Dragões da Real se destaca na plástica, mas sofre com acidentes
Última escola de samba a pisar no sambódromo do Anhembi, a Dragões da Real sofreu com os atrasos e o sol forte, e viu favoritismo desaparecer. O atraso na primeira noite de desfiles afetou diretamente a Dragões, por ser a última, pisou na pista com um sol forte.

Mestre-Sala e Porta-Bandeira
A primeira porta-bandeira da agremiação sofreu uma queda de pressão em frente ao setor B. Médicos e integrantes da diretoria ajudaram no canto da pista. A responsabilidade de levar o pavilhão oficial ficou na conta do segundo casal, Gabriela e Lucas.

Comissão de frente
Pra fazer uma representação ao samba, a comissão de frente da escola trouxe um tripé que representou uma caixa de fósforo, e nas laterais cenografia pra ilustrar um bar. A caixa de fósforo é uma associação direta ao homenageado, Adoniram Barbosa, que sempre utiliza o objeto pra acompanhar suas canções.
Os bailarinos também se caracterizam conforme o objeto, por isso os bailarinos estavam de palitos sambistas (versão masculina e feminina), e um que representou o Adoniram Barbosa.

Interação com a platéia em momentos distintos, principalmente durante a coreografia no tripé, é uma das características marcantes do coreógrafo Ricardo Negreiros, e foi notada no desfile da escola.
Harmonia
Inegavelmente o quesito sofreu uma queda de rendimento por conta dos acontecimentos, mas não significa que a escola deixou de cantar. As últimas alas cantaram forte e fecharam o desfile com animação.

Enredo
Importante citar que a homenagem da escola ao sambista Adoniran Barbosa foi feita através das obras musicais do artista, o que não segue uma ordem cronológica da vida. O que deu uma liberdade criativa pra escola abordar as características que suas músicas carregavam. Por exemplo: Sarcasmo, críticas sociais, bom humor, noitada, relacionamentos, parcerias e muito mais.
A escola apresentou elementos criativos, que não necessariamente tem ligação com o universo do samba, mas fez sentido com a proposta. As caveiras presentes no abre-alas nada mais é que uma ironia ao nome “Túmulo do samba”, dada à São Paulo.

Outro ponto de destaque criativo é terem enxergado a possibilidade de criar uma ala tendo como referência o samba “Torresmo à milanesa”. O acidente com a porta-bandeira pode afetar o quesito.
Alegorias
Pra aprofundar o tema já comentado acima, o carro abre-alas: “Túmulo do samba – Abraçando a batucada, saudades vou cantar”, era uma representação irônica, uma brincadeira, ao fato de Vinicius de Moraes ter chamado São Paulo como o túmulo do samba. Pra mostrar que tal afirmação é mal fundamentada, as caveiras levantam do túmulo e balançam o esqueleto. Revertendo então a ideia.

Já a segunda alegoria é uma homenagem à Saudosa Maloca. Como a música sintetiza a dureza da vida social de forma leve e bem humorada, a escola resolveu materializar essa comunicação através de coreografia.
A alegoria seguinte foi um grandioso trem, uma associação rápida à música “Trem das Onze”. O carro então sintetizou também o que o local representava, por isso notou-se momentos idas e vindas.
A quarta, e última alegoria, trouxe o símbolo maior da escola, o Dragão, que conduziu as homenagens aos baluartes do samba paulistano.
Fantasia
A questão criativa presente nas alegorias, também ganhou destaque nas fantasias. A ala 02 (As gárgulas e as “Arma penada”), continha uma espécie de asa e, ao abrirem, mostravam letras. Os componentes, que evoluíam de forma coreografada, se juntavam na ordem que as letras formavam o nome do homenageado, “Adoniran”. Outros componentes também chamaram a atenção pelo tamanho da caveira como costeiro.

A agremiação encerrou o desfile com uma homenagem às escolas de samba, e por isso contou com várias alas que homenagearam escolas de samba, como: Nenê, Vai-Vai, Peruche e muito mais.
Samba
Novidade no carro de som do Renê Sobral, as vozes femininas ganharam destaque. Notou-se uma segunda voz feminina, no trecho: “Dragões, amanheço em teus braços. Rene também fez variações, utilizou cacos e sustentou o samba.

Evolução
O acidente fez a escola ficar parada por um tempo, mas ao retomar o padrão no andar, seguiu da mesma maneira. Assim como dito no quesito de harmonia, pode ser repetido em evolução: os acidentes atrapalharam pra alcançar um desempenho maior.
Graves falhas de evolução comprometem desfile e Tatuapé pode brigar na parte de baixo
Sexta escola a passar pela pista nesta primeira noite de desfiles, a Acadêmicos do Tatuapé levou o enredo “Preto Velho conta a saga do café num canto de fé”. A apresentação foi marcada pelo o péssimo desempenho da evolução da escola. O abre-alas emperrou e abriu um buraco gigante entre tal alegoria e o casal de mestre-sala e porta-bandeira. Os responsáveis pelo andamento do desfile, não conseguiam resolver o problema e o caos foi instaurado por volta de três minutos. Uma enormidade. A repercussão foi imediata. Diante disso, muito provavelmente a agremiação irá levar notas baixas na apuração. Um desfile recheado de expectativa com briga pelo título, virou um drama. Agora, o Tatuapé pode facilmente brigar nas posições mais baixas da tabela. * VEJA FOTOS DO DESFILE

Comissão de frente
A comissão do Tatuapé, liderada pelo coreógrafo Leonardo Helmer, consistiu em mostrar o amor que Preto Velho tem pelos seus divinos orixás. A sensação é que realmente a entidade está em Aruanda, que é o paraíso espiritual dos orixás. Dentro da dança, se tem o próprio Preto Velho, além dos orixás Nanã, Iemanjá, Obá, Oxum, Oxalá, Obaluaê, Logum Edé, Iansã, Ossain, Xangô, Oxumaré, Ogum, Exú e Oxóssi. Todas essas entidades, vestiam grandes costeiros e cada um carregava seu adereço de identidade significativa na mão. Destaque para os martelos de Xangô, arco e flecha de Oxóssi e espelho de Oxum. Outra ressalva também é a maquiagem de todos os integrantes da ala. Apesar da proposta do enredo enfatizar a história do café contada pelo Preto Velho, na encenação, vimos apenas as entidades. A coreografia inteira foi executada no ritmo da melodia do samba.

Mestre-sala e porta-bandeira
O casal Diego do Nascimento e Jussara de Sousa, representando a “Realeza Africana”. A dupla fez uma dança enérgica, onde giravam e apontavam um para o outro o tempo todo. Mantiveram o sorriso no rosto o tempo todo durante o ato de bailar. Porém, foram prejudicados pelo buraco que se formou no recuo entre eles e a primeira alegoria. Ficaram bastante tempo dançando em um terço à frente do recuo, quando era para basicamente estarem no fim das apresentações para os jurados. Nessa questão, o planejamento foi por água abaixo devido à fraca evolução do Tatuapé. A fantasia de ambos era preta e branca, combinando com as cores do abre-alas. Dificilmente se vê cores neutras em casais de mestre-sala e porta-bandeira e, a Tatuapé, decidiu fazer diferente com Diego e Jussara.

Harmonia
Novamente, o canto do Tatuapé foi gigante no Anhembi. Há um bom tempo a comunidade ‘Zona Leste Guerreira’, vem se mostrando ótimos desempenhos em relação ao quesito. Em questão de puxar a comunidade para o samba, o intérprete Celsinho Mody é um dos melhores do carnaval paulistano. Ele colocou uma energia impressionante do início ao fim. A aceleração da bateria dentro da melodia do samba, culminou para tal desempenho da comunidade para com essa parte do desfile. Como nos ensaios técnicos, é até difícil dizer qual ala cantou mais ou menos, mas vale destacar o empenho da ala das baianas, que cantaram fortemente. As partes mais cantadas foram o refrão principal, onde a palavra ‘saravá’ é entoada com mais força. A última estrofe do samba, onde se canta ‘aruanda’, também se destaca dentro da letra.

Enredo
“Preto Velho canta a saga do café num canto de fé”, foi uma boa sacada da escola. O enredo une a entidade Preto Velho com o precioso e histórico fruto que é o café. Dentro disso, o primeiro setor contou como o fruto foi propagado pelo mundo. O café passou pela Arábia até chegar na África. Também é falado do fruto nas senzalas, como os endinheirados enriqueceu através dele no uso do trabalho escravo. O desfile também passa pelo café na arte, onde levou uma alegoria com escultura de pintor e do cantor Roberto Carlos. Por fim, fechou com o carro alegórico de Aruanda, berço divino dos orixás e lar de Preto Velho.

Evolução
A evolução da escola foi péssima. Em frente ao recuo, o abre-alas empacou e abriu um enorme buraco entre o casal de mestre-sala e porta-bandeira, causando divisão da escola. Nessa situação, os responsáveis pela alegoria e harmonia da agremiação, não souberam como resolver e, só depois de 3 a 4 minutos, o carro andou, o que significa uma enormidade em um desfile de escola de samba. Devido a isso, a escola teve que correr consideravelmente para passar no tempo, fechando o desfile com 1h03m.

A coreografia dentro do samba, têm algumas partes padronizadas. Na parte do ‘Aruanda’, todos levantam o braço para cima. Logo após o primeiro refrão, onde o samba fala ‘incorporei’, os componentes movimentam o corpo para trás e para frente. Esse efeito, com as plumas dos costeiros, deu um efeito especial dentro da pista.
Samba-enredo
A letra do samba-enredo traz uma concepção diferente. A parte do ‘tanacinê, tanasanã, ina inê, tanuotã’, trouxe um algo a mais e pegou dentro da obra. Já era esperado. Os componentes puderam cantar e coreografar de maneira satisfatória devido à essa parte. As alas coreografadas também usaram bastante desse verso. O intérprete Celsinho Mody teve uma grande atuação e, junto da bateria ‘Qualidade Especial’, regida pelo mestre Higor, conseguiu obter sucesso dentro do quesito.

Fantasias
Diferente dos últimos anos, o Tatuapé inovou em suas fantasias e levou vestimentas criativas. Apostou bastante em plumas e detalhes minuciosos dentro de costeiros. Não se resumiu apenas em fazer o básico dentro do quesito. A revolução das fantasias não condiz tanto com as alegorias da escola, que será o próximo tópico a ser abordado.
Alegorias
A primeira alegoria, veio representando “Cazuá do Preto Velho e África berço do café”, onde tinha uma grande escultura central do Preto Velho junto com as velas, simbolizando um terreiro. No acoplamento, pudemos ver animais e esculturas com vestimentas afro, simbolizando a África. Na frente da alegoria e no centro, pudemos ver um efeito em que saía aroma de café.

O segundo carro, simbolizou “A Casa Grande e Senzala: reluziu o ouro negro, ‘meu sinhô”. No centro, a figura do Preto Velho e, ao lado dele, esculturas de escravos carregando sacos. No topo, uma figura de um homem segurando uma nota de dinheiro, ou seja, enriquecendo em cima do trabalho escravo.
A terceira alegoria, representou o café e a arte, onde pudemos ver esculturas do artista Roberto Carlos e, no topo, a figura de um pintor. No carro inteiro, havia latas de tintas. Também um efeito que soltava aroma de café.
Por fim, a quarta e última alegoria, simbolizou Aruanda, que é o paraíso divino dos orixás e, nele, tinha figuras de oxum.

Ao todo, o Tatuapé mostrou o mesmo nível de alegoria dos anos anteriores. Esculturas simples, trabalhando apenas para apresentar algo que traga nota de qualquer forma. Não se preocupou com o belo. Lembrando que nos últimos dois anos, a agremiação perdeu dois campeonatos devido a esse quesito.
Outros destaques
A bateria ‘Qualidade Especial’, teve um desempenho satisfatório. O andamento foi feito da forma que o samba pede. A forma acelerada de se batucar, virou característica da escola e, as bossas desempenhadas, foram executadas com sucesso. Destaque para o arranjo de Aruanda, onde a bateria faz uma pequena paradinha, deixa a escola gritar a palavra pelas duas vezes e volta na chamada do samba.
Imponente, Beija-Flor faz grande desfile plástico, mas acumula erros técnicos que devem interferir na disputa do título
Última escola a encerrar o primeiro dia de desfiles do Grupo Especial, a Beija-Flor voltou aos tempos de imponência e luxo na Sapucaí. Com carros alegóricos gigantes e bem acabados, e com fantasias impecáveis, a escola de Nilópolis foi irretocável na parte plástica. No entanto, a agremiação cometeu alguns erros de evolução, teve ausência de composições na segunda alegoria e somou problemas na apresentação do casal de mestre-sala e porta-bandeira A Beija-Flor cruzou o Sambódromo em 67 minutos. * VEJA FOTOS
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Comissão de Frente
Coreografada por Marcelo Misailidis, a Comissão de Frente da Beija-Flor trouxe 15 homens que representavam Macuas, povo originário de Moçambique. A intenção do primeiro quesito da escola foi fazer uma reflexão sobre ações que privam o povo negro de conhecer seu passado, a ancestralidade do povo. Sobre a memória arrancada e o apagamento da cultura do povo preto durante e pós-escravidão. A coreografia se deu toda em cima de um elemento cênico. Homens brancos carregavam um molde de navio em ferragens simbolizando a colonização, enquanto escravos faziam coreografia no chão. Na sequência um painel com imagens acende e o busto de um navegador branco em isopor explode. No lugar, sobe um homem negro, afirmando seu lugar de pertencimento. Toda coreografia demorou cerca de três minutos.

Mestre-Sala e Porta-Bandeira
Claudinho e Selminha Sorriso vieram representando o ‘Esplendor de Kemet’, que significa ‘terra negra’. A dança dos dois quis passar a ideia da irradiação do poder ancestral, com a movimentação do pavilhão em representação da releitura dos caminhos para o povo preto. A roupa dos dois causou grande impacto visual, com o contraste do preto com o dourado e os detalhes em azul em alusão à escola. A fantasia de ambos também estava muito bem acabada nos quase 2m10s de coreografia.

Apesar da beleza dos figurinos, Selminha e Claudinho tiveram apresentação problemática no segundo módulo. Os dois tiveram leve esbarrão, o mestre-sala deixou escapar o pavilhão na hora de mostrá-lo aos jurados e no fim, ainda somaram outro erro. A porta-bandeira não estendeu a mão para o mestre-sala quando deveria, e quando o fez, ele recuou e beijou a própria mão. Visivelmente abalados, a dupla não conseguiu reproduzir o mesmo bailado no último módulo e apresentaram pouca coreografia.
Harmonia

Um dos pontos positivos do desfile da Beija-Flor. A comunidade nilopolitana brilhou com o canto, com destaques para as alas 4 ‘Por que o Negro é Isso que a Lógica da Dominação Tenta Domesticar?’; 14, ‘Machado de Assis: A Mística de Quem Somos na Capa’, e ‘O Balé dos Terreiros: Somos Filhos de Deuses que Dançam’. O canto foi uníssono durante toda Sapucaí, os problemas de evolução não influenciaram no canto.
Enredo

No primeiro setor, a escola retorna à África, para entender a grandiosidade e a importância do continente, mostrando que lá é onde tudo começou para o povo preto brasileiro, e não na escravidão. As civilizações africanas ganham destaque neste primeiro momento. Na sequência, a Beija-Flor fala sobre a produção intelectual na África, que veio, inclusive antes da Grécia, que é considerada como berço da civilização. O setor traz o questionamento de porque não existirem grandes esculturas pretas, assim como as dos gregos. O colonizador taxa o negro de não inteligente por não ser cristão, e este passa e não entender que também pode produzir intelectualmente.

No terceiro setor, a Beija-Flor conversa sobre a ancestralidade através das produções do povo preto, sem negar as origens e a religiosidade nas matrizes africanas. Em seguida, a escola mostra que o povo preto pode escrever sua própria história, citando obras literárias pretas que foram apagadas da história, e personagens que tentaram embranquecer, como Machado de Assis. No quinto setor, a escola coloca o povo preto como protagonista nas mais diversas expressões culturais, como o teatro, mostrando a importância de ocupar lugares de visibilidade. O último setor traz ainda o questionamento sobre a questão racial no Brasil e a importância da luta contra o preconceito. A escola fala sobre as mudanças necessárias em um país racista como o Brasil. O enredo foi contado de forma linear e soube passar a mensagem na Avenida.
Evolução

A Beija-Flor acumulou alguns problemas de evolução durante a passagem pela Sapucaí. Logo no início, a segunda alegoria demorou a entrar no Sambódromo, o que fez com que a escola retardasse o passo na Avenida. O motivo foi a tentativa de colocar algumas pessoas nos lugares de destaque do carro. Assim permaneceu por alguns minutos até o carro avançar e a escola voltar a andar novamente. Por conta do atraso no início, a escola teve que correr no fim, e várias alas e as três últimas alegorias passaram de forma muito rápida nas cabines de jurado do setor 11.
Samba

O samba da Beija-Flor teve grande rendimento no desfile e a escola cantou bastante a obra. Neguinho da Beija-Flor e o carro de som fizeram bom trabalho, e não deixaram os problemas de evolução abalar a performance. O refrão e o refrão do meio foram as partes mais cantadas. Do verso ‘Foi-se o Açoite e a chibata sucumbiu’ até ‘E o meu povo ainda chora pelas balas do fuzil’. Na sequência, o samba dava uma queda e era menos cantado na parte ‘Quem é sempre revisado é refém da acusação’ até ‘Retirando o pensamento da entrada de serviço’, o que não atrapalhou o desempenho da obra.
Fantasias
Com bastante preto, azul e dourado, as primeiras alas da Beija-Flor passaram com bastante luxo e chamaram bastante atenção. O figurino casou com a primeira alegoria e com o figurino do casal de Mestre Sala e Porta Bandeira. ‘Ancestralidade e Movimento’ e a ‘Monumentalidade Intelectual de Kemet’ foram alas aclamadas pelo público pela beleza. A ala 7, ‘O Tabuleiro Global’, também brilhou em cores branca e dourada, além de uma imagem do geógrafo negro Milton Santos, que escrevia sobre a crueldade da globalização nas camadas mais pobres do mundo, incluindo negros do Brasil.

Com riqueza de detalhes representando as mais diversas culturas negras, a ala das Baianas ‘Saluba Rosanas’ chamou atenção pela beleza do figurino e imagem de alguns baluartes negros da escola. A ala 27, ‘Asas Para o Sonho’, trouxe vários elementos na fantasia, e estandartes com imagem de alguns personagens negros de importância no Brasil. Ao fim da apresentação, a ala 27, ‘Nkosi’ê: A Espada é a Lei por Onde a Fé Luziu’, também passou arrancando elogios do público pela beleza, com figurino azul, com detalhes em verde e prateado. A ala representou a espada Nkosi’ê, que significa ‘aquela que luta por nós’, reforçando a luta contra o preconceito racial. Na ala 29, ‘A Contagem não Para’, parte do figurino dos componentes tinha luzes azul em neon.
Alegorias
Logo na primeira alegoria, a Beija-Flor mostrou que viria com carros grandes e de muito luxo. O Abre-Alas ‘Traz de Volta o que a História Escondeu’ trouxe um olhar da Beija-Flor para o passado para projetar o futuro negro, vislumbrar a ancestralidade como ponto primordial para desenvolvimento do planeta. A ideia com as cores azul, preto, dourado, além da iluminação dão tom de um Afrofuturismo. O mascote da escola mostrou imponência, assim como uma grande árvore no Abre-Alas.

O carro tinha ao todo três chassis, mas no segundo módulo, um dos animais projetados no início estava com uma parte quebrada. A segunda alegoria, ‘O Voo Livre do Pensamento Afrosófico’ trata sobre os grandes pensadores negros, que tiveram histórias apagadas, histórias negras que passaram por embranquecimento. O carro tinha imagens africanas esculpidas na cor branca, em alusão ao mármore grego. Um pote dourado, com uma coruja em cima representou a sabedoria ancestral. A alegoria também estava muito bem acabada e luxuosa, mas fez o desfile todo sem três destaques, deixando espaços vazios no carro.

A terceira alegoria ‘A Arte da Forja de Ser’ trouxe a reflexão sobre saber as origens de ancestralidade e respeitá-las. A escola trabalha em primeira pessoa no carro, onde leva os moldes de Silvestre David da Silva, o Cabana, com imagens de Ogum e Oxum, que é a figura central da alegoria em dourado. O carro, predominantemente roxo possui esculturas feitas pelo artista preto Jorge dos Anjos. O quarto carro alegórico levou para a Avenida uma favela moldada por alguns livros com a crítica do cerceamento da educação e da manifestação cultural do povo preto. A acusação sempre feita aos negros e a limitação do crescimento imposta aos mesmos. Na traseira, um sol simboliza a conquista do povo preto de um lugar ao sol. A alegoria foi bem carnavalizada e não deixou a desejar em relação as outras.

Na quinta alegoria, a Beija-Flor traz um grande palco onde o negro é coroado e conquista o protagonismo merecido. Composto todo por pretos a composição do carro exibe a cultura, a dança negra em evidência no lugar mais nobre do espetáculo. Uma grande escultura de bailarina preta foi vista na traseira, passando a coroa para o último setor da escola, que representa a luta cotidiana do povo preto. O desfile é encerrado com uma grande alegoria que faz menção à escola, como um grande Quilombo do samba. Uma enorme escultura remete à baluarte Pinah, e o carro, com predominância de cores em azul e dourado, exalta a cultura do povo preto da Beija-Flor, apontando para um futuro de protagonismo dos negros. Laíla também foi homenageado com escultura na alegoria final.
Outros Destaques
Rainha de bateira, Rayssa Oliveira veio com roupa toda em dourado com a fantasia ‘Poétnica’. Os ex-BBB’s Natália Deodato e Babu, o ator Hélio de La Peña também desfilaram na escola. A fantasia da bateria ‘Gramática do Tambor: Nei Lopes’ tinha detalhes em prateado. Grande baluarte da escola e homenageada na Avenida, Pinah veio à frente do último carro.
Análise da bateria da Viradouro no desfile de 2022
A bateria Furacão Vermelho e Branco de Mestre Ciça fez um grande desfile. Uma boa afinação de surdos foi notada, amparando os demais instrumentos numa plataforma grave sólida. O balanço das terceiras se deu de forma irrepreensível. Um naipe de caixas de guerra com batida uniforme, limpa e acrescentando volume à cozinha da bateria da Viradouro. O acompanhamento das peças leves foi consistente. O naipe de tamborins tocou com solidez e firmeza, acrescentando valor sonoro, assim como a ala de chocalhos adicionou volume à cabeça da bateria.

O trabalho da ala das cuícas também merece menção musical. As paradinhas da escola uniam ousadia rítmica e tentativa de interação popular quase constante. A concepção dos arranjos musicais foi voltada para o aspecto do espetáculo. A paradinha de maior destaque musical, garantindo ovação do público foi a que continha solo de caixas, repiques, com adição sonora de pratos para os momentos de pressão e explosão. Essa bossa ainda conteve um toque de caixas remetendo a marchinhas, numa alusão aos antigos carnavais, além da produção de um clima circense.
Infelizmente, a harmonia não parou a escola para apresentação no primeiro módulo de cabine dupla de julgadores. Sendo assim, a passagem da Furacão Vermelho e Branco na referida cabine, bem como sua avaliação, pode ter sido prejudicada por um erro que não compete a bateria. As demais passagens ocorreram sem qualquer outro transtorno, seja no aspecto musical ou relacionado à evolução. A apresentação da bateria da Viradouro de mestre Ciça na última cabine dupla de jurados ganhou contornos apoteóticos, com aplausos dos jurados e delírio da plateia.
Viradouro mantém desfile padrão de 2020 e carimba passaporte para disputa de título
A Unidos do Viradouro trouxe todo o lirismo do carnaval de 1919 para mais uma vez fazer um desfile com alto padrão de qualidade tanto na parte visual como nos quesitos de chão. A comissão de frente, outro destaque, aliou boa coreografia com efeitos surpreendentes e emocionou ao entregar a chave da cidade voando pela Sapucaí direto até o Rei Momo no alto do elemento cenográfico que representava o mundo renovado pós pandemia. As alegorias eram enormes e as fantasias bastante volumosas. A escola não errou em evolução e apresentou uma boa harmonia. Com o enredo “Não há tristeza que pode suportar tanta alegria”, a Viradouro foi a quinta escola do primeiro dia de desfiles do Grupo Especial encerrando sua apresentação com 67 minutos. * VEJA FOTOS DO DESFILE
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Comissão de frente
Coreografada e dirigida por Alex Neoral e Marcio Jahú, a comissão “E o mundo não se acabou” apresentou como como personagem central o pierrô, figura ilustrativa do espírito folião carioca. Na apresentação, ele enfrentava um mundo trevoso, dominado pela passagem da Gripe Espanhola. Os componentes que representam esse mal em suas expressões corporais, tinham movimentos estilizados da cultura hispânica, misturados com outros mais articulados, desconstruídos e bem-humorados. Como efeito, as caveiras desciam o maxilar em expressão de pavor gerando muitas reações no público.

Em seguida, o pierrô invocou “A Chegada do Carnaval de 1919”, representada pelo elemento cênico que traz a mudança da atmosfera pandêmica para a luz emanada dessa folia histórica. E a dança torna-se aérea e acrobática, expressando leveza e plenitude. Durante a apresentação, o pierrô protege um baú que contém o seu bem mais precioso: o Carnaval. Dentro dessa caixa, a chave da cidade, grande simbolismo na folia, como a esperança e retomada da alegria.

Por fim, o Carnaval consegue se vingar das restrições que o passado lhe impôs quando essa chave voa do pierrô na pista em direção ao Rei Momo que surgia na alegoria transformada, mais alta e imponente cheia de luz. Na pista outros pierrôs também apareciam para brindar o público com o retorno da maior festa popular. Realmente uma comissão que aliou coreografia, efeitos e principalmente, passou a mensagem positiva do enredo.
Mestre-Sala e Porta-Bandeira
O primeiro casal, Julinho Nascimento e Rute Alves, vestiu a fantasia “Lumière, meu Rio!”, Representando luz sobre o momento trevoso que a sociedade carioca atravessava. “À luz do celeste” (Sol e Lua) intitulou o tema do primeiro baile pré-carnavalesco do Club dos Democráticos daquele ano. A mistura do prateado com o preto na fantasia estava bem incorporada ao início da agremiação. Na coreografia, a dupla mostrou muita sincronia em uma coreografia bastante intensa.

Em alguns momentos da dança, os dois abaixavam em reverência e levantavam rapidamente girando de braços dados com velocidade, mas elegância. Alguns pontos do samba eram bem marcados nos passos como “se afastou o mal”, em que faziam alusão a se jogar algo para o lado. Também no trecho “Fui ao terreiro, clamei: Obaluaiê”, com um passo afro. O ponto negativo aconteceu em frente à primeira cabine quando o sapato de Julinho saiu durante a apresentação.
Harmonia
A comunidade da Viradouro que já vinha cantando bastante no ensaio do pré-carnaval manteve o bom nível, não se percebendo alas com a maioria dos componentes sem cantar o samba. A interação com o público aconteceu e o trecho anterior ao refrão principal “carnaval te amo, na vida és tudo pra mim” ficou como o verso da escola cantado com maior intensidade na Sapucaí. O refrão principal “assinado um pierrot: apaixonado…” também se destacou no canto. Entre as alas que mais cantaram estavam “guerreiros paladinos”, do quinto setor, “os oito batutas”, “que além do infinito o amor se renova” e “banho a beira-mar”.

Enredo
O enredo ” Não há tristeza que pode suportar tanta alegria” apresentou uma ode à alegria de viver trazendo uma narrativa marcadamente histórica, linear, entrelaçada por uma via de sentimentos universais: a alegria, a liberdade e a esperança. O Rio de Janeiro enfrentou, no fim de 1918, a passagem da pandemia da gripe espanhola, que dizimou os sonhos de inúmeras famílias, fazendo brotar a insegurança na não realização da folia. Dividido em seis setores, o início trazia a representação da elite carioca que vestiu luto elegante durante a pandemia de gripe espanhola.

Em seguida, a escola apresentou os cariocas se vingando da morte, através do deboche no Carnaval de 19, e a vitória sobre a gripe. No quarto Setor a escola agradeceu aos principais heróis que defenderam a vida durante a pandemia. Depois, a Viradouro trouxe a Pequena África, onde acontece o Carnaval mais democrático da capital com foliões mais humildes reverenciando a negritude e o orixá da cura. Por fim, o último setor da escola referenciou o 5 de Março de 1919, com o Rio de Janeiro despertando em uma Quarta-Feira de Cinzas solar, evidenciando também que era no bairro do Barreto, em Niterói, que acontecia o mais importante carnaval da cidade sorriso. Em geral, a Viradouro trouxe fantasias de fácil leitura, aliou irreverência e emoção para contar a história e demarcou as mudanças nos setores com o estilo das fantasias e paleta de cores.
Evolução
Apesar de trazer um desfile grandioso com seis alegorias e dois tripés, além de um elemento cenográfico gigantesco na comissão de frente, a Viradouro teve uma evolução fluida, sem correrias, sem significativas paradas. Também não se observou alas emboladas, e as fantasias mais volumosas não chegaram a gerar nenhum problema de deslocamento. A se destacar a presença de coreografia em algumas alas como “os oitos batutas” e a primeira ” “dou um baile nas trevas” com os integrantes abaixando no trecho do samba “agradecer a saúde”.

A Viradouro também trouxe alguns grupos performáticos como “Linha de frente da Cruz Vermelha” e “Cirque American-France”, que fazia referência ao picadeiro presente no título da fantasia e no final do desfile “Circo de Março de 1919” que formava com algumas peças a mensagem “carnaval te amo, na vida és tudo pra mim” e a data também citada no samba.
Samba
O samba, que gerou muita discussão no pré-carnaval, passou a sua mensagem, teve um andamento um pouco mais acelerado com o trabalho da “Furacão Vermelho e Branco” de mestre Ciça, o que evitou que a obra ficasse arrastada, ajudando na evolução da escola. As vozes de apoio estavam bem entrosadas, deixando o intérprete Zé Paulo Sierra mais à vontade para trazer os seus costumeiros cacos e gritos de incentivo aos componentes. Uma das frases que mais ganhou destaque no pré-carnaval 2022, “carnaval, te amo, na vida és tudo pra mim” eram entoado com bastante vigor pelos componentes e o público em geral.

Fantasias
As fantasias da Viradouro foram outro ponto alto do desfile. Volumosas em sua maioria, faziam com que as alas tomassem a pista por completo em largura. E não pareciam oferecer limitações de movimento para os componentes, além de serem de fácil leitura. Importante citar também, o trabalho destacado de maquiagem em praticamente todas as alas, algo que já vem sendo comum nos desfiles da agremiação. No início, a ala “dou um baile nas trevas”, completamente escura, conversava esteticamente com os guardiões do casal que estavam no mesmo tom. As fantasias traziam as máscaras dos profissionais de saúde que foram resignificadas, virando adorno carnavalesco no carnaval de 1919.

O desfile começou a ganhar mais tons mais claros na ala das baianas “La dansarina”, de vermelho, personificando elementos da cultura hispânica. Do terceiro setor, o destaque ficou para “elite dos corsos”, em tons de laranja e rosa. No quinto setor com as fantasias trazendo mais a religiosidade de matriz africana, há destaque para a ala “guerreiros paladinos” representando um herói errante e destemido. Por fim, o sexto setor foi mais um brinde ao bom gosto com a ala “os trapeiros”, em tons de dourado representando figuras que surgiram na quarta-feira de cinzas envoltos em um mar de confetes e serpentinas, expressando a felicidade daquele carnaval de 1919.
Alegorias
A escola trouxe um conjunto alegórico arrebatador com muita beleza, luxo e tamanho. Foram seis alegorias e dois tripés. O carro Abre-alas “Segui seu olhar numa luz tão linda” apresentou o primeiro baile pré-carnavalesco do Club dos Democráticos, que teve como tema o Sol e a Lua, a alegoria era bem iluminada em tons mais claros e trazia pessoas presas em argolas girando durante todo o percurso da Passarela do samba. A se comentar um ou outro detalhe de acabamento na traseira do carro que poderia ter sido mais caprichado. Outro destaque, o tripé do segundo setor, representava o suposto remédio dado aos convalescidos pela Gripe Espanhola.

O quinto carro, trabalhado em tons de palha, “Fui ao terreiro, clamei Obaluaiê” trazia o orixá que contribuiu espiritualmente na cura da peste, a escultura da entidade era muito grande e se movia. E não podendo deixar de ser citado, o sexto carro “acordes virão da Viradouro”, o maior em largura, trazia a barca da revanche “Nictheroy-Rio”, levando ao congraçamento entre cariocas e niteroienses. Nas laterais, golfinhos, símbolo do estado do rio, giravam em uma boia. O vermelho da Viradouro e o tons de dourados compunha a belíssima alegoria. A segunda alegoria “o passageiro do talvez” passou na Sapucaí com algumas lâmpadas apagadas.
Outros Destaques
Os “harmonias” da Viradouro vieram vestidos de médicos em uma homenagem aos grandes heróis da pandemia. A bateria de mestre Ciça veio de “tropa do caveira” representando dois dos principais parceiros do fundador do Bola Preta . Mestre Ciça veio de Caveirinha, homenageando o fundador Álvaro Gomes de Oliveira, e a rainha de bateria, a atriz Erika Januza, representava a “Rainha do Bola”, musa que inspirou os fundadores na primeira apresentação do cordão em 1919.

A Furacão Vermelho e Branco realizou uma bossa com destaque para o naipe de pratos fazendo alusão ao ritmo das bandas de coreto. No quinto carro que homenageava o orixá da cura, mulheres jogavam as “Flores de Obaluaê” para limpar, descarregar e curar todas as mazelas. O único carro trazia um balão acima do grande barco que finalizava o desfile.

