leve, cheio de cores lembrando flores e jardins. Achei muito organizado e fiel ao enredo. Ainda pude conhecer mais sobre a vida do Burle Marx”.

Luana Machel 38 anos
Luana Machel, 38 anos
FOTO: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO

Luana Machel, 38 anos, advogada apontou o Arranco do Engenho de Dentro como seu destaque. “O Arranco me emocionou pela história da Xamego. Foi forte, representativo e trouxe alegria com consciência. Foi o que mais me tocou. Me senti muito representada nesse desfile”.

Tamyris Umbelino 38 anos
Tamyris Umbelino, 38 anos
FOTO: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO

Tamyris Umbelino, 38 anos, terapeuta holística, destacou a Unidos da Ponte. “A Ponte encerrou com uma energia impressionante. Foi um desfile firme, com presença e muita garra. Ótimo para fechar a noite com o alto nível.

Torcedor da Renascer de Jacarepaguá, Neto Gomes elogia a garra da escola, apesar do visual da Estácio de Sá que, em sua opinião, teve destaque médio: “A Estácio arrasou com o chão da escola. O que não teve de visual, teve de canto. Foi a escola que mais cantou hoje”.

Para Célia Francisco, Botafogo Samba Clube, Império Serrano e Maricá se destacaram, mas ela acredita que a Maricá leva o destaque da noite: “A escola teve luxo, inovação. A maioria dos componentes tinha os rostos pintados, as alas coreografadas estavam muito bonitas, tudo muito harmonizado”.

Adriane Novais, portelense, desfilou na Em Cima da Hora e aproveitou para prestigiar as coirmãs. Ela avaliou o desfile da Porto da Pedra: “Foi triste perto do que é a escola. Eu gosto do enredo, foi muito esperado por todos e eu tinha muita expectativa. Entendo a proposta do carnavalesco, mas faltou um pouco de “galhofa” para falar do assunto. Foi extremamente militante e a estética não colaborou”.

Niterói 2026: Galeria de fotos do desfile

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Da ancestralidade ao 150 BPM: Unidos da Ponte transforma Sapucaí em baile funk

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A terceira alegoria da Unidos da Ponte não passa pela Marquês de Sapucaí, ela invade. Com o carro “Vem pro Baile Funk! – Carro dos Artistas Funkeiros”, a escola transformou a avenida em pista de dança, reunindo nomes históricos e contemporâneos do movimento em um manifesto sonoro e visual da cultura periférica.

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Alegoria “Vem pro Baile Funk!” da Unidos da Ponte. Foto: Juliane Barbosa

Integrando o enredo “Tamborzão: O Rio é baile! O poder é black!”, a agremiação leva para a Sapucaí a força do funk como continuidade de uma linhagem cultural que atravessa o lundu, o maxixe, os bailes da Black Rio e chega ao 150 BPM. A base em preto e branco remete aos paredões de som, enquanto grafismos africanos e a estrutura em lona evocam tanto as tendas das comunidades quanto o egungun, símbolo de ancestralidade.

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Foto: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO

Mais do que entretenimento, o carro afirma resistência, identidade e empoderamento.

Entre os destaques está Iasmin Turbininha, primeira DJ mulher de funk no Brasil, nascida na Mangueira e uma das principais difusoras do 150 BPM. Defensora do fim da criminalização do funk, a DJ descreveu o momento como histórico.

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Iasmin Turbininha, primeira DJ mulher de funk no Brasil. Foto: Juliane Barbosa

“Essa homenagem é uma honra pra mim que sou funkeira desde criança, isso é histórico. Eu nunca vou me esquecer deste momento. Eu sou Mangueirense, mas agora a Unidos da Ponte se tornou a escola do meu coração. A mistura de ancestralidade africana e tecnologia está presente na minha carreira. Hoje o futuro é tecnologia e a gente consegue mostrar muito sobre de onde a gente veio e a representatividade do funk. O samba junto do funk é uma luta para fazer as pessoas entenderem a nossa cultura periférica. O funk incomoda, mas o incomodado que se mude com o seu preconceito”.

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Mc Nem. Foto: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO

Outra presença marcante é a MC Nem, relíquia do Jacarezinho e pioneira do funk carioca, com mais de 20 anos de trajetória. Revelada nos anos 2000 ao lado da Furacão 2000, ela vive na Avenida um reconhecimento simbólico do movimento que ajudou a construir.

“Foi muito gratificante viver a Unidos da Ponte representando o funk na Sapucaí, o território oficial do samba. Eu vim dos anos 2000, foi muita luta e às vezes a dúvida se realmente o nosso funk iria para frente no Brasil. Estar aqui hoje é ver que somos gigantes e que valeu a pena não desistir. É impossível não ficar feliz. O funk é um espaço de afirmação e poder, junto com entretenimento. Somos confusão, gritaria, diversão e muita dança com o paredão explodindo.”

Ao levar o tamborzão para o palco do samba, a Unidos da Ponte reafirma que o funk não é ruptura, é continuidade. É herdeiro direto das manifestações negras que sempre transformaram exclusão em expressão cultural.

Na Sapucaí, o baile ganhou status de patrimônio vivo. E quando o grave bate no peito, não é apenas som: é território, memória e identidade ecoando em 150 batidas por minuto.