No nosso último encontro por aqui, falamos da importância das escolas falarem de si mesmas e contarem suas histórias. Isso ajuda não só a produzir memória coletiva sobre a festa, mas também afirma a importância cultural das nossas agremiações. Dentro disso, parece também fundamental pensar o próprio carnaval dentro dos cortejos, a chamada metalinguagem. Ao longo da história, diversas formas de artes passaram a refletir sobre seu próprio papel. Enquanto uma linguagem artística bastante singular, nada mais fundamental para as escolas do que reprocessarem sobre quem ajudou a formatar os desfiles. Partindo disso, vale a olharmos com mais atenção os enredos de Imperatriz, Mangueira, Vila Isabel e Viradouro.

O retorno de Rosa Magalhães para Imperatriz já carrega por si só um capítulo importante da história do carnaval. Um reencontro da verde e branco com a sua história. Afinal, a artista foi campeã cinco vezes na agremiação, num dos mais longínquos casamentos da folia brasileira, que durou 18 carnavais. Mas, trata-se de um ano especial para a escola, que retorna ao grupo especial e acabou de perder seu líder máximo, Luizinho Pacheco Drummond.

Acostumada a tecer narrativas sobre a própria folia, a professora agora mergulhará na obra de Arlindo Rodrigues. Vale lembrar que um dos últimos grandes momentos artísticos de Rosa foi homenageando Fernando Pamplona, por isso, o enredo tem alguns desafios. Um deles é de reproduzir a sutileza que a carnavalesca imprimiu no desfile da São Clemente de 2015, mas adicionando alguma novidade, uma vez que a trajetória desses dois mestres se cruza, principalmente, no Salgueiro. Onde Arlindo foi um dos elaboradores da linguagem teatralizada atual dos desfiles das escolas, tendo participação ativa na Revolução Salgueirense.

Arlindo é uma figura discreta, pouca lembrada, mas de atuação fundamental. Pra mim, apaixonado por carnaval e fã confesso de Rosa e Arlindo, é um dos desfiles com mais expectativas do ano. Me dediquei a investigar desfiles do Arlindo no mestrado, por isso, já espero com ansiedade como a mestra vai revisitar a história da festa com seu olhar precioso. Mas não só pra mim, acredito ser esse um enredo bastante afetivo, de Rosa e Imperatriz olhando para si mesmas e buscando se reencontrar.

Por falar em afeto, não dá pra pensar na bela homenagem que Leandro Vieira prepara para a Estação Primeira. Após imprimir sua marca na escola, o artista, que teceu importantes narrativas políticas nos últimos anos, reverencia o próprio morro dos barracões de zinco. Obviamente, contar a história de três homens pretos tem forte subtexto social, mas a força dessa homenagem está justamente no fato da verde e rosa olhar pra sua própria história.
Ao homenagear três grandes artistas da cultura nacional, Leandro procura investigar não a pessoa jurídica por trás de Cartola, Delegado e Jamelão, mas a pessoa física e cotidiana, o que já fica explícito no título do enredo. A simplicidade que envolve a narrativa contada é o seu grande trunfo. Afinal, é bem verdade que cada um daria um enredo por vez.

Trata-se de três grandes forças, que juntam tem mais potência, mas a proposta os engrandece na simplicidade, no detalhe. O grande poeta das letras, a grande voz da Avenida e um dançarino formidável. São olhar para preceitos que formam o carnaval como linguagem. Homenagear quem sobe e desce as ladeiras. É bonito, singelo, uma simplicidade também necessária em tempos de enredos mais elaborados.

Seguindo a linha da simplicidade, nada melhor que falar do homem que vive como ninguém essa premissa. Martinho José Ferreira é um dos maiores intelectuais negros vivos e também personagem importante da folia carioca. Se na Imperatriz, temos um revolucionário da estética visual da festa, nas letras de Martinho estão um ponto de virada na maneira de compor sambas-enredos. A maioria dessas obras escritas para a Vila Isabel, que transforma o sambista em seu enredo na condução de Edson Pereira.

A azul e branco chega com um daqueles temas tão aguardados que fica até difícil não analisar a proposta sem o teor emocional que ela pede. Tanta emoção dá um peso a ser equilibrado na narrativa, sobretudo pela pluralidade das facetas do homenageado. Grande criador visual, Edson chegou a gerar dúvida no anúncio do tema, sobretudo, após duas narrativas com alguns equívocos nos últimos anos. Apesar disso, a proposta apresentada pela Vila Isabel parece consciente da grandeza em abordar as múltiplas facetas de Martinho: compositor, militante político de esquerda e da causa racial, embaixador de Brasil e Angola, escritor, pensador. Parece até coisa demais para um enredo só, mas que deve ser costurado da melhor maneira.

Outra narrativa a falar de carnaval diretamente é da Viradouro, mas diferente as outras aqui analisadas, não se trata de uma homenagem a alguma personalidade da agremiação. O curioso é que a proposta dos artistas Marcus Ferreira e Tarcísio Zanon se desenha mais como um enredo social ao abordar a história folia de 1919.

A relação explícita entre dois contextos históricos, o da primeira folia após a crise da crise espanhola e o atual pode desenhar um enredo interessante. Desde que se diferencie e se aprofunde nessa premissa que o sustenta, não se tornando um simples enredo metalinguístico que passeia por ranchos, blocos e cordões. Para um tema como esse, pede-se leveza, sedução e alegria ao faltar de um momento tão emocionante. A esperar que essa expectativa se confirme na forma que o enredo irá ganhar vida na Avenida.

Tudo posto, fato é que o carnaval que se desenha pós pandemia da Covid também é reencontro e expectativa. Que seja grandioso e bonito olharmos para o que nos forma e nos reencontrar com nós mesmos na Sapucaí.

Ao longo das próximas semanas, eu volto para falar de outros enredos.

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