Com mais de 45 anos dedicados a Unidos de Padre Miguel, a história de Oscar de Lima Filho se confunde com a da própria vermelha e branca da Vila Vintém. O início dessa relação ocorreu ainda na segunda metade dos anos de 1970, quando o então jovem garoto começou a frequentar a escola. A primeira vez em um desfile aconteceria pouco tempo depois, no Carnaval de 1978, às vésperas de completar 15 anos. Na ocasião, ele já estreou como ritmista, tocando repique. Hoje, aos 60 anos, Dinho, como é mais conhecido, comanda a bateria “Guerreiros” há mais de uma década. Mesmo possuindo passagens por outras agremiações, como Portela, Mocidade, Grande Rio, Paraíso do Tuiuti e Cubango, o mestre nunca escondeu o seu caso de amor com o Boi Vermelho e nem abriu mão de estar presente, independente da função que estivesse desempenhando.

Foto: Allan Duffes/CARNAVALESCO

Em entrevista concedida para a reportagem do site CARNAVALESCO, Dinho recordou com detalhes alguns dos momentos marcantes dessa trajetória de décadas e analisou o atual momento das baterias na folia carioca. Ainda no bate-papo, ele também comentou sobre o sonho de desfilar no Grupo Especial com a Unidos de Padre Miguel. Nos últimos anos, a agremiação vive uma verdadeira saga em busca desse acesso para elite e já bateu na trave por diversas vezes. Desde 2015, a vermelha e branca acumula cinco vice-campeonatos na atual Série Ouro. Para finalmente alcançar o tão sonhado título, o Boi Vermelho aposta suas fichas em 2024 no enredo “O Redentor do Sertão”, desenvolvido pelos carnavalescos Edson Pereira e Lucas Milato, que parte da figura de Padre Cícero para fazer uma viagem pelo imaginário místico popular do povo sertanejo. Na ocasião, a escola será a quinta a se apresentar na Marquês de Sapucaí, no sábado de Carnaval, dia 10 de fevereiro.

Como você começou no carnaval? E como surgiu a sua paixão pela festa e pelo samba?

“Para saber como surgiu essa minha ligação eu teria que perguntar para minha mãe. Eu nasci no sábado de Carnaval. Além disso, sou filho único e a minha mãe sempre gostou muito de Carnaval também, então fui criado ali dentro da Vila Vintém com vários blocos, Padre Miguel tinha muitos naquela época. Em 1976, eu fui para o Bloco dos Amores e foi onde eu comecei a fazer um barulho, gostar de um repique. Já em 1978 foi meu primeiro desfile, que aí eu já tinha ido para Unidos Padre Miguel, que na época era Boi Vermelho, e o enredo, se eu não me engano, era ‘Festa de Iemanjá’. Depois, em 1980, fui para Portela, porque o Mug me levou, já tocava repique, e fiquei lá até 1994. Neste mesmo período, ali anos 1980 e 1990, fui para o Clube do Samba, que era o bloco do João Nogueira, onde fui mestre por dez anos. E, ao longo dessa trajetória, eu continuava no Boi Vermelho, que depois passou a ser a UPM. Mais para frente, eu fui segundo mestre com o Coé na Mocidade, estreei sendo campeão lá em 1996, e segui em 1997 e 1998. Para 1999, fui trabalhar com o Jorjão e em seguida fui trabalhar com o mestre Paulinho Botelho na Portela. Uma curiosidade é que fui o primeiro repique da Portela na primeira vez que a bateria da escola fez bossa. Lembro até hoje, eu e Gerson fomos os repiques. Na verdade, éramos três e teve o falecimento de um dos repiques, por isso ficou só nós dois. Na sequência, ainda passei por várias escolas. Fui diretor na Tuiuti, fui diretor na Grande Rio, fui mestre no Cubango, mestre no Sossego, mas sempre sem deixar a UPM. Quando foi em 2011, eu tinha feito a Sossego no então Grupo B, e o Cícero Costa, diretor de Carnaval da Unidos de Padre Miguel, me procurou e pediu ajuda porque estava sem mestre de bateria. Eu já tinha renovado meu contrato com a Sossego, então fui lá conversar com o presidente da escola, que era o Folha na época, e ele autorizou eu continuar na UPM, porque, mesmo sem ser mestre, já fazia parte da bateria de lá. No período do Coé na UPM, por exemplo, eu completava a bateria com meu pessoal do Cubango, junto com o Dudu também. Enfim, foi assim que, a partir do Carnaval de 2012, assumi o comando. Neste primeiro ano, desfilamos no grupo B e, graças a Deus, as notas foram felizes. No ano seguinte, teve a junção do grupo B com o A, formando a Série A, hoje Série Ouro, e desde então seguimos”.

Foto: Nelson Malfacini/CARNAVALESCO

E a bateria entrou como na sua vida?

“Primeiramente, eu sou espírita. Sou ogã confirmado desde os 13 anos. O meu pai carnal, falecido, tinha um barracão, nós começamos na Umbanda e depois mudamos para Angola. E, todo macumbeiro é sambista, pelo menos a grande maioria é, e como muitos ogãs são de bateria, daí surgiu meu interesse. Eu já tinha aquele dom de barracão, criado dentro de um, aí veio o samba, Padre Miguel sempre teve muito bloco, além da Mocidade e da Unidos de Padre Miguel, então eu respirava o samba, essa é a realidade. Minha mãe também me levava para Mocidade naquela época e assim começou minha história. O engraçado é que meu primeiro desfile no Especial, fora a Portela, acabou sendo com o Império Serrano, onde eu fui campeão em 1982, no ‘Bum bum Paticumbum Prugurundum’. Na ocasião, eu tocava no Bola Preta, junto com o pessoal do Clube do Samba, e a gente terminou um show de madrugada quando um dos caras teve a ideia da gente ir lá no Império pegar uma fantasia para desfilar e tal. Lembro que era o mestre Natalino na época. Aí, ele de fato deu fantasia para todo mundo. A partir daí é que tomei gosto mesmo, já estava na Portela, e estou nisso até hoje”.

Como e quando foi sua entrada na Unidos de Padre Miguel?

“O começo da minha história com a UPM foi na segunda metade dos anos 1970. Como eu falei, tinha o Bloco dos Amores e todo mundo que estava lá ia também para a Unidos. Eu era garoto, resolvi pegar esse embalo, cheguei lá e gostei. Era o mestre Djalma Nicolau na época, que me tratou super bem. Fui ficando, pegando jeito com o repique, que eu já tocava um pouquinho, fui me aperfeiçoando e dali pra cá só teve um ano que eu não desfilei na UPM. Só em 2010 e porque eu não estava no Brasil. Todos os outros anos eu estive junto com escola. E posso dizer que já fiz de tudo ali, desfilei em tudo quanto é lugar além da bateria. Já empurrei carro na Avenida, tirei e botei carro no barranco, tirei concreto. Rodei um bocado por aí, já trabalhei bastante em diferentes escolas e funções, mas a UPM sempre foi a minha casa. Hoje, eu tenho um projeto muito legal na escola, em que estou com cem alunos, além disso a minha bateria foi criada por mim… Lembro que quando eu assumi lá, realmente não tinha ritmista, era pessoal sempre da Mocidade. Então, eu fui criando devagarinho, fazendo projeto, aí tiro dez daqui, quinze dali em um ano, dez no outro, quinze em um novo projeto, e assim fui montando a minha bateria. Graças a Deus, hoje ela é de fácil identificação, porque na realidade gosto muito de surdo de marcação, gosto muito de definição de afinação, então trabalho bem isso aí. Também eu tenho aquele trabalho árduo de ter uma bateria diferente da Mocidade, mesmo estando só a 50 metros de distância. Meus amigos me perguntam: ‘Como é que você consegue?’. Falo sempre que é conversando com carinho, tratando todo mundo com respeito. O ritmista tem que ser bem tratado, afinal ele sai de dentro de casa, com todos os problemas, reserva um tempo da vida dele para ensaiar, e ainda vai chegar na quadra e ser maltratado? Não, tem que ser bem tratado, conforme eu sempre fui. Eu aprendi muito com as experiências que tive trabalhando com grandes mestres. Obviamente, a gente nunca vai ser perfeito, mas eu peguei um cadinho de cada um: um pouquinho de Jorjão, peguei um pouquinho de Coé, peguei um pouquinho de Bira, um pouquinho de Paulo Botelho, um pouquinho de Odilon… Então, fui catando um pouquinho de cada um deles e quando chegou a minha vez pude aplicar o que absorvi. Graças a Deus, estou há mais de uma década como mestre na UPM e acho que hoje eu sou o mais antigo à frente de uma bateria na Série Ouro. Quem tem mais tempo, na verdade, é o Chuvisco, que é meu amigo, mas como teve um ano que ele saiu da Estácio e veio para Vila, eu sou o que está há mais tempo de forma consecutiva. Outra coisa é que posso dizer com orgulho que não tenho problema com ninguém, sou amigo de todo mundo, ajudo quem precisa, já lancei vários… Aliás, tem vários mestres que estão em escolas na Série Ouro que passaram por mim, que foram indicação minha. Basicamente, é isso, é vida que segue e só peço a Deus para que um dia eu consiga chegar no Especial com a minha escola”.

A Unidos de Padre Miguel usa o slogan “aqui se aprende a amar o samba”. É diferente estar na UPM?

“De fato é diferente. Quem nunca foi lá, quando vai pela primeira vez já sai amando o samba e amando a UPM. Essa é a realidade. A Unidos de Padre Miguel é uma família. Todos ali, mais de duas mil pessoas, se conhecem. A gente vive e respira a escola, todo dia, o dia a dia, todo mundo. Além disso, sempre damos continuidade um ao outro, em todos os seguimento. Então, quem chega ali aprende, fica encantado e quer voltar. Por isso, nada mais justo e verdadeiro que este slogan do ‘aqui se aprende a amar o samba’”.

A escola gosta muito de enredos afros. Isso ajuda a bateria?

“Na realidade, como tenho essa minha trajetória no Carnaval, um longo tempo na escola, para mim acaba sendo um pouco indiferente. Quando é afro é bom, quando é um autoral do carnavalesco é bom. Sempre brinco com os meus garotos lá, meus diretores, meus ritmistas, que para gente não existe samba ruim, temos que tocar qualquer um. Pelo contrário, o que a gente acha que não é bom, para gente é melhor, pois nos dedicamos mais para fazer esse ficar bom. Na minha visão, o que faz um enredo dar certo, além de um bom samba, é uma boa sinopse, uma boa interpretação do carnavalesco, um visual legal, um bom entendimento do que é proposto. Então, o ideal é fazer algo que seja confortável para escola. Como a UPM já tem esse lado do afro muito forte, por ser uma comunidade que é muito ligada a cultura negra, a religião de matriz africana, a gente aposta bastante nesta temática. É a mesma coisa com o Nordeste, que gente gosta muito e que já estamos vindo de novo agora em 2024. Por tudo isso, é até mais gostoso pra você fazer uma bossa, fazer uma coisinha a mais, que mexe com o público, nestes casos. Mesmo assim, volto a dizer que, particularmente, não tem tanta diferença não, mas a gente bota bola pra frente e vamos embora”.

O fato do enredo de 2024 ter o Nordeste facilita para pensar em paradinhas?

“Facilita sim, porém tem que se existir um certo cuidado. No meu entendimento hoje, 2023 para 2024, o Nordeste foi uma temática de enredo muito badalada por outras escolas nos últimos anos. Então, a gente tem que ter muita atenção na hora de criar uma bossa, uma paradinha, porque você não tem muito para onde correr e pode facilmente cair na repetição, no lugar comum. Afinal, xaxado é xaxado, baião é baião, não tem muito o que inovar. Você tem que dar uma leitura, uma identificação para o jurado que é aquilo, porém não vai ser 100% aquilo. Por quê? Porque é muito usado, então você fica um pouco restrito na hora das execuções. Portanto, tem que se ter muito zelo, muita dedicação na hora de criação. Até por isso que a gente precisa de um bom samba, porque ele te oferece muito, te dá as oportunidades de bossa, por exemplo. E é o que está acontecendo na UPM para 2024. Temos grandes obras e a bateria está muito feliz pelo que está ouvindo na disputa”.

Hoje qual é o principal naipe da sua bateria e por qual motivo?

“O surdo de marcação hoje é o principal naipe da minha bateria. Mas, para explicar o porquê, preciso voltar um pouco no tempo. Quando fui parar na Portela, fiquei assustado com o que vi, com a quantidade de surdos, isso em 1980. Eram 18 surdos de primeira com tamanho de 29 polegadas, 16 surdos de segunda com 26 polegadas e 22 terceiras de 22 polegadas. Então a gente sentia a pulsação, aquilo firme, que você escutava de longe. Por isso, quando eu fui para a UPM, a primeira coisa que eu fiz foi trazer essa afinação baixa, com esse surdo 26” que lá era 24”. Mudei tudo que era feito antes de mim e passei a trabalhar com 26”, 22” e 18”. Implantei essa afinação, enquadrei ali na Unidos de Padre Miguel e o ritmista assimilou, aceitou bem aquilo ali. Por isso, hoje o meu forte na Unidos de Padre Miguel é a marcação. Não tem problema nenhum, não tenho vaga para ninguém. Minha marcação é fechada, assim como a minha terceira, o meu tamborim, o meu chocalho, o meu agogô… Só tenho vaga para caixa de guerra, porque eu faço projeto, trabalhando com a casa. É tudo nata, prata da UPM”.

Como é a conversa com os carnavalescos sobre a fantasia da bateria?

“Costumo sim fazer algumas exigências. Hoje, você tem que vestir uma roupa. Se você fantasiar demais a bateria, você às vezes pode limitar o desenvolvimento, a performance do ritmista. Então, costumo conversar muito com os carnavalescos e graças a Deus eu nunca tive problema, pois sempre me apresentaram fantasias flexíveis, que permitem o ritmista desenvolver bem. Atualmente, converso muito com o Edson, com o Milato. Sou amigo para caramba dos dois, acompanho a confecção, o dia a dia da roupa, até porque é feito na própria escola. Todos os anos, a primeira roupa que sai do ateliê da UPM é da bateria. Quando chega dezembro, eu já estou com a minha roupa, eles me entregam tudo, já guardo, boto a etiqueta… Volto a dizer, nunca tive problema com carnavalesco em questão de roupa, mas sempre peço para não colocar nada de cabeça, nada de costeiro, porque isso só atrapalha”.

E como ritmista, você teve algum problema com fantasia? Alguma em específico te marcou negativamente?

“Teve um Carnaval na Portela, se eu não me engano foi em 1989, que a fantasia machucava muito. Eu era repique e a gente tinha uma caravela enorme na cabeça. Ela pesava tanto que se você virasse para o lado não voltava. Esse foi um Carnaval que negativamente me marcou. Um outro, que não tem nada haver com problema com fantasia, mas que também ficou na história e que aquilo ali foi um aprendizado para mim foi o Carnaval do Cubango 2005. Era Jorjão o mestre. A gente ficou ensaiando o ano inteiro, tudo saindo prefeito nos ensaios, mas quando chegamos na Sapucaí deu tudo errado. Absolutamente nada deu certo naquele dia. A gente entrou na Avenida errando, saímos errando. Como o Jorjão era um mestre renomado e tinha uma postura muito boa, chegou na quarta-feira de Cinzas e a escola só levou nota 10 em bateria. No ano seguinte, eu assumi o comando. Era o meu primeiro ano como mestre de bateria e pensei: ‘Meu Deus do Céu que eu vou fazer? A gente passou todo errado e foi 10, não posso ter 9,9’. Então, comecei trabalhar como se não houvesse amanhã. Graças a Deus, também só tive nota máxima em 2006”.

Hoje o seu trabalho é mais valorizado no mundo do samba. Você percebe essa mudança? E como aconteceu?

“Teve uma homenagem que eu recebi do mundo do samba que vai ficar marcada para o resto da vida. No Carnaval, existem várias premiações que reconhecem quando você faz um bom trabalho. Porém, a valorização que tive é muito maior do que um prêmio. É algo que mestre de bateria nenhum teve além de mim. Em 2019, eu fui a capa do CD da Série A, hoje Série Ouro. Não tem reconhecimento maior pela minha trajetória, pelo que eu já fiz, pelo tempo que eu tenho de bateria, de samba. Isso me marcou de uma tal forma que está guardado e vou carregar no meu coração eternamente. Não é para qualquer um ser o primeiro mestre de bateria a ser capa de CD ou de disco. Foi um baita presente que me deram e sou muito feliz por isso. E quanto à valorização pelos meus pares, foi com muito trabalho. As pessoas precisaram começar a entender que a Unidos de Padre Miguel, que a bateria ‘Guerreiros’, não é ‘Não Existe Mais Quente’, não é a bateria da Mocidade. Acho que comecei a ser valorizado quando as pessoas passaram a enxergar que o meu trabalho era morar em Padre Miguel, ser colado com a Mocidade, mas ter um outro estilo. Então, isso foi valorizando, as pessoas foram percebendo a minha luta. Não podia passar na Avenida com a bateria da Mocidade, tinha que passar com a bateria da UPM. Isso me deu muito estímulo para trabalhar e para os meus diretores também. Aliás, os garotos realmente são muito bons, vou crescendo e eles vão crescendo juntos. E eu trago sempre de dentro da própria bateria. Às vezes, tem gente que critica que eu coloquei o fulano como diretor e ele mora lá em Nilópolis, mas se esquecem que o cara está há dez anos desfilando comigo. Não tenho diretor nenhum que chegou ontem, que chegou agora. Todos estão desde o começo”.

Estamos em uma fase de alto nível das baterias. Muitos alegam que são os mestres jovens. O que você pensa sobre os trabalhos de hoje e sobre o futuro das baterias?

“A renovação é uma coisa normal. Desde lá de trás, sempre ocorreram ciclos que, quando próximos do fim, geraram mudanças. Foi em uma dessas que eu fui chegando e depois já veio toda uma nova geração. Particularmente, gosto disso, dessa alternância, acho perfeito. Para quem tem mais tempo do que eles, como é o meu caso hoje, isso me puxa, não me permite acomodar. Eles aprenderam muita coisa comigo e atualmente quem aprende sou eu. A gente tem que olhar para frente e não ficar preso em um passado. Portanto, ver o Luygui, o Laion, o Vitinho, o Paulinho Steves, que foram meus diretores na Unidos de Padre Miguel, comandando suas próprias baterias hoje em dia, só me enche de orgulho. Eu ajudei eles chegarem aonde chegaram, por isso que a gente tem um carinho mútuo. Vi o crescimento deles e bato palmas, porque sei que fiz parte disso. Além dos nomes que já citei, o Celsinho do Repique, que hoje comanda a bateria da Sereno, foi eu que lancei também. Isso é gratificante. Essa qualidade das baterias, a ousadia, venho acompanhando. Até brinco com eles falando para terem cuidado que o velhinho está na cola, que se derem mole vou engolindo. Renovação faz parte de tudo na vida, qualquer lugar, qualquer empresa, passa por isso. Tenho um filho de seis anos e ele rege bateria, já sei que é o futuro. O papai vai embora, mas ele vai continuar e dar prosseguimento ao legado. Então, repito: bato palmas mesmo para esses meninos que estão aí hoje. Acompanho eles e tudo que precisarem, sabem que podem contar comigo”.

Qual é o tamanho da responsabilidade que você tem em buscar as notas máxima, já que a UPM pensa no título?

“A cobrança existe no dia a dia, mesmo para quem não busca o campeonato, pelo menos este é o meu pensamento. Escola de samba é um conjunto de segmentos, então, obviamente, se todos tirarem a nota máxima é perfeito, mas se eu tiver que tirar um 9,8 e a minha escola ser campeã, que assim seja. A minha bateria não toca para jurado, ela toca para a comunidade. Às vezes, o jurado julga tendo como base, como critério, o que ele gosta, o que ele quer, o que ele acha. Mas eu tenho que sair bem da minha comunidade, ela é quem tem que estar alegre com o meu trabalho. Se a minha direção estiver satisfeita, é o que basta. Então, não faço nada além daquilo que a regra me impôs. Busco sempre as notas, trabalho e ensaio muito durante todo o ano. Só ensaio de rua, a gente faz dois por semana e sempre com a bateria toda, completa, os próprios ritmistas fazem questão disso. Agora, hoje está bem mais fácil conseguir a nota máxima. Antes, era muito pior. Atualmente, é tudo equalizado, na minha época não tinha nada disso. Quando eu comecei, era um carro da pamonha e a gente tinha que tocar de qualquer jeito. Hoje, você tem todo um carinho com afinação. Além disso, às vezes, muitos jurados não entendiam que mesmo sendo de Padre Miguel eu podia ter a minha caixa embaixo. Há uns anos, encontrei um desses jurados na Avenida que tentou justificar uma cobrança para que eu tocasse no estilo da Mocidade por eu ser de Padre Miguel. Então, eu apanhei com isso também, porém já não apanho mais. Eles entenderam que eu só tenho o nome de Padre Miguel, mas o ritmo é Unidos de Padre Miguel”.

Como é trabalhar com um cantor tão experiente como o Bruno Ribas?

“Primeiro que o Bruno Ribas é meu amigo particular. Segundo, há anos que eu já queria trazer ele para escola. Terceiro, ele é Padre Miguel. E quarto, é um excelente profissional, muito fácil de trabalhar. Então, foi um fechamento perfeito. Como eu disse, antes mesmo de acontecer, a gente já conversava sobre a possibilidade de trabalharmos juntos e, graças a Deus, tivemos essa oportunidade no Carnaval passado. Foi um casamento perfeito entre bateria, carro de som, cordas, apoio, e vai ser melhor ainda em 2024. A gente está sempre unidos, conversando, trocando ideia. Sou um cara que não tenho vaidade. Acho que harmonia, bateria e carro de som tem que caminhar lado a lado, juntinhos. Isso é a alma da escola. Se esses três quesitos, que pra mim são quesitos, trabalharem juntos, em acordo, combinado, sem vaidade, ninguém se achando melhor do que ninguém, não tem como dar errado. A bandeira que tem que brilhar é da UPM”.