
Fazer o “caminho reverso” no carnaval exige coragem. Quando Zé Paulo Sierra trocou o Grupo Especial pelo projeto de acesso da União de Maricá, muitos não entenderam a aposta. Hoje, com o passaporte carimbado de volta à elite e após a missão de defender a Portela em um momento de luto, ele prova que é movido a desafios. No “Entrevistão”, o intérprete analisa o alto nível de exigência vocal, a revolução do streaming e o futuro das disputas de samba.
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O que passa na sua cabeça quando você pensa que largou o Especial para tentar o projeto com a Maricá e agora estar no Especial com ela?
Zé Paulo Sierra: Foi uma decisão baseada na experiência que vivi na Viradouro, de 2013 para 2014, quando eu era intérprete da Estação Primeira de Mangueira. Na época, com a saída do Ivo Meirelles da presidência, decidi seguir outros caminhos. A Viradouro estava no Grupo de Acesso, e eu resolvi me dedicar à escola para fazer um trabalho de resgate. Logo no primeiro ano, fomos campeões.
Quando surgiu a proposta da Maricá, o cenário era de uma possível subida. O plano inicial era que, se a escola vencesse o Acesso, eu assumiria como intérprete oficial no Especial já para o carnaval de 2026. Quando acabou a conversa, a primeira coisa que perguntei ao presidente foi: ‘E se não subir, a proposta continua de pé?’. Ele garantiu que sim, mas acho que no fundo não acreditou muito. Afinal, eu estava no Grupo Especial, e fazer esse ‘caminho reverso’ é algo que a maioria das pessoas não compreende. Só que eu tinha o profundo desejo de construir essa história novamente.
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Por isso, assim que terminou o Carnaval de 2025, procurei o presidente e falei: ‘A minha proposta de cantar no Acesso está de pé, se a escola quiser contar comigo’. Foi uma escolha muito motivada pela minha vivência na Viradouro; a experiência de estar na escola do Acesso até ela se tornar a potência que é hoje.
Queria resgatar essa construção de identidade e, por uma feliz coincidência, a Maricá subiu logo no meu primeiro ano aqui, repetindo o feito de 2014. Conseguimos o acesso para 2027! É um projeto de longevidade, com muita vontade de fazer as coisas darem certo.
Quando você chegou à Maricá, disse que a escola ofereceria estrutura de trabalho. Conta para a gente como é isso na prática?
Zé Paulo Sierra: Acho que o resultado é muito visível. É uma escola que trabalha com muita seriedade. Nós estamos aqui hoje no barracão e, claro que ainda há coisas a finalizar, mas parece que ele foi construído agora; está novo, entregue. Era um espaço antes utilizado por uma coirmã, e a sensação é de que tudo está saindo do zero, de forma muito organizada, planejada e pensada. A diretoria pensa muito nos seus segmentos e dá todo o suporte para fazermos um grande trabalho.
E isso não envolve somente a parte financeira, mas, principalmente, o ato de ouvir. Hoje, por exemplo, temos uma sala de ensaios para atender as necessidades dos casais de Mestre-sala e Porta-bandeira e do Patrick Carvalho (coreógrafo da comissão de frente). Além disso, temos o projeto da nova quadra e já contamos com um técnico de som exclusivo da escola.
Cada segmento tem a sua demanda atendida. Afinal, não adianta querer ter tudo e tudo isso não funcionar no dia a dia. Tudo o que é feito aqui é pensado para dar funcionalidade ao nosso trabalho e garantir que o profissional se sinta bem.
Como será o seu trabalho para ajudar a escola a mexer com o público e, ao mesmo tempo, atender aos jurados em 2027?
Zé Paulo Sierra: Vai ter que ser um trabalho cada vez mais técnico. Tivemos um simpósio da Liesa recentemente, e o quesito harmonia ainda gera muita dúvida. Tem jurado que defende que o canto da escola (a comunidade) deveria ter um peso maior na pontuação, já que o quesito foi redividido em subquesitos. Houve, inclusive, propostas para reorganizar a distribuição dessas pontuações.
É um quesito muito complexo. Precisamos aliar o canto da escola, em sua totalidade, ao desempenho técnico da ala musical: afinação, uníssono e a precisão dos arranjos. Para se ter uma ideia do nível de exigência atual, um julgador chegou a sugerir que os arranjos musicais passem a ser entregues escritos; uma opção que ficaria a critério de cada agremiação.
As discussões estão amadurecendo, mas a resposta prática para tudo isso é uma só: mais ensaio. E ensaios diferenciados. O que fazemos na rua, às vezes, deixa passar detalhes que não percebemos. Já um ensaio de estúdio revela nuances de afinação e harmonia que precisam ser corrigidas ou acrescentadas, sempre em total sintonia com a bateria.
É preciso se esmerar e observar o que as escolas que gabaritaram o quesito vêm fazendo. Não se trata de copiar, mas de se espelhar. Vamos pegar o enorme talento que já temos na nossa escola e adequá-lo ao crivo de julgamento do Grupo Especial.
Seguindo nessa linha, o quesito harmonia tem focado bastante na ala musical e no intérprete. Como você enxerga essa dinâmica no julgamento atual?
Zé Paulo Sierra: Tivemos um hiato de uns dois ou três anos em que o foco da perda de décimos ficou quase totalmente no antigo carro de som. Mas, de uns dois anos para cá, as alas de comunidade voltaram a ser penalizadas. Hoje, o julgamento se divide de forma muito clara entre o canto da escola e a parte musical técnica, e houve até uma sugestão recente de dar ainda mais peso ao desempenho da comunidade no regulamento, retomando o que era o foco inicial do quesito Harmonia no passado.

Independentemente de como essas notas serão divididas nos subquesitos, o nível de exigência é altíssimo. A escola precisa ensaiar muito. Em Maricá, temos a grande vantagem de realizar muitos ensaios de rua. Ano passado fizemos cerca de dez treinos, o que para uma escola do Acesso é um parâmetro altíssimo, digno de Grupo Especial.
Como a nossa quadra ainda não comporta estruturalmente um ensaio mais técnico, focar na rua ajuda demais a construir o canto da escola. Sabemos que, no dia do desfile, a emoção e a presença dos carros alegóricos alteram o cenário, mas o segredo continua sendo um só: quanto mais ensaios, melhor.
Falando sobre o simpósio da Liesa com a presença dos julgadores, qual foi seu balanço desse encontro?
Zé Paulo Sierra: Foi muito importante. O Gabriel David já vinha iniciando esse trabalho de aproximação antes mesmo de assumir a presidência da Liesa. Antigamente, o julgador ficava muito distante das escolas, parecia alguém intocável. Poder ter essa troca foi bacana demais. A gente sabe que não é fácil julgar. Você mexe com a paixão de comunidades inteiras e com o trabalho de diversos profissionais. E sempre alguém precisará perder décimos para outra escola poder ganhar.
Essa nova proximidade torna o processo muito mais transparente. Estamos ali sentados, conversando em prol de um bem maior: buscar uma regularidade melhor tanto para os desfiles quanto para o próprio trabalho do corpo de jurados.
Nós temos lido as justificativas atentamente para entender onde estão as demandas de despontuação. Seja mantendo o regulamento atual ou alterando para o próximo carnaval, precisamos estar sempre atentos ao que funciona. Você analisa uma coirmã e pensa: ‘Olha que arranjo bacana, vamos melhorar o nosso’, ou ‘Eles fazem mais abertura de voz ali, vamos tentar trabalhar isso’. No fim das contas, é um jogo de xadrez.
O que você achou do novo sistema de som da Avenida implementado em 2026? E o fim do carro de som?
Zé Paulo Sierra: Demos um salto gigantesco de qualidade. Antes, não tínhamos passagem de som na Sapucaí. Hoje temos o mini desfile em dezembro e os ensaios técnicos, que já funcionam como essa passagem de som, além de mais um teste na semana oficial do evento. A sonorização é muito boa e a tendência é ficar ainda melhor com os ajustes futuros, já que este foi apenas o primeiro ano.
A BMX (empresa responsável pelo novo sistema de som) fez um trabalho excelente. Eles tentaram entender o funcionamento particular de cada escola, nos deixaram totalmente à vontade e nos deram suporte o tempo todo. E o tratamento foi exatamente o mesmo, tanto para as escolas do Acesso quanto para as do Especial.
Claro que na sexta-feira houve algumas dificuldades iniciais, o som estava muito alto e o retorno da bateria ficou um pouco embolado, mas no sábado isso já estava devidamente ajustado. É show ao vivo, e imprevistos acontecem.
Quanto à ausência do carro de som físico, para mim não fez falta nenhuma. Eu já não me apoiava nele e sempre usei fone de ouvido para o meu retorno, então a minha dinâmica mudou muito pouco. Acredito que a falta do caminhão foi mais uma questão estética para quem estava assistindo da arquibancada.
Como foi a missão de assumir o microfone da Portela após a morte do Gilsinho?
Zé Paulo Sierra: Fui para a Portela não para substituir o Gilsinho, mas por alguns motivos: eu havia cantado o samba que se sagrou campeão na disputa, então a escola já teria alguém dominando a obra. Além disso, tenho uma identificação antiga com a agremiação; comecei a gostar de samba-enredo por causa da Portela. O Júnior (Escafura, presidente da Portela) é um grande amigo e sabia disso.
Quando ele me procurou, eu era um dos poucos nomes à disposição, embora estivesse ‘indisponível’ contratualmente. Fui direto com ele: ‘Eu garanto fazer as duas escolas, mas não abro mão da Maricá, porque tenho contrato e compromisso aqui”. As diretorias conversaram e chegamos a um acordo.
Foi um desafio imenso, porém extremamente prazeroso. Realizei um sonho do meu pai, revivi a minha infância e tentei levar um pouco de alegria para a escola num momento de tanta tristeza e luto pela nossa perda do Gilson. Dei o meu melhor.
Uma pena a colocação da escola na apuração, mas desejo toda a sorte ao Júnior e ao Bruno Ribas, meu irmãozinho que assumiu o microfone com todo afinco e talento. Cantei dois dias seguidos, dei conta do recado e, na minha opinião, fui bem em ambas as apresentações; os áudios estão aí nas plataformas para provar. Não me arrependo de nada.
Hoje, qual sua análise técnica do samba do Caju (Mocidade 2024) e, indo além da técnica, o que ele representou?
Zé Paulo Sierra: O Caju é um achado. Há quanto tempo não víamos um samba tão protagonista de um Carnaval? E tem um detalhe muito importante: foi um samba protagonista cuja agremiação não foi campeã nem sequer voltou no Desfile das Campeãs. Tecnicamente falando, ele rendeu muito mais nos ensaios técnicos do que no próprio dia oficial do desfile, muito impulsionado pelo público nas arquibancadas.
Acho que o André, diretor musical da Mocidade, foi genial na criação daquela introdução. Que viralizou! É muito gratificante ver que, depois de mim, é o segundo cantor que passa pela escola, e a introdução contínua sendo o meu grito de guerra. É difícil cantar o Caju hoje sem fazer ‘Prepare o seu coração’.
Esse samba entrou definitivamente para a história do Carnaval. Se fosse um desfile campeão, entraria para aquela galeria de um ‘Me dê, me dá’ ou ‘Explode Coração’. É um samba para a história da Mocidade e do Carnaval, assim como o ‘Alabê de Jerusalém’ da Viradouro. Tive a sorte na minha carreira de cantar grandes obras, e essa, sem dúvida alguma, é uma delas.
Hoje, os álbuns nas plataformas digitais estão com ótima aceitação. O caminho é por aí? O que melhoraria?
Zé Paulo Sierra: É um caminho sem volta. O samba já não toca mais em rádios comerciais há muito tempo, e o nosso tempo de exposição na TV aberta é muito menor do que tínhamos nas décadas de 1980 e 1990. Hoje, o streaming é o caminho. O samba do Caju, por exemplo, foi a música mais executada no Rio de Janeiro na virada do Ano Novo de 2023 para 2024 via plataformas digitais. Por isso, o Gabriel David direcionou o marketing da Rio Carnaval para as redes sociais e para os influenciadores. É onde o público está.
Além do alcance, a qualidade técnica dos álbuns também melhorou muito. Nos primeiros anos do formato digital, os sambas chegavam às plataformas muito comprimidos. Hoje, a produção das faixas entendeu o processo, e melhorou bastante. É um caminho sem volta.
Para encerrar, a disputa de samba é financeiramente atrativa para os cantores? Quais são os desafios para você, como intérprete?
Zé Paulo Sierra: Para uma pequena parcela que compõe a ‘elite’ do Grupo Especial, sim. Mas a grande maioria dos cantores profissionais, que atuam nas Séries Ouro, Prata e Bronze, acaba ficando de fora. As eliminatórias encurtaram. Antes, tínhamos disputas longas, com 17 rodadas; hoje, raramente chegam a dez. Isso sem contar o movimento crescente de agremiações que encomendam os sambas ou que limitam a quantidade de microfones nos palcos apenas para cortar custos de produção. Um modelo ideal seria um tempo para ouvir os sambas e depois fazer a disputa.
E o que mudaria nas disputas de samba pensando na avaliação dos sambas e no processo de escolha?
Zé Paulo Sierra: O tempo é o fator principal. O ideal não é ter disputas de meses, mas sim criar um intervalo maior; por exemplo, de um mês para ouvir o samba entre a entrega e o início das eliminatórias. Além disso, eu gostaria que pudéssemos gravar as faixas concorrentes ao vivo, direto do barracão, com total tranquilidade. Imagina oferecer uma hora de estúdio para cada parceria se apresentar, sem aquele caos do primeiro dia de eliminatória. Às vezes, obras com potencial acabam sendo eliminadas precocemente simplesmente porque não foram bem passadas no palco. Quanto mais a gente tiver antenado e participando do projeto, a gente consegue um trabalho melhor.









