O primeiro samba-enredo original (ou seja, sem reedição) para o carnaval de 2025 da cidade de São Paulo já é conhecido pelos foliões. No último sábado, a Dom Bosco revelou a canção vencedora do concurso interno da agremiação em evento realizado no Circo Social Dom Bosco, em Itaquera – Zona Leste da capital paulista. Composta por Turko, Rafa do Cavaco, Fábio Souza, Lucas Donato e Mateus Pranto, a música embalará o desfile intitulado “O Circo Místico das Ilusões”, desenvolvido pelo carnavalesco Fábio Gouveia. O CARNAVALESCO esteve presente no evento, que também teve a posse de Leno Tomaz e Lays Gouveia, novo segundo casal de mestre-sala e porta-bandeira da instituição, e conta detalhes sobre tudo que aconteceu no local, tal qual dá voz a importantes segmentos e profissionais da agremiação. * OUÇA AQUI O SAMBA CAMPEÃO

Fotos: Will Ferreira/CARNAVALESCO

Novo componente, novo regulamento

A parceria vencedora na agremiação passa longe de ser uma novidade na escola itaquerense. Turko, por exemplo, embalará um samba de sua autoria pela quinta vez (todas consecutivas) na instituição. E ele próprio refletiu sobre as mudanças pelas quais a Dom Bosco passou desde a primeira vez em que ele escrevem uma canção para a agremiação, em 2020: “A escola está preparada para subir, está preparada para participar da grande elite do carnaval de São Paulo. Para fazer esse samba, tivemos um cuidado muito grande porque mudaram muito as regras do jogo. Não dá mais para fazer samba por fazer, a esmo. Temos que ler o regulamento, acompanhar regra por regra. E nós conhecemos o andamento da escola, estamos acostumados a compor aqui. Nesse ano, chegou o Lucas para somar com a gente, diretamente do Morro da Serrinha, do Império Serrano. Estamos bem felizes com o resultado, conquistamos mais uma vitória. Vamos para cima!”, comentou.

Ouça o samba-enredo da Dom Bosco para o Carnaval 2025

Citado por Turko, Lucas Donato juntou-se a compositores que, como dito anteriormente, estão há anos escrevendo canções para a agremiação – além de Turko, Maradona e Rafa do Cavaco estão no grupo citado: “A primeira pessoa que me abriu a oportunidade para fazer um samba em São Paulo foi o Rafa do Cavaco, um dos nossos parceiros, há dez anos atrás, quando ganhamos um samba na Tom Maior. Ter o aval do Turko, do Fábio, de todos estarmos juntos… bem eles, que ganharam milhares de concursos de samba… em 1989 o Turko já estava fazendo samba-enredo! Para mim, é uma honra muito grande participar desse momento único da escola, que está preparada e pronta para subir”, afirmou.

No clima do enredo

Todos que chegavam ao local do evento, desde o primeiro instante, já sentiam que todo o ambiente estava inteiro decorado para a ocasião. O fato da final do samba-enredo acontecer no Circo Social da Obra Dom Bosco era um prenúncio potencializado pela presença de personagens circenses bastante característicos – como o homem em pernas de pau, acrobatas em panos e profissionais fazendo pirofagia. O local onde o palco foi montado também estava armado tal qual um picadeiro – e até mesmo a lona tinha o formato de um picadeiro.

Carnavalesco da agremiação, Fábio Gouveia detalhou o que buscou ao idealizar o enredo: “Quando eu vim para a escola, todo mundo me deu total liberdade para escolher o enredo. E, quando eu vou para alguma agremiação, procuro estudar aquela escola, entender o que a escola gosta e o que funciona. Independente da escola fazer esse ou aquele carnaval, gosto de estudar e entender a raiz da agremiação. De cara, me falaram que eu não seria podado de nada, que eu poderia colocar o que eu quisesse na escola – bastaria todo mundo entender que era bacana. Se fosse assim, eles comprariam a ideia e fariam. Foi assim na Dom Bosco. E, aí, eu fui estudar a escola de samba – e, aí, eu tive a feliz coincidência de descobrir que Dom Bosco era um missionário ilusionista. Quando encontrei essa informação, senti que estava no caminho. Voltei as minhas origens de enredos lúdicos, algo que fiz muito na Independente e na Imperador do Ipiranga. Eu fui buscar algo que casasse com isso: a escola fala muito de alegria e de sorrisos. Todos que cumprimentamos aqui estão sempre com um sorriso no rosto, estão dispostas a te ajudar e a fazer muito por você. Pensei, então, em falar de riso, dessa alegria que tem dentro do Dom Bosco. Fui encontrando o místico a partir do circo, e aí eu encontrei o Circo Místico das Ilusões – que é falar do que está por trás da lona, do picadeiro. Eu vou sempre falar do palhaço, mas do que está por trás de tudo isso. Estamos falando de uma caravana, a Dom Bosco está em movimento. Começaremos no século XIX, atravessar todas as transformações que o circo e os personagens do circo tiveram ao longo do tempo”, disse o profissional que debuta na agremiação da Zona Leste, aproveitando para relacionar a temática com toda a história do sacerdote que dá nome à agremiação.

Sinopse elogiada

O trabalho do carnavalesco foi unanimemente elogiado pelos compositores: “Eu achei muito fácil! Eu gosto desses enredos lúdicos, alegres e felizes. Para a gente, fluiu muito – tanto que, quando decidimos fazer o samba da Dom Bosco, todo mundo foi jogando ideia. A fluidez foi muito grande”, comentou Lucas Donato.

Turko teve o mesmo tom que o companheiro: “O enredo que o Fábio fez foi muito clara e tranquila de se fazer. Não ficou nada denso e nem pesado, estava muito leve e fácil de entender. A leitura do samba ficou bastante simples: se você ver o samba que vai para a avenida, você já imagina a escola. Quando o carnavalesco faz uma sinopse clara e tranquila, a gente desenvolve legal – e foi o que aconteceu nessa obra”, destacou.

Até mesmo um compositor derrotado na grande final para a escolha do samba-enredo concordou. Padre Léo, que também estava presente no evento, aproveitou para contar um pouco do processo criativo para montar a canção composta por ele: “Eu confesso que esse samba, que eu fiz, eu comecei a escrever antes mesmo da sinopse sair. Quando a escola divulgou o tema, já comecei a maquinar alguma coisa. Eu gosto de carnaval, nunca estive envolvido, já assisti os desfiles, mas nunca estive envolvido em nada. Resolvi fazer, gostei muito da sinopse, fui no circo para me inspirar… a sinopse do Fábio é muito boa, foi uma emoção especial”, revelou.

Ao ser perguntado, Fábio destacou que a impressão dos compositores era, justamente, o que ele queria passar com o documento que sintetiza o enredo: “Busquei muito uma sinopse simples e objetiva: tive total liberdade de apresentar o meu texto, a minha pesquisa para a escola. Eles entenderam a proposta: quis casar a história do circo e como o misticismo faz parte dele. Essa pesquisa partiu da ideia do próprio Dom Bosco: criar a imagem a partir da lanterna mágica para iludir os opositores e conquistar os devotos, os que estavam acompanhando a luta. Fala-se muito que Dom Bosco era um saltimbanco, e ele vinha dessa ideia do circo. Foi muito simples entender a ideia de Dom Bosco, do enredo e casar essa proposta”, afirmou.

Finalistas de bom nível

Muitos profissionais da agremiação destacaram o bom nível dos quatro sambas que estavam na disputa pela premiação. Mariana Vieira, porta-bandeira da instituição, foi uma delas: “Todos os sambas que vieram para a final estavam maravilhoso, mas é claro que havia uma preferência de muitos quesitos e da comunidade para o samba vencedor. Era o preferido”, destacou, deixando claro que a canção que ficou na primeira posição no concurso tinha a preferência de boa parte dos torcedores. Leonardo Henrique, mestre-sala, concordou com a companheira de quesito: “O samba vencedor era o queridinho da comunidade, realmente. Vai para as graças da comunidade e vai fazer sucesso, tenho certeza”, comemorou.

Anderson Luiz, popularmente conhecido como mestre Bola, comandante da Gloriosa, bateria da escola, pontuou o quanto o fato da parceria vencedora já ser conhecida pela comunidade e conhecer a agremiação fez com que tal música caísse nas graças de todos que acompanhar a instituição: “O samba vencedor é muito bom, e, dentre os quatro finalistas, acho que era mais a cara da Dom Bosco. Até por ser os mesmos compositores que fizeram nos outros anos, que era encomendado, eles já tinham sacado qual era a ideia da escola. E, quando o vencedor foi anunciado, você viu: todo mundo abraçou a canção”, destacou.

Diretor de Harmonia da instituição, Ricardo Fervorini foi pela mesma linha: “Para ser bem sincero, a gente não sabia do resultado. Mas, dentro dos grupos das alas e da própria Harmonia, fizemos algumas enquetes para sentir a comunidade – e foi meio que unânime o Samba 06. Na hora que anunciou, foi surpresa para nós: nosso diretor de carnaval não abriu, o Rodrigo Xará recebeu o samba cinco minutos antes – tanto que ele ficou fazendo brincadeiras antes de relevar. Era o samba que a comunidade queria, e agora é trabalhar o samba para fazer mais um lindo desfile no meu terceiro ano de Dom Bosco, para colocar a agremiação num degrau ainda maior”, disse.

Outro integrante da diretoria que falou em tal tom foi Carlos Shakila, diretor de carnaval da instituição: “O que é o samba querido para mim é o que é querido para a comunidade. Se a escola abraçou, eu abraço, também. A competição com dezenove sambas foi uma surpresa para a nossa escola. Estávamos acostumados a encomendar sambas, e trouxemos esse novo formato. Foi muito legal escutar todos os sambas, ter vários compositores que almejavam chegar até a final. E, mais uma vez, o Turko, o Rafa e essa galera maravilhosa levou o troféu. Estamos muito convictos que esse samba vai nos ajudar muito em 2025. São vinte e cinco anos de Dom Bosco, não pode passar batido. Temos que fazer o máximo e o melhor, e temos que escutar sempre a nossa comunidade. A comunidade, hoje, cantou e gostou. Isso é maravilhoso! Saio daqui cansado, mas em êxtase”, sorriu.

Elogiando todos os finalistas do concurso, Rodrigo Xará, intérprete itaquerense, também falou sobre o quanto a vontade da comunidade foi importante para a tomada de decisão da instituição: “Nós recebemos dezenove sambas, são muitas canções para uma eliminatória que há muito tempo não existia na Dom Bosco. Eu sempre falo que compor é muito difícil: não é nada fácil pegar uma história que está pronta, entender o que o carnavalesco quer colocar na avenida e compor em palavras e melodias. Tínhamos, na minha visão, seis ou sete sambas que tinham totais condições de estar na avenida. Foram os quatro finalistas que todo mundo gostou, foi meio que unânime esse direcionamento. A comunidade abraçou demais o samba vencedor, é legal quando a comunidade responde. Eu costumo falar que música é sentimento: por mais que tenha a parte técnica dos desfiles, se não tiver sentimento, não vai. Esse samba é sensacional, e ver a galera cantando e sorrindo é demais. Tenho certeza que fecharemos os desfiles de uma forma muito bacana e alegre – que é o que o enredo propõe”, realçou.

Relembrando que o formato para escolha da canção é uma novidade na instituição, Fábio também elogiou as obras apresentadas: “Eu fiquei muito feliz com o concurso. É um movimento novo para a Dom Bosco a escolha de samba-enredo, e a escola comprou a ideia. Fomos fazer o trabalho com os compositores, entendemos que não poderia ser algo na quadra, tinha que ser algo mais simples, para facilitar a vida do compositor. Nossa ideia era ter grandes obras, e nós tivemos a felicidade de receber grandes obras. Foram dezenove obras, estudamos cada um deles, fomos eliminado semana a semana… para chegar ao resultado final. Nós fizemos um programa em que as pessoas votavam e escolhiam o samba-enredo. Eu vim para o evento sabendo que tinham quatro obras que poderiam defender fielmente o meu enredo. Qualquer uma delas que vencesse seria sinônimo de felicidade. A Dom Bosco escolheu o melhor para ela, para o que ela quer fazer”, disse.

Pensando no futuro

Quando perguntados sobre o quanto a música escolhida vai influir na apresentação de cada um dos quesitos, muitos profissionais já destacaram que os pensamentos já estão a mil. Mariana começou: “Acredito que vai ser um desfile bem irreverente, cheio de alegria e de dança. Vamos brincar bastante na avenida, vai ser um desfile bem leve e divertido”, disse. Leonardo falou algo semelhante: “Tem sido bem desafiador, já que estamos nos renovando a cada ano. A Dom Bosco vem se renovando a cada ano e nós temos que estar nessa constância, de fazer diferente, para nunca chegar do mesmo jeito. Daniela que nos aguarde”, riu, citando Daniela Renzo, instrutora de casais de mestre-sala e porta-bandeira.

Contando detalhes sobre como funciona a comunidade em aplicativos de celular, Fervorini também já vislumbrou o trabalho de Harmonia que será desenvolvido: “A comunidade da Dom Bosco é fantástica: é o samba na ponta da língua de todo mundo em todos os últimos anos – não só na minha época, anteriormente também era assim. A comunidade se entrega, marcamos ensaio, a gente joga em grupos de WhatsApp e vão cantando trechos do samba… esperem surpresas. Em mais um ano, faremos mais algumas surpresas na avenida – até porque o Fábio já pediu para todo mundo se preparar, puxando a minha orelha. A nossa comunidade vai responder, assim como respondeu hoje”, garantiu.

Pensando no julgamento que define as colocações de cada escola de samba no carnaval, Shakila aproveitou para elogiar a canção: “Na minha opinião, enxergo o samba campeão como o mais completo para a leitura dos jurados. Na questão técnica, que sempre temos que nos preocupar muito, temos que ser estrategistas em alguns momentos. Não podemos deixar passar nada. Quando eu optei por essa canção, eu encontro a sinopse inteira nele. O jurado, ou quem estiver na arquibancada ou na televisão, vai conseguir entender e ver a leitura da plástica junto com o samba-enredo na avenida. Essa junção vai ser muito maravilhosa”, comemorou.

Ala musical afinada

A obra vencedora, é claro, deverá passar por alguns ajustes finos para estar ainda mais redonda. Xará destaca quais serão os próximos passos: “Todo samba nós temos o cuidado de trabalhar, não é apenas pegar o samba e cantar. Temos o cuidado, juntamente com o Mestre Bola, como responsáveis pela parte musical, de sentar e conversar a respeito de tons e acordes, por exemplo. Nossa ala musical vai para o estúdio uma ou duas vezes por mês até o carnaval para trabalhar em cima do samba para apresentar algo bom na avenida. Somos a voz condutora do desfile: se tivermos algum tipo de problema, refletimos isso direto para a comunidade. Sambas bons ficam fácil de se trabalhar – e é o caso dessa canção. Esse samba, por exemplo, encantou tanto a comunidade que, em duas passadas, já vi algumas coreografias… música é sentimento, não tem jeito”, rememorou.

Mais sucinto e citado pelo intérprete, mestre Bola também pontuou que a imaginação já está fluindo: “Agora, que ele foi oficializado, nós já sabemos como ele pode funcionar, onde podemos fazer um arranjo aqui ou ali. Vai dar certo!”, comentou o comandante da Gloriosa.

Próximos passos

Já adiantando um mês que será importante para o ciclo carnavalesco da agremiação itaquerense, Shakila aproveitou para pontuar que a instituição pretende já chegar em 2025 praticamente pronta para desfilar. “Guarde uma data para vocês em julho! Teremos uma surpresa. Nossos pilotos já estão feitos, nossa escola está completa. Agora, vamos fazer, em julho, a reprodução das fantasias. Temos um cronograma muito apertado, já que também queremos curtir em janeiro e fevereiro, queremos ir para os ensaios técnicos aliviados, com oitenta ou noventa por cento da escola já feita. Estamos trabalhando muito em cima daquilo que nos propusemos desde o início do trabalho. A vinda do Fábio Gouveia e do André Almeida [coreógrafo de comissão de frente], a manutenção de toda a nossa equipe, mostra que estamos na busca pelo acesso ao tão sonhado Grupo Especial, como o padre Rosalvino merece e pede tanto. Temos que continuar lutando”, finalizou.