rogerio dragoes
Foto: Gustavo Lima/CARNAVALESCO

Com uma trajetória consolidada no carnaval de São Paulo, Rogério Félix se tornou um dos nomes de destaque da harmonia paulistana. Antes de chegar à Dragões da Real, onde já acumula 16 anos de história, o diretor iniciou sua caminhada na Leandro de Itaquera, ainda nos primeiros anos de fundação da agremiação. Da confecção de fantasias e alegorias ao comando de um dos setores mais importantes de uma escola de samba, Rogério acumulou experiências em diferentes agremiações e carregou aprendizados que ajudaram a moldar sua forma de trabalhar. No quadro “Entrevistão”, do CARNAVALESCO, o diretor relembra os personagens que influenciaram sua formação, fala sobre os desafios encontrados em sua chegada à Dragões da Real, revive momentos marcantes da história da escola e os obstáculos do segmento de diretor de harmonia nos dias de hoje.

* Seja o primeiro a saber as notícias do carnaval! Clique aqui e siga o CARNAVALESCO no WhatsApp

Como começou sua história no carnaval e o que o levou a seguir o caminho da harmonia?

Rogério Félix: “Minha raiz é a Leandro de Itaquera, ainda na época da Tiradentes. Em Itaquera existiam a Falcão do Morro e a Leandro de Itaquera, e eu fazia parte da família Leandro. Estou praticamente desde a fundação da escola, participei dos primeiros desfiles, ajudando na confecção de fantasias e alegorias. Foi a Leandro que me deu a oportunidade de atuar nesse segmento. Fiz parte da equipe da Maria da Penha, que era a única mulher na função naquela época, e depois me tornei diretor de harmonia da escola”.

Quais pessoas mais influenciaram a sua formação como diretor de harmonia?

Rogério Félix: “Naquela época havia grandes nomes. O Edson Prado, da Leandro, foi quem mais acreditou em mim e dizia: “Esse garoto precisa ter uma oportunidade”. O Gilson Negão também foi uma grande referência. Tive o prazer de homenageá-lo recentemente no Conasamba, durante uma mesa de debates da qual participei. Para mim, é muito importante reconhecer publicamente aqueles que me ajudaram no início da caminhada. Também fui muito influenciado pela família Leandro de Itaquera, pela dona Marilene, pela Karen, por todos os filhos da família, além do Marco Aurélio Ruffin, que era carnavalesco na época. Nós praticamente começamos juntos, e ele me deu muitas oportunidades de criação. Tem muita gente que fez parte dessa história, peço até desculpas por não conseguir lembrar de todos os nomes. Mas essas foram as pessoas que estiveram mais próximas de mim dentro da Leandro de Itaquera. E, até hoje, continuo observando e aprendendo com os grandes nomes do carnaval. Eu os assistia na Tiradentes, depois no Anhembi, e sigo fazendo isso para aprender um pouco mais todos os dias”.

Antes da Dragões da Real, por quais escolas você passou e o que cada uma delas acrescentou à sua trajetória?

Rogério Félix: A Leandro de Itaquera me ensinou a fazer muito com pouco. Naquela época, nossos materiais mais nobres eram TNT, organza e tule. Fazíamos carros alegóricos com rodinhas de rolimã e estruturas feitas com latas de óleo. Essa era a nossa riqueza. A Leandro me ensinou a realizar o que precisava ser feito com os recursos que estavam disponíveis. Depois fui para a Tom Maior. Foi uma passagem muito especial. O presidente Marko faz muita falta. Era uma pessoa ímpar, que me ensinou demais. Foi um dos maiores desafios da minha carreira e uma escola pela qual tenho enorme carinho, principalmente pelo chão e pela comunidade. Carlão, Renê Sobral e tantas outras pessoas formavam uma verdadeira família. Fizemos desfiles memoráveis. Também tive uma passagem curta, mas transformadora, pela Mocidade Alegre. A presidente Elaine me acolheu de forma muito especial. Eu nem iria desfilar pela escola, mas ela me colocou para trabalhar ao lado do Júnior Dentista na harmonia. Foi uma honra fazer parte daquela equipe e realizamos um grande trabalho. Saí praticamente no ano em que a Solange assumiu a presidência. A Mocidade Alegre me ensinou muito sobre organização. Lá estudávamos bastante para sermos organizados em todos os processos. Depois passei um ano auxiliando a Dona Beth no Peruche e então cheguei à Dragões da Real. Naquele período recebi convites de escolas do Grupo Especial, mas escolhi uma escola do Grupo de Acesso. Muita gente não entendia essa decisão, mas havia algo na Dragões que me encantou. Quando cheguei à Dragões, encontrei uma família com muita vontade de crescer e sedenta por estrutura, estratégia e planejamento. Aceitei o desafio e, hoje, já se passaram 16 anos”.

Você está na Dragões desde a época em que a escola desfilava no Grupo de Acesso. O que significa ter acompanhado esse crescimento de perto?

Rogério Félix: “Foi uma sequência de desafios. Minha esposa estava grávida e eu assumi uma nova escola justamente na reta final da gestação. Era aquela dúvida: “Vai dar certo? Vamos encarar esse desafio?”. No fim, decidimos seguir em frente. Era uma escola que eu ainda não conhecia profundamente. Em algumas agremiações você já frequenta há anos e, quando assume um cargo, as pessoas já conhecem seu trabalho. Na Dragões, eu tinha essa preocupação. Mas, ao longo do ano, a comunidade abraçou o projeto, entendeu a proposta e tudo foi acontecendo de forma muito natural até chegar o carnaval. No dia do desfile vivemos muitas aventuras. Algumas esculturas ainda estavam no barracão enquanto montávamos as alegorias. Deu tudo certo, conseguimos colocar a escola na avenida, mas, quando chegamos à concentração, começou uma chuva absurda. Dentro da harmonia do Rogério Félix, ninguém usa capa de chuva. Se você não pode tomar chuva, fica difícil trabalhar comigo, porque a liderança precisa dar o exemplo. Se nós corrermos da chuva, os componentes também vão correr. Naquele ano fiquei na chuva com a minha esposa, Jussara Félix, que estava ao meu lado na cabeça da escola. Quando olhei para trás, a escola inteira tinha saído para se proteger. Como era meu primeiro ano, eu ainda não conhecia aquela reação. A água já batia na canela. Quando chegou a hora de entrar na avenida, eu simplesmente apitei e comecei a andar. Depois de alguns passos, pedi para a Jussara olhar discretamente para trás e ver se a escola estava vindo. Ela respondeu: “Pode seguir. Eles estão correndo para montar e já estão vindo”. Naquele instante eu pensei: “Essa escola é campeã”. Uma comunidade que enfrenta uma chuva daquela, organizada da maneira que ensaiou o ano inteiro, merece vencer. Até hoje, uma das fotos mais bonitas da Dragões é a ala das baianas desfilando debaixo daquela chuva. Costumo dizer que, naquele dia, a chuva quase não chegou ao chão, porque a energia da escola fez tudo evaporar. Foi um dos maiores desfiles da nossa história”.

Em 2012 veio o desfile em homenagem às mães, um dos mais emocionantes da história da escola. Como foi viver aquele momento, justamente na estreia da Dragões da Real no Grupo Especial?

Rogério Félix: “Foi um desfile muito forte para muita gente e, principalmente, para mim. Naquele ano completavam dois anos da morte da minha mãe. Eu sugeri uma homenagem especial e a ideia foi aprovada. Todos os diretores de harmonia desfilaram usando uma gravata com a foto de suas mães, enquanto as mulheres da equipe levaram um lenço com a imagem delas. Aquilo marcou tanto que muitos harmonias tatuaram um trecho do samba até hoje. Mas não era apenas um desfile. Era uma responsabilidade coletiva de homenagear nossas mães. Outra ideia que tivemos foi pedir aos componentes fotos de suas mães, vivas ou já falecidas. Todas essas imagens foram colocadas no último carro alegórico. A grande homenagem daquele desfile não era para uma celebridade, mas para as mães da comunidade. É claro que a Dragões ainda não tinha a estrutura que possui hoje. Muita gente fala em reeditar aquele desfile, mas seria outra realidade. Na época, nós mesmos fazíamos praticamente tudo: empapelávamos esculturas, pintávamos carros, cuidávamos dos acabamentos. Era um carnaval muito artesanal. Mesmo assim, quando entramos na avenida, tive a sensação de missão cumprida. Independentemente do resultado, a homenagem estava feita. Foi um dos desfiles mais emocionantes da minha carreira. Todo mundo saía da avenida dizendo: ‘Foi para você, mãe’. Acho que essa foi a maior vitória daquele carnaval. E é um samba que cantamos até hoje com muito orgulho”.

“Asa Branca”, em 2017, guarda uma memória muito afetiva para a comunidade da Dragões da Real. Qual foi o sentimento de fazer parte daquele acontecimento?

Rogério Félix: “Eu fazia parte da comissão de carnaval ao lado do Johnny, do Alex Fan e do Jorge Silveira. Éramos uma equipe. O Jorge Silveira foi um presente de Deus na minha vida. É um grande amigo e um profissional extraordinário. A Dragões foi uma das primeiras escolas a dar a ele a oportunidade de assinar um carnaval desse porte. Ele já era um grande nome, já fazia trabalhos importantes no Rio de Janeiro, mas aqui ganhou ainda mais projeção. Foi um desfile construído de forma muito coletiva. Muitas ideias surgiram durante o processo. Chegamos a desenhar uma fantasia para a ala das baianas, apresentamos à diretoria, mas percebemos que não funcionava. Voltamos atrás, desmontamos uma ala inteira e criamos outra. No abre-alas, por exemplo, eu queria uma abertura diferente. Precisávamos de um dragão que tivesse a identidade do Nordeste e do Brasil. Na minha profissão, trabalho com desenvolvimento de jogos eletrônicos e criação de personagens. Na época, usava muito Game of Thrones como referência. Em um documentário há uma cena com a ossada de um dragão na praia. Quando vi aquilo, pensei imediatamente: “A ossada do boi nordestino pode virar a ossada de um dragão”. Foi uma ideia ousada, porque muita gente achava que um dragão em forma de esqueleto poderia transmitir sensação de fraqueza. Também tivemos outros carros inesquecíveis, como o pau de arara e o da fogueira no encerramento do desfile. Algumas esculturas, inclusive, foram doadas ao CTN e permanecem lá até hoje. Sempre que passo em frente, lembro daquele carnaval. Foi um grande desfile. Talvez Deus não quisesse que aquele fosse o nosso primeiro título. Eu não compreendo totalmente, mas aceito. De qualquer forma, entrou para a história como um dos grandes carnavais de São Paulo. Mais do que isso: foi o desfile que definiu a identidade da Dragões da Real. Naquele ano nós deixamos de apenas apresentar um enredo e passamos a vivê-lo. Durante toda a temporada só tocava música nordestina na quadra, a comida era típica do Nordeste, toda a decoração seguia essa temática. O enredo fazia parte da rotina da escola. Desde então, sempre que escolhemos um tema, buscamos vivê-lo durante o ano inteiro”.

Entre todos os desfiles da Dragões, qual foi o mais marcante para você e por quê?

Rogério Félix: “É muito difícil escolher. O desfile de 2012 me emociona pela homenagem às mães. Já 2017 representa um sonho enorme. Até aquele momento, nosso objetivo era simplesmente entrar no Desfile das Campeãs. Naquele ano veio o primeiro vice-campeonato, e isso mudou o patamar da Dragões. Mas existem outros carnavais que também marcaram profundamente a minha trajetória. O desfile de Adoniran em 2022, por exemplo, me trouxe uma emoção diferente. Não foi pela alegria do resultado, mas pela experiência profissional. Naquele ano, praticamente todas as escolas tiveram problemas na pista e nós éramos a última a desfilar. A nossa largada era extremamente difícil. Quando entramos na avenida, o sol estava nascendo. A pista ficou completamente dourada. Olhei para trás do abre-alas e vi o sol iluminando a escola. Foi uma imagem inesquecível. Infelizmente, depois tivemos o acidente com a nossa porta-bandeira, e o título escapou. Ali prevaleceu o lado profissional. A dúvida era o que fazer. Nós precisávamos manter a escola concentrada. E o mais interessante é que o planejamento funcionou. Durante todo o desfile, apenas quem estava próximo ao casal soube do que havia acontecido. Pelo rádio, não deixamos a informação se espalhar. Chefes de ala, coordenadores e componentes seguiram normalmente. Quando a escola saiu da avenida, a comunidade estava cantando como se fosse campeã. Foi um momento muito duro emocionalmente, mas mostrou que o trabalho de preparação deu resultado. Ao mesmo tempo, também não posso deixar de lembrar de outros desfiles, como João Pessoa, África e, principalmente, da força do canto da comunidade neste último carnaval. Ouvir a arquibancada inteira cantar “Juremê, Juremá” é algo emocionante. Hoje tenho certeza de que estamos no caminho certo. Todos os anos trabalhamos para conquistar o título. Mas, quando ele não vem, a pergunta que fazemos é outra: a escola evoluiu? Deu mais um passo? Se a resposta for sim, significa que estamos construindo algo maior”.

“Sob as bênçãos de Xangô, a coroação do príncipe Reinaldo”. O que você espera da Dragões para o carnaval de 2027?

Rogério Félix: “Tudo na Dragões tem um porquê. Primeiro escolhemos o enredo e, depois, fomos percebendo quantas conexões existiam com a história da escola. A ideia foi trazida pelo nosso vice-presidente, que já teve alguns bares onde o Reinaldo costumava cantar. Ele também participou de uma das festas da Dragões logo depois que conquistamos o acesso. Depois voltou para cantar em uma feijoada, já quando a escola tinha uma estrutura maior. Na semana desse evento, infelizmente, ele ficou doente e precisou cancelar o show. Nós substituímos a apresentação, mas, do hospital, ele gravou um vídeo dizendo que iria se recuperar e que voltaria à Dragões. A partir dali nasceu uma amizade muito bonita. Sempre que encontrava alguém ligado ao carnaval, fazia questão de mandar um abraço para a Dragões. Ao longo deste ano vamos divulgar alguns desses registros. Quando o Ferrugem criou o projeto em homenagem ao Reinaldo, um dos primeiros grandes shows aconteceu justamente na nossa feijoada. Vieram a família, os amigos, todos participaram. Quando escolhemos contar essa história, passou um filme na minha cabeça. Não era apenas um grande artista. Era alguém que já fazia parte da história da Dragões. Isso tornou tudo muito mais especial. O enredo também aborda a relação do Reinaldo com Xangô e com a espiritualidade, temas que exigem muito respeito. Vamos contar toda essa trajetória: desde o nascimento, em Cavalcante, passando pela carreira e chegando ao Anhembi, onde ele será coroado em uma grande celebração. É um enredo que tem emocionado muito toda a equipe. Cada setor foi desenvolvido com enorme carinho. O Jorge Freitas, o Rafael Vilares, nosso enredista, e toda a equipe estavam realmente inspirados quando escreveram a sinopse. Trabalhamos com muita humildade, mas também com muita dedicação. Tenho certeza de que não apenas os fãs do Reinaldo, mas todos os apaixonados pelo samba e pela Dragões vão se orgulhar do desfile que levaremos para a avenida”.

Você tem uma relação de amizade muito próxima com o presidente Tomate. O que representa receber essa confiança ao longo de tantos anos?

Rogério Félix: “Tive grandes presidentes na minha trajetória. O Marko, da Tom Maior, marcou muito a minha carreira. A Elaine, da Mocidade Alegre, também foi uma pessoa extraordinária. Mas, com o Tomate, aconteceu algo diferente: nós crescemos juntos. Era o primeiro ano dele como presidente e eu já tinha bastante experiência na Liga-SP, trabalhando com comissões de carnaval, comissão de jurados e palestras. Muita gente me procurava porque eu era conhecido por montar e revisar as pastas destinadas aos jurados. Um dia, no Anhembi, ele chegou até mim e perguntou: “Você é o Rogério que entende dessas pastas?” Eu respondi: “Se eu entendo bem, não sei. Mas sou o Rogério”. Ele pediu para eu analisar a pasta da escola, peguei uma caneta, fui fazendo observações, corrigindo detalhes e, no fim, chamei atenção principalmente para a comissão de frente. Expliquei que, naquela época, muitas escolas perdiam pontos porque as fantasias apresentadas aos jurados eram diferentes das que entravam na avenida. Ele respondeu que estava tudo conferido. Então ele perguntou quanto custava o trabalho. Eu respondi que não custava nada. Ele não estava me contratando, apenas havia pedido uma ajuda. Naquele ano a escola acabou não subindo porque perdeu um ponto na comissão de frente. Quando o Tomate assumiu a presidência, me ligou e perguntou: “Vamos trabalhar juntos?” No começo eu ainda pensei bastante. Não sabia se conseguiria encaixar mais um projeto na minha rotina. Mas fui à festa de aniversário da escola. Naquela época a Dragões tinha uma estrutura muito simples. Era um espaço pequeno, onde aconteciam os ensaios e a produção das fantasias. Só que havia uma paixão enorme naquele lugar. Foi ali que eu me apaixonei pela escola. Durante todo aquele ano ouvi muita gente dizendo que eu tinha acabado com a minha carreira, que sair de uma escola do Grupo Especial para assumir uma do Acesso era um erro e que aquele projeto não daria certo. Mas, quando existe vontade de trabalhar e muita fé, as coisas acontecem. Fomos campeões com dois pontos de vantagem. Foi ali que nasceu essa parceria entre Tomate e Rogério Félix em prol da Dragões da Real”.

Hoje a Dragões é reconhecida pelo canto forte da comunidade. Qual foi o trabalho desenvolvido para alcançar esse nível de harmonia?

Rogério Félix: “A Dragões sempre fez algumas escolhas muito conscientes. Lembro que, há 16 anos, quando começamos um processo de reformulação na escola, surgiu a oportunidade de fazer alguns investimentos. Não era muito dinheiro, mas dava para melhorar alguma coisa. A primeira decisão foi reformar o banheiro feminino. Muita gente questionou essa escolha, mas a resposta era simples: se a mãe, a esposa e a filha de um componente se sentem respeitadas dentro da quadra, elas voltam. E, quando as mulheres voltam, a família vem junto. Pode ser uma quadra simples, mas, se ela acolhe bem as pessoas, cria pertencimento. Foi assim que começamos a fortalecer a comunidade. Depois, quando estruturamos o projeto de carnaval, nos perguntamos em qual aspecto deveríamos investir mais. Sempre acreditamos que uma escola feliz canta melhor. Com o passar dos anos começamos a investir cada vez mais no canto da escola. Isso envolve escolher um samba que faça a comunidade cantar naturalmente, realizar ensaios muito fortes e construir bossas que valorizem a música sem prejudicar o canto. Depois nasceram os ensaios específicos. Primeiro por ala e, mais tarde, por setores”.

A chegada do Jorge Freitas aprimorou esse trabalho?

Rogério Félix: “Papai do céu nos presenteou com um dos profissionais que mais entende de canto no carnaval de São Paulo. Talvez até do Brasil. O Laila foi um fenômeno, uma referência absoluta. Mas o Jorge Freitas também é um cara que trabalha o canto como poucos. Quando ele chegou, muita gente imaginou que haveria uma disputa de espaço entre nós. Aconteceu exatamente o contrário. É muito bonito quando dois profissionais se respeitam. Em vários momentos ele me dá liberdade para contribuir no trabalho dele, e eu faço questão de dar a mesma liberdade para que ele contribua no meu. Porque eu também quero aprender com ele todos os dias. O Jorge é extremamente criativo. Com a chegada dele começamos a aplicar novas metodologias na Dragões. Muitas pessoas estranharam, porque eu já tinha uma carreira consolidada como diretor de harmonia em São Paulo e também era bastante conhecido no Rio de Janeiro. Alguns não entendiam por que eu dava tanta autonomia para ele dentro da quadra. Minha resposta sempre foi muito simples: se você contrata um dos maiores campeões do carnaval de São Paulo e não o deixa trabalhar com liberdade, não faz sentido tê-lo contratado. Foi assim que conseguimos potencializar ainda mais o nosso trabalho de canto. E posso garantir: neste carnaval vamos trabalhar ainda mais. Temos a responsabilidade de homenagear o Príncipe do Pagode, Reinaldo. Essa homenagem será feita, acima de tudo, pela voz da nossa comunidade. Vamos cantar como nunca cantamos”.

Qual é o maior desafio de um diretor de harmonia nos dias de hoje?

Rogério Félix: “Acho importante ampliar um pouco essa resposta. Hoje o diretor de harmonia é muito mais do que o profissional responsável pelo canto da escola. Ele precisa ser o grande elo entre todos os departamentos. É quem faz a ligação entre a diretoria, os segmentos e os componentes. Também precisa saber acolher as pessoas e encantá-las para que entendam a missão de ensaiar, cantar e desfilar em busca de um objetivo comum. O diretor de harmonia não é apenas quem cobra. Ele precisa entender de planejamento, gestão de pessoas, atendimento, mediação de conflitos e estratégia. Precisa resolver problemas o tempo inteiro e, acima de tudo, controlar o próprio ego. Existe até um livro que gosto de citar: “O Ego é Seu Inimigo”. Todo diretor de harmonia deveria lê-lo. Hoje também estamos vendo mudanças importantes no Carnaval. No Rio de Janeiro, por exemplo, cresce a discussão sobre avaliar, dentro do quesito Harmonia, não apenas o canto da escola, mas também o conjunto formado pela ala musical, carro de som e cordas. Não estou dizendo se é certo ou errado, mas isso exige que o diretor de harmonia tenha cada vez mais conhecimento musical. Ele precisa entender se a melodia funciona, se o samba favorece o canto da comunidade e como isso impacta o desfile. Ao mesmo tempo, em muitas escolas o diretor de harmonia também responde pela evolução da escola na pista. Em outras, essa função é do diretor de carnaval ou até de um diretor específico de evolução. Independentemente da estrutura, o profissional precisa dominar todos esses aspectos. Hoje, para conseguir conversar de igual para igual com todos os departamentos, o diretor de harmonia precisa estudar música, compreender comportamento humano, saber administrar crises, ser um estrategista, conhecer profundamente sua comunidade e entender como cada setor da escola se movimenta, da comissão de frente ao último carro alegórico. Só assim consegue definir qual será a melhor estratégia de desfile: acelerar, comprimir, abrir mais a escola ou controlar o andamento. Nunca foi tão difícil exercer essa função. Por isso acredito que o caminho seja dividir responsabilidades e criar equipes especializadas dentro da harmonia. Quem acha que consegue fazer tudo sozinho acaba prejudicando o próprio trabalho”.

Dentro da sua equipe, você se considera um líder mais rígido ou mais flexível? Como funciona a cobrança?

Rogério Félix: “Eu tento e busco ser sempre um líder honesto nas minhas atitudes. Eu não cobro aquilo que eu não ensinei e não cobro de quem não sabe o que precisa ser feito. Eu terminei um treinamento nesta semana em que, no primeiro dia, eu tentei mostrar justamente o motivo pelo qual uma pessoa não deveria ser diretor de harmonia. Eu falei: “Esse treinamento é para você não ser harmonia”. Porque a harmonia tem isso, a harmonia não pode aquilo, a harmonia exige determinadas responsabilidades. Eu mostrei tudo aquilo que muitas pessoas não contam sobre ser um diretor de harmonia. Também falei que, no segundo dia, só deveria comparecer quem concordasse em vivenciar tudo aquilo. Depois que eu expliquei tudo o que a pessoa iria enfrentar ao meu lado, tudo o que ela teria que passar e toda a estratégia que nós iríamos construir juntos, quando eu fizer uma cobrança, eu não estou sendo rígido. Estou sendo honesto com aquilo que combinamos. A pessoa já sabia o que nós iríamos enfrentar, já sabia qual era a estratégia que tínhamos decidido juntos. Então, se algo não foi feito, a pergunta é: eu não preparei essa pessoa ou ela não quis fazer? Precisamos entender de onde veio o problema. Ou a responsabilidade é minha ou é dela. Se for minha, eu vou voltar, vou reeducar e treinar novamente para que ela consiga fazer da forma correta. Agora, se a responsabilidade for dela, eu preciso cobrar para que aquilo seja realizado. Porque ninguém é obrigado a ser diretor de harmonia. Em muitas escolas, você não recebe, muitas vezes não tem nem roupa ou estrutura, e trabalha muito. Se a pessoa não tiver um motivo para estar ali, se não tiver um propósito, ela não vai encontrar prazer no que faz. Quando existe propósito, confia na sua liderança e sabe que ela é honesta e justa dentro daquilo que está fazendo, não existe espaço para “mimimi”. Não existe defender um ou outro porque gosta mais daquela pessoa. A cobrança precisa ser igual para todos, porque se um erra, a escola inteira erra. Eu costumo dizer que sou muito tranquilo na hora de ensinar, mas sou muito firme na hora de cobrar aquilo que foi ensinado”.

De que maneira você enxerga os critérios de julgamento do carnaval de São Paulo?

Rogério Félix: “Eu travo no início do julgamento. Enquanto não ficar claro para mim se o julgamento é comparativo, se é uma conferência ou se é espetáculo, qualquer resposta que eu der pode estar errada. Porque, se eu tenho que comparar as escolas, é uma coisa. Se eu tenho apenas que conferir se aquilo está correto, é outra. Se eu estou avaliando como espetáculo, é completamente diferente. Vou dar um exemplo: se eu vou a um espetáculo, eu posso ter três baterias, posso parar uma bateria, a comissão de frente pode passar pelo meio da escola, pode sair de dentro do abre-alas, o abre-alas pode vir dividido em dois momentos, com um setor passando antes e outro depois. Tudo isso pode fazer parte de um espetáculo. Mas a pergunta é: vou julgar o espetáculo? Vou julgar o risco que a escola assumiu? Agora, se o julgamento é comparativo, então precisamos pensar em outras questões. Um carro alegórico tinha doze esculturas gigantes e outro tinha apenas uma. Como comparar isso? Um utilizou muito material, outro utilizou menos. Mas e se os dois estão dentro da proposta do enredo? E se os dois estão falando de luxo? Como essa comparação será feita? Se eu preciso comparar, quando o jurado dá a nota? Ele teria que assistir a todas as escolas, todas as noites, para depois conseguir definir uma avaliação? É muito fácil falar do jurado, mas eu preciso ser sincero com as minhas limitações. Para mim, o jurado é como alguém avaliando perfumes. Se você entra em um lugar e experimenta sete fragrâncias diferentes, será que consegue lembrar exatamente a diferença entre todas elas? É a mesma coisa com o jurado. Ele assiste a sete escolas e precisa avaliar todas. Se ele não dá a nota imediatamente, ele precisa guardar sete experiências diferentes para depois decidir qual foi melhor. E aí vem outra questão: tudo vale 10? Ou aquilo que ele gostou mais recebe 10? Esse é o conceito de um carnaval comparativo. Ou então é um carnaval de conferência, que muitas vezes é o que mais aparece hoje, quando as pessoas falam que o carnaval perdeu a essência, que está frio. Se for conferência, eu vou contar grade, vou contar se aquilo cantou ou não, vou contar se aquilo caiu ou não, porque o jurado está ali apenas para conferir. Então, acho que essa conversa nasce um pouco antes. Enquanto não ficar claro se vai ser conferência, espetáculo ou comparação, ou até mesmo se haverá uma divisão entre esses modelos, fica muito difícil. É preciso definir qual é o caminho”.

Na posição de diretor de harmonia, que legado você gostaria de deixar para a Dragões da Real e para o carnaval de São Paulo?

Rogério Félix: “Muito difícil. Até porque eu teria que nascer mais umas três vezes para conseguir ser um cara que deixa um legado. Existem muitos outros nomes que deixaram marcas importantes no carnaval. Eu não sei se já teria condições de falar que esse seria o legado do Rogério, porque eu acho que ainda tenho muito para fazer. Ainda tenho muitos títulos para conquistar. Infelizmente, algumas pessoas medem o trabalho apenas por títulos, mas também existe o respeito. Eu acredito que a maior força que talvez eu queira deixar é fazer parte de uma família de harmonias que respeitem o componente, que deem oportunidade para as pessoas que estão começando, que acreditem na comunidade e façam por eles. O diretor de harmonia, da forma como eu acredito, é aquele que faz a escola crescer independentemente do resultado. A cada ano, a escola precisa estar maior. E quando eu falo maior, não é apenas em tamanho. É uma escola com componentes mais apaixonados, dando mais oportunidades para as pessoas, reformando sua quadra, trazendo novidades e fortalecendo a comunidade. Às vezes, isso não parece ser uma função do diretor de harmonia, mas é aquele trabalho de chão de fábrica, daquele profissional que está brigando pelo seu povo. Hoje, poucos departamentos brigam pela nossa cultura. A nossa cultura corre o risco de, em alguns momentos, escapar. A modernidade pode chegar, e ela precisa chegar. O que não pode acontecer é nós não termos braços suficientes para manter a nossa cultura enquanto a modernidade acabar engolindo tudo. Daqui a pouco, podemos mudar 100% o carnaval. Então, aquele diretor de harmonia que estiver cuidando da sua equipe, dos seus componentes e da sua escola, respeitando as pessoas e sendo apaixonado pelo que faz, vai fazer diferença. O diretor de harmonia precisa ser o cara mais apaixonado da escola, aquele que ensina a paixão pelo seu pavilhão”.