Na cadência dos tamborins e no coro forte da comunidade, o samba-enredo da Imperatriz Leopoldinense deste Carnaval tem provocado mais do que aplausos: tem despertado emoção, orgulho e memória afetiva em quem acompanha a escola de Ramos. Entre componentes, torcedores e amantes do samba, o sentimento é unânime — o enredo não apenas conta uma história, mas mexe com a alma.
Na concentração, minutos antes do desfile, a costureira Maria das Dores, de 58 anos, não segurava as lágrimas ao comentar o que sente ao ouvir o samba:
Fotos: Victor Busch / CARNAVALESCO
“Quando começa o refrão, eu me arrepio inteira. Parece que estou vendo minha vida passar ali, junto com a história que a Imperatriz está contando.”
Para o estudante de História Lucas Almeida, 35, o enredo tem uma força especial por valorizar raízes culturais:
Fotos: Victor Busch / CARNAVALESCO
“É um samba que ensina e emociona ao mesmo tempo. A Imperatriz consegue transformar pesquisa em poesia. A gente aprende cantando.”
Já o aposentado Antônio Gomes, 65, destacou a energia que vem da própria comunidade:
“Esse samba nasceu forte, mas na Avenida ele cresce. Quando a arquibancada canta junto, não tem como não se emocionar. A bateria toca com o coração.”
Fechando o coro de emoções, a passista Nilce Gomes, destacou a força do samba e do enredo que conduzem a escola na Sapucaí:
“Nosso objetivo era exaltar com verdade, com respeito e emoção. Quando vemos o público chorando, sorrindo e cantando junto, temos certeza de que vamos conseguir puxar a Sapucaí.”
Com versos marcantes e melodia envolvente, o samba-enredo da Imperatriz Leopoldinense reafirma a força do Carnaval como manifestação cultural e afetiva. Mais do que um desfile, a escola entrega um espetáculo que pulsa na memória e no coração de quem vive o samba.
Ativa em toda a construção do pré-Carnaval do Império Serrano, a escritora Conceição Evaristo, grande homenageada do enredo “Ponciá Evaristo Flor do Mulungu”, realiza nesta terça-feira, a partir das 19h, uma noite de autógrafos na quadra da escola, em Madureira. A ação é voltada à comunidade imperiana e contará com a venda de livros a preço popular.
Fotos: Diego Mendes / Divulgação
As obras de Conceição Evaristo serão comercializadas ao valor de R$ 15,00. Toda a renda arrecadada será destinada ao Império Serrano, contribuindo diretamente para os preparativos da escola na reta final rumo ao Carnaval 2026.
A presença constante da escritora nas atividades do pré-Carnaval tem reforçado a proposta do enredo, que une literatura, memória e identidade negra à história do samba e da escola de Madureira. Para Conceição Evaristo, levar sua obra para dentro da quadra do Império Serrano é reafirmar a literatura como instrumento de acesso, pertencimento e cidadania.
Foto: Diego Mendes / Divulgação
“Tenho participado de forma muito ativa deste pré-Carnaval porque acredito no enredo como um espaço de afirmação da nossa memória e da nossa escrita. Colocar meus livros na quadra do Império Serrano é tratar a literatura como um direito cidadão, como uma ação democrática e acessível. O preço popular facilita o acesso, amplia o diálogo com a comunidade e, ao mesmo tempo, contribui para o Carnaval da escola, que também é um território de educação, cultura e resistência”, disse a escritora.
O Império Serrano está em contagem regressiva para o seu desfile oficial. A escola de Madureira será a quarta escola a desfilar no próximo sábado (14), na Marquês de Sapucaí, pela Série Ouro.
Um ótimo ensaio técnico da bateria “Soberana” da Beija-Flor de Nilópolis, sob o comando dos mestres Rodney e Plínio. Uma conjunção sonora equilibrada, com andamento confortável e boa equalização de timbres foi apresentada. Com um conjunto de bossas bem integradas a grande obra nilopolitana, as paradinhas ajudaram a impulsionar os componentes, além de valorizar o samba da Beija.
Na parte da frente do ritmo nilopolitano, um naipe de cuícas seguro se exibiu com solidez. Uma ala de chocalhos com boa técnica tocou interligado a um naipe de tamborins com coletividade musical apurada. O belo casamento musical entre tamborins e chocalhos foi o ponto alto do trabalho irretocável das peças leves.
Na cozinha da bateria “Soberana”, uma afinação acima da média de surdos foi notada. Marcadores de primeira e de segunda tocaram com leveza e segurança, demonstrando uma educação musical exemplar, no intuito de preservar as marcações num ensaio chuvoso. Surdos de terceira deram um balanço irrepreensível, evidenciando o bom trabalho dos graves. Repiques de alta técnica musical tocaram com coesão junto de um naipe de caixas bem ressonante, dividido entre ritmistas fazendo levada reta com caixas embaixo e outros com levada de partido alto, tocada em cima. Essa mistura preencheu a sonoridade dos médios dando aquele molho peculiar, tradicionalmente nilopolitano. Atabaques também vieram em meio ao ritmo, sendo importantes em bossas. O tom metálico das culturais frigideiras ajudou a dar brilho sonoro a parte traseira da bateria.
Bossas e nuances rítmicas intimamente ligadas ao belíssimo samba-enredo da Deusa da Passarela foram exibidas. Todas se pautando pelas variações melódicas, ajudando a impulsionar componentes com bossas dançantes, além de valorizar o samba na medida certa, diante de uma criação musical orgânica e praticamente intuitiva.
Uma ótima apresentação da bateria da Beija-Flor de Nilópolis, dirigida pelos mestres Rodney e Plínio. Um ritmo muito bem casado com o samba-enredo da agremiação foi exibido, realçando a bela melodia da obra nilopolitana com uma criação musical orgânica e de certa forma intuitiva. Um ensaio que mostrou uma bateria “Soberana” pronta para brigar pela pontuação máxima no desfile oficial.
Um excelente ensaio técnico da bateria da Grande Rio, comandada por mestre Fafá. Uma conjunção sonora de raro valor foi exibida, graças ao andamento confortável e uma equalização de timbres diferenciada, que propiciou uma ótima fluência entre todos os naipes.
Na cabeça da bateria da tricolor caxiense, uma ala de cuícas com boa ressonância fez um trabalho sólido, ajudando a marcar o melodioso samba-enredo da agremiação. Um naipe de chocalhos acima da média tocou entrelaçado com uma ala de tamborins de inegável qualidade coletiva. Mesmo com convenção rítmica simples, é possível dizer que o belo casamento musical entre os naipes foi fabuloso, dando brilho sonoro à parte da frente do ritmo. Simplesmente exuberante o balanço irrepreensível do carreteiro dos chocalhos da Grande Rio, evidenciando um trabalho irretocável envolvendo as peças leves. Um naipe de agogôs fabuloso executou um desenho rítmico pontuando a melodia do samba através de suas nuances com eficiência absoluta, contribuindo com a sonoridade da parte da frente do ritmo.
Na cozinha da bateria da Grande Rio, uma boa afinação de surdos auxiliou o trabalho dos marcadores de primeira e segunda, que foram precisos e educados enquanto tocavam. Impressiona a ponderação rítmica, que fazem os surdos da Grande Rio tirar som do instrumento sem dar pancada na peça. O mesmo vale para todos os naipes do miolo do ritmo. Surdos de terceira deram um balanço envolvente consistente a escola de Duque de Caxias. Repiques tocaram de forma reta e se exibindo com coesão. Um naipe de caixas de guerra com bom volume ajudou no preenchimento da sonoridade dos médios com eficiência.
Bossas intimamente vinculadas a melodia do samba da escola, se aproveitavam das nuances para consolidar seu ritmo através das variações. São bossas com boa musicalidade, algumas até se aproveitando das diferenças entre os timbres. As paradinhas foram executadas de modo cirúrgico, contribuindo com um trabalho de evidente limpeza rítmica, seguido por todos os naipes.
Uma apresentação excelente da bateria da Grande Rio, dirigida por mestre Fafá. Um ensaio que, mesmo diante de chuva forte, apresentou trabalhos enxutos em todos os naipes. Com andamento confortável e uma equalização de timbres acima da média, a fluência rítmica de todas as peças pôde ser percebida em qualquer ponto do ritmo caxiense. Uma bateria da Grande Rio completamente preparada para fazer mais um grande desfile, em busca da pontuação máxima.
Um ensaio técnico soberbo da bateria “Swing da Leopoldina” (SL) da Imperatriz Leopoldinense, comandada por mestre Lolo. Um ritmo potente, equilibrado e com bossas bastante musicais foi exibido. Não bastasse a qualidade técnica acima da média dos ritmistas, o clima da bateria da Imperatriz era festivo e ajudou demais a deixar a sensação de sacode, após uma passagem simplesmente energética.
Na cabeça da bateria “SL”, um naipe de cuícas sólido e ressonante auxiliou no preenchimento musical dos leves. Uma ala de chocalhos de técnica acima da média tocou interligada a um naipe de tamborins de trabalho coletivo fabuloso. O belo casamento entre tamborins e chocalhos deram brilho sonoro a parte da frente do ritmo da Rainha de Ramos.
Foto: Nelson Malfacini/Divulgação Imperatriz
Na parte de trás do ritmo leopoldinense, uma afinação de surdos primorosa foi percebida. Marcadores de primeira e de segunda foram impecáveis, tanto marcando, como em bossas. Surdos de terceira deram um balanço único, evidenciando o trabalho de raro valor técnico dos graves. Repiques coesos e firmes tocaram junto de uma naipe de caixas de guerra bem consistente.
Bossas extremamente conectadas ao animado samba da escola foram apresentadas com precisão cirúrgica. O conjunto de bossas e suas nuances se pautou pelas variações melódicas do samba-enredo da escola para consolidar o ritmo. Um trabalho conceitual de muito bom gosto, além de adequação musical plena. Especialmente para esse ensaio, os ritmistas desfilaram com lenços nas cores verde e branco, balançados por cima da cabeça no momento da paradinha do pré refrão, “se jogando na festa” de forma literal.
Uma apresentação exemplar da bateria “SL” da Imperatriz Leopoldinense, dirigida por mestre Lolo. Uma conjunção sonora marcante e impactante foi exibida, sempre valorizando o samba-enredo. Tudo junto de bossas dançantes e com pressão sonora, que ajudaram a impulsionar componentes na evolução. A energia musical proposta pelos ritmistas ampliou a sensação de grande passagem, graças a uma animação acima da média, evidenciando o autêntico clima de sacode. Um ensaio que mostrou uma bateria da Imperatriz pronta para realizar mais um grande carnaval.
Um ótimo ensaio técnico da bateria “Furacão Vermelho e Branco” da Unidos do Viradouro, comandada pelo mestre e enredo, Ciça. Um ritmo vinculado a própria trajetória do lendário mestre foi apresentado, com bossas potentes e dançantes, que ajudaram a impulsionar o melodioso e inspirado samba da Viradouro. Nem a chuva foi capaz de murchar a animação dos ritmistas, que literalmente “caíram dentro”.
Na parte da frente do ritmo da Viradouro, um naipe de cuícas de altíssima técnica musical exibiu um toque ressonante. Uma ala de chocalhos de ótima qualidade coletiva exibiu um toque interligado a um naipe de tamborins de nítida virtude sonora, executando um desenho rítmico pautado pelas nuances do melodioso samba-enredo da escola do bairro do Barreto. O trabalho envolvendo as peças leves mostrou imensa qualidade musical, preenchendo a sonoridade dos agudos com potência sonora.
Fotos: Luan Costa e Gabriel Gomes/CARNAVALESCO
Na cozinha da bateria “Furacão Vermelho e Branco”, uma boa e pesada afinação de surdos foi notada. Marcadores de primeira e de segunda tocaram com a firmeza tradicional, mas de modo seguro. Surdos de terceira consistentes ficaram responsáveis pelo balanço envolvente, inclusive em bossas. Repiques coesos tocaram de forma integrada a um naipe de caixas bastante ressonante, com a tradicional batida com levada de partido alto.
Bossas bastante vinculadas as variações melódicas do belo samba da agremiação foram executadas corretamente. Conversas rítmicas que valorizam o trabalho de mestre Ciça com um conceito musical vinculado a sua própria história, repletas de pressão sonora de surdos e paradinhas de impacto. Um conjunto de bossas criado sob medida para um samba que exalta o próprio mestre.
Uma ótima apresentação da bateria da Viradouro, dirigida pelo mestre e tema da escola, o icônico Ciça. Um ritmo praticamente identitário foi produzido, com bossas que dignificam a criação rítmica tão vinculada a carreira musical de Ciça. Além das bossas potentes e da boa conjunção sonora exibida, é simplesmente diferente quando o clima de emoção contagia os ritmistas. Animados e empolgados com a homenagem, os ritmistas da “Furacão Vermelho e Branco” não só apresentaram um grande ritmo, como deixaram a espontaneidade tomar conta do treino e literalmente se divertiram enquanto tocavam. Uma bateria da Viradouro que arrancou aplausos e deixou otimista quem presenciou esse grande ensaio.
Óculos vermelhos pela cidade, “mantos” novos da Estrela Guia da Zona Oeste para colecionadores em parceria com a Kappa, loja recheada de produtos licenciados… Estas foram algumas das ativações que mexeram com os sambistas e torcedores da Mocidade Independente nos últimos meses. Para promover o enredo deste ano, “Rita Lee, Padroeira da Liberdade”, a escola pioneira no samba e no marketing não poderia fazer menos.
Em entrevista ao CARNAVALESCO, Bryan Clem, diretor de Marketing da Mocidade, afirma que um enredo que tem a alma da escola pede criatividade na comunicação.
Foto: Mariana Santos / CARNAVALESCO
“A gente está muito feliz com o enredo. A Rita Lee tem a cara da Mocidade e, para a gente que cuida da parte de comunicação e estratégia, é muito bom trabalhar com a Rita Lee, porque ela tem o nosso DNA. O componente está muito feliz com isso. A gente vai, com certeza, fazer um desfile muito alegre, muito irreverente, que é a cara da Mocidade. ‘Rita Lee, Padroeira da Liberdade’ é a Mocidade, e a Mocidade é a Rita Lee. Sem dúvida alguma, a camisa da Kappa recente que a gente lançou agora, em março, foi uma campanha bacana. A gente fez uma ação de 70 anos da escola, foi algo gigantesco, com mais de 20 produtos, o que mostra a força da marca Mocidade para engajar torcedores e aumentar o faturamento também, que é muito importante pra gente”, afirmou.
Os Independentes são conhecidos pelo amor e devoção. Nas redes sociais, não poderia ser diferente, mas não foi tão fácil chegar a esse resultado. Bryan reflete sobre os desafios e os percalços enfrentados pela escola nos últimos anos, que abalaram a comunidade, mas ressalta que a paixão sempre fala mais alto.
“São muitos desafios. Trabalhar com uma torcida tão apaixonada, e, ultimamente, com os últimos resultados ruins da escola, tem sido difícil manter a base cada vez mais forte. Mas não tem do que reclamar: a torcida é muito apaixonada, briga muito por nós, engaja muito nas redes sociais. É um desafio gostoso de lidar. A pressão é muito gostosa, e lidar com torcedor apaixonado é muito bom, porque eles inflamam muito. A Mocidade é isso: ter essa torcida ao nosso lado pra mostrar a força da escola”, contou.
E, para o futuro, o diretor garante que a equipe seguirá trabalhando firme para manter as ativações, campanhas e interações que fazem sucesso entre os sambistas.
“Eu acho que esse desfile vai ser um marco pra gente, de leveza e alegria. A gente precisa muito ser feliz na avenida. Acho que o componente pode esperar uma comunidade muito, muito contente, muito feliz. E nós, como profissionais da comunicação, vamos preparar muitas ações pra engajar cada vez mais o torcedor.
Como no lançamento do enredo, quando espalhamos os óculos pela cidade, não vai ser diferente agora. Vamos preparar muitas coisas para motivar e engajar todo mundo e chegar na segunda-feira de carnaval feliz e contente na avenida”, declarou.
O último sábado de ensaios técnicos da Série Especial do Carnaval 2026 movimentou as arquibancadas com enredos poderosos, comissões de frente de tirar o fôlego e baterias mostrando sua potência para fechar a noite com chave de ouro. A favorita da noite, a Vila Isabel, abriu os desfiles com o enredo “Macumbembê, Samborembá: Sonhei que um Sambista Sonhou a África”. Em seguida, o Salgueiro levou para a avenida o enredo “A delirante jornada carnavalesca da professora que não tinha medo de bruxa, de bacalhau e nem do pirata da perna-de-pau”, emocionando a todos com o canto potente de sua comunidade.
O Paraíso do Tuiuti foi a terceira escola a ensaiar, com o enredo “Lonã Ifá Lukumi”. Fechando a noite com agitação e alegria, a Portela apresentou o enredo “O Mistério do Príncipe do Bará”.
Como a opinião mais importante é a da comunidade, o CARNAVALESCO foi até o público para descobrir o que acharam. Torcedores de diferentes escolas que se apresentaram no sábado foram entrevistados para analisar os ensaios — principalmente o desempenho de suas agremiações do coração, seus sambas e os pontos positivos e negativos.
O ator Yan Rodrigo, de 22 anos, avaliou a noite de forma crítica e destacou seus momentos de ouro.
Fotos: Alicia Victoria / CARNAVALESCO
“Eu achei que hoje foi um dia muito bom, comparado à semana passada. Acho que, por essa ser a última semana, as escolas trouxeram uma força maior para o ensaio, buscando mesmo a vitória.”
Para ele, Vila Isabel e Paraíso do Tuiuti foram os destaques.
“Para mim, Vila e Tuiuti têm essa força principalmente por conta do samba. São dois sambas muito bem escritos, que foram muito bem aceitos pela população do samba. Ainda mais que teve comentários no ano passado sobre sempre se repetirem enredos afro e que a letra do samba da Tuiuti era difícil, porque tem palavras desconhecidas. E eu acho que é por ignorância das pessoas — tanto que o samba tá aí na boca do povo.”
O ator destacou ainda o intérprete Pixulé, o mestre de bateria Marcão e a rainha de bateria Mayara Lima, trio que vem sendo ovacionado.
“Pixulé arrasando na interpretação, Mayara Lima arrasando junto com a bateria do mestre Marcão. Tá fechado um trio ali na Tuiuti que faz a escola explodir na avenida. Acho que a Tuiuti vem há anos tentando emplacar algo assim, e esse samba deu a força que ela precisava.”
O folião também exaltou a troca de carnavalescos da Vila Isabel e o acerto em homenagear Heitor dos Prazeres.
“A Vila deixa um carnavalesco que pensava, enfim, historinhas da branquitude, podemos dizer assim, e chegam dois novos carnavalescos que já colocam na mesa, logo na entrada, Heitor dos Prazeres — um homem negro, pintor, compositor, costureiro. Ele bordava, fazia instrumentos e as listras das bandeiras das escolas de samba que existem hoje em dia foram criadas por ele. Sempre esteve presente junto com a Tia Ciata. Então acho que, além do enredo que essas duas escolas vêm trazendo, o samba faz a plateia desabar.”
Para finalizar, Yan apontou um dos poucos pontos negativos da noite: problemas no novo sistema de som.
“A gente teve um problema muito grande com o Acadêmicos do Salgueiro. O som ficou parado mais ou menos uns 10 minutos. Acho isso um desrespeito com a escola que trabalha há um ano. Só tem dois ensaios técnicos na Sapucaí com o som oficial e aí a escola não consegue trabalhar porque o som não funciona, sendo que foi uma reforma recente para melhorias — e não parece ser o que está acontecendo.”
A emoção de ver sua escola na avenida é um sentimento inexplicável. Para o folião Jorge Luiz, de 51 anos, segurança, essa foi a palavra que definiu o que sentiu ao ver sua amada Vila Isabel.
Fotos: Alicia Victoria / CARNAVALESCO
“A Vila Isabel para mim é coisa de criança, é ancestral, vem de família. Eu amo tudo da Vila: o enredo, a comunidade que faz acontecer, a bateria do Macaco Branco. Difícil falar sobre esse cara que hoje, no patamar do samba, é um dos melhores.”
Emocionado ao ver a escola passar, ele falou sobre a retomada da identidade da agremiação.
“Essa é a Vila Isabel que nós esperávamos. Há anos a gente não conseguia ver essa Vila acontecer, e esse ano tá acontecendo. Pra mim é difícil até falar… é como ver um filho conquistando tudo que queria na vida. É uma realização toda vez que a Vila passa.”
A Paraíso do Tuiuti também encantou o estudante Bruno de Oliveira, de 24 anos, que, mesmo sendo torcedor da Mocidade, declarou sua admiração pela escola de São Cristóvão.
Fotos: Alicia Victoria / CARNAVALESCO
“Foi incrível. Tô até com a voz rouca de tanto que cantei. Acho que o Tuiuti consegue levantar a arquibancada e tá vindo esse ano com uma força muito grande. Tem comunidade, tem quesito, tem rainha e vem pra encantar.”
Bruno também comentou sobre a Portela e a dificuldade de ser a última a ensaiar.
“Eu cheguei cedo, já estava bem cansado, mas fiquei porque tinha que ver a Portela. E não me arrependi. A comunidade tem uma animação diferente, que empolga todo mundo, da frisa à arquibancada. Vale muito a pena ver.”
Encerrando os depoimentos, a professora Daffini de Oliveira, de 31 anos, destacou seu amor pelo Salgueiro desde os 7 anos e se mostrou satisfeita com o enredo proposto pelo carnavalesco Jorge Silveira.
Fotos: Alicia Victoria / CARNAVALESCO
“Eu gostei muito da energia. O Salgueiro costumava trazer sempre sambas afros e esse ano saiu um pouco da bolha. Tá prometendo demais e eu fiquei muito feliz, como salgueirense, de ver minha escola com essa energia lá no alto.”
Questionada sobre possíveis melhorias, a torcedora comentou a divisão entre musas famosas e da comunidade.
“Eu acho sempre incrível, mas talvez o que possa melhorar seja a divisão das musas. Dependendo de como seja no dia, misturar mais comunidade com as famosas seria uma ideia legal, porque hoje ficou muito evidente quem era famosa e quem era da comunidade — e não deveria.”
O enredo “Lonã Ifá Lukumi”, do Paraíso do Tuiuti, que fala sobre o Ifá cubano, tem mexido profundamente com os integrantes da escola. O CARNAVALESCO conversou com componentes no último ensaio técnico antes dos desfiles oficiais, e cada depoimento revela uma emoção única, mas todos carregam a mesma intensidade: cantar é rezar, é se conectar com a ancestralidade, é deixar a alma vibrar na avenida.
Rui Costa, de 43 anos, destacou que o samba é quase como uma oração. “É uma adoração e também um pedido, uma prece. Acho que, independentemente da religião de cada um, todo mundo tem uma forma de rezar e pedir proteção. Por isso é o que esse samba fala. Apesar de ser iorubá, qualquer pessoa pode se identificar”.
Fotos: João Gabriel / CARNAVALESCO
Rui também ressaltou a relevância de levar o Ifá cubano para a avenida, enfatizando que o samba é uma forma de preservar memórias coletivas.
“É bastante importante, porque fala daquilo que é a história do Brasil, a história de Cuba. É importante continuar trazendo coisas que fazem parte da cultura e da história de um povo”.
Vanilda, de 53 anos, destacou a força ancestral que sentiu ao ouvir o samba. “É um samba muito forte. Vem dos ancestrais e traz a ancestralidade muito presente. Mexeu comigo demais, porque é algo cativante, muito forte, e tá trazendo a gente pra dentro do samba”.
Ela também contou que a obra abre portas para novos aprendizados e desperta curiosidade sobre tradições que muitas vezes permanecem invisíveis.
“Faz com que as pessoas conheçam uma cultura, coisa que eu também não conhecia profundamente. É algo muito lindo, faz com que a gente aprenda, a cada dia, mais coisas referentes ao Ifá, ao santo”.
A servidora pública Rebecca, de 40 anos, contou que sua experiência em Cuba intensificou a conexão com o enredo. “Eu estive em Cuba ano passado e me conectei com a cultura de lá. Achei muito legal essa ideia de homenagear uma vertente de Cuba. Adoro esse tipo de enredo, adoro a conexão com o povo que foi escravizado e trazido para a América Latina. Acho que é um enredo bem forte, o samba é muito bom e tem tudo pra gente levar esse ano”.
Rebecca também ressaltou a importância de exaltar a cultura negra e ampliar o conhecimento sobre a religiosidade africana.
“É uma maneira de exaltar o Ifá cubano, a cultura do povo africano que veio escravizado para as Américas. Quanto mais a gente levar para o povo o conhecimento sobre esse tipo de cultura, sobre a religiosidade, melhor. Quanto mais consciência, melhor”.
Luciano, motorista de 55 anos, confessou que se arrepiou ao ouvir o samba pela primeira vez na quadra.
“Cara, a primeira vez que eu escutei, quando o samba foi declamado na quadra pela nossa harmonia, foi… arrepiou na hora. Arrepiou total. O samba vem da alma mesmo, é uma coisa impressionante. Não sei nem como explicar em palavras o que a gente sente quando escuta”.
Luciano também citou o peso de falar sobre o tema no maior palco do carnaval, lembrando que a Sapucaí é vitrine mundial.
“É o melhor local pra você falar sobre isso. Porque aqui é o centro, o maior espetáculo da Terra. Mostrar essa cultura cubana, esse Ifá que está crescendo enormemente no Brasil, é sensacional”.
Já Aldimar, auxiliar de cozinha e integrante da ala das baianas, ressaltou sua ligação espiritual com o enredo.
“Mexe muito comigo, porque a espiritualidade fala sobre Ilonã, fala sobre o axé, sobre Lukumi, sobre Iboru, Iboya, Ibosheshe, sobre o Ifá. Mexe comigo porque eu sou de Oyá, sou de axé, então já fico toda balançada quando entro na avenida”.
Aldimar também confessou que ainda está aprendendo, mas vê grande valor na proposta de levar o Ifá cubano para a Sapucaí.
“É muito bom porque expande o conhecimento das pessoas. Nem eu sabia direito sobre esse enredo, tô ainda estudando, não sei muita coisa”.
A Acadêmicos do Salgueiro vai muito além de ser apenas uma escola de samba ou uma simples quadra visitada por turistas todos os anos. Ser salgueirense é sinal de território, pertencimento e identidade. O amor pela escola ultrapassa palavras: é um sentimento que a comunidade carrega através de gerações e que, enquanto houver uma pessoa desfilando pelo Salgueiro, a escola seguirá firme e forte, como vem sendo há mais de oito décadas.
Não existe homenagem maior do que desfilar pela própria escola. Dentro desse universo, a ala das passistas carrega uma trajetória marcada por inovação e reconstrução, sem jamais perder a tradição de transmitir a paixão através do corpo e do samba no pé.
Reconhecido mundialmente por seu talento, rispidez e olhar crítico, o diretor artístico Carlinhos Salgueiro é a alma criativa por trás das musas e passistas mais icônicas da Marquês de Sapucaí. Para ele, o samba vai além do desfile: ser passista do Salgueiro é dar voz e destaque às pessoas da comunidade.
Fotos: Alicia Victoria / CARNAVALESCO
“De uns dois anos para cá, eu montava uma comissão de personalidades e artistas para escolher, mas eu voltei a sentir no meu coração. Eu sinto as pessoas, eu gosto de pegar pessoas cruas, que aí eu coloco o meu tempero. E ser campeã de prêmios é a realização do meu trabalho e ver que o trabalho tá dando certo”, destacou.
Esse olhar detalhado e preciso do diretor artístico se reflete na trajetória da estagiária de Educação Física Ellen Belo. Aos 23 anos, ela participou das audições carregando insegurança e a certeza de que não seria aprovada. No entanto, o pressentimento apurado de Carlinhos transformou em realidade um sonho de infância: ser passista do Salgueiro.
“Eu entrei recentemente, no final do ano passado, mas sempre foi meu sonho ser do Salgueiro. Só que eu achei que eu não tava pronta, eu não estava confiando em mim naquele momento. Pensei: ‘Se eu passar, ok, mérito meu; se eu não conseguir, vou persistir até conseguir’. Dito e feito: cheguei, fiz o teste. Na hora ele tava chamando as meninas, e eu tava lá atrás. Ele veio me olhando assim… eu falei: ‘Será que ele tá me olhando?’. Eu olhava para baixo, eu olhava para cima, aí ele veio, me deu a mão e me botou lá na frente. Eu fiquei muito feliz”, afirmou.
Ser passista vai além de sambar na avenida. É ser referência para os mais novos, representar disciplina, dedicação, trabalho duro, beleza e plasticidade. As passistas do Salgueiro carregam um nome forte, construído por Carlinhos ao longo dos anos, por meio de projetos sociais voltados para a comunidade e abertos a todos.
Raquel Lima, de 34 anos, arquiteta, dançarina e no quinto ano desfilando pela escola, é uma dessas histórias. Assim como muitas outras passistas, Raquel foi pupila de Carlinhos por meio do projeto Samba no Pé.
“Eu fiz, durante um ano, curso com ele no projeto Samba no Pé, que acontece no Salgueiro. Aí eu fui me desenvolvendo e, um dia, ele me chamou para fazer parte da ala. Desde criança sempre quis ser passista e eu estou muito feliz por estar representando. Grandes nomes vieram do Salgueiro, vieram através do estudo com o Carlinhos. É incrível fazer parte e estar também trazendo esses prêmios todos os anos com ele”, enfatizou.
Tradição, inovação e pertencimento são palavras que definem as passistas do Salgueiro, sempre um passo à frente e sem rótulos. Davi Araújo, de 26 anos, é cabeleireiro, integra a escola há quatro anos e atualmente ocupa o posto de passista diversidade. Para ele, estar nesse espaço vai além da individualidade. Consciente dos rótulos impostos pela sociedade, Davi não se deixa limitar e celebra a alegria de ser passista.
“Eu acho que é muito mais além. Para mim, por ser Passista Diversidade, que é algo que não é muito aceito pela sociedade… é um corpo afeminado sambando da forma que quer, com seus trejeitos. Então, para mim, é de uma felicidade muito grande estar nesse lugar de passista.”
Davi também destaca seu sentimento de pertencimento, o direito de escolher onde seu corpo quer estar e o respeito recebido dentro da escola.
“As pessoas me diziam muito: ‘Ah, por que você não vai para uma outra ala?’. Não, eu quero ser passista. É onde o meu corpo quer estar. E o Carlinhos vem criando essa vontade de ser o passista de diversidade. Eu sou muito salgueirense, é minha ala, amo de paixão, todo mundo me respeita. Então, eu acho que vale muito, porque é muito mais do que o samba no pé. O respeito é muito mais importante”, declarou.
Entre ensaios intensos e jornadas de trabalho fora da quadra, os passistas do Salgueiro seguem carregando o amor por suas raízes. Levam no corpo a própria história e o orgulho de sambar com o coração. É essa entrega que transforma esforço em espetáculo e faz com que, ano após ano, continuem fazendo história na avenida, conquistando prêmios e reafirmando o Salgueiro como referência de excelência, tradição e identidade no carnaval.