
Identidade, memória, reparação. São traços que ligam “Ponciá Evaristo – Flor do Mulungu”, do Império Serrano, “Balangandãs, Berenguendens”, da União de Maricá, e “Macumbembê, Samborembá”, da Vila Isabel em 2026, e fizeram os sambas serem cantados com toda força na Sapucaí. E o processo de construção dessas fortes narrativas foi tema da roda de conversa no Samba EnRENA, na tarde de sábado, no Renascença Clube, no Rio de Janeiro.
A primeira edição do evento teve como tema “As que bombaram no Spotify 2026” e contou com a participação dos carnavalescos da Vila Isabel, Leonardo Bora e Gabriel Haddad; do carnavalesco do Império Serrano, Renato Esteves; da enredista da escola, Manu Rosa; e do diretor de carnaval da União de Maricá, Mauro Amorim. Além do debate, a noite se encerrou com show das três escolas, animando o público com sambas clássicos e provando a potência dos sambas de 2026 para além das plataformas de streaming.
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Parafraseando Rosa Magalhães, “ter um bom samba é meio caminho andado”. Nesse sentido, os carnavalescos discutiram o papel do enredo na construção de um bom samba. Para Gabriel Haddad, o samba é uma tradução da história, sem abandonar os outros elementos do desfile.
“O samba, na verdade, nada mais é do que a tradução daquilo que vai estar sendo contado no dia do desfile. A gente, claro, tem que dar uma importância muito grande, como a gente falou ali na mesa, para o samba-enredo, porque é uma escola de samba. É uma escola formada por sambistas, formada por uma bateria que vai entoar esse gênero que deu origem a isso tudo. As alegorias, as fantasias, a comissão de frente são apêndices ao samba, que vão se desenvolvendo durante um ano. Claro que a gente vai batalhar por um acabamento espetacular, por fantasias maravilhosas, por uma comissão de frente impactante, porque tudo hoje faz parte desse espetáculo maior que é o desfile”, explicou.

Além de carnavalesco, Haddad também foi compositor e chegou a disputar a escolha de samba-enredo na Cubango. Segundo ele, seu “lado compositor” contribui diretamente para seu olhar como carnavalesco.
“Tem coisas no samba que, às vezes, o próprio compositor não percebeu, porque ele está ali viciado naquele dia a dia da construção do samba, porque, quando você se entrega, quando você vai fazer, você se dedica àquilo e acaba estudando muito. Então, um olhar de fora, um ouvido de fora acabam entendendo um pouco mais ou, às vezes, percebendo algo que a própria composição não percebeu. Eu valorizo muito essa troca, essa conversa, porque eles trazem algumas ideias que não estavam dentro do enredo e a gente acaba apresentando ideias que, às vezes, eles não tinham entendido para dentro do samba-enredo”, respondeu.
Outro tema debatido durante o encontro foi o crescimento dos enredos de homenagem nos últimos carnavais. No caso do Império Serrano, a escola viveu uma experiência singular: uma homenagem em vida e com participação ativa da própria homenageada no processo criativo. Para levar “Ponciá Evaristo – Flor do Mulungu” à avenida, Conceição Evaristo acompanhou de perto o desenvolvimento do enredo conduzido pelo carnavalesco Renato Esteves e pela enredista Manu Rosa. A enredista conta que nunca viveu “nada igual” ao que foi a participação de Conceição no Império e afirma que contar essa história também foi um gesto de reparação.
“A ideia era imortalizar, e a gente acredita que a maior academia que existe é a Academia do Samba. Você se tornar enredo não tem nenhuma premiação que se equipare. Foi uma reparação histórica. O nosso país institucionalmente falhou com Conceição, logo falhou com as mães, com as mulheres negras. A gente tinha um trabalho político de representar as mulheres, as mães, e imortalizar Conceição Evaristo, que para nós é um dos maiores patrimônios da nossa literatura. E a Conceição… acho que nunca mais vai ter nada parecido. Ela adotou a gente. Nunca interferiu em nenhuma decisão. Tudo estava bom, tudo era um respeito. A primeira vez que nós a vimos, a gente não conseguia nem falar. E agora a gente toma café junto, toma cerveja junto. Acho que nunca conheci ninguém do tamanho dela que tivesse a simplicidade, a humildade. Ela respeitou o nosso processo artístico, confiou, e continua na nossa equipe. Agora se tornou equipe de criação também”, declarou.
A participação constante da escritora na quadra e nos eventos da escola fez com que, nas palavras de Renato, ela fosse muito além da homenageada: “foliã, diretora, pesquisadora, aderecista”. A vivência próxima de Conceição Evaristo trouxe uma energia diferente para toda a comunidade imperiana.

“Ela traz para a gente essa força da mulher preta. E esse colo de mãe que ela nos deu foi muito importante. Foi muito forte e, na verdade, contagiou a comunidade inteira. Ela virou uma referência para a comunidade. A velha guarda virou e falou: ‘não, ela já é nossa baluarte’. Ela já virou baluarte. Ela queria voltar e desfilar como baiana. Ela movimentou a comunidade do Império de uma forma muito forte, mas acho que isso aconteceu muito pelo fato da identificação. Principalmente as imperianas se identificaram muito com Dona Conceição, com as histórias dela, com a vivência dela, com as próprias vivências. Esse é o princípio das ‘escrevivências’, foi isso que a gente levou para a avenida”, concluiu.
O samba escolhido para o Reizinho de Madureira também vai na contramão do esperado: o samba não menciona o nome de Conceição Evaristo e se inspira na ‘escrevivência’ da escritora.
“Para a gente, por exemplo, não havia alguma necessidade de falar o nome da homenageada, porque o próprio samba era um enredo. A gente entendeu que falar o nome da homenageada, primeiro, era um enredo em que a gente estava fazendo uma ‘escrevivência’ que falava sobre as obras da Dona Conceição. A gente não falava diretamente sobre a biografia de Conceição Evaristo, então não fazia sentido algum usar ‘Conceição Evaristo’ num enredo em que a gente falava de Conceição Evaristo. ‘Flor do Mulungu’ foi até um pedido nosso, que não tivesse ‘Conceição Evaristo’. Tem um verso, uma estrofe muito linda em um samba campeão do Império Serrano, campeão do Grupo de Acesso, que fala: ‘Você já sabe quem eu sou pelo toque do agogô’. Você não precisava. A minha dor já fala por mim, sua resistência, seu orgulho, seu empenho. Você não precisa falar o nome para entender que é Império. Então, se é poesia, fala muito mais”, declarou.
Já a enredista Manu Rosa pensa além da declaração de Rosa Magalhães: “o samba-enredo é mais que meio caminho andado”, e o samba ainda é a prioridade de uma escola de samba. Além disso, Manu vê o samba como instrumento de memória, pois “tudo é efêmero, e o samba é o que há de material para rememorar”.
A enredista também destacou o peso de um samba com alto poder de identificação, como o de 2026, que impactou profundamente a comunidade imperiana: os livros de Conceição Evaristo se popularizaram entre os componentes e possibilitaram que muitos tivessem acesso ao seu primeiro livro. E isso só ocorreu pela liberdade criativa que a dupla cede aos compositores, defendendo que a liberdade poética abre um leque de chances de interpretações e identificação.
“Quando você não dá um nome, você possibilita interpretações, possibilita as pessoas se verem. Então, a gente amplia a concepção para além do nome, para além do candomblé, da religião, da cultura. Ela está ali o tempo todo, mas, quando a gente não dá um rosto, quando a gente não dá um nome, um CPF, aquilo se torna mais universal. As pessoas têm mais liberdade de se apropriar. ‘Ah, eu sou de Oxum’, ‘ah, um filho…’. Então, as pessoas conseguem criar uma conexão. Aquilo não fica da Conceição, fica nosso. Também tem essa liberdade poética do encontro”, explicou.










