Por Juliana Cardoso
Abrindo o segundo dia de desfiles das escolas do Grupo Especial, a São Clemente levou para a Avenida a reedição do enredo “E o Samba Sambou”, de 1990. A agremiação criticou, com leveza e diversão, o fato de o carnaval ter se tornado um grande negócio. Ela reverenciou também a verdadeira festa carioca, feita pelo povo. Com o carro “Nosso Povão Ficou Fora da Jogada”, alfinetou os grandes camarotes da Sapucaí, aos quais a maioria da população não tem acesso.
Neste sentido, a segunda alegoria retratou a imagem de um camarote, cheio celebridades e petiscos caros. Colorido e irreverente, o carro simulou uma pista de dança, com direito a mesas, cadeiras e um show de cantores sertanejos. Componentes vestidos como estrangeiros e famosos, eram servidos por garçons. Grandes ovos de codorna e camarões foram distribuídos pelo carro e, no segundo andar, um DJ comandava as playlists da balada na Sapucaí. Tudo remetendo a luxuosidade destas festas, que excluem, por seu valor exorbitante, a maioria dos foliões.
“Os camarotes deveriam ser mais acessíveis! O carnaval é uma festa grandiosa e todos têm o direito de poder curtir as regalias de um evento assim”, disse David Rodrigues, que estava na alegoria.
Paula Guedes, outra componente, disse que tais festas são válidas até certo ponto, pois elas atraem pessoas que geram dinheiro para o estado. No entanto, o que acontece dentro delas precisa ser dosado.
“Eu sou uma pessoa que valoriza muito o espetáculo, então acredito que deveriam existir limites para o camarote. Os participantes esquecem do desfile, que deveria ser o foco da noite. A alegoria alfineta com humor esses eventos. Ela está incrível, a cara da São Clemente. Uma crítica com carinho”, ela completou.
A escola passou irreverente e divertida pela Avenida e foi a primeira a pisar na Marquês de Sapucaí nesta segunda-feira.



Gabriela Lopes, de 26 anos, sai pela Preta e Amarela da Zona Sul há dois anos, mas é sua primeira vez na ala das baianas da escola. A vontade de ser uma das mulheres de saia rodada começou na União do Parque Curicica, aos 15 anos. Gabriela se destaca pela idade já que muitas baianas são idosas.
Primeira escola a pisar na Marquês de Sapucaí nesta segunda, a São Clemente reeditou seu enredo de 1990. Alfinetando o grande mercado em que o Carnaval Carioca se tornou, a agremiação passou pela Avenida com alegorias e fantasias irreverentes. O quarto carro, chamado “Carnavalescos e Destaques”, retratou a grande vaidade que permeia os integrantes da festa popular.
Para André Lucas, que também desfilou na alegoria, a ideia foi diferente, e o tema foi acertado pela São Clemente. “A proximidade do tema com a realidade é perfeita”, concluiu.
Um carro da Unidos da Tijuca não festejou nem esbanjou alegria durante o desfile do enredo “Cada Macaco no seu Galho. Ó, Meu Pai, me dê o Pão que eu não Morro de Fome!” na Avenida, na madrugada de domingo. E não foi por falta de entusiasmo ou paixão pela escola. A terceira alegoria a entrar no Sambódromo, “O Pão que o Diabo Amassou”, trouxe 80 negros interpretando a viagem forçada de muitos de seus antepassados em um navio negreiro.
Na apresentação, os integrantes do carro se juntaram aos que estavam no chão, na ala “João de Mattos, O Padeiro Alforriado”, que contou a história do escravo alforriado que ensinava a arte de fazer pão a negros escravizados. Ele ainda lutava pela liberdade dos negros, imprimindo cartas de alforria falsas – chegar a formar um grupo de 160 pessoas. Foram três meses de ensaio. Entre as cenas chocantes, a de europeus mutilando negros retirados a força de suas casas na África.