Foi pouco mais de uma hora de ensaio na Guilherme da Silveira onde se viu acima de tudo uma Mocidade alegre, que perdoe o trocadilho com a Morada do samba, mas a Independente foi acima de tudo muito alegre. A Estrela Guia desfilou satisfeita com o seu samba e bastante sensual. Se a obra escolhida para 2024 não foi tão referendada pelos analistas como uma das principais da safra, para a agremiação, para a comunidade o samba tem crescido a cada ensaio e pegando este treino especificamente, o que se viu foram os componentes cantando muito, com leveza e alegria, de forma espontânea. Em um momento, a bateria e o carro de som deixaram a comunidade cantar a obra sozinha por uma passada inteira do samba e de ponta a ponta do desfile se ouvia e entendia claramente a composição que vai embalar o desfile da Mocidade 2024. Nos demais quesitos, uma escola organizada, com boa apresentação da comissão de frente, junto com o casal muito aplaudidos pelo público após suas apresentações. A evolução foi fluida, com tranquilidade, constante e a bateria e o carro de som passaram muito bem ajudando a impulsionar o samba.

Vânia Reis, que faz parte da comissão que dirige o carnaval da Mocidade, ressaltou a participação e interação do público que estava assistindo.

“A gente conseguiu fazer em um tempo bom, e a gente viu a comunidade interagindo com a gente, o apelo que nós fizemos no começo funcionou, foi o nosso termômetro e depois a gente vai ver na arquibancada, não foi só o canto da comunidade desfilantes, mas da comunidade que estava assistindo, eles cantaram, dançaram e vibraram com a gente. Esperamos ter essa interação também lá na Avenida”, projeta a diretora.

Já o diretor geral de harmonia Sandro de Menezes explicou sobre como tem funcionado o processo dos treinos realizados mais direcionados para o canto na quadra da Vila Vintém.

“A gente tem procurado avançar nessa questão de ensaio de canto. A gente procurou fazer algo diferente, até setorial e vamos estar fazendo isso nas próximas semanas até a virada de ano. A ideia é pegar uma parte da escola, dividir por setores, fazer os ensaios de canto bem específico, pontual, voltado para cada ala, tento o cuidado também com a questão da evolução. É óbvio que o samba ajuda, é um ponto que percebemos, a alegria do independente, Zé Paulo encaixou de forma muito legal com a escola, isso tem ajudado muito e o que queremos buscar é exatamente essa alegria”, analisa o profissional.

“Pede caju que dou… Pé de caju que dá!” é o enredo desenvolvido pelo carnavalesco Marcus Ferreira. Por força do regulamento, após terminar a apuração de 2023 em décimo primeiro lugar, a escola terá a missão de abrir as apresentações na segunda-feira de Carnaval, dia 12 de fevereiro, segunda noite de desfiles do Grupo Especial do Rio. A escola ainda tenta viabilizar para dia 27 de dezembro com os órgãos competentes um último ensaio de rua do ano.

Comissão de Frente

Os bailarinos de Paulo Pina apresentaram neste ensaio de rua mais uma vez uma coreografia marcada pela irreverência, alegria, dança e sensualidade. Pontuando alguns trechos do samba, no ” Tarsila pinta a sanha modernista” de forma muito brincalhona os componentes faziam poses como que sendo retratados para uma obra de arte modernista. Outros trechos como ” É tropicália, tropicana, cajuína”. houve uma pitada de nordeste na dança. No geral, uma dança que mesclava passos em conjunto de todos os integrantes, com outros sendo realizados mais em pares e nestes havia muita sensualidade, como é a brincadeira que pede o enredo como foi concebido, e o samba principalmente. Em todas as cabines, a comissão foi muito aplaudida pelo público que interagia durante o tempo todo.

“Tem sempre aquele momento que a gente espera que o público seja agradado. No primeiro dia que as pessoas viram a proposta dá um medonho, e foi aprovado em rede social, internet, cada vez é diferente porque fica mais cheio os ensaios, e a gente vem sendo agraciado por esse retorno do público, é daí para cima, está bem dentro do enredo, bem sensual, bem safadinho, que é o que as pessoas querem ver. O carnaval precisa dessa leveza”, acredita o coreógrafo Paulo Pina.

Mestre-sala e Porta-bandeira

O casal Diogo Jesus e Bruna Santos preferiu uma vestimenta predominante na cor branca com alguns detalhes em verde. Uma apresentação muito forte, tanto na postura, nos passos clássicos, mas trazendo movimentos mais coreográficos no tom certo. No trecho ” É tropicália, tropicana, cajuína ” , por exemplo, o casal fazia passos com característica do nordeste, muito sincronizados e com uma pitada de sensualidade. O que também chamou a atenção foi o vigor e intensidade de movimentos. Em um momento, os dois de mãos dadas giravam em uma velocidade bastante significativa. Apresentação sem problemas aparentes e que enfatizou a limpeza dos movimentos, trabalho já adiantado.

Harmonia

O grande destaque da escola, mais uma vez o canto do “independente” mostrou como a escola tem comprado o barulho do samba. Era possível observar em todas as alas um canto muito forte, difícil encontrar na escola quem não estivesse cantando. Segmentos como velha-guarda, bateria, comissão de frente e casal também se destacaram no canto que era claro e com correção. Em determinado momento, a bateria e o carro de som pararam e deixaram a comunidade cantar a obra sozinha por uma passada inteira do samba e de ponta a ponta do desfile se ouvia e entendia claramente o canto da comunidade . Já o carro de som, mais uma vez fez um trabalho muito competente comandado por Zé Paulo Sierra que cada vez mais está mais entrosado com a comunidade, indo ao encontro do público, dos componentes e não ficando parado. Aliás, a resposta do público foi um destaque a mais neste ensaio com muita gente nas calçadas cantando bastante a obra, assim como foi pedido antes do ensaio pela diretora Vânia.

Evolução

Impulsionada pelo desempenho do samba e do canto, a evolução da escola foi fluida, espontânea e sem problemas. Bem cadenciada, a escola aproveitou bem o seu ensaio, mas com muita competência do time de harmonias que não deixaram a escola formar buracos ou ter alas emboladas. Alguns grupos faziam coreografias, principalmente com pedaços de madeira na mão. A comunidade aproveitou para trazer alguns apetrechos como bolas, gorros do Papai Noel, alguns nas cores da escola, além de bastões de luz.

Samba-enredo

Como citado acima, a obra vem tendo um desempenho acima do esperado para quem acompanhou a disputa de samba e para quem avaliou comparando com a defesa em geral. Se ainda pode perder algo na comparação com outras, o samba tem impulsionado, como dito acima, diversos outros quesitos como evolução e harmonia e tem colocado a escola para cima. Essa felicidade do independente vem se traduzindo em garra e um senso de responsabilidade por fazer um grande desfile. O samba mais uma vez foi muito bem trabalhado pela bateria de mestre Dudu que trouxe bossas muito bem resolvidas, dentro da métrica e com ritmo e swing que levantaram ainda mais o samba. Destaque para a musicalidade que dá o agogô de duas bocas. E como citado, Zé Paulo tem amplo domínio da obra. Grande desempenho.

“Acho que o samba da Mocidade já chegou às ruas, furou a bolha, já tem versão funk, tem criança cantando, a galera está fazendo Tik Tok com o samba, então acho que está conseguindo furar a bolha sim. A gente fica muito feliz até porque as pessoas tinham uma certa desconfiança com o enredo, o enredo deu grandes sambas, a escola escolheu um grande samba que virou hit do pré-carnaval, mas isso também traz uma responsabilidade grande porque você tem que manter isso até o carnaval. A cada etapa vira um desafio novo. Gravação, ensaio, mini-desfile, daqui a pouco vem ensaio técnico, você sempre tem que manter o nível do samba alto. Acho que a Mocidade está muito bem servida de samba”, analisou o intérprete Zé Paulo Sierra.

Outros destaques

O ensaio contou com a presença da nova Rainha de bateria Fabíola Andrade, que sambou à frente da Não Existe Mais Quente. A beldade será coroada na quadra da escola no próximo dia 21 após o ensaio de canto da escola. Ícone da Mocidade e um dos autores do samba de 2024, Paulinho Mocidade se fez presente na Guilherme da Silveira para prestigiar o treino da Estrela Guia da Zona Oeste. Após o treino, aconteceu o tradicional ” after” na quadra da Vila Vintém com pagode, e depois ainda rolou apresentação da Mocidade no Salgueiro Convida, com certeza teve muito caju e energético para aguentar essa maratona.