Foi com sangue nos olhos, assim se pode dizer, que os componentes da Academia realizaram o último ensaio ao ar livre do ano, na noite de quinta-feira, em preparação para o próximo carnaval. Na rua, agora só em 2023, mas na quadra a escola ainda terá compromissos. O treino foi realizado na tradicional Rua Maxwell, próximo a quadra e teve duração de uma hora e dez minutos. Neste teste realizado pela Vermelha e Branca do Andaraí, além da harmonia, o destaque ficou para o casal de mestre-sala e porta-bandeira, Sidclei e Marcella, e a bateria dos mestres Guilherme e Gustavo. O andamento casou muito bem com o samba. A “Furiosa” ajudou a manter a comunidade sempre alegre e cantante. No próximo carnaval o Salgueiro vai ser a quinta escola a desfilar na primeira noite do Grupo Especial com o enredo “Delírios de um paraíso vermelho”, que está sendo desenvolvido pelo carnavalesco Edson Pereira.

O ensaio começou por volta das 21h e desde o primeiro minuto até o final já próximo da quadra do Salgueiro, os foliões cantaram o samba com muita intensidade e de forma uniforme, não tendo nenhum trecho que se possa destacar em relação aos outros, o samba todo brilhou na voz da comunidade. Outro dado importante a se destacar foi o contingente de pessoas participando, ainda que faltasse algumas alas, mas para um ensaio de rua em dezembro o número de componentes foi bem satisfatório e impressionou. O público que compareceu para assistir ao ensaio do Salgueiro lotou as calçadas e não saiu até o final do desfile. O diretor de carnaval Julinho Fonseca ressaltou a força da comunidade e falou sobre como as críticas que o samba e o enredo têm recebido, impulsionou a vontade da escola de fazer melhor ainda.

“É o nosso terceiro ensaio de rua. Acho que o ponto positivo foi a nossa comunidade, o nosso chão, o Salgueiro vem sendo massacrado sem necessidade. Estão julgando sem ver, sem conhecer, sem querer entender o lance do nosso enredo. Está aí mais uma mostra que a comunidade abraçou, estão gritando o samba, a evolução da escola está muito boa, cada ensaio a gente vem melhorando cada dia mais”, avaliou Julinho.

O diretor também apontou o quesito que acredita que a escola ainda pode evoluir mais nos próximos ensaios quando vier janeiro.

“Precisamos aprimorar mais a evolução. A escola está vindo com uma pegada diferente, é um Salgueiro renovado, com outra roupagem, com muita coisa diferente que há muito tempo não passava no Salgueiro e a cada dia a gente vem aprimorando. Tem muita ala que ainda não veio, e temos os ensaios fora daqui. E garanto como diretor de carnaval do Salgueiro, vem muitas surpresas, o desfile vai surpreender a todo mundo”, aposta o diretor.

Harmonia e samba-enredo

Como já colocado anteriormente, o canto da escola foi o principal destaque deste terceiro ensaio de rua realizado pela Academia do Samba. E para este resultado, além da vontade da comunidade, é importante destacar o trabalho da equipe de harmonia da escola que a todo momento “inflamava” os desfilantes a berrar o samba e alguns até pulavam para trazer mais energia para o povo. Não podendo também esquecer o trabalho do carro de som comandado por Emerson Dias que, mais uma vez, deu um show na condução do samba. Ele mostrou também muita energia para mexer com os componentes com suas “loucuras do bem”, como subir e cantar na frente do caminhão de som durante boa parte do ensaio. O intérprete foi outro a comentar as críticas que o Salgueiro vem recebendo neste pré-carnaval e como a escola tem lidado com essa situação.

“Eu acho que hoje foi com a alma. Essa coisa de pré julgar o samba antes do acontecimento é prejudicial para a obra, para a escola, para qualquer samba em qualquer lugar. O samba do Salgueiro rotularam como o pior. Em várias enquetes. Mas a questão é que o samba é feito para o quê? É concebido para desfile. E, a gente está vendo aqui na Rua Maxwell a coisa acontecer, a gente vê na quadra a coisa acontecer, a gente viu no mini desfile na Cidade do Samba a coisa acontecer. O Salgueiro está ferido, o salgueirense está cantando o samba com a alma, com vontade, brigando, as pessoas evoluindo, o andamento da bateria sensacional. É o Salgueiro pronto para brigar com certeza pelo título, o Salgueiro é gigante. Tudo isso é um combustível para a gente ir para a Avenida com mais vontade ainda”, acredita o cantor.

Mestre-sala e porta-bandeira

Desde 2014 dançando juntos na Academia do Samba, Sidclei e Marcella estão com certeza entre as maiores duplas de mestre-sala e porta-bandeira do carnaval carioca. Mesmo com alguns pontos mais escuros da Rua Maxwell a dupla não se poupou e neste ensaio, tendo também a responsabilidade de vir abrindo a escola, já que a comissão de frente não participou deste treino, o casal mostrou um pouco do que pretende levar para a Sapucaí, intercalando leveza e intensidade nos movimentos, e mostrando o entrosamento já conhecido e a graciosidade nos gestos. A se destacar também, o bonito vestido de Marcella, com listras em vermelho e branco que quando a porta-bandeira girava apresentavam um bonito efeito.

Bateria

A parceria dos irmãos Guilherme e Gustavo, à frente da “Furiosa”, não tem deixado saudades na comunidade em relação a outros grandes mestres que comandaram os ritmistas do Salgueiro. Neste ensaio trabalharam uma bossa e mantiveram o foco no trabalho de andamento que está muito satisfatório para que o samba de 2023 possa ter uma levada gostosa, sem correria e sem ficar arrastado. A dupla veio a frente da bateria com muita tranquilidade se revezando na condução dos ritmistas e hora ou outra, entrando na bateria para acertar alguma coisa mais de perto. Mestre Guilherme explicou como a dupla está realizando o trabalho com a “Furiosa” neste momento de preparação para o carnaval.

“A gente está passando ainda na verdade. Este ensaio de rua para gente é um ensaio mesmo. A gente passa tudo, esquenta, vai passando do jeito que dá, porque a gente não está mais tendo ensaio na quadra. O ensaio é isso, para acertar, para errar, e para podermos nos preparar para o dia do desfile. A gente está bem satisfeito com o andamento do trabalho, vamos marcar ensaios extras até o carnaval, para limpar tudo certinho, porque aqui na rua a gente não tem essa possibilidade. Porque tem muita gente filmando, então não é legal a gente aparecer em vídeo errando, porque acabamos sendo pré-julgados. Mas a gente está no caminho certo. Estamos trabalhando a princípio com uma bossa, mas a ideia são três. E o andamento pelo samba, a gente está botando um pouquinho mais para trás. A gente geralmente desfila com 147, 148 BPM (batidas por minuto), que é o que eu gosto também. Mas a gente está chegando mais ou menos em 145 BPM, a média, pois nunca é cravado”, esclarece Guilherme.

Mestre Gustavo fez uma avaliação do ensaio e colocou o entrosamento dos ritmistas como grande trunfo para um grande desfile em 2023. “Está tudo muito engraçado como eu costumo dizer, porque a gente acabou um carnaval já começando em outro. Ficamos com praticamente 100% da mesma bateria que nós tínhamos no último carnaval. Então, a galera está entrosada, gente que tem uma convivência muito grande há muitos anos ali no Salgueiro. Chegou o samba novo e a gente já começou a passar algumas coisas. A gente junta esse entrosamento com esse ritmo da bateria do Salgueiro e por isso fizemos um belo ensaio e estamos caminhando para fazer um belo desfile”, acredita Gustavo Santos.

Evolução

Com um contingente já relevante de participantes no ensaio, foi positivo para a escola começar a trabalhar melhor a evolução. E ainda que se busque um ritmo perfeito para esta evolução, o Salgueiro passou sem grandes sustos. Não apresentou buracos e ainda que houvesse um número bem significativo de componentes por ala, não se notou nenhum momento de alas se embolando. Talvez, a atenção maior esteja nessa arrumação das alas, tomando o cuidado para não embolar, mas nada preocupante. O melhor a se destacar foi a alegria da comunidade evoluindo, com espontaneidade e muita gente, inclusive, se soltando e mostrando samba no pé. As últimas aulas trouxeram além de flâmulas nas cores da escola, alguns balões iluminados que fizeram um bonito efeito. Também foi treinado o momento de entrada da bateria no segundo recuo com a escola realizando a manobra de forma satisfatória.

Outros destaques

A rainha das rainhas, Viviane Araujo, não faltou ao treino, deu um show de simpatia, samba no pé, e fez até coreografia com a ala de chocalhos da “Furiosa”. O vice-presidente do Salgueiro, Joaquim Cruz, veio à frente da escola durante a apresentação. Outro que também participou do treino foi o carnavalesco Edson Pereira. Completamente dentro da dinâmica de ano novo neste último ensaio de rua de 2022, o intérprete Emerson Dias, antes do esquenta e da obra de 2023, cantou em ritmo de samba a já conhecida música de fim de ano “Adeus ano velho”.