O domingo à tarde foi de festa na Vila Nova Savoia, na Zona Leste de São Paulo. Em evento com a presença da coirmã Mocidade Unida da Mooca, a Imperatriz da Pauliceia anunciou o samba-enredo para o Carnaval 2027, que homenageará três dos grandes compositores de sambas-enredo paulistanos: Dom Marcos, Ideval e Paulistinha. O enredo, intitulado “Ideval, Dom Marcos e Paulistinha – Os Poetas da Paulicéia”, é assinado pelos carnavalescos Leandro Santana, Francis Santos e Fran da Vila. A canção é composta por Gui Cruz, Rafael Falanga, Marçal, Imperial, Portuga, Clayton Reis, Luizão, Luciano Rosa, Reinaldo Marques, Willian Tadeu e Vitor Gabriel. Sempre presente em eventos importantes para as escolas de samba paulistanas, o CARNAVALESCO entrevistou uma série de personagens importantes para a Princesinha da Zona Leste, maneira pela qual a agremiação é conhecida. A Imperatriz da Pauliceia será a quarta escola a desfilar no Grupo de Acesso II em 2027.
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Contato e inspiração
Nos últimos anos de vida, Marcos Antônio de Lima, popularmente conhecido como Dom Marcos, passou a ter voz muito ativa na Mocidade Unida da Mooca, escola que irá, em 2027, para o segundo ano no Grupo Especial de São Paulo. Não ironicamente, a parceria que compôs a obra para homenagear ele e outros dois grandes compositores são da MUM. Um deles, Gui Cruz, um dos intérpretes da agremiação ao lado de Pixulé, contou mais a respeito: “A gente tem uma história muito grande com o Dom Marcos, o Rafael mais do que toda a parceria. A gente começou a fazer os sambas da Mooca todos juntos, em 2016, e o Dom Marcos sempre esteve presente. Ele cantou durante muitos anos, ele era o cantor do seo Roberto Falanga, o cantor em que ele confiava. Quando surgiu esse enredo, ele já acionou a Mara e falou que ela poderia contar com a nossa ajuda para o que ela precisasse. Nisso, ela falou sobre o samba. Para a gente, foi uma honra muito grande. Foi um samba que saiu rapidamente, a sinopse foi muito inspiradora falando do aamba de São Paulo. Esse enredo da Imperatriz da Pauliceia é meio que uma extensão do nosso enredo na MUM para 2027, é um desdobramento, vamos assim dizer. Tudo para exaltar o nosso samba, para exaltar o nosso povo. Foi muito natural, foi uma parada que emocionou a gente falar do velhinho Dom Marcos; do seu Ideval que, para mim, é um dos maiores compositores do Brasil; Paulistinha também, que fez o primeiro samba-enredo do Brasil. A gente, como compositor, representar e estar dando voz ao enredo que fala sobre eles é maravilhoso”, disse.
Presidente da Mocidade Unida da Mooca, Rafael Falanga assumiu a fala do intérprete da agremiação liderada por ele e complementou: “Só um complemento: tem uma dose muito grande e emocional nessa história. O Dom Marcos foi um dos sambistas que ajudou a virar a chave da Mocidade Unida da Mooca num tempo em que a gente ainda não se encontrava como escola de samba. Quando a Mara anunciou o enredo, a primeira coisa que eu fiz foi ligar para ela e falar que estava emocionado, queria parabeniza-la e deixar a mão e a nossa estrutura, nossa maneira de pensar Carnaval e o que a gente pudesse contribuir para esse enredo da Paulicéia. Ela, de prontidão, como o Gui disse, destacou que queria um samba como a gente fazia na Mooca, com um refrão forte. Para mim, que desenvolvi o meu lado compositor com o Dom Marcos, vendo e vivendo o Dom Marcos, foi uma coisa de alma. Poder colocar a caneta nesse papel, contar a história em especial do Dom, mas ao lado de Paulistinha e Ideval, dois grandes compositores do Brasil. Fizemos o samba com muita emoção. Foi uma construção muito bonita”, emocionou-se.
Gui brincou a respeito: “O Rafael e o Dom Marcos, com o perdão do palavreado, eram igual bunda e cueca: um era o chaveirinho do outro, estavam sempre juntos. Um era o braço direito e o braço esquerdo do outro”, riu.

Falanga, além de novamente confirmar o que Gui comentou, exaltou a localidade que une a Imperatriz da Pauliceia e a Mocidade Unida da Mooca: “O Dom Marcos foi, para mim, por muitos anos um grande mestre. Assim como hoje eu tenho do meu lado o Mestre Raimundo Mercadoria, eu tinha o Dom Marcos numa época passada. É um privilégio muito grande poder escrever esse samba. Também quero dizer que a parceria como um todo é inteira apaixonada pela Zona Leste de São Paulo. O quanto a gente puder fortalecer a Zona Leste, a gente vai fortalecer. Seja com o que for, para que a gente tenha cada vez mais representatividade do nosso Lado Leste lá em cima, para que a gente se fortaleça também. Paulicéia, estamos juntos, contem com a gente!”, exclamou.
Estilo popular
Enquanto alguns sambas-enredo para o Carnaval 2027 na cidade de São Paulo estão apostando em letras mais longas, a canção que a Imperatriz da Pauliceia levará para a avenida tem a duração mais próxima do que se tornou convencional na folia paulistana. Falanga novamente recorreu a um dos homenageados do enredo para afirmar que tal característica foi intencional ao compor: “Dom Marcos sempre dizia que difícil é fazer o simples. Esse é o resumo dessa história. Samba bom é o samba que o povo canta. Todas são palavras e ensinamentos do velho Dom. Ele falava isso compondo com a gente. Quando a gente começava a rebuscar a letra, ele falava para a gente parar. É isso que nós fizemos: um samba que o povo vai cantar muito, um samba de uma letra muito simples, genuína, de fácil absorção. Hoje foi a amostra, a comunidade cantando horrores”, pontuou.

Gui Cruz focou no projeto da escola ao falar das características da obra composta também por ele: “Essa característica do samba é importante, também, para a estratégia da escola. Para a escola que vai desfilar no Grupo de Acesso II, buscamos fazer um samba simples, mas que tem toda a alma que o enredo precisa ter. Nesse ano, o samba vai se curvar à poesia desses três mestres e, quem sabe, levar a Imperatriz da Paulicéia para alcançar o tão sonhado Grupo de Acesso I”, explicou.
Competitividade alta
Marçal, outro dos compositores, do grupo, explicou como foi a dinâmica entre eles: “A Imperatriz da Pauliceia já tinha pedido um samba para o Rafael. Aí eu, reunido com o Gui, falei que a escola tinha me pedido um samba. A Mara já tinha falado com o Rafa e a gente não sabia! A gente achava que o Rafa ia fazer um samba e nós íamos fazer outro. Só nesse momento a gente falou para unificarmos tudo”, revelou.
Falanga retrucou: “O que o Marçal não fala é que ele não queria que a gente unificasse os sambas!”, disse. O companheiro de grupo foi além: “O Rafael adora disputas internas. A gente faz um samba, o outro faz outro e, no final, se não juntar, cada um vai com o seu samba. Ele estava meio bravo com a gente, ele não queria juntar com a gente, não queria fazer o samba. Depois de um tempo, nós que ligamos para ele e falamos que queríamos fazer juntos. Juntou a parceria e saiu esse samba que, graças a Deus, todo mundo está gostando. Se Deus quiser, Imperatriz no Grupo de Acesso I!”, empolgou-se.
Parte favorita
Ao falar do trecho predileto de cada um deles, as duas partes que se repetem foram citadas: “Minha parte favorita é o refrão!”, logo falou Marçal. Os demais, entretanto, citaram outros versos: “A minha parte favorita é o refrão do meio. Esse refrão do meio é muito bonito”, comentou Falanga. Já Gui Cruz trouxe uma visão mais técnica: “Tem uma malandreada no refrão do meio, tem uma parada extra, que é o grande encontro deles”, refletiu.
Diretoria feliz
Maralice Lazarini, presidente da escola que pediu aos compositores a obra, foi sucinta ao ser perguntada sobre o que achou da obra: “Eu adorei o samba! Na realidade, é exatamente aquilo que a gente esperava. A gente cultua exatamente as pessoas que têm de ser cultuadas, que são os nossos poetas”, destacou.

Percio Junior, popularmente conhecido como Batata, vice-presidente e diretor de carnaval da Imperatriz da Pauliceia, mostrou-se bastante animado com a obra: “Melhor impossível! Ficou bem dentro do que a gente queria. A verdade é que a gente tinha algumas opções, e a gente escolheu aquele samba que mais tinha a ver com a gente, que mais fazia sentido na questão do enredo. É um enredo muito rico! A gente teve bastante critério para escolher o samba e a gente acertou. O samba era a melhor opção, mesmo. Um sambaço!”, comemorou.

A presidente destacou que os pedidos da agremiação foram integralmente atendidos pela parceria: “Somos uma escola não muito grande no número de componentes, portanto é uma escola que precisa de um samba para frente, para empolgar, senão ela morre na avenida. A única coisa que eu pedi, porque eu confiava muito nos nossos compositores foi: um samba para frente, um samba para cima e um samba bem alegre. Foi a única coisa que eu pedi”, revelou.

Batata foi perguntado sobre as próximas datas que a comunidade da Imperatriz da Pauliceia deverá marcar no calendário. Mais do que isso, ele trouxe uma novidade: “Agora é ensaio! Ensaio, ensaio e mais ensaio! Às quintas-feiras, a partir das 20h, e aos domingos, a partir das 16h. Agora é Carnaval, agora é dar play nos ensaios! Não tem muito para onde correr. Para 2027, a gente vai fazer alguns ensaios de rua, vamos pedir para o pessoal acompanhar nas redes sociais para a gente confirmar as datas: vai ter um em novembro, um em dezembro e um em janeiro, na nossa rua, mesmo, a gente vai fechar o espaço. A gente tem uma parceria boa com a Prefeitura, que nos ajuda da maneira que dá. Depois a gente tem o ensaio técnico, tem minidesfile na Fábrica… aí é o que eu falei: é play agora, agora é Carnaval na veia!”, exaltou.
Adequação ideal
No trio de carnavalescos da Imperatriz da Pauliceia, Leandro Santana é o que fica mais à frente de questões ligadas ao enredo. Atento à obra escolhida pela escola, ele fez questão de elogiar a canção: “Eu adorei o samba! Eu e toda a equipe da escola ficamos muito felizes com a escolha do samba. É um samba que condiz perfeitamente com a narrativa proposta pelo enredo, e é um samba que carrega tanto uma carga afetiva muito grande, por fazer essas referências a esses sambas que são imortais na história do samba paulistano, e também são animados. Eles condizem muito com a própria comunidade da Pauliceia, casou muito bem com a bateria, também. Eu estou extremamente feliz e tenho certeza que toda a comunidade da Pauliceia também”, comentou.

Leandro também destacou que já completa comunhão entre a canção e o enredo assinado a seis mãos: “Esse samba diz perfeitamente a narrativa do enredo do começo ao fim. A gente não teve nem um grande problema, nem uma grande questão no que diz respeito à adequação do samba em relação ao enredo. Ele já veio muito redondo, ele já veio muito conciso e muito poético dentro da proposta que a gente tinha de coesão do enredo. Ele veio de uma maneira que só trouxe alegria e nos deixou muito empolgados e muito otimistas”, prometeu.
Músicos satisfeitos
Dois nomes responsáveis pela execução da canção também destacaram que gostaram da obra. Mestra Rafa, ritmista-mor da “Swing da Pauliceia”, bateria da escola, foi uma delas: “Eu gostei muito! Ele dá bastante possibilidade rítmica para a gente. A gente pensa na escola como um todo, e eu penso que é um samba bastante forte para a Imperatriz. Lógico que também pensamos na gente, mas o principal é a escola como um todo. O samba tem a cara da Paulicéia. Com o Dom Júnior não tem como errar, então vai dar tudo certo!”, elogiou.

Citado por mestra Rafa, o intérprete foi na mesma linha: “Gostei bastante! O enredo da gente remete a compositores que são, a maior parte deles, oriundos da década de 1990, final de 1980 para 1990; o Paulistinha é um pouco mais para trás. O samba conseguiu trazer umas nuances desses sambas mais antigos, aquele balanço, aquela melodia mais bonita, mas sem perder a pegada que a gente sente atualmente, que é um pouco diferente. Vocês vão perceber um samba que tem um refrão muito atual, muito valente. Quanto ao desenvolvimento da letra, do contexto do samba, ele vem com uma característica um pouquinho saudosista. Eu gostei demais, porque eu acho que vai ao encontro da finalidade do enredo: saudar esses grandes compositores”, rememorou Dom Júnior.

Imaginação a mil
Mais que falar o quanto a canção é interessante, Mestra Rafa pontuou que já está com uma bossa na rua: “A gente estuda assim que sai a letra final, a gente já começa o quanto antes. A cabeça da gente é assim que funciona. A gente já tem uma bossa de avenida, as outras duas a gente tem mas não vamos mostrar hoje. O que eu vou trazer é muita ancestralidade, quero trazer principalmente a ancestralidade paulista: a gente tem mania de ficar falando do Carnaval e nunca fala da gente, vamos mudar isso nesse ano. Dessa vez eu vou buscar influências paulistanas, e uma delas é o samba-rock, que também foi criado em São Paulo. É essa a primeira bossa que a gente vai lançar já aqui hoje”, prometeu e cumpriu a líder da Swing da Pauliceia.
Dom Júnior aproveitou para elencar um destaque da canção: “Para começar, vocês vão se surpreender com a largada do samba! É uma característica nossa, no samba de 2026 a gente fez aquela largada dos pontos de macumba. A gente tem como característica, no nosso trabalho, uma largada sempre diferente, sempre tendo um contexto do enredo, mas uma surpresa para que as pessoas já se interessem pelo samba-enredo logo com a introdução. Vocês vão perceber que é uma introdução que vai emocionar muito! A gente vai lembrar um pouquinho das composições desses caras geniais. A gente já entende que é um samba muito propício para isso. Já tem algumas coisas para a gente utilizar no intuito de emocionar, de trazer a galera para cantar junto, de fazer as pessoas lembrarem desses três compositores e muito mais: do samba antigo, das nossas raízes. O intuito é esse aí”, afirmou.
Em família
A semelhança nos nomes artísticos não é coincidência: Dom Júnior é filho de Dom Marcos, um dos homenageados pelo enredo. O rebento revelou uma sensação que costuma sentir ao falar da temática escolhida pela Princesinha da Zona Leste: “Isso não tem preço! A Imperatriz é uma família, é uma escola que me recebeu de braços mega abertos e isso, por si só, já seria um motivo para estar muito feliz. E eu estou! Quando a gente pensa nessa questão do enredo envolver o meu pai, penso que ele sempre foi um cara que defendeu muito a raiz, o samba, os que vieram antes dele. Ele sempre trouxe histórias, sempre falou muito para a gente sobre as pessoas que amassaram o chão para ele pisar. Hoje, falar dele e desses compositores é fazer um pouquinho do que ele ensinou: que é valorizar quem veio antes, quem fez, quem plantou para a gente colher um pouquinho melhor. Eu me sinto muito feliz, muito honrado. É emocionante! Eu ainda, de verdade, não consigo mensurar o quanto é importante e emocionante isso. Eu tento, em alguns momentos, principalmente quando eu estou cantando, desligar um pouquinho do emocional, senão a gente não canta, só chora. Eu brinco com a presidente Mara que tem um banner gigante no meio da quadra que tem a foto deles, e sempre quando eu estou cantando eu vejo a foto do meu pai gigante e eu sinto uma energia de que ele está falando que está tudo muito bom e feliz. Tenho certeza que ele, lá em cima, está muito feliz com isso”, emocionou-se.
Defensores do pavilhão em êxtase
Primeiro dos casais de mestre-sala e porta-bandeira da Imperatriz da Pauliceia, Ronaldo Ferreira e Leila Cruz também gostaram da canção: “É maravilhoso o samba! Vocês ouviram a pedrada que foi! O samba é a cara da Imperatriz da Paulicéia. A cada ano que passa a Imperatriz está sempre se superando, sai um samba melhor que o outro. E esse vai ser o grande samba da história!”, prometeu a porta-bandeira.

Ronaldo foi pela mesma linha: “É como a Leila falou: a cada ano nós estamos tendo a felicidade de apresentar um samba tão bom quanto o do ano anterior. Isso nos ajuda demais! É um samba para cima, que vai ajudar toda a escola na avenida”, pontuou.
Em relação ao que será feito na avenida, a dupla falou sobre a dinâmica de trabalho entre eles: “Em relação à coreografia, todo ano nós trabalhamos em cima do samba. Nós usamos elementos do tema e, quando o samba favorece, nós usamos elementos diretamente do samba. Mas nós, de uma maneira geral, trabalhamos muito em cima do enredo. Nesse ano nós fomos favorecidos nesse caso. Deu para colocar alguma coisa do samba, mas está no início ainda o nosso trabalho coreográfico. Nós estamos montando a coreografia e essa parte está em andamento. Sempre muda! Daqui até o dia do desfile vai mudar muita coisa, mas já temos um início”, afirmou.
Leila comentou que o documento que rege o concurso das escolas de samba também tem parte no que ainda pode ser alterado: “Nós já criamos algumas coisas! No meio do samba, já criamos uma coreografia para encaixar na letra do samba. Mas, como o Ronaldo falou, até o final do Carnaval algumas coisas irão se ajustar e até mudar. Mas, por enquanto está assim: a gente está trabalhando, colocando a nossa coreografia com toda a letra do samba. Vamos ver o que a gente consegue adaptar, porque a gente tem que esperar para ver o regulamento, que todo ano está mudando. A gente vai esperar vir o regulamento para ver onde a gente vai mexer. Mas o samba está bem favorável para colocar a nossa coreografia dentro dele”, finalizou.
Detalhes do evento
De maneira pontual, a agremiação começou o repertório do evento com shows de segmentos, como casais de mestre-sala e porta-bandeira, passistas e a Corte da Swing da Pauliceia, composta pela Rainha Ana Ishikawa e a Madrinha Priscila Araújo. A agremiação aproveitou, inclusive, para homenagear de maneira oficial, a Madrinha da bateria e nomear uma Passista de Ouro, Melina Pinheiro, e um Malandro de Ouro, Robinson Pinheiro. Após a despedida do samba-enredo de 2026 e o lançamento oficial da canção de 2027, chegou a vez da coirmã Mocidade Unida da Mooca, com diversas personalidades presentes – como a Rainha da Chapa Quente, Valeska Reis, e diversas musas.









