
O Salgueiro realizou a etapa de quartas de final da disputa de sambas-enredo para o Carnaval 2027 no último sábado com bom público presente na quadra da Silva Teles. Quem esteve na vermelho e branco assistiu a uma bela noite de sambas, com a maior parte das obras alcançando um rendimento de muita qualidade, sobretudo as parcerias de Xande de Pilares e Ian Ruas, que fizeram apresentações de excelência. Abaixo, a análise do CARNAVALESCO sobre as parcerias que se apresentaram na noite:
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Parceria de Marcelo Adnet (samba 15): O samba da autoria de Marcelo Adnet, Gustavo Albuquerque, Babby do Cavaco, André Capá, Bruno Zullo, Igor Marinho, Pedro Ayres, Sergio Pimentel, De Lima e Fabiano Paiva foi cantado por Wander Pires. Mas, antes de o intérprete cantar, a torcida já entoou forte o refrão principal. A primeira parte possui uma melodia forte e sedutora, que embala uma Xica da Silva poderosa, exemplificada no verso “tá pra nascer nesse mundo de meu Deus, homem que vai aguentar uma mulher igual a eu”. O refrão central “avisa na casa grande, meu nome é Francisca, filha de Maria da Costa da Mina, vivi em Taís, Isabel e Zezé, arreda, moço, Xica dá o que quiser” é uma autoapresentação da personagem e cita as três incorporações de Xica retratadas na sinopse, com uma melodia que possui boa fluidez e obteve um rendimento forte. A segunda parte traz a narrativa que Francisca da Silva quer mostrar sobre si: mais do que um corpo, mais do que uma sensualidade, ela é força, coragem, poder e fé. Trechos como “Se pensa que pode tocar o corpo que a tela despiu, meu grito é capaz de curar, as chagas do velho Brasil” cumprem a explanação com clareza. A construção da letra é bem-feita e o verso final “quero ver bater de frente com a escola de Xangô” chama a garra do salgueirense, porém a transição do “ooo” para o refrão principal soa desencaixada. A melodia cumpre seu papel, mas não é tão sedutora. O refrão “Õôôô, sou dona da casa, tenho a chave do terreiro, ôôôô, voltei pra cantar, Salgueiro (no meu Salgueiro” não possui um clamor tão forte, mas a melodia agradável contribuiu para a boa passagem do trecho. Na passada apenas com o canto da torcida, o samba foi entoado com força em toda a obra, com o incentivo de Wander Pires, que a todo momento chamou os presentes. O refrão foi gritado e embalou o retorno do canto no palco, que deu uma esquentada maior no desempenho do samba, inclusive na segunda parte. Uma boa passagem na primeira metade da apresentação, que terminou muito forte.
Parceria de Ian Ruas (samba 09): A composição da parceria de Ian Ruas, Caio Miranda, Zé Carlos, David Carvalho, Luiz Fernando, Luana Rosa, Fabiano Mattos e Carlão teve Dowglas Diniz e Vitor Cunha como intérpretes principais. O refrão principal “laroyê! Xica da Silva, laroyê! Ê mojubá, toda mulher tem direito à própria história, meu Salgueiro é a memória que eu voltei pra consagrar” une força interpretativa, pertinência com o enredo e boa melodia, obtendo, com esse conjunto, uma apresentação de muita potência e empolgação. Na primeira parte, o destaque narrativo é o trecho “Francisca, mãe da encruzilhada, rosa indomada, deusa da rua, na procissão da academia, negra fidalguia se perpetua”, mostrando uma multifacetada Xica, muito mais do que a figura idealizada e sexualizada nas obras. O refrão central “Incorporei no atabaque do meu torrão, festa de ostentação ao poder da negritude, dilacerei as vestes da servidão, meu corpo foi invasão, fetiche da branquitude” possui uma semântica qualificada e uma mensagem forte de protesto à objetificação com que a figura de Xica é lembrada, algo que permeia bastante o enredo. O trecho possui uma melodia interessante, e isso foi bem explorado pelos intérpretes, passando com bastante suingue. A segunda parte peca um pouco na poética em alguns versos, mas cresce novamente a partir dos versos “gira, desce o morro meu Salgueiro, meu quilombo pioneiro, renasci nesse conga, firma axé na segunda-feira, é macumba a noite inteira, sarava, alafiá”, recuperando potência e beleza na escrita com versos como “matriz, mecena de toda arte, que leva em seu estandarte, a simples audácia do amor, louvai, Brasil, a filha de Orun despertou”. A apresentação foi excelente, realçando as qualidades de construção da obra. Na passagem onde o canto é protagonizado pela torcida, exceto pelo início da segunda parte, os torcedores conseguiram segurar bem no gogó, com maior explosão no refrão principal. Na passagem final de retorno, o samba novamente conseguiu um ótimo desempenho e terminou a apresentação na mesma pegada.
Parceria de Xande de Pilares (samba 06): Charles Silva defendeu o samba da parceria de Xande de Pilares, Fred Camacho, Betinho de Pilares, Miguel Dibo, Renato Galante, Jorginho Via 13, W. Correa, Orlando Ambrósio, Jefferson Oliveira e Rafael Gigante. O intérprete comandou uma apresentação que esquentou a quadra. Mais uma parceria que contou com um esquenta da torcida antes da largada. O refrão principal “Hoje o couro vai comer, laroyê! A dona da casa quer girar, furiosa no dendê! Gargalhou na meia-noite, ecoou no meio-dia, a moça incorporou na academia!” evoca o poder de Xica da Silva e possui ótima assimilação com quem escuta a obra, mostrando sua valentia durante toda a apresentação. A primeira parte aposta em algumas soluções de linguagem padrões para este tipo de enredo, obtendo mais singularidade nos versos finais “lua de prata no céu, a mulherada sorri, hoje eu não estou de volta, porque sempre estive aqui”. O envolvente trecho com estrutura de refrão sem bis “Auê, auê, auê, auá, quero ver pombogirá, auê, auê, abre os caminhos pro Salgueiro desfilar” é um dos pontos altos da obra e passou muito bem. Outro destaque é o refrão “sangue da costa da Mina, arte que vence demanda, eis a história despida, chegou a Chica que manda”, de excelente melodia, passando de forma sedutora. Uma melodia mais dolente surge para falar da Xica espelho da figura feminina, culminando nos versos finais que fazem alusão ao chão onde pisa o Salgueiro, “Francisca da Silva de Oliveira, a Xica da Silva Teles”, solução que toca no âmago do salgueirense. O samba já largou com extrema força e assim se manteve em todas as passadas, incluindo a levada pela torcida, sem queda em nenhum trecho. O samba se mostrou redondo e fluiu fácil até o fim. Apresentação impecável.
Parceria de Raoni Ventapane (samba 17): O samba de Raoni Ventapane, Dudah, Thales Nunes, Daniel Guimarães, Clara Ferreira, Denis Moraes, Vitor Menezes, Wibson Fernando, Carlinhos Professor e Hugo Oliveira foi defendido por Evandro Malandro, Emerson Dias e Dudah. A primeira parte apresenta uma melodia dolente e bem estruturada, com uma narrativa correta, porém sem maior brilho, apesar de bem amarrada. Um destaque é o trecho “a fogueira pra mentira, a coragem que respira, corpo-espelho da ralé, é o retorno que atiça”. Na sequência, vem o grande momento da obra, o refrão central “Ela é Maria, Mariá, na tela incorporei, ela é Maria, Mariá, as regras eu rasguei, liberdade da mulher nas curvas de Zezé, não é roteiro a bel-prazer de quem quiser”; na repetição, ocorre a mudança das duas últimas frases para “no terreiro catulei, mandingueira Imperatriz, encarei o preconceito com a força de Taís”, espetacular em melodia, em imagética do enredo e na mensagem escrita. Não à toa, foi o momento de maior qualidade da apresentação. A segunda parte apresenta a ótica de Francisca e consegue uma narrativa que chama mais a atenção, com versos entrelaçados com menções à escola, como “ê Laroyê, ê laroyê, o tambor da minha escola tem recado pra você, ê pombogirê, ê pombogirá, encarnada de vermelho ninguém vai me segurar”. O refrão principal “arreda homem que aí vem Salgueiro, arreda homem que aí vem Salgueiro, sou a Xica macumbeira, pambunjila, Mojubá!, a faísca que acende a furiosa no conga” aposta na repetição do primeiro verso, mas não é marcante e acabou passando de forma mais despercebida, apesar do esforço da torcida, que também fez sua parte na passagem sem o canto constante dos intérpretes. A passagem da obra foi correta, não teve uma grande queda, porém não alcançou um grande desempenho, mesmo com a energia com que os intérpretes conduziram a composição.
Parceria de Bernardo Nobre (samba 07): Pitty de Menezes foi a voz principal do samba da parceria de Bernardo Nobre, Thiago Meiners, Leandro Pereira, John Bahiense, João Moreira, André de Souza, Ribeirinho, Diego Alba, Jonathan Tenório e Luiza Vieira. O refrão principal “Malelê, malelê, kaô kabecilê, meu Salgueiro corre gira, Mojubá Laroyê, toca o barravento, firma o alujá, na casa de Xangô, eu vou pombogirar” possui uma estrutura em tom maior que joga o samba pra cima, além de serem versos de clamor e evocação de orixás, o que, por si só, possui muita força. A valentia do trecho é completada pelo desempenho de Pitty e seus apoios, que gerou um grande desempenho, com muita energia. A primeira parte apresenta uma melodia interessante que potencializa o desempenho da obra, com boa mescla de variações. A letra, sem maiores arroubos criativos, é correta e retrata uma Xica poderosa e do enfrentamento, vide os versos “toma cuidado, vou dizer como é que é, quem governa minha rua, malandragem de mulher, arreda homi se não pode segurar, aquela que aponta o dedo pra desafiar”. A obra emenda dois refrãos em seguida. O primeiro é “tá pra nascer meu Deus, quem enfrente uma moça igual a ela”, mantendo a linguagem dos versos anteriores. Na sequência, “Pombogira é pombogirá, a flor mais bela, na gira, na reza do conga ou na capela, o meu povo deslumbrante, a corte do Orun num instante desceu, pra ver o Salgueiro em seu apogeu” é criativo e bom melodicamente. A segunda parte é mais lírica na letra, que retrata os sonhos de Francisca por um mundo mais justo, como nos versos “um sonho, os filhos sejam mais que um papel, farrapos não nos tornem mais os réus, pra que sejamos arte em reparação”, apesar de ser uma curva na narrativa proposta. A melodia segue arredondando bem a obra, apesar de menos inventiva. A apresentação arrancou em um pique gigantesco, arrefeceu um pouco ao longo das passadas, mas os refrãos sustentaram bem demais a obra. Uma interpretação de muita garra de Pitty e seus apoios, além de tecnicamente aproveitarem bem as nuances melódicas do samba. Na passagem sob o canto da torcida, Pitty desceu no palco e inflamou os componentes, que cantaram com força. Se não foi uma passagem irrepreensível, foi mais um samba que mostrou bastante funcionalidade e passou muito bem.
Parceria de Moisés Santiago (samba 01): A composição de Moisés Santiago, Sereno FDQ, Rodrigo Feiju, Aldir Senna, Mateus Pranto, Marquinho Bombeiro, Marcelo Martins, Alexandre Cabeça, Sandro Nery e Marcelo Batista foi defendida por Tuninho Júnior, Tem Tem Jr. e Rafael Tinguinha. Um samba que aposta em uma melodia de mais empolgação e menos peso em sua primeira parte. Já nos primeiros versos, uma alusão ao famoso “Ôôô ôô ôô” do samba de 1963, bem encaixado nos versos seguintes, que justamente trazem lembranças daquele desfile: “a entidade eternizada por Arlindo, por Anescar e Noel Rosa de Oliveira, fiz Isabel me incorporar, pra revolucionar a cultura brasileira”. A aposta funcionou, e o samba passou de maneira agradável. O refrão central “axé, pode preparar a gira, o meu corpo tem Dendê… canjia, magia de enfeitiçar, me chamaram de mucama, mas nasci pra ser Sinhá” já faz uso de uma melodia mais pesada, principalmente nos primeiros versos, comum em sambas que retratam o universo de negritude e ritualidade. Na sequência, outro refrão “a dona do contratador é anjo, diabo, mulher, a retinta sedução, virei Taís e Zezé”, citando as obras audiovisuais de sucesso em homenagem à Xica. A segunda parte inicia com os bons versos “Eu jamais fui o retrato que Sinhô mandou pintar, todo véu da hipocrisia, eu mandei rasgar”, seguindo com o segundo ato da sinopse, trazendo a versão de Francisca sobre a própria história, de maneira linear, sem um ápice criativo. A melodia tem momentos interessantes, como nos versos finais “Bate tambor nesse chão que me consagrou, toda falange de vermelho e branco baixou, voltei, voltei pra abraçar o meu povo na encruza, o meu Salgueiro é casa de macumba”. O refrão principal é outro a fazer uso da repetição de versos com “Laroyê, pombogira, Exú mulher, Laroyê, pombogira, Exú mulher, no meu terreiro, Xica é rebeldia, a preta, no Ilê da academia”, mas aqui funciona com maior naturalidade dentro da melodia, sem deixar o trecho arrastado, vide a passagem linear do trecho na quadra. O samba teve um bom rendimento em todas as passadas, mas com os melhores momentos ocorrendo no refrão principal e na primeira parte, onde o desempenho foi ótimo. A segunda parte exibiu um pouco menos de força, porém também teve bom funcionamento. A passagem com a torcida foi satisfatória. Destaque para o ótimo conjunto harmônico formado pelos intérpretes da obra.
Parceria de Marcelo Motta (samba 08): Tinga e Marquinhos Art Samba comandaram a obra de Marcelo Motta, Dudu Nobre, Pedrinho da Flor, Jorge Arthur, Leonardo Gallo, Julio Alves, Gilbrth Castro, Bruno Dallari, Josy Pereira e André Braga. O samba começa já potente, com pegada de gira nos versos “Deu meia-noite, galo canta na calunga, é Xica quem faz macumba, é Xica quem faz macumba, deu meia-noite, começou o canjerê, marafó, mel e dendê, marafo, mel e Dendê”, com o artifício da repetição de versos realizado em dois momentos. Um início carregado que energizou a apresentação para os versos subsequentes, que contam com excelência as faces retratadas de Xica da Silva, como nos versos “Baixei na terra pra contar a minha história, retomar tempo de glória, me dê licença, carrego a força de um grito atemporal, contra a falsa moral, convoco a falange de Valença”, que possuem uma melodia que trilha com beleza as palavras da homenageada. O refrão central “Chama Padilha, Mulambo, que tem demanda, pintaram Xica que manda na tinta da branquitude, eu fiz valer a gente da minha cor, a preta que empoderou as pretas de atitude” possui muita qualidade em sua letra, enquanto melodicamente não se destaca tanto na obra, mas cumpre com correção e teve uma boa passagem. A segunda parte começa mais interessante em sua melodia nos versos “Apesar da dor, do tempo colono, amor imposto, o preço é alforria, por toda Maria que não teve dono”, já sob a narrativa de Francisca. Os versos finais trazem a personagem preparada para sua nova incorporação de forma sucinta, porém precisa nos versos “Encantada, do Orum, nessa casa me apresento, Francisca da Silva, a fúria contra injúria, incorporada, vermelho fundamento, que finda apagamento nessa encruzilhada”. O refrão principal “Vira no santo, Iaiá, virou Salgueiro, nessa canjira, Pomba Gira, aluvaiá, ninguém segura o meu povo macumbeiro, Laroyê, sou eu, Emojubá” teve um desempenho bem mais destacado e manteve a energia até o fim da apresentação. Um samba bastante qualificado que teve uma passagem muito firme e fluida, compatível com a qualidade da obra, com uma torcida que defendeu a composição com entusiasmo.









