Uma apresentação soberba da bateria da União da Ilha do Governador, sob o comando de mestre Marcelo Santos. Um ritmo da “Baterilha” equilibrado, muito bem afinado e equalizado. Uma fluência plena entre os mais diversos naipes foi notada.
Na parte da frente do ritmo, um naipe de chocalhos exemplar tocou interligado a uma ala de tamborins de alta técnica. Incrível como o “Tamborilha” e os Chocalhos pareciam um só tocando, tamanho casamento musical entre ambos. Uma ala de agogôs de qualidade auxiliou no preenchimento sonoro das peças leves, junto de cuícas seguras.
Na cozinha da “Baterilha”, uma afinação de surdos sublime proporcionou um ressoar de surdos potente, ao mesmo tempo que permitiu uma equalização de timbres refinada. Marcadores foram precisos, assim como os surdos de terceira deram um balanço irrepreensível ao ritmo insulano, inclusive participando de bossas. Uma ala de repiques sólidos tocou junto de um naipe de caixas de guerra extremamente acima da média. Impressionante a categoria das caixas rufadas da União da Ilha e como elas servem de base de amparo musical pros demais naipes do ritmo da tricolor insulana.
As bossas, sempre conectadas ao que pedia o samba-enredo da agremiação, foi executada de forma cirúrgica no terceiro módulo. Destaque para a paradinha com solo de bumbos, liras e agogôs, dando um clima circense em forma de banda marcial. Suas exibições receberam ovação popular mesmo com Sol forte. A musicalidade diferenciada da bossa da cabeça do samba também merece menção, devido ao bom gosto criativo. Uma apresentação mais ligeira foi realizada na última cabine julgadora, devido ao tempo próximo do limite.
Um desfile esplêndido da “Baterilha”, dirigida por mestre Marcelo Santos. Uma conjugação sonora de alto valor foi exibida por todos os naipes. Isso tudo junto de um trabalho rítmico de bossas do mais alto calibre, além de um profundo bom gosto musical. Uma bateria da União da Ilha que colocou o povo pra sambar e cantar em plena manhã de sábado, mostrando um ritmo dançante, impactante com musicalidade ímpar.
Um bom desfile da bateria “Sintonia de Cavalcante” da Em Cima da Hora, dirigida por mestre Léo Capoeira. Um ritmo muito bem equalizado, consistente e com andamento mais quente foi exibido.
Na parte da frente da “Sintonia”, um naipe de tamborins foi eficiente com um sólido toque em conjunto. Tudo interligado a uma ala de chocalhos de alta qualidade técnica, fazendo um ritmo muito bom e sem firula. Agogôs musicais ajudaram no preenchimento das leves, bem como cuícas sólidas ajudaram no preenchimento da sonoridade da cabeça da bateria.
Na cozinha da bateria da Em Cima da Hora, uma privilegiada afinação de surdos foi notada. Marcadores foram precisos e seguros. Surdos de terceira deram balanço à parte de trás do ritmo. Repiques coesos tocaram junto de um naipe de caixas bem ressonante, que deu base de amparo musical para vários naipes do ritmo da escola do bairro de Cavalcanti.
Bossas altamente vinculadas ao enredo de vertente africana da agremiação ajudaram a atrelar a sonoridade ao tema da agremiação. Uma caída de segunda também auxiliou na versatilidade rítmica, se mostrando funcional.
Uma boa exibição da bateria “Sintonia de Cavalcante” da Em Cima da Hora, comandada por mestre Léo Capoeira. Um ritmo consistente e com impacto sonoro da pressão de surdos foi exibido. A apresentação do último módulo infelizmente teve que ser em movimento, mas dando tempo de apresentar uma bossa dançante.
Uma apresentação muito boa da bateria da União de Maricá de mestre Paulinho Steves. Um ritmo consistente e impactante foi exibido. Com paradinhas altamente musicais, além de potentes.
Uma parte da frente soberba da bateria “Maricadência”. Um naipe de chocalhos técnicos tocou junto de uma grande ala de tamborins, mostrando nítido entrosamento musical. Agogôs se apresentaram com eficiência, desenhando a melodia do samba com seus toques. Cuícas seguras ajudaram a marcar o belo samba-enredo da agremiação.
Na cozinha da bateria da Maricá, uma boa e pesada afinação de surdos foi notada. Marcadores foram precisos e seguros. Assim como os surdos de terceira brilharam, seja fazendo ritmo ou executando as bossas. Uma boa ala de repiques tocou de forma coesa junto de caixas de guerra ressonantes. As caixas mesclaram toques retos embaixo, com levada de partido alto executada por quem tocava o instrumento em cima.
Bossas com uma musicalidade de destaque foram bem apresentadas nos últimos dois módulos, com direito a ovação popular na última cabine julgadora, após uma exibição segura e constante. Os arranjos seguiam as nuances melódicas do samba da Maricá para consolidar o ritmo, bem como continham bastante pressão sonora, graças ao impacto do peso dos surdos. Louvável a integração musical das bossas com a obra da agremiação, mostrando uma notória fluidez intuitiva.
Uma apresentação grandiosa da bateria “Maricadência” de mestre Paulinho Steves. Uma bateria da União de Maricá exibindo um ritmo consistente, potente e com bossas com boa musicalidade. Um trabalho marcado pela intuitividade musical, demonstrando uma criação privilegiada de bossas intimamente ligadas à melodia do samba da escola.
Uma excelente apresentação da bateria “Medalha de Ouro” da Estácio de Sá de mestre Chuvisco. Um ritmo estaciano potente, dançante e envolvente foi apresentado, arrancando aplausos do público.
Na parte de trás do ritmo da vermelha e branca do morro do São Carlos, uma afinação tradicionalmente pesada e potente de surdos foi percebida. Marcadores foram firmes e precisos. Surdos de terceira contribuíram com swing bastante envolvente tanto fazendo ritmo, quanto participando luxuosamente das paradinhas. Uma ala de repiques coesa tocou junto de um naipe de caixas de guerra altamente técnico, executando sua genuína batida com levada de partido alto, tocada em cima.
Na cabeça da “Medalha de Ouro”, um naipe de tamborins talentoso mostrou capricho tocando junto de uma ala de chocalhos técnica. Um naipe de agogôs de qualidade também deu sua contribuição na sonoridade das peças leves. Cuícas seguras e ressonantes também exibiram um bom trabalho.
Um leque de bossas bastante dançante e relativamente complexo foi exibido. Todas se aproveitando das nuances melódicas da obra estaciana para consolidar seu ritmo, adicionando um grau de dificuldade de execução acentuado. Destaque para o impacto sonoro provocado pela afinação mais pesada de surdos. Um trabalho rítmico que esbanjou musicalidade e principalmente potência. Uma sonoridade que vinculou as paradinhas com toques indígenas ao enredo florestal do Leão, mostrando uma ambientação musical diferenciada.
Uma grande apresentação da bateria “Medalha de Ouro” da Estácio de Sá, dirigida por mestre Chuvisco. Um ritmo potente, dançante e empolgante foi exibido, arrancando aplausos da plateia. O tempo confortável de desfile permitiu uma última apresentação simplesmente avassaladora na quarta cabine julgadora, garantindo uma interação popular notável.
Daniel Werneck e Taciana Couto casal de mestre-sala e porta-bandeira da Grande Rio foto: Carnavalesco
Indo para o sexto ano à frente do pavilhão da Grande Rio, Daniel Werneck e Taciana Couto seguem inovando e encantando com seu bailado. O casal se destaca pela excelência e pela constante busca por evolução, incorporando elementos diferenciados a cada desfile. Neste carnaval, a dupla traz a cultura paraense para a avenida, inserindo passos de carimbó em sua coreografia. Além do compromisso técnico, eles compartilham uma relação profunda com a escola, que consideram uma extensão de suas vidas. Com dedicação e paixão, Daniel e Taciana reforçam a solidez do quesito na tricolor de Caxias.
Com uma coreografia carregada de símbolos paraenses, além da dança tradicional de mestre-sala e porta-bandeira, o casal da Grande Rio vem apresentando grandes performances na Sapucaí, além de se tornarem um quesito seguro e garantia de excelência para a escola.
Para o casal, a escola representa muita coisa na vida deles. O encontro dos dois se deu na Grande Rio, agremiação que eles não escondem a gratidão.
“A Grande Rio é a alegria dos nossos dias, é onde a gente passa mais tempo juntos do que provavelmente com a nossa família, com os nossos companheiros. É um prazer ostentar esse pavilhão, é uma honra ser defensora dele e a gente está sempre fazendo tudo com muito amor, com muito carinho e fica refletido esse sentimento de honraria”, declarou Taciana que se tornou 1ª porta-bandeira da escola aos 17 anos.
“A Grande Rio representa a nossa família, porque eu acho que essa temporada de ensaio que a gente vem se preparando até o dia oficial do desfile a gente se torna mais próximo, a gente fica muito mais próximo na quadra e até mais tempo ensaiando do que em casa. A Grande Rio é uma extensão da nossa casa”, contou o mestre-sala.
As apresentações do casal se destacam pelo vigor e inovação, fruto de um trabalho minucioso que une tradição e modernidade. Daniel e Taciana desafiam-se anualmente, criando coreografias que surpreendem sem perder a essência do quesito. O comprometimento com a excelência os mantém em constante evolução, elevando o nível de suas performances. A cada ensaio e desfile, reafirmam sua paixão e compromisso com a dança.
“A gente está sempre buscando se superar cada vez mais, até para não cair no comodismo. E é uma coisa que a gente está sempre se cobrando, porque eu acho que cada ano é um ano, cada enredo é um enredo, cada proposta é uma proposta. E graças a Deus, a gente vem conseguindo trazer um trabalho de excelência. No último ensaio, conforme havia comentado com vocês do Carnavalesco, que a gente está sempre aperfeiçoando. Então, a gente fez algumas modificações, algumas alterações na nossa coreografia, pois o trabalho não para”, declarou Daniel, que vai para o seu décimo ano defendendo o pavilhão de Caxias.
Daniel Werneck e Taciana Couto casal de mestre-sala e porta-bandeira da Grande Rio foto: Divulgação / Grande Rio
Beth Bejani, coreógrafa da comissão de frente e também ensaiadora do casal, é peça-chave na lapidação da dança do casal. Seu olhar técnico identifica ajustes essenciais, aprimorando cada detalhe da coreografia. Além da parte técnica, alinha os movimentos às expectativas dos jurados e do público. Pequenos ajustes transformam a estética do bailado, tornando-o mais expressivo. Esse trabalho colaborativo garante precisão e impacto na avenida.
“A Beth é nosso olhar externo. Ela faz a parte da limpeza da coreografia, o Daniel monta a coreografia, eu participo dessa parte também, e a Beth vem com esse olhar de fora. Ela entende dos movimentos, do que os jurados gostam e ela vai limpando, vai vendo ali com carinho cada detalhe. Às vezes tudo que a gente deixa passar despercebido, um detalhe de um braço que a gente faz mais embaixo e acha que está bom, ela vendo de fora acha que se fizer ele maior vai ficar mais bonito, e realmente ela tem razão”, disse a porta-bandeira.
A apresentação que o casal desempenhou nos ensaios técnicos surpreendeu e encantou ao incorporar elementos e passos de carimbó, uma dança tradicional paraense repleta de ritmo e expressividade. A escolha, além de inovadora, trouxe uma nova perspectiva para o bailado do mestre-sala e da porta-bandeira, agregando autenticidade e valorizando a cultura do Pará dentro do desfile. O carimbó, com seus movimentos fluidos e envolventes, exigiu do casal não apenas dedicação técnica, mas também um profundo estudo sobre a história e a simbologia dessa manifestação cultural.
“Na verdade, o carimbó na nossa dança foi uma ideia em conjunto. A gente sempre está sempre buscando entender o enredo que a Grande Rio vem falando. E aí a gente busca, dentro dessa história e dessa temática, inserir algo sobre. E nada mais justo da gente inserir na nossa coreografia um movimento de carimbó que é justamente algo que é tão importante, tão cultural e forte em Belém do Pará”, contou o Daniel.
“Eu achei que seria mais fácil, mas é uma dança muito bonita, muito gostosa de se dançar, mas eu achei que era mais fácil vendo outras pessoas dançarem, eu encontrei um pouco de dificuldade durante o processo, mas a gente segue tentando até semana que vem levar com perfeição essa dança paraense, a cultura do Pará e a gente espera que os paraenses gostem do que a gente vai mostrar no dia 4 de março”, confessou a porta-bandeira.
Com um estilo de dança único e inovador, o casal vem encantando a todos pela Sapucaí, esbanjando técnica, sincronia e emoção a cada apresentação. Eles não apenas incorporam os elementos tradicionais do bailado, mas também adicionam passos contemporâneos que enriquecem a performance e dialogam com a proposta artística da escola. A solidez com que conduzem o quesito na Grande Rio é reflexo de um trabalho minucioso, que alia respeito às raízes do samba com uma busca constante por inovação e conexão com o enredo apresentado.
“No nosso estilo de dança a gente busca trazer o mais importante que é o tradicional, mas também buscamos sempre botar algo diferente, que vai muito por conta do enredo. Então, baseado no que a Grande Rio está falando, a gente está sempre estudando e trazendo esse algo a mais para nossa coreografia”, explicou Daniel.
O CARNAVALESCO conversou, no último domingo, durante o teste de som e luz na Sapucaí, com componentes do Salgueiro sobre o enredo e samba de 2025. Este ano, a Academia do Samba apresenta o enredo “Salgueiro de Corpo Fechado”, sobre a busca por proteção espiritual do povo brasileiro.
Diana Maciel, de 39 anos, que desfila há 18 pelo Salgueiro
“A proteção espiritual é muito importante porque nos livra dos males do mundo, dá segurança e renova a nossa fé. Ela blinda a gente das maldades do mundo. Você quando se sente blindado na religião que você esteja, você fica blindado realmente porque a sua fé e sua mente mandam em tudo. Você se sente muito mais protegido, muito mais confiante para você agir na sua vida”, disse a técnica de enfermagem Diana Maciel, de 39 anos, que desfila há 18 pelo Salgueiro. Diana cresceu na umbanda.
Enzo Menucci, de 25 anos, que estreia no Salgueiro em 2025
“Tem que estar sempre em dia com as nossas responsabilidades não só para ficar protegido na rua, no dia a dia, mas para que a vida possa caminhar de uma maneira tranquila. Tem muita gente que vê a religião como algo que vai trazer muita riqueza, vai trazer muitas coisas. Na verdade, eu acho que a grande riqueza é a gente viver tranquilo, sem nenhuma doença, trabalhar bem”, opinou o internacionalista Enzo Menucci, de 25 anos, que estreia no Salgueiro em 2025. Enzo também encontrou-se na umbanda.
Ronaldo Martins, de 56 anos, que desfila pelo Salgueiro desde 2003
“Todo mundo tem uma superstição. Todo mundo tem uma busca, proteção, apoio em alguma coisa”, defendeu o contador católico Ronaldo Martins, de 56 anos, que desfila pelo Salgueiro desde 2003. Natural de Belém do Pará, Ronaldo é devoto de Nossa Senhora de Nazaré.
Composto por Xande de Pilares, Pedrinho da Flor, Betinho de Pilares, Renato Galante, Miguel Dibo, Leonardo Gallo, Jorginho Via 13, Jefferson Oliveira, Jassa e W Correa, o samba-enredo do Salgueiro é o mais ouvido do ano nas plataformas de áudio, acumulando mais de 1,5 milhão de plays no Spotify. A canção conquistou o público e, sobretudo, a comunidade salgueirense, que a entoa na Sapucaí como um mantra.
“Eu decorei o samba desde a antes da escolha do samba, porque para mim era o melhor samba para escolha, foi o melhor samba para a escola. O samba está na ponta da língua e o Salgueiro está de corpo fechado. A minha parte preferida é a que fala do seu Zé. Essa parte mexe com o salgueirense, exalta o salgueirense e puxa todo mundo”, dividiu Diana.
“O samba é lindo, é melódico. Ele conta bem o enredo, ele ajuda a gente a entender o enredo, como um bom samba. Pegou na avenida. É o samba do ano, é o samba do ano indiscutivelmente. Ele faz o componente cantar com emoção, com vibração, que é o mais importante”, sustentou a atriz, roteirista e diretor
Ti Ferreira, de 36 anos. Salgueirense a vida toda, Ti participa dos desfiles pela quarta vez
“Ser ateu que não quer dizer que eu não admire e não entenda sobre as religiões. Cada uma dentro do seu espectro tem coisas positivas, coisas negativas e o enredo trata do corpo fechado em diversas religiões, o que é uma sacada. Mais como um mosaico de corpos fechados para a gente entender de onde vem essa cultura. Informação é tudo. Para poder conversar, entender o lado de outra pessoa que acredita nessa espiritualidade, é importante a gente entender de onde ela vem”, explicou.
Quanto ao refrão, “Macumbeiro, mandingueiro, batizado no gongá”, Enzo o considera potente: “O Salgueiro é uma escola que não tem medo de botar a cara e falar que é macumbeiro mesmo. É bater a mão no peito e falar ‘sou macumbeiro, mandingueiro mesmo’”.
O jovem acredita, no entanto, que os versos “Quem tem medo de que mandinga não nasceu para demandar” são os mais bonitos do samba.
“Está implícito ali a responsabilidade da religião, um comprometimento e que não é só só coisas boas. As coisas que a gente faz também tem também consequências, você tem que tá preparado que pode voltar para você assim. Isso é uma coisa que demanda coragem”, argumentou.
Para Diana, o refrão é coerente com o posicionamento histórico da Academia do Samba.
“Eu acho que define bem o sambista, principalmente o salgueirense, que tem um tem uma tradição de falar dos negros, de falar da negritude. Macumbeiro tem um cunho meio pejorativo, você xinga a pessoa: ‘seu macumbeiro’. E aqui a gente tá batendo no peito, somos macumbeiros sim com muito orgulho”, expressou ela.
O bate-papo foi encerrado de maneira bem-humorada, ao questionar os participantes se a sua casa é a casa da mandinga, em referência ao verso do samba.
“Com certeza. Tem copinho d’água, vela acesa, ponte da guarda, todas essas coisas”, revelou Enzo.
“Sem sombra de dúvidas. Protegida por Maria Mulambo e Maria Padilha”, declarou Diana.
“Às vezes sim. Em alguns momentos, sim. Apesar de ser católico, apesar de ser devoto de Nossa Senhora, a gente sempre tem alguma coisa que a gente pega da matriz africana para se proteger mesmo”, finalizou Ronaldo.
Entre elogios, puxões de orelha e muito companheirismo, mestre Rodney colecionou momentos ao lado de Laíla. Na Beija-Flor há quase 30 anos, ele chegou ao comando da Soberana em 2010 à convite e incentivo do eterno diretor de carnaval.
Foto: Matheus Morais/CARNAVALESCO
Às vésperas do desfile oficial, o mestre de bateria abriu o coração ao CARNAVALESCO para comentar a relação com a agremiação, a figura de Laíla e, claro, o Carnaval deste ano.
O que a Beija-Flor representa na sua vida?
“Tudo. A escola me deu suporte e esteve ao meu lado em todos os momentos que precisei – a perda do meu pai, o sustento da minha família e em tudo. Não falo nem que é paixão, porque paixão é passageira. É amor, porque é para sempre. A Beija-Flor é, realmente, o meu grande amor”.
O que você aprendeu com Laíla?
“Espero ter aprendido um milésimo do que ele sabia. Laíla deu muitos ensinamentos para todos nós. Acredito que aprendi alguma coisa e consigo transportar para a nossa bateria, por isso está dando certo. Ele falava dando ensinamentos, e eu acredito que sou um bom aluno. O Laíla era único, um gênio. Se a gente aprendeu um milésimo do que ele nos ensinou, faremos um grande trabalho”.
Qual foi a maior bronca que você lembra ter levado dele?
“Foram muitas, sabia? (risos). Mas ele falava que cobrava porque sabia da nossa capacidade e do potencial da nossa bateria – não só de mim, mas de todos os diretores. Ele ‘mordia e assoprava’, como diz o ditado. Ele falava que se não tivéssemos potencial, ele não cobraria”.
Qual seu momento inesquecível com Laíla?
“Foram muitos. Quando ele me convidou para ser mestre de bateria junto com o Plínio, nem dormi de tanta emoção. Também passei por momentos difíceis em que ele estava sempre ao meu lado, como a perda do meu pai. Ele foi a primeira pessoa a me socorrer. Eram 3h30 da manhã, e ele saiu de casa na Ilha do Governador para ficar ao meu lado. Na minha vida, infelizmente, não haverá outro Laíla”.
O que a gente pode esperar da bateria no Carnaval de 2025?
“Vocês podem esperar muito empenho, dedicação e entrega. A gente vai se doar à nossa escola, como sempre. A Beija-Flor é tudo para nós”.
O que esperar do samba de 2025?
“O samba é maravilhoso. Peço que as minhas coirmãs me perdoem, mas, na minha concepção, temos o melhor samba do carnaval. Ele interage com o público e com a escola. A escola adotou esse samba, e ele emocionou a gente. O samba é a cara do Laíla, parece que foi escolhido por ele”.
O que você sente com a despedida do Neguinho?
“Quando ele falou no primeiro ensaio técnico, olhamos um para o outro e ‘desmanchamos’. Não gosto nem de pensar nesse momento, mas ele vai chegar. Eu quero estar aqui vivenciando esses últimos momentos com ele. Já está doendo saber que vou olhar para o carro de som e não vou vê-lo aqui, com a gente. Vai ser difícil pra caramba”.
Filho de Laíla conduzirá Selminha Sorriso e Claudinho no desfile da Beija-Flor Foto: Arquivo pessoal/Divulgação
O mestre-sala e a porta-bandeira, Claudinho e Selminha Sorriso, se tornaram sinônimos de excelência e respeito no Carnaval carioca. Juntos, eles conquistaram diversos prêmios e ajudaram a consolidar a tradição da Beija-Flor de Nilópolis, escola onde fazem história há três décadas. No centro dessa trajetória de sucesso, uma figura se destaca como mentor e inspiração, um dos maiores carnavalescos e diretores de harmonia da história, o lendário Laíla.
Em um ano de fortes emoções para a azul e branca de Nilópolis, que irá fazer a Marques de Sapucaí um grande terreiro de Laíla, a porta-bandeira comenta o que esse desfile representa para eles. “Laíla foi o nosso descobridor, o homem que visualizou e vislumbrou que Claudinho e Selminha, lá da Estácio, aqueles meninos, poderiam fazer parte do corpo da família Beija-flor. Esse carnaval é muito especial, um carnaval repleto de emoção, de gratidão e de sonho de ser campeão”, diz Selminha.
Apaixonado pelo casal, Laíla tinha o compromisso de reforçar a importância de Claudinho e Selminha, repassando seu conhecimento e ensinando a transmitir a força e a identidade da escola. Muito emocionado, Claudinho conta o que representa o desfile da Beija-flor em 2025 para ele. “É muita emoção! Botar em prática tudo aquilo que ele nos ensinou. Já fizemos algumas testes, algumas coisas no primeiro ensaio técnico, agora no segundo corrigimos algumas coisinhas. Mas o que ele ensinou está sempre dentro da nossa cabeça, do nosso coração, da nossa paz, da nossa técnica, da nossa, o nosso amor pela Beija-flor, o nosso amor pelo samba e o amor por todos e todos aqui na Marques de Sapucaí”.
Reconhecido por sua exigência e perfeccionismo, Laíla tinha uma visão crítica, mas sobretudo apaixonada sobre o Carnaval. O diretor de Carnaval não media palavras quando se tratava de buscar o melhor de cada um, mas também sabia reconhecer a dedicação e o talento da dupla. “Eu, com o método repetição inúmeras vezes na quadra da Beija-Flor em pleno janeiro, ele falava no microfone: ‘volta!’. Eu tive que repetir várias vezes, rolou em vários ensaios, mas também quando eu cheguei aqui no ensaio técnico, ele disse para mim ‘pronto, bom dia! era isso que eu queria ver, quando o pai entende que o filho precisa melhorar, que o filho tem potencial para melhorar, o pai investe nesse filho e eu investi em você, meu parabéns’ e eu respondi ‘é, mas exagerou, né?! (risos)’, relembra Selminha.
Conhecido como o “gênio do ouvido perfeito”, Laíla tinha um senso de escuta ativa muito aprimorado, mas o seu olhar bastante apurado enxergava longe algo que lhe agradava ou não, e com esse mesmo atenção nos olhos era capaz de se comunicar diretamente com os seus componentes, inclusive com o casal. “Por incrível que pareça, eu sou o único que eu acho que ele nunca me deu bronca e eu cheguei a perguntar isso para ele uma vez, do porquê você briga com todo mundo e comigo você nunca me deu uma bronca, e ele respondeu ‘porque, mano, você já sabe o que eu gosto, quando eu olho, você já vê qual é o meu olhar’, por esse motivo eu nunca tive isso com ele”, relata o mestre-sala.
Ao longo de muitos anos de parceria do casal com Laíla, momentos inesquecíveis e surpreendentes protagonizados pelos três no Carnaval não faltam. “Em 2008, quando ele entrou no momento da nossa coreografia, ele pegou as nossas mãos e apresentou pata os jurados, só que estava nada combinado. Imagina o susto! Pois é, esse era o mestre Laíla”, conta Selminha.
Desfiles marcantes simbolizam a trajetória de Claudinho e Selminha com mestre Laíla, que prezava por carros alegóricos com inovação e tradição, e, fantasias icônicas. Para o desfile de 2025, a porta-bandeira afirma que a fantasia do casal será “a altura do carnaval como Áfricas, em 2010”.
Além da grande homenagem à Laíla, a emoção toma conta da agremiação por ser o último ano de Neguinho da Beija-Flor como intérprete, sendo um momento difícil já tomado conta pela saudade. “Eu não quero nem falar sobre isso, porque o meu coração não aceita ainda. Eu estou no #ficaNeguinho ainda”, declara Selminha Sorriso.
Desde que Selminha e Claudinho se uniram na Beija-Flor, a sinergia entre os dois se tornou um dos pontos altos dos desfiles da escola. A leveza dos giros, a conexão no olhar e a precisão dos passos fizeram deles uma referência nacional. Mas, além da técnica impecável, os rumos da dança dos casais pedem cada vez mais intensidade e preparação física. A porta-bandeira comenta o que pensa sobre isso.
“O mais importante é não esquecer da liturgia tradicional. Nós queremos que todos os nossos precursores que é manter a cruz olha da porta-bandeira, apresentar ao pavilhão, riscar o chão de poesia, é a porta-bandeira ter uma garra, ser uma grande dama e ele, o Mestre-Sala, um grande cavaleiro que protege e defende o pavilhão”, finaliza Selminha.
A deputada federal Érika Hilton (PSOL-SP) foi uma das grandes protagonistas do ensaio de luz e som do Paraíso do Tuiuti na noite da última sexta. Destaque da alegoria que trouxe a coroa da escola para o segundo ensaio técnico, a parlamentar, que é a primeira deputada trans a liderar uma bancada no Congresso Nacional, falou ao CARNAVALESCO sobre a importância do enredo, que trouxe à tona no maior espetáculo do Terra a história de Xica Manicongo, considerada a primeira pessoa trans não-indígena no Brasil, queimada viva no período colonial.
Erika Hilton vai desfilar pelo Paraíso do Tuiuti crédito: reprodução instagram
“Estamos vivendo um momento de retrocesso assustador. Os direitos das pessoas trans e as próprias pessoas trans estão sendo cada vez mais demonizadas na sociedade. Esse enredo é um grito de resistência, um lembrete de que nossas cabeças permanecem erguidas, guiadas por nossa ancestralidade, representada por Xica Manicongo. Ela nos dá força, coragem e energia para seguir lutando”, afirmou Érika Hilton. A deputada destacou que o samba-enredo do Tuiui transmite a garra e a persistência da comunidade trans, que não aceita mais viver à margem da sociedade ou de maneira invisibilizada.
Discurso emocionante no carro de som
Momentos antes de a escola entrar na avenida, Érika Hilton subiu ao carro de som e fez um discurso emocionante, dedicado à memória de Xica Manicongo e a todas as vítimas de transfobia no Brasil. “Pela memória de Xica Manicongo, nossa ancestral, no primeiro país do mundo que ainda mata mulheres como ela. A Tuiuti entra na Sapucaí no Carnaval de 2025 para dizer que a esperança, a cultura, a alegria, o canto e a dança vão vencer o ódio. O Brasil tem as mãos sujas pelo sangue de travestis e transsexuais que morrem todos os dias neste país”, declarou.
A deputada encerrou seu discurso com uma mensagem de resistência e celebração: “A escola entra com sua bateria, sua rainha, que é um patrimônio nacional, e suas alas, levando esperança, coragem e resistência. Vamos receber de coração aberto a Tuiutí com Xica Manicongo e dizer: Basta de ódio! Basta de violência! Basta de preconceito! Viva a comunidade LGBTQIA+, viva o Carnaval, viva a cultura e viva o povo brasileiro. Axé! Laroyê, Xica Manicongo!”.
Dos enredos mais aclamados do ano no carnaval de São Paulo, a Dragões da Real apresentou o desfile “A Vida é um Sonho Pintado em Aquarela”, idealizado por Jorge Freitas. Com quesitos bastante seguros e atual vice-campeã da folia paulistana, a agremiação da Vila Anastácia fez uma apresentação que, novamente e certamente, a colocará na briga pela até então inédita taça. Com 63 minutos de desfile, a instituição da Vila Anastácio chamou atenção, sobretudo, pela comissão de frente e pelo casal de mestre-sala e porta-bandeira.
Intitulada “O Jardim do Tempo”, o quesito, literalmente, brilhou: com os componentes que atuavam no chão com roupas bastante brilhantes e coloridas (e cada um dos integrantes com uma cor diferente), a comissão de frente, novamente, teve muito destaque – algo que é rotineiro na agremiação. Coreografados por Ricardo Negreiros, eram, ao todo, oito fantasias diferentes – com destaque para o Menino e a astronave, figura presente ao longo de toda a exibição no Anhembi. Acima do tripé, destaque para a Guardiã da Aquarela, de cabelos coloridos. Em determinados momentos, o tripé soltava fumaça – e enlouquecia a arquibancada.
Mestre-Sala e Porta-Bandeira
Atuais vencedores do Estrela do Carnaval, prêmio organizado e entregue pelo CARNAVALESCO, Rubens de Castro e Janny Moreno vieram fantasiados com a indumentária intitulada “Os Guardiões da Imaginação”. Em fato raro em escolas de samba, os figurinos eram escuros, majoritariamente na cor preta e com detalhes púrpura, dando um contraste bastante destacado com a comissão de frente – que vinha logo à frente. Em relação à parte técnica, a dupla novamente teve grande noite, cumprindo todas as obrigatoriedades e esbanjando os sorrisos e a simpatia que lhe são peculiares, além do já conhecido entrosamento entre o Casal Quarenta Mais, como ambos se autointitulam.
Enredo
Tema de muitos elogios no pré-carnaval, a temática “A Vida é um Sonho Pintado em Aquarela” se propôs a contar o ciclo da vida utilizando como inspiração a clássica música “Aquarela”, composta a executada por Toquinho – por sinal, segunda canção brasileira mais tocada em todo o planeta. O mote foi o “descolorir” de Jorginho Freitas, neto de Jorge Freitas, carnavalesco da agremiação. E a inspiração, certamente, mexeu com o profissional. Tido como um dos maiores em tal função na história do carnaval paulistano, ele esteve em mais uma temporada iluminada. Com uma abertura e três setores muito bem definidos, a linha cronológica é bastante evidente tal qual a vida: nascimento, amadurecimento e morte.
Alegorias
Grande vedete desde quando os carros alegóricos de todas as escolas passaram a ser movidos para a Concentração, os carros alegóricos tinham algumas características comum: os quatro eram extremamente bem iluminados e acabados. O abre-alas, “Reino de Encanto e Magia”, tinha dois chassis acoplados e impressionou pela beleza; o segundo (“Um Despertar de Emocões”) e o terceiro (“Viajante do Tempo”) tinham espaço para grupos cênicos; e o quarto (“Aos Olhos do Universo: É Tempo de Recomeçar”), que também tinha integrantes coreografados, se destacou pelas esculturas giratórias e pelas cores bem mais claras que em todo o restante do desfile. De potenciais pontos de atenção, um único foi observado: no primeiro chassi acoplado, com três lindos cisnes que iam para frente e para trás, as roldanas que movimentavam as esculturas estavam aparentes – tal qual as rodas.
Fantasias
Com diversas alas com nomes relembrando o clássico de Toquinho (como “Havaí, Pequim e Istambul”), sobretudo na primeira parte do desfile, a agremiação usou e abusou das cores ao longo de todo o desfile (mais para o final da apresentação, por sinal, a escola tinha algumas alas com nomes de cores – como, por exemplo, “A Felicidade do Amarelo”). Vale destacar a variedade em relação ao volume das indumentárias: algumas com costeiros altos e adornos de mão, outras com associação bem mais imediata.
Harmonia
Um dos quesitos historicamente seguros da agremiação novamente não decepcionou. Com um samba-enredo com alguns trechos mais melódicos, a comunidade da Vila Anastácio não deixou o canto cair em momento algum da exibição. O refrão de cabeça, em especial, era cantado em alto e bom som não apenas por quem desfilava como também por quem estava nas arquibancadas. O carro de som e a bateria, já citados, colaboraram para que a canção tivesse exibição fluida e segura. Vale destacar os apagões da Ritmo Que Incendeia na primeira passada do refrão de cabeça, feito três ou quatro vezes, respondidos com afinco por todo o Anhembi
Samba-Enredo
Se divide opiniões no universo do samba paulistano, a canção, desde a primeira apresentação fora da quadra da agremiação (no minidesfile da Fábrica do Samba), funcionou. O refrão de cabeça, sobretudo, com uma declaração de amor à Dragões, era cantado com especial empolgação. Foram determinantes para o ótimo desempenho da obra excelentes atuações de Renê Sobral e de todo o carro de som da instituição (com cantores de renome como Jorginho Soares e Mayara Souza) e da Ritmo Que Incendeia, bateria comandada por mestre Klemen Gioz – que, em 2024, conduziu uma canção criticada com primazia e, nesta temporada, soube sustentar muito bem o samba-enredo dando o brilho necessário à obra.
Evolução
Um dos fatos que mais chamaram atenção no ciclo de ensaios técnicos no Anhembi foi, justamente, a Evolução da Dragões. Extremamente leve e sem grandes preocupações com alinhamento, a agremiação encantou no momento da preparação. E, aparentemente, a escola veio pronta para evoluir de maneira mais solta tal qual fez no Sambódromo antes do desfile oficial. Algumas fantasias mais pesadas, entretanto, pareciam dificultar a situação dos desfilantes em determinados grupos – nos que tinham indumentária mais tranquila, entretanto, a mesma leveza foi vista. O que se confirmou é que, em tal área de julgamento, a instituição. teve bom nível em toda a exibição, com a agremiação evoluindo bastante e brincando com o samba, em um quesito que não deve ser problema na apuração. Vale destacar, também, que a agremiação, após a entrada da bateria no recuo, ficou cerca de quatro minutos com um andamento abaixo do que vinha sendo apresentado – logo depois, voltou ao normal.
Outros Destaques
A corte da Ritmo Que Incendeia, bateria comandada por mestre Klemen Gioz, tinha três destaques: Karine Grum (rainha), Yohana Obyara (princesa) e Beatriz Roberta (musa).