Apontada no pré-carnaval como grande favorita, até pelos reforços que trouxe para o seu time, um deles o carnavalesco campeão atual do Acesso, Leandro Vieira, o Império Serrano mostrou força no primeiro dia de ensaios técnicos da Série Ouro com destaque para a bateria de mestre Vitinho e a coreografia da comissão de frente de Patrick Carvalho. O primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira, Matheus Machado e Verônica Lima, além do samba, um dos mais aclamados antes do carnaval, também se destacaram no treino realizado na Marquês de Sapucaí. A escola passou com tranquilidade em um ensaio de 52 minutos, contando a partir da arrancada do samba para 2022. O canto começou avassalador por público e desfilantes, mas teve alguns pontos de irregularidade em algumas poucas alas. * VEJA AQUI FOTOS DO ENSAIO

Antes do início do desfile, o presidente da Serrinha, Sandro Avelar, em discurso lembrou que não existe favorito antes do desfile, pregando trabalho pela escola, mas também destacou o Império Serrano como escola de Grupo Especial.

Harmonia

O início da escola foi muito bom com todo mundo cantando e uma acentuada interação com o público. Destaque para alas importantes da comunidade como a velha guarda e as baianas que cantaram bastante, além da bateria que em diversos momentos, principalmente nas bossas, também deixou uma excelente impressão em relação ao canto. Porém, é importante citar que houve alguma irregularidade no canto principalmente depois que a escola passou da metade da Sapucaí, algo bem pontual e não preocupante, algumas poucas alas, como a ala sete, em que algumas pessoas não estavam cantando parte do samba, principalmente as estrofes, ou enrolavam um pouco a letra para fingir que estavam cantando. No grosso, a escola não precisa se preocupar, pois o samba está na boca do sambista, tanto do componente como do espectador e deve causar um grande frisson no dia do desfile mais uma vez. O trabalho é mais para manter a pegada e não deixar relaxar.

“Fizemos um ensaio bom, mas que pode ser muito melhor. Não acho que estejamos 100% preparados, estamos caminhando para aprimorar ainda mais a bateria, o canto da escola, o trabalho do barracão e a conscientização da harmonia e dos seus segmentos, para que assim possamos fazer exatamente aquilo que buscamos, o acesso ao Grupo Especial. Queremos mostrar também que o Império Serrano está vivo, pulsante, com muita energia e com muita vontade de fazer um belo desfile oficial em abril, de modo em que eu considero que estamos no caminho certo. Acho que temos que ter paciência e continuar trabalhando. O ateliê entra agora na reta final e a bateria tem trabalhado exaustivamente para chegarmos aqui com excelência no desfile”, comentou o vice de carnaval, Paulo Santi.

Fotos de Nelson Malfacini/site CARNAVALESCO

Mestre-Sala e Porta-Bandeira

O primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira do Império Serrano, Matheus Machado e Verônica Lima, vieram vestidos de branco. Ele em um singelo terno, e ela cheia de brilhantes até na tiara. Começaram sua apresentação com bastante intensidade, inicialmente com movimentos rápidos e técnicos, principalmente Matheus, e depois de uma forma mais delicada, apostando no entrosamento, no contato e no olhar, em uma apresentação que durou cerca de dois minutos na frente do módulo de jurados. Antes da apresentação no módulo de cabine dupla, Verônica parecia um pouco incomodada com o aperto da roupa, mas algo logo foi resolvido por alguém da harmonia, nada que atrapalhasse a apresentação.

“Um encontro de um grande amor aqui hoje. Como se fosse a primeira vez. Lá no início, eu, Matheus e o nosso coreógrafo nos emocionamos, porque somos muito apaixonados por essa avenida, por esse carnaval. Foi maravilhoso. A gente não pode falar o que vamos vir representando no desfile, mas vou dar um spoiler, tem a ver com representatividade. Dentro de todo o enredo, nós estamos na parte religiosa, parte mística e do jeito baiano de ser”, revelou a porta-bandeira.

“Pra mim foi maravilhoso (o ensaio). É gratificante estar pisando aqui novamente depois de dois anos sem carnaval, sem ensaiar também, pois não estávamos ensaiando. A gente pisar aqui de novo é uma felicidade tremenda, porque é nosso palco e nós somos os artistas. É o palco onde o sambista se sente em casa, à vontade. Estou muito feliz e realmente é gratificante estar novamente na Sapucaí”, completou o mestre-sala.

Samba-Enredo

“Mangangá”, escolhido ainda em 2020, da parceira de Paulo César Feital, foi conduzido pelos intérpretes oficiais da Serrinha, Igor Vianna e Nêgo. A dupla levou a obra com muita garra, e desde a arrancada o samba levantou quem acompanhava nos primeiros setores. A dupla demonstrou entrosamento, Igor mais novo, tendo a emoção pela primeira vez desde que chegou no Império poder conduzir o samba na Sapucaí, segurava mais a obra para deixar Nêgo brilhar em momentos chaves, sem nenhum tipo de vaidade. A parte mais cantada pelos componentes era o refrão principal entoado algumas vezes com bastante intensidade e animação: “Bate marimba camará/Camugerê paticumbum/Sou eu Império/Da patente de Ogum”. Como lado negativo houve alguns momentos em que foi nítido perceber que alguns foliões tinham dificuldade para cantar no segundo refrão a parte do “Camará, Mangangá”. E, mais para o meio do desfile, as estrofes perderam um pouco mais de intensidade. Energia que foi retomada mais para o final do desfile.

“O rendimento foi o que a gente esperava. Estamos ensaiando, o samba tem uma boa aceitação, letra e melodia e foi o que a gente viu hoje na avenida. Pode esperar muita raça, muita raiva por conta de tudo o que a gente passou e muita alegria para trazer o Império, se Deus quiser, de volta para o Grupo Especial. Eu acho que a gente vai tacar fogo no palhaço (risos)”, brincou Igor Vianna.

“Foi muito bom o ensaio, andamento no lugar certo. Situação harmônica da escola correspondeu. Um samba bonito, letrado, com situação harmônica muito pegada. É um samba de pegada e vai levantar a galera. Junto com a bateria, temos tudo para tirar as quatro notas dez. Com esse retorno e a parceria junto com o Igor tudo para dar muito certo, o pai dele era muito meu amigo. Estou feliz em voltar e lutar para o Império voltar ao Grupo Especial que é o lugar de onde não deveríamos ter saído”, afirmou o intérprete Nêgo.

Bateria

A Sinfônica do Samba, comandada por mestre Vitinho, foi um show à parte e contribuiu bastante para o samba tomar conta da Sapucaí, fazendo crescer uma obra que por si só já tem o seu brilho. Vitinho em alguns momentos ficou em pé em cima de um suporte nas cores da escola e era visto acima dos ritmistas, facilitando o gestual com os diretores. Outro ponto alto, fora da parte musical, foi o jogo de capoeira realizado na frente dos ritmistas em um momento de bossa, dando um efeito bastante dramático, levantando quem assistia ao ensaio.

Quanto aos destaques do ritmo, a escola trouxe um naipe de berimbaus, como o enredo obviamente pedia, e ele ganhava valor em uma das bossas em que a sinfônica justamente imitava o toque de cavalaria, importante citar, o trabalho dos tamborins, que neste momento eram fundamentais para dar o efeito da batida da capoeira, isto, com os ritmistas agachados. Também houve coreografia na ala de chocalhos e em outro momento em que a bateria realizava uma bossa e os ritmistas jogavam primeiro o corpo para frente e para trás, e depois para os lados.

A rainha Darly Ferrattry, mãe de Lexa, rainha da Unidos da Tijuca, veio com uma roupa toda em dourada, com uma cauda e uma tiara, ambas também caprichadas no ouro. Ela interagiu bastante com o mestre Vitinho, chegando a dançar em uma bossa, e também no momento na surpresa em que apareciam os dois capoeiristas.

“Treino é treino, jogo é jogo, sou um cara muito crítico com meu trabalho. A gente vem de um momento difícil, de pandemia, todos nós do samba passamos dificuldades e vontades, só de estar na Marquês da Sapucaí, o solo sagrado, e sentir o calor do sambista a gente já fica feliz. O calor da emoção pode enganar minha avaliação do desempenho, eu vi senhoras chorando, senhores emocionados me agradecendo, dizendo que está lindo, que tá bom. Vou estudar chegando em casa, vou ler as análises, ver os vídeos e chegar na conclusão do que posso melhorar. Para um verdadeiro mestre nunca está bom, tem que ser humilde e procurar sempre melhorar mais”, garantiu mestre Vitinh, que levará 250 ritmistas para o desfile.

“”São três bossas, uma acoplada, fizemos aqui e elas vão pro desfile. A gente estudou muito o andamento, no mini-desfile a gente veio um pouquinho mais pra frente, eu senti que devia dar mais cadência para o samba, é um samba melodioso, é o momento da Serrinha cantar, é o momento do Império Serrano gritar o samba, então não precisa atropelar. Vamos fazer de tudo pra galera curtir o samba. Quando eu cheguei fiquei com muito medo, não medo do trabalho, porque eu amo desafio, nasci pro desafio, fiquei com receio da galera não me aceitar, por mais que eu conhecesse todo mundo, fiquei muito tempo fora da escola e meu pai não era tão querido nas outras gestões. Mas aceitei o desafio e a galera me abraçou, eu já era de casa, hoje mais do que nunca eu posso dizer isso. A bateria do Império Serrano é uma família, um cuida do outro, e juntos vamos fazer o Império Serrano ser o grande Império novamente”, completo o comandante da Sinfônica.

Evolução

Organizada, a escola levou elementos para representar os elementos alegóricos e facilitar a distribuição do desfile. Pelo o que se viu neste ensaio, o Império Serrano não irá apostar muito em alas coreografadas, a intenção parece ser deixar o folião mais à vontade para pular carnaval de forma espontânea, porém organizada. Uma das poucas alas desse tipo, vinha ala logo após o casal de mestre-sala e porta-bandeira, ainda na cabeça da escola, que fazia uma pequena coreografia com bastante expressão corporal e gingado. Como ponto negativo dessa ala no ensaio, foi um momento após a apresentação do casal no módulo de cabine dupla, em que por pouco não se abriu um buraco, com a ala tendo que avançar um pouco mais rápido para que não virasse algo bastante notável.

No mais, importante elogiar algumas alas da comunidade, que assim como na harmonia, fizeram uma boa evolução, velha-guarda que vinha depois da primeira alegoria, as baianas, nas cores da escola, variando em saias verdes, outras brancas. Também é importante citar os passistas, todos com desenvoltura, samba no pé e muita alegria. Aliás, a espontaneidade do folião da Serrinha é digna de elogios, pois a escola passou leve e alegre, mas também em alguns momentos mostrando a garra do enredo e batendo no peito no trecho do “hoje rei da resistência, capoeira que jogar”. No final do desfile, uma ala feminina, trazia belíssimas saias com diferentes estampas e cores, dando um efeito visual muito interessante quando giravam.

Outros Destaques

Patrick de Carvalho, coreógrafo da comissão de frente do Império Serrano, brindou quem compareceu ao ensaio técnico com mais um bonito espetáculo. Seus bailarinos, fantasiados de capoeiristas, com as cores da escola pintadas no rosto, com detalhes de palha nas bermudas, realizavam uma coreografia aguerrida com trechos de movimentos da capoeira. O grande espetáculo foi uma grande forma de mostrar respeito pelo evento que se tornou o ensaio técnico e pelo público que compareceu. O carnavalesco Leandro Vieira esteve presente ao ensaio, bastante animado e sorridente.

O presidente Sandro Avelar chamou a atenção de visual novo, com o cabelo descolorido e era um dos mais animados e emocionados antes e durante o desfile. Antes do ensaio, o Império Serrano reservou para todos um momento mágico do carnaval, ao cantar no esquenta “Aquarela Brasileira”, o samba deu o tom para o público, organizadores, foliões e imprensa, de que o carnaval está voltando para a acontecer.

O ensaio técnico foi mais uma etapa e a Serrinha mostrou que está trabalhando para buscar a volta ao Grupo Especial e que valeu a pena investir em um time forte para organizar o seu carnaval com segmentos, diretores, carnavalesco e coreógrafo com experiência no Grupo Especial, além de apostar em jovens com raízes no Império como o mestre-sala Matheus Machado e mestre Vitinho. Em abril, o Império Serrano vai encerrar a segunda noite de desfiles como o enredo “Mangangá”.

Participaram da cobertura: Leonardo Damico, Nelson Malfacini, Lucas Santos, José Luiz Moreira, Luan Costa, Ingrid Marins e Isabelly Luz

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