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Fotos: Marcos Marinho/CARNAVALESCO

A Imperatriz Leopoldinense reuniu compositores de samba-enredo, na manhã do último sábado, na quadra da escola, em Ramos, para um encontro inédito em seu calendário: um bate-papo entre a diretoria e os artistas que disputam samba na agremiação. Na pauta, o modelo de disputa, o momento do tira-dúvidas, a sinopse do enredo e a divisão de direitos autorais. Participaram a presidente Cátia Drumond, o carnavalesco Leandro Vieira e os diretores de carnaval André Bonatte e Thiago Santos. Do lado dos compositores, estiveram presentes artistas do casting da Imperatriz e convidados de outras agremiações, entre eles, André Diniz, Samir Trindade e Junior Fionda.

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Lugar de fala e lugar de escuta

A presidente Cátia Drumond deixou claro que o papel da diretoria foi o de ouvir. “A gente quase não falou, a gente ouviu, e agora a gente entende que tem que haver alguma mudança ainda para impactar positivamente”, disse.

Para ela, o encontro também teve um efeito de mão dupla: se os compositores foram escutados, a escola também conseguiu apresentar sua própria realidade. “Estamos no caminho certo. Foi a primeira reunião, espero que de muitas, eles estavam precisando dessa fala. Ouvimos muitas reclamações, mas acho que eles também agora começaram a entender um lado que eles não conheciam, que é o lado da escola”.

Sem promessas imediatas, Cátia falou sobre o ritmo das mudanças. “São mudanças mais complicadas, mas, em um caminho de curto prazo, a gente consegue alcançar o que é bom para eles, que são os artistas, e para nós como escola de samba”.

O carnavalesco Leandro Vieira enxerga o movimento como parte de uma virada de postura. “Acho importante uma escola se colocar no lugar de escuta, para ouvir quem tem que falar, quem tem queixa, quem tem conhecimento para argumentar”, afirmou.

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Compositor Junior Fionda

Do lado dos compositores, a recepção foi imediata. “Talvez, o compositor tenha sido muito pouco ouvido durante esse tempo. A disputa já é um padrão que a gente segue, a gente só pegou o caminho andando”, disse o compositor Junior Fionda.

Para André Diniz, o encontro é “um marco histórico da mudança das relações dos compositores com as escolas”: “O simples fato de existir isso aqui, essa discussão de frente com as escolas, falando dos nossos dramas, dos nossos problemas, das nossas decepções, da falta de valorização… o simples fato de existir aqui já é sublime”.

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Compositor André Diniz

Disputa: dinheiro, torcida e talento

O custo das disputas de samba-enredo foi um dos pontos centrais da conversa. No debate, compositores e diretoria concordaram que o modelo que se consolidou ao longo dos últimos anos criou uma desigualdade estrutural: quem tinha mais dinheiro contratava ônibus de torcida, intérpretes do Grupo Especial e produção sonora de alto investimento. “Tinha todo um mercado em volta de uma disputa de samba que não influenciava em nada. A cabeça do compositor estava cada vez mais ‘doida’, achando que quanto mais dinheiro se investisse, melhor. E, para quem analisa, isso não é verdade”, disse o diretor de carnaval Thiago Santos.

Foi para romper com esse ciclo que a Imperatriz reformulou seu modelo: passou a gravar todas as parcerias no mesmo estúdio, proibiu torcida nas fases classificatórias e padronizou as condições de apresentação. Na avaliação da diretoria, os resultados já aparecem. “É muito bom ver compositores que há mais de uma década estavam afastados do processo de disputa por não terem financiamento e que voltaram a fazer samba”, destacou o diretor de carnaval André Bonatte.

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Diretor de carnaval André Bonatte

Os compositores presentes reconheceram o avanço. Samir Trindade definiu o formato da Imperatriz como “uma disputa modelo para o carnaval”, mas fez questão de apontar que ainda há caminho a percorrer, tanto na escola quanto nas demais agremiações. Esses aprimoramentos, no entanto, resvalam nos temas que dominaram o restante da conversa: o tira-dúvidas e a divisão dos direitos autorais.

O tira-dúvidas: parceria ou controle?

O tira-dúvidas também concentrou boa parte do debate. Na Imperatriz, o processo prevê cinco sessões, das quais duas são obrigatórias. A tensão central é entre alinhamento e criatividade. Para os compositores, o tira-dúvidas, por vezes, bloqueia o processo criativo de uma obra. “Antigamente, o samba ajudava no processo criativo da escola. Hoje, com o processo de tira-dúvidas, a escola já tem o seu projeto pronto e o samba acaba tendo que se moldar à criatividade de uma coisa que já está pronta”, analisou Samir Trindade.

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Compositor Samir Trindade

O problema se agrava, segundo ele, quando a avaliação recai sobre a melodia: “Como é que você vai avaliar uma obra que não está pronta ainda? As análises que acontecem nos tira-dúvidas são análises de obras que não estão prontas ainda, que a gente vai mexer, que ainda vão mudar na gravação”.

A posição dos compositores é que o tira-dúvidas deve existir, mas restrito à letra. “Chegar e falar: ‘O que é isso aqui? Tá dentro do enredo? Tá? Então segue’. Só que a melodia não, porque às vezes a gente ainda está em processo de construção”, resumiu Samir.

A escola defendeu o processo de tira-dúvidas. “Naquele momento, a gente conhece mais o projeto do que eles. Quando o samba foi escolhido, o carnaval tá 70%, 80% desenhado, sendo construído”, disse Thiago Santos. Cátia Drumond citou o processo de 2026 como exemplo: compositores basearam seus sambas no filme sobre Ney Matogrosso, quando o projeto da escola tratava da musicalidade do artista.

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Thiago Santos, diretor de carnaval

“O tira-dúvidas ainda tem uma grande importância, porque, senão, você joga uma sinopse na internet e, quando você vai ver, o samba já está pronto, e ele não tem nada a ver com a tua história”, disse.

O carnavalesco Leandro Vieira disse que o debate confirma uma prática que já adota: “Eu me limito exclusivamente a dar opinião de letra, que é o que me compete. Eu não sou carnavalesco metido a compositor no sentido melódico”. Para ele, o compositor é “o principal parceiro do carnavalesco na propagação de uma narrativa”, e a sinopse que está finalizando para a Imperatriz, a ser divulgada no início de junho, está sendo diretamente influenciada pelo encontro. “Ouvir o compositor na manhã de sábado vai me levar a escrever a melhor sinopse para os compositores que estiveram aqui hoje”.

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Carnavalesco Leandro Vieira

A escola sinalizou possíveis ajustes, mas sem abrir mão do processo. “A gente pensa em realmente dar uma encurtada em uma etapa do tira-dúvidas, mas eu acho que ainda continua tendo que ter a presença deles pelo menos em um determinado número”, disse Cátia.

O que fica e o que ainda vem

Um ponto concreto do encontro na Imperatriz já está definido: o formato completo da disputa de samba-enredo de 2026, com todas as datas e etapas, será divulgado junto com a sinopse do enredo, no início de junho. “Todo o formato, todas as datas já estão inclusive prontas”, confirmou Thiago Santos.

André Diniz defendeu que conversas como a da manhã de sábado na Imperatriz possam acontecer outras vezes: “Não necessariamente esse modelo, mas essa discussão, essa abertura para que os compositores possam conversar”. Samir Trindade fez um chamado à categoria: “Os compositores precisam estar unidos para poder falar uma voz só e, falando uma voz só, ter mais força do segmento no carnaval”.