A Estação Primeira de Mangueira fez o seu primeiro ensaio de rua na noite de domingo com grande quantidade de componentes que demonstraram que o samba já está entrando na veia da comunidade. Claro que ainda há ajustes a serem feitos, maior uniformidade e intensidade no canto, por exemplo, mas, para um primeiro treino, a Verde e Rosa mostrou que se depender da animação da comunidade e segmentos, o samba vai funcionar muito bem na Avenida. O ensaio foi realizado na Rua Estação Primeira de Mangueira, colada à estação da Supervia do Maracanã, e teve duração de pouco mais de uma hora. Em 2023, a Mangueira vai levar para a Sapucaí o enredo “As Áfricas que a Bahia canta”, que está sendo desenvolvido pela dupla de carnavalescos Annik Salmon e Guilherme Estevão. A agremiação vai encerrar a primeira noite de desfiles do Grupo Especial.

Para um primeiro teste, a Mangueira honrou sua tradição de contagiar a comunidade e o ensaio estava bem cheio. Todos os segmentos presentes: primeiro casal, bateria com a dupla de mestres, intérpretes, carnavalescos e a comissão de frente comandada por Cláudia Motta, que inclusive já estava desenvolvendo a coreografia. A presidente Guanayra Firmino, em seu primeiro treino como mandatária da Verde e Rosa, comentou em entrevistas ao site CARNAVALESCO a importância de levar o samba e os componentes para evoluir na rua. * OUÇA AQUI O SAMBA DA MANGUEIRA NA VERSÃO OFICIAL PARA O CARNAVAL 2023

“Ensaio de rua é o pontapé para o início da preparação do nosso desfile. A gente já está ensaiando o canto da comunidade há algum tempo e agora vamos dar o nosso ponta pé inicial. Eu não tenho uma emoção diferente em relação ao que eu vinha sentindo nos últimos anos. Pra mim é uma continuidade do trabalho que eu venho fazendo há nove anos”, explicou a presidente Guanayra.

Após o ensaio, o diretor de carnaval Amauri Wanzeler avaliou que a comunidade cantou bastante o samba e que o treino superou a expectativa. “A escola está indo muito bem, a escola está ensaiando bastante, estamos fazendo ensaios de canto às quartas e quintas-feiras. Hoje foi nosso primeiro ensaio de rua, é óbvio que a gente não pode dizer que estamos 100%, mas eu te garanto que hoje nós estamos com 70% da escola pronta. O canto da escola foi muito bom, teve uma pequena oscilação, mas é normal para o primeiro ensaio de rua. Nada que nos assuste. Para o primeiro ensaio, eu diria que foi nota oito”, avalia o diretor.

Amauri Wanzeler também ressaltou a importância do ensaio de rua e dos próximos treinos para que a diretoria possa realizar os ajustes necessários em conjunto com os segmentos.

Amaury e a presidente Guanayra Firmino

“É nesses ensaios de rua que a gente faz esses ajustes, na bateria, a gente ensaia as bossas, a gente define o andamento da escola, a gente define o tom. O ensaio de rua é fundamental para isso, ele serve exatamente para a gente tentar fazer o máximo possível do que nós vamos fazer na Marquês de Sapucaí. E para mim hoje, o ponto alto foi o canto da escola e a garra da comunidade, e essa bateria, que, com todo respeito, é fod…”.

Harmonia e samba-enredo

A obra produzida pelos compositores Gabriel Machado, Guilherme Sá, Junior Fionda, Lequinho e Paulinho Bandolim foi avassaladora na final da escola realizada no início de outubro e já vinha crescendo e ganhando corpo, mostrando que era a escolha mais acertada em cada eliminatória. Por isso, fica mais fácil entender que em um primeiro ensaio já esteja na boca dos componentes, sendo cantada com tanta vontade e intensidade pelas diversas alas e segmentos que ensaiaram no domingo. É claro que ainda há alguma oscilação, normal de um primeiro teste, mas impressiona como a comunidade parece estar feliz com o hino, inclusive, o carro de som comandado por Marquinho Art’Samba e Dowglas Diniz, e a bateria dos mestres Rodrigo Explosão e Taranta Neto. Desde já pôde ser ver um bom entrosamento entre os dois segmentos.

Mestre-sala e porta-bandeira

Aclamados desde que Cintya Santos se juntou a Matheus Olivério na Verde e Rosa e celebrados durante as apresentações na quadra, o casal finalmente fez o seu primeiro treino ao ar livre. E a dupla mostrou o entrosamento que vem crescendo desde o início da parceria. Matheus Olivério revelou que para esse primeiro ensaio a dupla ainda não colocou a coreografia que vai para o desfile oficial, que está sendo trabalhada em treinos específicos e particulares do casal.

“Ainda não estamos colocando a coreografia, a gente está bem entrosado, bem determinado no que quer, nos objetivos, no foco, estamos sendo bem orientados pela Cláudia Motta, mas aqui hoje é do sentir a nossa comunidade, só sentir o espírito de jogo, vamos dizer assim, e de estar perto da nossa comunidade, de desfraldar este pavilhão da melhor forma possível e honrar ele no solo verde e rosa, que esse é o mais importante”, entende Matheus.

Equipe da comissão de frente da Mangueira

A dupla mostrou muita intensidade nos movimentos, principalmente, no início do ensaio, característica que traduz o apelido de “casal furacão”. Ainda não foi a coreografia oficial, mas a boa articulação entre os movimentos já impressionou em alguns momentos. Matheus Olivério se disse feliz com o retorno dos ensaios de rua.

“É nostálgico, eu estava passando, chegando aqui e estava todo bobo, assim de tipo ‘caramba, é verdade mesmo, o carnaval voltou’ e está aqui e vai começar e vambora, emocionante”, celebrou o artista.

Sobre a fantasia para o próximo desfile, o primeiro mestre-sala da Verde e Rosa resolveu manter o mistério. “Deixa para o dia, agora é só surpresa (risos)”.

Bateria

Comandada pelos mestres Rodrigo Explosão e Taranta Neto, dupla que substituiu mestre Wesley no comando em 2023, a bateria foi um dos destaques da noite, sendo elogiada por alguns dos segmentos e comunidade após o ensaio. Com 270 ritmistas sendo preparados para o próximo carnaval, a “Tem Que Respeitar Meu Tamborim” aproveitou o treino para confirmar a intenção de levar o andamento de 142 BPM para a Marquês de Sapucaí e trouxe uma bossa para trabalhar neste primeiro ensaio.

“Para o nosso primeiro ensaio de rua foi muito bom. Estamos ensaiando desde junho, já ensaiamos ritmo, já nos preocupamos com essa questão de andamento durante o samba, aí fomos para uma outra questão, porque esse andamento todo mundo gostou, achou o ideal, nós estamos tocando 142 BPM, todo mundo está gostando que está fazendo a escola evoluir bastante, o canto está sobressaindo, a bateria está encaixada dentro desse andamento e agora o que falta mais é ajuste de se acostumar carro de som com a bateria, primeiro ensaio juntos, antes era só na quadra, era diferente, agora aqui na rua ensaia andando, mas a bateria até surpreendeu a todos, e até a gente, de conseguir fazer a manutenção do andamento até o final. A gente já sabe que essa alegria que era de escolher o samba que todos queriam, isso ajudou muito nesse primeiro ensaio”, avaliou Rodrigo Explosão.

“O primeiro de tudo foi ajustar o andamento que a gente estava na cabeça de vir com 142 BPM, a gente acha melhor para o samba e a gente conseguiu manter tudo. A única bossa que fizemos hoje se saiu bem. Todo mundo acertou, o ensaio foi bom, para o primeiro eu posso dizer excelente. Agora que essa bossa já está na mente do ritmista, a gente vai passar para outra e assim sucessivamente. A gente faz esse trabalho de passar uma, quando todo mundo entendeu tudo, a gente pula para outra, para a próxima etapa”, acrescentou mestre Taranta Neto.

Mestre Rodrigo Explosão, que já sentiu o gostinho de ganhar um campeonato pela Mangueira em 2016, explicou que a ideia foi diminuir um pouco a bateria e trazer alguns instrumentos que possam remeter ao enredo.

“A gente pretende levar 270 ritmistas na Avenida, já estamos até começando a entregar as medidas, 270 até para a bateria não ficar tão exagerada, 300 é muita coisa. Só vamos com 270 porque a gente vai agregar com o jogo de alguns instrumentos como xequerê, agogô, que a gente vai colocar na bateria porque o enredo pede. Coreografia a gente vai deixar mais pra frente, mas as bossas só ensaiamos uma hoje, mas temos mais duas ainda. Nós vamos colocando aos poucos no ensaio de rua, primeiro vamos lapidando na quadra, depois vamos trazendo para o ensaio de rua. E muda bastante porque o ensaio de rua é fundamental para a bateria. É o cenário real, é céu aberto, a acústica é bem melhor, você vai ouvir a bateria, questão de afinação para a gente, melhora muito. Dentro da quadra quando tem 270 ritmistas na Mangueira a acústica não é boa, ela é boa para essa quantidade, ela roda muito, então quanto mais ensaio na rua é o melhor que tem”, explica mestre Rodrigo.

Emoção dos mestres Rodrigo Explosão e Taranta Neto

Mestre Taranta Neto, que vai estrear no comando da “Tem Que Respeitar Meu Tamborim” em 2023, falou sobre o componente emocional que o ensaio de rua tem para simular também um pouco o dia do desfile.

“O ensaio de rua tem a emoção e o contato humano. Isso diz muito, é até bom filtrar porque a gente costuma dizer para o ritmista que a gente não pode ter emoção. Claro que é difícil não ter. A gente está ali para fazer um trabalho, então a gente não pode se emocionar. E o ensaio de rua faz parte disso, porque ele vê a família, ele vê todo mundo, mas ele sabe que tem que fazer o trabalho dele. Vai muito daqui para a Sapucaí. Eu acho que o ponto alto do ensaio de hoje foi o canto. O canto da escola hoje foi surreal. Foi o ponto mais forte que eu achei. A bateria também, mas se eu falar da bateria vai virar clichê (risos), mas eu acho que o canto da escola vai ajudar muito a gente no desfile”, entendeu Taranta Neto.

Equipe do carro de som da Mangueira

Evolução

A evolução também foi um ponto a se destacar no primeiro treino da Mangueira, ainda que se possa esperar que uma melhoria na fluência do deslocamento dos componentes deva acontecer a cada novo ensaio. Mas no geral não se identificou buracos ou significativos espaçamentos entre as alas. E não se percebeu componentes de diferentes alas se embolando. A evolução também se deu de forma harmônica e com espontaneidade. Um ponto alto a se levantar é que praticamente todos no ensaio estavam com camisa da escola, o que facilitou a diferenciação entre componentes e público que estava assistindo. A exceção, algumas alas coreografadas, com alguns grupos que estavam todos de branco visivelmente em conformidade com a coreografia apresentada.

Outros Destaques

O público que assistiu e ficou até o final do ensaio foi bastante significativo em quantidade. No final a “Tem Que Respeitar Meu Tamborim” fazia um show para a plateia que não arredava pé da rua, enquanto os mestres Rodrigo Explosão e Taranta Neto se abraçavam visivelmente emocionados. Até a presidente Guanayra foi participar da festa enquanto a rainha Evelyn Bastos sambava cercada de crianças da comunidade. O carnavalesco Guilherme Estevão animava e incentivava os componentes a cantar com intensidade o samba ao lado da rua de treino. Ele e a carnavalesca Annik Salmon estavam visivelmente empolgados com esse primeiro ensaio pela Mangueira.