Por Will Ferreira e fotos de Fábio Martins

Pela primeira vez no Grupo de Acesso I na história, a Dom Bosco buscou uma apresentação animada e correta, evitando erros, para defender o enredo “Um causo arretado de um povo pra lá de valente…O cordel de um nordeste independente”, idealizado pelo carnavalesco Danilo Dantas. Primeira agremiação do domingo de carnaval (11 de fevereiro), a instituição da Zona Leste teve uma grande noite do Casal de Mestre-Sala e Porta-Bandeira e um Enredo bastante criativo para inverter a lógica xenofóbica contra nordestinos: e se fossem eles que se separassem do Brasil? A coesão em um desfile uniforme para minimizar desafios também foi um objetivo do grêmio.

Comissão de Frente 

Intitulada “Trupe mambembe nordestina” e coreografada por Luana Polleti, o segmento teve desempenho bastante correto ao longo de toda a exibição. Com a utilização de um box móvel (de onde os componentes retiravam itens que remetem ao Nordeste, como uma sombrinha de frevo; e um imenso lençol, onde estava escrito “Cordel do Nordeste Independente”), diversos bailarinos interagiam com roupas do mesmo modelo, mas de cores diferentes. Alguns outros integrantes tinham mais destaque de acordo com a coreografia – como, por exemplo, um personagem fantasiado de cangaceiro. Claramente buscando a funcionalidade, o segmento não teve erros de execução e apresentou bem o enredo – principal objetivo de uma comissão de frente.

Mestre-Sala e Porta-Bandeira

Sofrendo com muita chuva no primeiro ensaio técnico e com fortes ventos no segundo, Leonardo Henrique e Mariana Vieira tiraram de letra uma noite com condições climáticas bastante favoráveis para o quesito – com pista seca e quase sem rajadas de ar. Nos quatro módulos, ambos tiveram boa condução e sustentação do pavilhão, sem erros de execução notados e com todos os balizamentos obrigatórios cumpridos.

Enredo

Para defender a riqueza social e cultural do Nordeste, a Dom Bosco propõe uma reflexão: e se a região conhecida pelas belas praias e pela alegria se tornasse independente do atual território que ocupa? Para a agremiação, quem sairia perdendo seria o que hoje é conhecido como Brasil. Inspirado na música “Nordeste Independente”, composta por Braulio Tavares e Ivanildo Villa e que teve Elba Ramalho como grande intérprete, o fio condutor é o sonho de um garoto que dormiu após ofensas aos nordestinos como um todo – e sonha com o quanto a região é importante para os brasileiros em geral. Ele, entretanto, acorda em uma festa junina, em meio a uma romaria, com nordestinos e pessoas de todas as regiões possíveis unidos – dando o mote para a união que o país tanto precisa.

Alegorias

Para uma escola que está abrindo uma noite de desfiles, os carros da Dom Bosco vieram bastante imponentes. O primeiro deles, “Portal do Agreste Nordeste Independente”, com a mascote da escola e uma série de cactos, era bastante alto e continha três chassis deixando clara a motivação da agremiação – aqui, entretanto, um dos soldados não movimentou a perna esquerda. No segundo, “Palácio dos Três Poderes do Sertão”, uma brincadeira com a política brasileira: o presidente do Nordeste Independente seria Luiz Gonzaga, dos mais famosos cantores da história do Brasil e nascido em Exu, cidade pernambucana na divisa com o Ceará. Na alegoria, o intérprete estava com uma sanfona, roupa de cangaceiro e em uma espécie de construção bastante imponente. No terceiro, “Auto da União – Fé e celebração”, um encontro ecumênico entre Nossa Senhora Aparecida (padroeira do Brasil) e Padre Cícero (grande referência da religiosidade nordestina) selava o retorno das relações entre o país e a região “reais”. Também vale pontuar o tripé “Lampião Herói ou Vilão”, relembrando o histórico Virgulino Ferreira da Silva, rei do cangaço.

Fantasias

Ao longo de toda a exibição, a agremiação alternava alas com materiais mais nobres (como a ala 03, “Moda Nordestina – vestidos a caráter”, inteiramente representada como cangaceira) com outras de tecidos mais em conta – como a ala 07, “Verde das matas, sementes e das folhas”. Ao longo de todo o desfile, entretanto, não foram observados erros de acabamento, tampouco de execução. É importante, também, pontuar que a escala cromática foi bastante adequada, sem cansar de tons ou cores em específico.

Harmonia

A Dom Bosco está localizada no bairro de Itaquera, na Zona Leste de São Paulo. E, assim como é característico em agremiações de tal região, a escola teve bom nível de canto no geral. Havia, entretanto, oscilações. Os ritmistas da bateria, por exemplo, pouco colaboravam para que a canção ecoasse no Anhembi. Já as duas últimas alas do desfile, a 15 (“Patrimônios Culturais”) e a 16 (“Festa Junina e o Povo Festeiro”), estavam bastante animadas e cantavam em volume bastante considerável.

Samba-enredo

Composto por Turko, Maradona, Rafa do Cavaco, Fábio Souza e Diogo Souza, a obra é elogiada por boa parte do carnaval paulistano desde quando foi apresentada. Bastante leve e com algumas expressões típicas do Nordeste (como “pra mode a gente prosear” e “Padim Ciço”), a obra busca contar o sonho do menino (vide o quesito “Enredo”) de maneira lúdica e bastante idílica para combinar com o sonhador garoto, de baixa idade e com uma visão pura. Além da ótima interpretação de Rodrigo Xará e da condução bastante segura da Gloriosa, bateria da agremiação comandada por Mestre Bola, também é importante ressaltar o competente carro de som da agremiação para que a obra tivesse boa exibição desde antes da canção ser executada – tudo por conta da ótima introdução interpretada por Ariane Cuer e Yara Melo.

Evolução

Tal quesito talvez tenha sido o grande desafio da Dom Bosco na estreia no Grupo de Acesso I. O começo da escola teve andamento bastante moroso, comprovado pelo fato de que a bateria entrou no recuo com cerca de trinta minutos – exatamente a metade do tempo máximo do desfile. Após tal movimentação (que teve ótima dinâmica, com cerca de oitenta segundos de duração), a instituição, claramente, começou a acelerar um pouco mais para evitar qualquer tipo de problema em relação ao cronômetro. No final das contas, o tempo de encerramento da exibição, 56 minutos, indica que, talvez, o quesito pudesse ter sido mais uniforme.

Outros Destaques

Na corte da Gloriosa, destaques para a rainha Mayra Barbosa e para a madrinha Mariana Mello, além do Passista de Ouro Tomaz Claudino.