A Mocidade Independente de Padre Miguel provou, mais uma vez, que a final da disputa de samba-enredo vai muito além de uma simples escolha: é um dos grandes acontecimentos do calendário do carnaval. A quadra da agremiação recebeu uma estrutura digna de festival, com dois palcos, um destinado à apresentação dos sambas finalistas e outro aos shows, iluminação especial, alegorias na ornamentação, área de alimentação e bares com drinks e bebidas populares. O evento superou o público do ano passado e reuniu mais de 10 mil pessoas. Em entrevista ao CARNAVALESCO, o diretor executivo da Mocidade, Bryan Clem, falou sobre a organização e a importância da final.
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“A gente trouxe para a final quatro sambas, o que é raro acontecer na final da Mocidade. Eram quatro obras muito importantes para a gente. Cada um com seu estilo, cada um com sua característica. O lado bom é esse: quatro sambas muito bons. Nós estávamos em dúvida. Há muito tempo a gente não tinha uma final tão dividida. A parceria vencedora mostrou por que veio para a final. Uma apresentação surreal, que se encaixa muito no que queremos trabalhar com o Evandro Malandro, com a bateria, com o mestre Dudu. A expectativa é a melhor possível, estou muito feliz. Mais uma final histórica. Não é à toa que é a maior final do carnaval carioca. São mais de 10 mil pessoas aqui dentro. Estou muito feliz com o resultado”, afirmou Bryan.
Torcedores destacam força da Mocidade na Zona Oeste
A importância da agremiação para a região da Zona Oeste e o clima de celebração foram alguns dos principais pontos destacados pelos torcedores. Mesmo com a chuva, a quadra permaneceu lotada e o público manteve a animação até o anúncio do samba vencedor. A torcedora e analista de abastecimento Rayssa Caie, de 31 anos, comentou a experiência de participar da final.

“A final foi histórica! Cada vez mais as finais aqui atraem pessoas. A Mocidade é uma instituição cultural da Zona Oeste. Ver tantas pessoas aqui até essa hora da manhã, esperando pelo anúncio do samba, é sempre muito especial. O clima das pessoas é o destaque da noite. Está todo mundo muito animado, muito feliz de estar aqui. Mesmo com a chuva, que sempre afasta os cariocas, a quadra está lotada, que é o mais importante. É uma boa energia para a gente começar o carnaval do ano que vem”, disse Rayssa.
Ela também elogiou a infraestrutura oferecida pela escola, mas brincou com as condições climáticas. “São Pedro podia ajudar a gente para não chover. A infraestrutura aqui é sempre muito boa. Acho que fica sempre um espaço aconchegante para todo mundo. Apesar de estar muito cheio, tem espaço para todas as pessoas curtirem e aproveitarem a escolha do samba”, completou.
Adereços aproximaram público da disputa
Dentro da quadra, o público não apenas acompanhou as apresentações, mas também participou ativamente da disputa. Para Bruno Lips, estudante de medicina de 22 anos e torcedor da Mocidade, a distribuição de leques e bandeiras dos países da América Latina pelas parcerias concorrentes criou uma experiência de integração e pertencimento.

“Me surpreendeu muito a organização da quadra e também o público, principalmente quando os sambas concorrentes começaram a entregar adereços. Me entregaram bandeira, leque, várias coisas. Foi bem interessante a maneira como os sambas e as duas produtoras tiveram um diálogo com o público. Fizeram a gente vivenciar essa disputa como se estivesse disputando também. Achei isso bem interessante”, contou Bruno.
O estudante também destacou o significado da presença das bandeiras latino-americanas, que despertaram uma reflexão sobre a identidade cultural do continente.
“O momento mais legal da noite foi principalmente a parte das bandeiras, porque estava todo mundo distribuindo bandeiras de vários países da América Latina. Por um momento, comecei a pensar mais sobre essa nossa verdadeira identidade latino-americana, que às vezes acabamos negligenciando um pouco porque falamos português e os outros países falam espanhol. Mas ver todo mundo ali na quadra balançando bandeiras juntos e torcendo pelo mesmo samba, de maneira unida, me fez repensar sobre isso”, explicou.
Bruno, no entanto, apontou um aspecto que poderia ter sido melhor planejado pela organização: o espaço destinado ao after, que aconteceu em meio à chuva.
“É uma coisa que parece boba, mas, por exemplo, temos um palco lá dentro que acabou depois que saiu o resultado do samba e não está mais sendo utilizado. Acho que o after, já que está chovendo hoje, poderia ter sido lá dentro. Estaria me divertindo mais se fosse lá. Muita gente também deve estar indo embora agora por causa da chuva”, avaliou.
Comunidade pede mais espaço na Mocidade
Para a tatuadora Vitória Barão, de 26 anos, torcedora e integrante da ala jovem há dois anos, a energia da comunidade e da quadra foi o ponto alto da noite.

“A final foi muito braba! Achei lindo demais! Para mim, o destaque da noite foi o momento em que divulgaram o samba vencedor. Adorei! Não acho que tenha que melhorar nada. Está tudo ótimo. Me diverti muito”, afirmou Vitória.
Além da estrutura e do recorde de público, a apresentação da nova rainha de bateria, Gaby Mendes, foi outro momento de destaque. A escolha de uma representante oriunda da comunidade despertou emoção e identificação entre os componentes. A agente de alimentos da Comlurb e integrante da Mocidade há mais de dez anos, Cátia Martins, de 50 anos, falou sobre a apresentação.
“A final foi maravilhosa! O destaque da noite, para mim, foi a apresentação da Gaby, rainha da bateria. Ela vem da comunidade e, para mim, é uma alegria imensa. Tenho mais de dez anos na escola e isso foi uma alegria que a Mocidade vai levar para a avenida”, contou.

Apesar da satisfação com a festa, Cátia aproveitou para fazer uma cobrança à direção da agremiação: uma aproximação maior com os moradores da Vila Vintém e a valorização de quem constrói a escola diariamente.
“Eles têm que trazer mais a comunidade para a nossa escola. É a comunidade que faz samba, é a comunidade que mostra quem somos na avenida. Tudo bem que bateram o recorde de pessoas, mas essa quadra tem que ser aberta, assim como a escola lá na Vila Vintém, porque, se não for a comunidade, não existe samba. Muitas vezes me sinto prejudicada pela minha escola por não ter a escola aberta para a gente, como vejo em várias outras agremiações. A Mocidade precisa ser raiz, voltar ao que era antes e cultivar mais nós, que somos da comunidade”, concluiu Cátia.










