De onze escolas que militarão no Grupo de Acesso II da Liga Independente das Escolas de Samba de São Paulo (Liga-SP) em 2024, três delas escolheram temas relacionados a outras escolas de samba. Uma delas é o Amizade Zona Leste, que falará de um grande baluarte do carnaval paulistano e de uma coirmã que possui sete títulos da divisão especial da folia na maior cidade da América do Sul. Com o enredo “Eduardo Basílio — Um Mar de Rosas de Ouro. Do Quilombo da Brasilândia para o Mundo”, contando a história do fundador e primeiro presidente do Rosas de Ouro e da Liga-SP, a agremiação de São Mateus será a quarta a desfilar na noite de 03 de fevereiro.

A equipe de reportagem do CARNAVALESCO visitou o barracão da escola da Zona Leste de São Paulo e entrevistou alguns dos integrantes da Comissão de Carnaval da agremiação. Camilo Augusto, presidente do Trevo, foi quem respondeu às questões, com Pedro Nagy e Eduardo Nagy também presentes.

Exaltação a um grande nome

De maneira sucinta, Camilo buscou explicar o que será levado para o Anhembi.”‘Eduardo Basílio — Um Mar de Rosas de Ouro. Do Quilombo da Brasilândia para o Mundo’. O nome do enredo, por si só, já fala o que queremos colocar na avenida. Vamos contar a história do sr. Eduardo Basílio, um baluarte do samba, reconhecido por todas as agremiações, e os grandes feitos dele – que, por consequência, são os grandes feitos da Sociedade Rosas de Ouro”, destacou, aproveitando para citar o nome do enredo ipsis literis.

Contando um pouco mais sobre a grande referência do que está programado, Camilo destaca que a união entre o homenageado e a escola será a tônica da apresentação. “A referência principal é a Sociedade Rosas de Ouro, a agremiação. Ele foi muito exaltado por ter sido o primeiro presidente da Liga-SP e do Rosas de Ouro, mas a grande referência são os grandes feitos que ele teve frente à escola”, pontuou.

Na ocasião, o presidente aproveitou para contar detalhes sobre a setorização do Amizade em 2024. “São três setores. Começamos com a história do Rosas de Ouro: o que é a flor dourada, símbolo da escola; as princesas católicas…toda alusão à logomarca e o que eles pensaram quando fundaram a agremiação. Ela vem, inicialmente, com a história da escola; o nosso abre-alas traz a data de aniversário do sr. Eduardo, que sempre foi uma data histórica, já que ele sempre revelava os enredos no próprio aniversário. Nosso abre-alas virá dessa forma. Depois, vem o quilombo da Brasilândia, uma parte mais afro, até porque isso de fato existe: até hoje as pessoas entendem a Brasilândia como um quilombo contemporâneo, onde o negro se sente incluído e acolhido. Realmente acreditamos que o bairro é um quilombo contemporâneo. Depois, concluímos com um grande desfile – como o de 2005 [Mar de Rosas]. A finalização, o terceiro setor, vem com os grandes desfiles e títulos da escola”, detalhou.

Cooperação da Roseira

Ao ser perguntado sobre eventuais surpresas e destaques em toda a pesquisa realizada para conceber o enredo, os integrantes da Comissão de Carnaval pontuaram o quanto a escola foi pioneira na gestão de uma agremiação. “Surpresa nós não tivemos, porque a história do sr. Eduardo é bem conhecida até por quem não o conhece e nem o conheceu. Ocorreu um fenômeno bem curioso no carnaval porque ele é conhecido por pessoas que não são do tempo dele. Jovens, nos dias de hoje, conhecem a história dele. Então, não tivemos surpresa nenhuma. O que realmente chamou atenção foi a profissionalização que o Rosas de Ouro, há décadas atrás, já tinha. Hoje, vemos isso nas grandes escolas (inclusive nas médias e pequenas também), mas, naquela época, ele já tinha. Isso chamou muita atenção e será muito exaltado no nosso desfile”, pontuou Camilo.

Perguntado sobre o quanto a coirmã ajudou para que o desfile fosse colocado na avenida, Camilo recordou como começou a relação institucional entre as duas instituições “A colaboração do Rosas de Ouro se dá, principalmente, pela amizade e pela irmandade que se criou entre as duas agremiações. Em 2017, nosso enredo foram os jurados, com o tema ‘Quem é o culpado?’. Falamos de todos os quesitos do carnaval nesse desfile. No quesito mestre-sala e porta-bandeira, fizemos uma homenagem à presidente do Rosas de Ouro, Angelina Basílio. Fizemos um carro alusivo à escola e ela veio como uma porta-bandeira nesse carro. Desde então, não nos separamos mais. As baianas estão conosco desde aquela época, alguns componentes… Rosas de Ouro e Amizade, então, se tornou uma grande amizade. A contribuição vem dessa forma. Óbvio que componentes do Rosas estarão conosco – e não serão poucos. A contribuição foi essa: a amizade e a parceria entre as duas agremiações”, revelou, aproveitando para relembrar o fato de que a atual mandatária da Roseira já teve outras incumbências na instituição.

O resultado da cooperação está em uma quase que fusão entre as duas instituições durante o desfile. “Nós queremos colocar na avenida o Amizade Zona Leste e a Sociedade Rosas de Ouro. Óbvio que, neste grupo que nós estamos, não temos recursos suficientes para fazer um carnaval a nível do Grupo Especial e a nível do que merece o sr. Eduardo Basílio. Mas… quem ver o Amizade entrando enxergará, também, o Rosas de Ouro. Com a humildade do nosso enredo e dos nossos recursos, procuramos fazer o máximo para que a apresentação visual seja minimamente à altura do que é Eduardo Basílio e do que é Rosas de Ouro”, observou Camilo.

Homenagens são positivas?

A Comissão de Carnaval foi interrogada sobre o quanto a escolha de um tema ligado a outra escola de samba poderia impactar na avaliação por parte dos jurados, destacando que outras duas escolas do Grupo de Acesso II também terão enredos ligados a outras instituições – a Uirapuru da Mooca falará sobre a Mocidade Independente de Padre Miguel, enquanto a Primeira da Cidade Líder tratará da Portela. Na visão deles, tal situação é muito benéfica. “As escolas estão entendendo que falar de sambistas, do samba, de si próprio, ajuda muito. É óbvio que conhecemos enredos patrocinados, que não criticamos e não somos contra, já que sabemos das dificuldades e seria hipocrisia dizer que isso é ruim – até porque, se isso acontecesse na nossa agremiação, faríamos o mesmo. Mas é óbvio que falar de sambista e do samba seria maravilhoso. Quando anunciamos o enredo, uma fala da Solange Cruz Bichara Rezende, presidente da Mocidade Alegre, que estava com a presidente Angelina Basílio, foi incrível, uma fala fantástica. Ela disse ‘parabéns Angelina, só conta história quem tem”. Essa foi uma fala maravilhosa da presidente Solange, a quem eu rendo minha homenagem e um grande abraço. A gente só conta história de quem tem história; quem não tem, a gente não conta”, lembrou, destacando outras baluartes do carnaval paulistano.

Organização para obter o resultado

Com todas as alegorias e as respectivas esculturas já devidamente embaladas, chamou atenção o quanto o Amizade já estava praticamente com trabalhos concluídos. A impressão foi confirmada pela Comissão de Carnaval ao ser perguntado sobre o cotidiano da agremiação. “Nosso dia a dia é sempre muito profissional. Eu costumo dizer que, na nossa agremiação, pelo grupo que estamos e pela verba que recebemos, só falta, realmente, registrar a carteira de trabalho dos trabalhadores. No restante, já atuamos como empresa. Começamos às 07h com café digno, paramos às 11h para o almoço e, às 16h, todo mundo vai para sua casa. Nesse ritmo, desde o carnaval passado, já estamos com o nosso carnaval 100% pronto em dezembro. O ritmo é esse: muita organização, trabalho sério e profissional, com cuidado e respeito a quem está trabalhando”, pontuou Camilo.

Também organizados estão os números da agremiação, citados de cor e salteado pelo presidente e integrante da Comissão de Carnaval. “Vamos desfilar com um contingente entre 700 e 750 componentes, dez alas, duas alegorias (sendo a segunda acoplada) e uma alegoria também grande da comissão de frente”, pontuou Camilo, que aproveitou para deixar um recado a todos os envolvidos com o carnaval paulistano. “Nosso recado é desejar um grande carnaval a todas as agremiações. Sabemos a dificuldade que é colocar um carnaval na avenida. Que Deus abençoe a todos e que consigamos todos fazer um grande carnaval. Esse é o desejo da escola de samba Amizade Zona Leste”, comentou.

Outros elogios

Um político também foi homenageado por Camilo – agora, ao falar do espaço em que estão os barracões das escolas de samba dos Grupos de Acesso I e II, localizado na Vila Guilherme, Zona Norte de São Paulo. “O espaço da Fábrica do Samba II é um espaço maravilhoso. Foi adquirido através do vereador Milton Leite, que é um defensor do carnaval, muito homenageada e que merece todas as homenagens que tem. O que ele fez pelo carnaval paulistano foi histórico, daqui cem anos vão ter que falar o nome desse homem, grande política e ser humano. Não estou puxando sardinha: é o reconhecimento de um trabalho de um grande sambista. Veja que estamos com nossas alegorias prontas e bem acomodadas, sem pegar chuva nem Sol graças a esse espaço maravilhoso que temos aqui”, finalizou o presidente.