
A Imperatriz Leopoldinense prepara um samba que une a força dos tambores, a energia do maracatu e o respeito às tradições religiosas que atravessam o enredo do Carnaval 2027. Na gravação oficial, a proposta musical combina percussão e melodia, com arranjos pensados para valorizar o canto coletivo. A mudança de atmosfera em relação à homenagem a Ney Matogrosso marca uma nova etapa para a escola de Ramos, comprometida com a dimensão sagrada da história que levará à Marquês de Sapucaí. Diretor musical da Imperatriz, Pedro Miguel explicou que os tambores ocupam posição central na construção da faixa. A bateria desenvolveu desenhos rítmicos próprios, enquanto a harmonia trabalhou para dar conforto aos componentes e favorecer o canto durante o desfile.
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“Como o enredo da Imperatriz tem como espinha dorsal o maracatu e todo aquele mistério que envolve a mística da religião, então a gente está valorizando os tambores. A bateria fez um desenho de tambores e a harmonia vem conduzindo as vozes para proporcionar conforto para o nosso componente cantar e ter entusiasmo de cantar do início ao fim do desfile. E tudo está correndo conforme o planejado, e isso está deixando a gente muito contente”, afirmou.
Pedro Miguel também destacou a experiência dos músicos que integram a ala musical, formada por profissionais com vivência internacional e dedicação à pesquisa do samba e do carnaval. O conhecimento técnico, segundo ele, precisa estar a serviço do conjunto, sem tirar o protagonismo da comunidade.

“A ala musical que eu peguei e trouxe até o profissionalismo, cara que já fez viagens internacionais tocando e que são apaixonados por carnaval, são pesquisadores do carnaval, pesquisadores do samba. Eles têm muita informação para passar e aí a gente consegue passar nos arranjos todas as informações que a gente tem. A gente passa para os arranjos, mas o objetivo é que o espetáculo seja uniforme, que ninguém tenha protagonismo. O protagonista do nosso carnaval é o componente da Imperatriz Leopoldinense”, explicou.
Bateria acompanha a melodia e explora os ritmos do enredo
A proposta rítmica aproxima a bateria da melodia e incorpora referências às religiões de matriz africana. Pedro Miguel explicou que mestre Lolo desenvolveu passagens nas quais os instrumentos reproduzem o desenho melódico do samba, além de explorar ritmos ligados à narrativa do enredo.
“O mestre está revestindo a própria melodia. Vê que a bateria faz o mesmo desenho que é cantado com a melodia. E, em outros trechos, ele vem reverenciando os ritmos das religiões de matriz africana. Como dizem lá, é maracatu, é macumba na rua. E isso é dito lá pelos praticantes de Recife. E aí o nosso carnavalesco quer levar macumba para a rua, e aí a gente trabalhou bastante nesses ritmos da macumba, vamos dizer assim, que vai estar presente na apresentação da nossa escola”, explicou.

O trabalho de preparação dos arranjos começa antes da escolha do samba campeão. Pedro Miguel afirmou que prefere não saber antecipadamente qual obra vencerá, para avaliar as finalistas sem interferência de preferências pessoais. A equipe analisa os pontos fortes de cada composição, identifica ajustes possíveis e prepara propostas musicais para diferentes cenários.
“Na disputa dos sambas, a gente já começa. Eu peço para não saber quem vai ser o escolhido, porque as pessoas ficam querendo saber: ‘A quem é que vai ser? Quem é que vai ser?’. Eu peço para não saber justamente para que eu não me veja tentado a vazar. Não quero saber quem vai ganhar. Eu pego os dois ou três sambas que vão para a final e aí a gente começa a trabalhar o arranjo. Esse samba tem problema? Se tem problema, como é que eu faço para corrigir? Tem ponto bom? Os pontos positivos, o que a gente faz para melhorar? Então a gente começa a fazer. Antes da final, a direção da escola diz: ‘Se é o samba um, a proposta é essa; se for o samba dois, a proposta é essa; se for o samba três, a proposta é essa’. Com isso, você dá munição para aqueles que realmente vão escolher o samba campeão. E, uma vez o samba escolhido, a gente reúne os músicos, cantores e a bateria para saber o que é viável, porque a imaginação não tem limite. A gente começa a imaginar coisas que são impraticáveis. Com essas reuniões, a gente tem uma ideia do que é real e a gente tenta materializar essa realidade nas nossas apresentações. A gente continua presenteando os nossos fãs com mais uma introdução bem festiva, bem alegre, com bastante energia, e aí canta o samba, apresenta o samba desse jeito confortável para que o povo possa cantar. E a gente quer conquistar o povo para que o povo cante junto com a gente”, explicou.
André Bonatte destaca mudança de atmosfera após homenagem a Ney
Diretor de carnaval da Imperatriz, André Bonatte afirmou que a escola busca evoluir a cada temporada, avaliando o trabalho anterior para aprimorar a apresentação seguinte. A expectativa é levar à gravação um resultado mais maduro, fruto desse processo de aperfeiçoamento.
“A expectativa é sempre a melhor. Eu acho que, na Imperatriz, a cada ano a gente pensa que tem que ser melhor do que o anterior. Essa é sempre a nossa proposta de trabalho: avaliar o que a gente fez e o que pode melhorar. Então, acredito que teremos uma gravação com muito mais maturidade e melhor do que aquilo que a gente vem apresentando, porque estamos sempre tentando evoluir. Eu estou na escola já há algum tempo. Já tenho uma estrada. Mas é sempre um carnaval novo, história nova, desafio novo, personagem novo que a gente encontra no enredo, na história que vamos contar. E tudo flutua em torno disso, o clima da escola flutua em torno disso. A gente está saindo de um clima muito bom, que foi o clima do Ney, que trouxe um astral para cima, alegre e feliz para a escola, e entrando agora em um astral sagrado. Em tudo o que a gente faz, sempre se questiona até que ponto estamos respeitando a ancestralidade. Musicalmente, na estética e na dança, a gente mudou, virou a chave. Saímos de algo muito festivo para algo que, obviamente, também precisa ser alegre, porque estamos falando de carnaval, mas que tem um compromisso sagrado com a ancestralidade”, afirmou.

Entre os destaques do samba, André apontou o refrão que saúda Oyá, também conhecida como Iansã, pela força da passagem e pela abertura para os percussionistas.
“No samba, eu acho que é o refrão. Essa saudação para o Oyá, para a nossa Iansã, traz um refrão muito forte e abre os caminhos para os percussionistas”, declarou.
Mestre Lolo prepara surpresas para a Sapucaí
Para a gravação oficial, a bateria da Imperatriz trabalha com andamento de 140 BPM (batidas por minuto). mestre Lolo, porém, deixou claro que o número não define o ritmo do desfile. A intenção é ajustar o andamento durante a preparação para favorecer a empolgação da comunidade.
“A gente ensaiou nos 140 BPM, mas só para a gravação da faixa mesmo. Para o desfile, a gente dá uma penteadinha mágica para empolgar a comunidade. A gente vai fazer umas brincadeirinhas aí, mas o bom vai ficar guardado para o desfile. Já é o 12º ano aqui na Imperatriz, então que venham mais dez, mais dez e mais dez”, comemorou.

Bernardo Nobre celebra segundo samba consecutivo
Vencedor da disputa pelo segundo ano consecutivo, o compositor Bernardo Nobre voltou a colocar seu nome entre os compositores que representarão a Imperatriz na avenida. Depois da conquista com o samba sobre Ney, o autor destacou a identificação com o enredo de 2027 e a experiência que teve em Recife antes de saber que o maracatu estaria no centro da narrativa da escola.
“Esse é o segundo ano que eu ganho. A gente venceu no ano passado, na disputa do Ney, e foi feliz de novo este ano. Para a gente, é um orgulho imenso. A Imperatriz é uma escola muito diferente, e este ano o enredo tocou muita gente desde o início. Eu, particularmente, estive lá no Maracatu Porto Rico, no início do ano. Estive em Recife, pude conhecer essa energia, mesmo antes de saber que esse seria o enredo e tudo mais. A Imperatriz está trazendo, este ano, para mim, uma macumba muito diferente daquilo a que a gente está acostumado. É um povo que tem uma tradição muito específica, muito ligada à sua história e às suas raízes. A gente tentou, o tempo inteiro, trazer para a nossa escrita, na letra, a voz desse povo de lá. Acho que fomos muito felizes nisso. A gente fica mais feliz ainda por a escola ter comprado a nossa ideia, ter entendido que tínhamos capacidade de representar a Imperatriz na avenida. Foi uma disputa muito especial. Tem sido um ano muito legal para a gente como compositor e, enfim, estamos muito, muito felizes e ansiosos agora para ouvir o samba gravado na voz do Pitty e com o mestre Lolo. Com certeza, eles vão abrilhantar ainda mais a obra”, afirmou.

Ao comentar os trechos de que mais gosta, Bernardo destacou a abertura, com a expressão “ouro é marfim”, e a chamada que antecede o refrão do meio, especialmente a passagem sobre a boneca no museu.
“Gosto muito da cabeça do samba, desde o trecho ‘ouro é marfim’. Acho isso muito lindo. A chamada antes do refrão do meio também é fantástica, principalmente a parte em que a gente fala da boneca no museu, onde a vida vira conta. Acho que é uma frase espetacular também. Mas poderia falar do samba todo, do refrão do meio, do ‘meia-noite’… Acho que é um samba muito completo como obra, e a gente está muito feliz”, declarou.
Me Leva destaca emoção de mais uma final
Com nove disputas de samba-enredo pela Imperatriz no currículo, Me Leva afirmou que cada conquista tem um significado próprio. Para o compositor, a renovação da emoção está ligada às particularidades de cada enredo, às parcerias e às histórias construídas durante o concurso.
“O sentimento é sempre renovado. Porque é outra emoção, é outro enredo, é outro parceiro. Eu já disputei nove sambas na escola, graças a Deus, com meu nome nas obras. É outra final. É outro tipo de emoção, não sei explicar. Toda final é uma final. Eu já ganhei, já perdi, mas é outro enredo, outro samba, outro parceiro, a gente faz novos amigos. É uma emoção muito especial, muito bom”, afirmou.

Na composição de 2027, o trecho de “meia-noite” é o favorito do autor. Me Leva também ressaltou que uma mudança na melodia fortaleceu a passagem que conduz ao refrão principal.
“Eu gosto do ‘meia-noite, meia-noite’, que vai chamando para o refrão no final. O refrão principal é um negócio bem forte mesmo, entendeu? E nós mudamos um pouco a melodia, ficou melhor ainda. É a parte de que eu mais gosto no samba”, explicou.










