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‘Barroca é resistência por um novo amanhã!’ Escola muda identidade, aposta em enredo indígena e promete investir forte na estética

Enredo da agremiação tem como título 'Guaicurus', nome de um povo indígena que a verde e rosa irá homenagear

Iniciando a Série Barracões São Paulo, a equipe do site CARNAVALESCO visitou o barracão do Barroca Zona Sul e conheceu o projeto da escola para o carnaval de 2023. O enredo da agremiação tem como título “Guaicurus”, nome de um povo indígena que a verde e rosa irá homenagear. O carnavalesco da Barroca Zona Sul, Rodrigo Meiners, contou todo o desenvolvimento do tema e a projeção do desfile.

Fotos: Gustavo Lima/Site CARNAVALESCO

“O enredo da Barroca Zona Sul é ‘Guaicurus’, que é uma homenagem aos povos originários do Brasil. Esse povo indígena foi escolhido porque muita gente conhece a história da guerra do Paraguai, da questão da divisão territorial da região centro-oeste, mas pouca gente dá importância para esse povo. Guaicurus era um povo indígena que vivia naquela região e que foi usado como exército do Brasil na Guerra do Paraguai, justamente por conhecer, dominar e conhecer os animais daquela região, principalmente os cavalos. Pelo fato de os Guaicurus serem os índios cavaleiros, o tempo de locomoção deles na guerra, ajudou muito a vitória do Brasil. A gente traz a história desse povo que ficou esquecida nessa divisão territorial e na parte histórica e, no final, a gente faz uma comparação e associação com os tempos atuais de que se os povos indígenas ainda não resistissem na região pantaneira, o Pantanal hoje não existiria mais. Se lá atrás os Guaicurus foram fundamentais para o Pantanal pertencer ao Brasil, hoje os Cadiuéus e outros povos indígenas são importantes para o Pantanal ter diversidade de fauna, flora, biodiversidade e ainda ser um ambiente verde, de mata e de floresta”, contou.

O trabalho de pesquisa

Um dos maiores desafios de um carnavalesco é criar uma sinopse que atenda todos os requisitos para a escola e uma pesquisa satisfatória para o desenvolvimento de alegorias e fantasias. Além disso, é importante que toda a comunidade entenda o que a sua agremiação está levando para a avenida. Desde que Rodrigo chegou no carnaval paulistano, em 2019, ele só teve que trabalhar com enredos afro. De acordo com o artista, a dificuldade com uma temática diferente foi natural.

“Eu nunca havia feito um enredo indígena. Todos os meus enredos foram de matriz africana, desde a Mocidade Unida da Mooca até os que eu fiz na Barroca. Desenvolvendo pela primeira vez um enredo indígena, a dificuldade se mistura muito. O que foi real e o que foi lenda. Existem vários relatos sobre os Guaicurus e como eles surgiram, mas a gente sempre fica em dúvida do que é uma lenda, mito e do que realmente é verdade. A gente escolheu uma linha completamente histórica para contar o que aconteceu exatamente na formação territorial do Brasil e não a origem do povo em si. Aí sim é um fato registrado e não uma possível lenda. A gente segue do começo ao fim do nosso enredo, o livro do Darcy Ribeiro, que foi um dos grandes pesquisadores e historiador do Brasil que deu muita voz. Ele chegou a viver a cultura indígena, foi ao Pantanal e conversou com os povos”, disse.

Um enredo próprio

O tema é de autoria própria do artista. Será a primeira vez que o carnavalesco irá colocar em prática um enredo de sua cabeça. A diretoria acreditou no trabalho e deu carta branca para o desenvolvimento. Rodrigo contou como surgiu a ideia.

“Eu consumo carnaval 24 horas por dia nos meus tempos livres. Eu assisto desfiles de escolas de samba, treino ilustração, escrevo algumas coisas e vou guardando. Assistindo o desfile do Salgueiro de 1998 do carnavalesco Mauro Quintaes, o enredo era Pantanal. Os Guaicurus foram citados. Isso me despertou uma curiosidade. O porque os Guaicurus foram citados e não qualquer outro povo indígena. Pesquisando quem era, montei esse enredo. Quando eu monto um enredo sem direcionamento, faço de maneira muito aberta. Por exemplo, eu faço um texto, tive a ajuda do meu irmão, Thiago Meiners, que é compositor e do Marcão, diretor de carnaval da escola. Ele sempre trouxe os enredos e esse ano gentilmente ele acreditou que a minha ideia fosse a melhor e assumiu essa responsabilidade de levar o tema para a avenida. Juntamente com eles, eu comecei a fechar o enredo. Quando eu faço lá atrás sem uma escola definida e sem um projeto, é muito aberto. Quando a Barroca aceitou, as mudanças foram essas. Encaixar toda essa história sem perder os pontos de desfile do carnaval de São Paulo, que são quatro alegorias e mínimo de 1600 componentes”, afirmou.

Escola com uma proposta diferente

Antes mesmo de Rodrigo Meiners assumir o posto de carnavalesco da agremiação, a Barroca Zona Sul já havia subido com um tema afro, levando um tema de Oxóssi. Após a subida para o Grupo Especial, a verde e rosa de Jabaquara levou para o Anhembi a homenagem à Tereza de Benguela e, no carnaval de 2022, a agremiação homenageou a entidade Zé Pilintra. Agora, a escola irá virar a chave completamente, levando para a avenida um tema indígena. O carnavalesco contou sobre esse desafio da Barroca para o próximo desfile e o significado de encerrar um novo ciclo para a comunidade.

“Eu cheguei em 2020 fazendo Tereza de Benguela e 2021 e 2022 com Zé Pilintra, mas a escola já vinha com essa questão do afro antes. O mais difícil para a escola nem é sair do afro, e sim sair da questão religiosa. Se você parar para pensar, em 2022 foi uma entidade religiosa da Umbanda e querendo ou não, tem matriz africana. Tereza de Benguela é um tema afro e até mais para trás a escola tem o enredo do pescador trazendo Nossa Senhora. O enredo não é religioso. Ele é histórico, indígena e não vai entrar nessa questão religiosa e muito menos afro. Foi uma surpresa para a comunidade. Foi uma surpresa até mesmo para os amantes do carnaval. Todo mundo esperava que a Barroca viesse novamente nessa linha e a escola decidiu mudar. A gente fez um grande desfile, ficou em uma colocação respeitável, não corremos risco de cair para o Acesso, ficamos mais perto do desfile das campeãs novamente, igual em 2020. Como a escola já vinha com essa questão de enredos semelhantes, a gente decidiu mudar. Essa questão do Zé Pilintra encerrou esse ciclo, porque é uma entidade muito importante. A Barroca acredita muito. Fez parte da retomada da escola do carnaval de bairro até o Especial de novo. Fizemos isso até em forma de agradecimento para mudar completamente o que a escola vai cantar e mostrar esteticamente”, declarou.

Estética para o próximo carnaval é o ponto alto

A Barroca Zona Sul, foi uma das escolas que mais investiram em alegorias no último carnaval. Foi a agremiação com a maior escultura em um abre-alas. Nos demais carros, houve uma grande abrangência do colorido e cuidado com a estética. Segundo Meiners, a imponência promete ser maior ainda, pois o enredo pede tal investimento.

“Quando a gente traz um enredo mais histórico e tem coroa portuguesa, espanhola, Dom Pedro e tudo isso dentro de um tema indígena, o visual precisa enriquecer. A gente não pode falar disso usando palha e tecido estampado, que são coisas usadas mais em enredos afro. Precisa trazer um luxo maior nas alegorias e fazer um investimento nessas questões de peças. Não que o enredo afro seja mais barato. Depende muito do material que você vai usar. Mas esteticamente falando, um enredo histórico traz mais possibilidades de fazer um requinte mais trabalhado. A gente aposta muito nisso. É claro que nossas alegorias não são todas para esse lado histórico, mas o fato de ter quase que dois setores que contam essa parte de essa parte de países e coroas, dão um grande visual no setor da escola, tanto em alegoria quanto em fantasia. A Barroca Zona Sul vai vir vestida de uma maneira que não vem há muito tempo em termos de modelagem, forma e tamanho de costeiro. É um carnaval imponente visualmente falando. Bem mais do que foi em 2022. Em 2023 vamos levar para o Anhembi um carnaval com os mesmos tamanhos, até pela questão do reaproveitamento do chassi que vamos fazer de um carnaval para o outro, mas com um acabamento ainda mais apurado”, contou.

Conheça o desfile

Setor 1: “O primeiro setor da escola é o aparecimento dos Guaicurus na escola. É quando Aleixo Garcia, colonizador, foi fazer uma expedição em busca de explorar os índios do Canadá, americanos, região do Peru e, na volta, ele passa pelo Rio Paraguai. Quando ele tenta aportar, é atacado pelos Guaicurus. Aí que o povo começa a aparecer na história do Brasil e da América como um todo. Essa é a nossa abertura. O surgimento dos Guaicurus na América”.

Setor 2: “O nosso segundo setor é do início dessas batalhas e confrontos entre coroas e países para a determinação geográfica da América. Influência da coroa portuguesa e da família real”.

Setor 3: “O terceiro setor é são as batalhas em que os Guaicurus foram fundamentais para o Brasil vencer essas guerras e se tornar o maior país territorial da américa, com mais biodiversidade, fauna e flora. Os Guaicurus foram fundamentais para o Brasil na Guerra de São Salvador e do Paraguai.

Setor 4: “O nosso quarto setor é o Pantanal, que é a morada dos indígenas e Guaicurus. É a região em que os Guaicurus se colocaram em risco e grande parte exterminados pelo Pantanal. Grande parte do amor que o povo tem pelo Pantanal, que eles se sujeitaram a participar dessas guerras, a fazer acordo com Dom Pedro e coroa portuguesa justamente para não largarem a região nas mãos dos colonizadores e exploradores e, nos tempos de hoje, políticos.

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