“Alô mundo, o carnaval voltou!” Parafraseando o grande Neguinho da Beija-Flor, foi com sentimento de felicidade e emoção que os sambistas do grupo Especial voltaram a ocupar a Marquês de Sapucaí nessa sexta-feira, dia 22. Cercado de expectativas, os desfiles levaram para Avenida para enredos fortes e emocionantes. Ainda assim, foi uma noite de enredos que deixaram a desejar em alguns aspectos.

Retomando sua vitoriosa parceria com a lendária Rosa Magalhães, a Imperatriz homenageou Arlindo Rodrigues contando sua grande contribuição para a história do carnaval. Grandes desfiles de Salgueiro, Mocidade e da própria Rainha de Ramos foram recordados na pista, sob a assinatura da professora que usou o branco, as cores comuns das três agremiações para conduzir o tapete cromático. O enredo estava sendo contado não só em formas e fantasias, mas também nos materiais utilizados. Cada setor trazia um elemento que Arlindo introduziu no carnaval: a ráfia nos anos de Salgueiro, o acetato no setor da Mocidade e os espelhos deram o brilho da alegoria que celebrou o título de 1980 da Imperatriz. Rosa mostrou porque é um dos grandes nomes artísticos da folia, deu o nome com alegorias requintadas e muito bem acabadas, até mesmo grandiosas para seu estilo mais compacto habitual. Nem de longe, a verde e branco parecia ser a escola vindo da Série Ouro, mostrou sua grandeza e deve brigar pelo meio da tabela com tranquilidade.

A Mangueira também chegou lembrando sua história e grandes artistas do seu panteão. A homenagem a Cartola, Jamelão e Delegado começou a emocionar na Comissão de Frente, muito bem elaborada e realizada pelo casal Rodrigo Negri e Priscilla Motta. O enredo abordou aspectos da vida dos homenageados, sob a assinatura de Leandro Vieira, que optou por escolhas bastante pessoais na condução desses elementos do desfile. Por exemplo, no setor em referência a Jamelão, não vimos os grandes carnavais que tiveram o intérprete, mas sim a sua carreira como cantor de samba-canção e de gafieiras que ambientaram a terceira alegoria. Na concepção do artista, Leandro deixou as cores da escola para abusar do vermelho, mostrando assim uma mudança de cenário na narrativa, num claro exemplo de como cor também ajudava a contar o enredo. Por falar nisso, o visual apostou no uso derramado de verde e rosa, como Leandro nunca realizou na Mangueira. Inspirado em Júlio Mattos, grande campeão pela Estação Primeira, o uso de prata deu um ar sofisticado à famosa combinação da escola na abertura. A última alegoria, uma caixinha de música que tinha Delegado como bailarino, foi um dos destaques do cortejo.

Lá vem Salgueiro! A academia do Samba mostrou sua potência explosiva ao cantar “Resistência”, o samba guiou um cortejo com muita explosão e forte comunicação com o público. O enredo que versou sobre a presença preta na cultura carioca optou por um tratamento mais cronológico, nesse sentido, Alex de Souza concebeu alegorias bastante cenográficas, que reproduziam épocas e figurinos a rigor. A abertura se destacou visualmente, ao celebrar a clássica estética “afro-geométrica” da Revolução Salgueirense, com destaque para a escultura de Djalma Sabiá como um griô. Já no final, os últimos setores apresentaram formas menos bem resolvidas. A narrativa teve problemas de fluidez ao partir do Teatro Municipal para o Baile Charme em poucos elementos, criando uma ruptura estética na agremiação. Faltando uma amarração geral, que seria avaliada no saudoso quesito Conjunto. Ainda assim, Alex de Souza mostrou porque é um dos artistas mais talentosos e requintados da folia carioca, colocando o Salgueiro na briga pelas Sábado das Campeãs mais uma vez.

A São Clemente homenageou Paulo Gustavo no cortejo que marcou a estreia do artista Tiago Martins como carnavalesco solo. Apesar da pertinência e importância do humorista para a cultura brasileira na última década, o enredo seguiu uma linha de condução bastante simplória, que usou de elementos bastantes clichês para guiar seu desenvolvimento. O terceiro setor apresentou um tripé que fazia alusão ao bolo de casamento do artista, seguido pela ala “Dermatologista”, em referência a profissão de Thales Bretas, esses elementos são uma ótima mostra das decisões equivocadas da condução do carnaval. Visualmente, os figurinos eram leves e jocosos, mas o trabalho cromático também deixou a desejar, com uma paleta bastante colorida mas que não conversava entre si. Algumas fantasias e alegorias tiveram problemas de acabamento. Os pontos positivos ficaram por conta da bateria da agremiação e a última alegoria em preto e amarelo, que se destacou no conjunto. De maneira geral, a São Clemente deve brigar pelo rebaixamento.

Lá vem a Viradouro, aí! A atual campeã do carnaval carioca comemorou o fim da pandemia lembrando um momento histórico parecido: a folia de 1919, após a gripe espanhola. Um dos melhores enredos da noite, o tema foi desenvolvido com bastante pesquisa e aprofundamento histórico. A abertura abusou das cores escuras e tons de preto, lembrando o lendário cortejo campeão da alvirrubra de 1997, assinado por Joãosinho Trinta. Outra setor que se destacou foi o penúltimo, que lembrou os festejos populares na Praça Onze, permeado por vermelho e branco com toques de palha, dando um belíssimo efeito visual. As alegorias foram irregulares, apresentando algumas combinações mal resolvidas esteticamente. Ainda assim, o grande senão do desfile foi sua parte musical, um andamento acelerado não ajudou o samba-enredo, que acabou rendendo menos do que poderia. Se em 2020, a atuação da bateria em parceria com o intérprete Zé Paulo impulsionou a escola para o título, o mesmo não aconteceu esse ano.

A gigantesca Beija-Flor de Nilópolis encerrou o primeiro dia de apresentações propondo “empretecer” nossos pensamentos. O enredo passeou pela contribuição negra na cultura, mostrando grandes artistas, pensadores, filósofos, escritores e sambistas que produziram saberes fundamentais para o nosso país. Apesar de bastante temático, o enredo era bastante denso, com muitas referências e um trabalho de pesquisa bastante aprofundado. O visual foi concebido com competência, do imponente e ousado abre-alas até as esculturas de Pinah e Laíla no final, cada alegoria apresentou uma proposta diferente em cores e formas. Infelizmente, alguns percalços de execução e ausência de composições no segundo carro podem prejudicar a agremiação. A ala das baianas foi um dos destaques, reproduzindo a obra da artista plástica Rosana Paulino com bastante sensibilidade. Se reencontrando na Pista, a azul e branco fez um cortejo como há tempos não fazia, se destacando pela boa atuação do seu carro de som e sua ala musical. A tradicional comunidade de Nilópolis mostrou sua força e colocou a Beija-Flor na luta pelas primeiras posições.

Entre altos e baixos, a Beija-Flor junto a Viradouro e Imperatriz foram os destaques da noite, com boas apresentações também de Mangueira e Salgueiro em contraste ao mal desempenho da São Clemente.

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