
A Unidos do Viradouro promoveu, pela primeira vez nesta temporada, uma noite com os oito sambas concorrentes ao Carnaval 2027 apresentados ao público na quadra. Em um dia marcado por obras de alto nível, a safra apresentada se destacou especialmente pelas melodias, muitas delas com o tradicional “cheiro” de Viradouro, escola reconhecida por levar para a avenida composições de melodias bonitas e marcantes. Além disso, a noite foi marcada positivamente pela organização e pelo ambiente proporcionado pela quadra. O resultado das obras que seguem na competição será divulgado pela Viradouro nesta segunda-feira, às 18h. A seguir, o CARNAVALESCO analisa as apresentações.
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Parceria de Júlio Alves: O samba 11 abriu bem a noite, com boa melodia e um desempenho seguro de Wandinho Pires e Rafael Tinguinha. A composição apresenta uma construção melódica agradável desde a primeira parte e encontra nos refrões alguns de seus principais pontos de força, especialmente pela facilidade de assimilação e pela maneira como ajudam a conduzir a narrativa. Na primeira parte, a letra estabelece rapidamente os elementos centrais do enredo, passando pela saudação a Exu, Nanã, Iroko e pela história de Ananse e do povo Ashanti. A composição consegue reunir diferentes referências da ancestralidade africana sem perder a linha narrativa, conectando memória, oralidade e transmissão do conhecimento. O refrão do meio, com “Korá, Korá! A palavra dedilhada / Encontrou a encruzilhada / Onde versa o contador”, tem boa construção melódica e reforça a figura do griô como guardião da palavra e da memória. A passagem também prepara o desenvolvimento da segunda parte, que ganha força ao abordar a violência da escravidão e o apagamento cultural. Um dos melhores momentos está justamente na retomada da segunda parte, no trecho “Eu ressurgi nos versos garimpados da canção / No verbo, ao vento, feito um trovão”. A melodia apresenta uma virada interessante, criando mudança de dinâmica e valorizando a sequência até “Perpetuando a ancestralidade”. O trecho funciona como uma boa ponte para o refrão principal e concentra uma das passagens mais expressivas da obra. A letra também apresenta uma relação clara com a proposta do enredo ao destacar os itans, orikis, terreiros e a ancestralidade como espaços de preservação da memória. A ideia de que a palavra é capaz de atravessar o tempo aparece de maneira bem construída e desemboca no refrão principal, com “Ogbón ju agbará! Griô!”, expressão que ganha força pela repetição e pelo diálogo com o conceito de sabedoria. No geral, o samba se destaca pela boa fluidez melódica, pelos refrões bem construídos e por uma segunda parte que cresce até chegar ao refrão principal. É uma composição que apresenta a temática do enredo de forma compreensível e encontra seus melhores momentos na construção melódica da segunda parte e na força dos refrões.
Parceria de PC Portugal: O samba 16 apresenta uma melodia bastante fluida desde os primeiros versos, com uma construção que favorece o desenvolvimento da narrativa. A primeira parte encontra um de seus melhores momentos na passagem “No sagrado fundamento / A fé é baobá / Vira folha, corre vento / A memória fui criar”, em que a melodia ganha uma virada interessante e mantém o movimento até “Cada conto é um filho que Nyame semeou”. É um trecho que contribui diretamente para a fluidez da obra e prepara bem a chegada ao refrão do meio. A letra apresenta boas soluções para abordar os diferentes elementos do enredo. A abertura parte do terreiro e de referências como Exu, Nanã e Iroko, avançando para Ananse e Nyame. Na sequência, a figura do griô aparece associada ao Mali, ao djeli, ao balafon e à korá, estabelecendo uma conexão entre a tradição oral africana e a preservação do conhecimento. Outro destaque está na passagem “Dos vissungos nas Gerais, resistência se criou / Voz que cala opressor”, que amplia a narrativa para a experiência negra no Brasil. O samba também consegue construir uma linha entre diferentes manifestações culturais ao citar os terreiros, o jongo e o samba de roda, chegando à afirmação de que “por toda bandeira em cada escola / tem a pele preta, ancestral”. A letra, portanto, não se limita à figura do griô, mas amplia o conceito de ancestralidade para diferentes formas de expressão da cultura negra. O refrão principal é um dos pontos fortes da composição. “É de arerê, meu batuquejê / Canto pra te coroar” apresenta uma construção de fácil canto, enquanto “Griô da pedreira, os filhos do fogo / Meu Quilombo Viradouro” fecha a obra, aproximando o conceito do enredo da identidade da escola. A interpretação de Freddy Vianna contribui para a força desse momento. No geral, é um samba de boa fluidez melódica, com letra consistente e referências bem distribuídas ao longo da composição. Os principais destaques estão na virada melódica da primeira parte, na riqueza das conexões estabelecidas pela letra e na força do refrão principal, que tem boa capacidade de canto coletivo.
Parceria de Claudio Mattos: Antes mesmo de a apresentação começar, o samba 13 já era cantado em alto volume pela torcida, que foi a mais numerosa da noite. A força da arquibancada se estendeu aos segmentos da escola, que cantaram a obra a plenos pulmões durante as passadas. Dentro desse ambiente, Pitty de Menezes e Dodô Ananias conduziram bem o carro de som, mantendo um bom desempenho ao longo da apresentação. Foi um dos destaques da noite. A composição também se sobressai pela melodia, que apresenta boa fluidez e ganha força com a interpretação coletiva. O refrão do meio, ao trazer “Quando o korá ecoou, foi mandinga / Oriki, Bambará, Malinquê / Balafon se mistura ao tambor”, tem uma construção que favorece o canto e amplia a sonoridade do samba ao reunir diferentes referências da tradição africana. Na letra, a parceria desenvolve com clareza a trajetória da palavra e do conhecimento, passando por Exu, Nanã, Ewá, Iroko e Ananse até chegar à figura do griô. A narrativa avança da ancestralidade africana para a experiência no Brasil, com menções ao axé, aos rituais, ao jongo e aos carnavais. Essa construção ganha uma dimensão especialmente interessante quando o samba aproxima a memória ancestral da própria história das escolas de samba. É justamente nesse ponto que aparece um dos grandes momentos da composição: “Lembra quantos enredos já pisaram na avenida? / Um relicário de lembranças esquecidas / Que a minha arte é capaz de revelar pro mundo inteiro”. Os versos valorizam o papel do Carnaval como espaço de preservação e reconstrução da memória, enquanto “Hoje, declamo tais versos feito poesia / São histórias que encontram melodias / Renascidas no sagrado terreiro” fecha a ideia com forte carga poética. O refrão principal mantém a força apresentada ao longo do samba. “Kawó, meu pai Kawó… reina Xangô” tem impacto e boa capacidade de canto, antes de desembocar em “Sou Viradouro, nasci pra fazer história”, conectando a ancestralidade ao orgulho da escola. É uma composição que se beneficiou claramente da resposta da quadra, mas que também apresenta qualidades próprias: boa melodia, letra rica em imagens e referências e um refrão principal de forte apelo. A sintonia entre torcida, segmentos e carro de som transformou a apresentação em um dos momentos mais marcantes da noite.
Parceria de Deco: Mesmo com uma torcida menos numerosa, o samba 9 começou a apresentação já sendo cantado com bastante disposição e encontrou resposta também nos segmentos da escola. A boa condução de Marquinhos Art Samba e Lissandra Oliveira ajudou a manter a obra firme durante as passadas, em uma apresentação que teve na melodia um de seus principais pontos de destaque. A primeira parte apresenta um desenho melódico especialmente interessante a partir de “Eu vi, um ser divino tecer a lembrança / Desafiar e guardar as memórias / Nessas andanças / São tantas histórias”. A sequência ganha movimento e desemboca em “De balafon e Korá, compondo pra eternizar / A palavra de África”, mantendo uma construção que valoriza a narrativa e conduz naturalmente ao refrão do meio. A letra encontra soluções interessantes para abordar a trajetória da memória negra. O refrão do meio é um dos pontos altos nesse aspecto, com “Os branco prendia, os preto rezava / Os branco dormia, preto trabaiava”, utilizando uma linguagem direta para evidenciar a violência da escravidão e a resistência diante das tentativas de apagamento. “Tentaram nos esquecer / Não conseguiram apagar” sintetiza bem essa ideia e dá força ao trecho. Na segunda parte, o samba amplia o conceito de ancestralidade ao passar pela casa de santo, pela baiana, pelo mestre e pelo pavilhão, até chegar à escola de samba como espaço de preservação. O verso “Mantenho as tradições / Por mais de mil gerações / Existo porque há escola de samba” estabelece uma relação direta entre a continuidade da memória e a própria existência do carnaval. Os refrões são outro ponto positivo da composição. O principal, “A Viradouro é griô ôôôôô”, tem forte apelo de canto e conduz a obra ao fechamento com “Ensinamento de pai pra filho”, reforçando a ideia central de transmissão do conhecimento entre gerações. No conjunto, o samba apresenta boa melodia, letra consistente e refrões de fácil assimilação. A força da torcida e dos segmentos, somada à boa condução do carro de som, ajudou a potencializar uma composição que encontra seus melhores momentos na construção melódica da primeira parte e na abordagem direta da resistência e da preservação da memória negra.
Parceria de Diego Thekking: O samba 7 apresenta uma construção melódica de boa fluidez e uma letra que consegue desenvolver o conceito do enredo com imagens fortes e uma narrativa bem encadeada. Desde a abertura, a composição estabelece o ambiente do terreiro e introduz elementos como o fogo, as encruzilhadas, a argila, a árvore da vida e Ananse, preparando o caminho para a discussão sobre memória e ancestralidade. A melodia mantém bom movimento ao longo da primeira parte e encontra no refrão do meio um de seus momentos mais funcionais. “Sou a voz que grita, o falar que teima / A palavra viva na folha que queima” tem força melódica e também resume a ideia da palavra como instrumento de resistência. A sequência “Há quem ouça afronta, eu ouço um Oriki” é uma boa solução para aproximar a tradição oral africana da experiência de resistência apresentada pelo samba. A segunda parte é especialmente favorecida pela interpretação de Pixulé. A leitura do intérprete potencializa versos como “Brasil, menino… escute a sua gente / O africano continente é raiz do amanhã” e “Um pavilhão vai ser linha de frente / E a avenida imponente / Mensageira do meu clã”. O samba amplia, então, a figura do griô para o próprio Carnaval, apresentado como espaço de voz, memória e transmissão de saberes. Outro mérito está na maneira como a composição conecta o samba à ancestralidade sem abandonar a identidade da Viradouro. “O samba é Griô nesse terreiro / Sou eu, preta ancestralidade / Vim contar minha verdade / No enredo dos enredos” concentra essa relação e prepara um encerramento coerente com a proposta. O refrão principal tem boa força de canto e conduz a um desfecho particularmente eficiente: “Onde quer que eu vá / Pra sempre, sou força que não vai calar / O preceito da memória, o conselho do tambor / Viradouro é Griô”. A conclusão retoma os principais conceitos do samba, memória, resistência, oralidade e tambor, e fecha a composição de maneira afirmativa. É uma obra de boa fluidez melódica e letra consistente, que cresce especialmente na segunda parte com a interpretação de Pixulé. O refrão do meio funciona muito bem, enquanto o refrão principal e o desfecho dão ao samba uma conclusão forte e bem amarrada ao enredo.
Parceria de Mocotó: Um dos grandes destaques da noite, o samba de Mocotó e Cia teve uma apresentação vigorosa, impulsionada por uma boa resposta dos segmentos da escola, que cantaram a composição durante a passagem. O carro de som, comandado por Bruno Ribas, também apresentou bom desempenho, sustentando uma melodia diferenciada e de boa fluidez, com nuances especialmente interessantes na primeira parte. A obra estabelece sua identidade logo na abertura, com a saudação “Agô, bate palma de macumba / Pra saudar dono da rua”, criando uma entrada de personalidade e diretamente conectada ao universo do enredo. A melodia mantém o movimento e encontra seu maior destaque no refrão do meio, que apresenta ótima construção, facilidade de assimilação e uma sonoridade bastante agradável para o canto coletivo. A letra é outro ponto forte. As referências a Ananse, à cabaça, ao griô, ao baobá, ao korá e à ancestralidade são apresentadas de maneira clara, construindo uma linha coerente entre memória, oralidade, resistência e transmissão do conhecimento. É uma composição que consegue dialogar muito bem com o enredo sem tornar a narrativa excessivamente complexa. Na segunda parte, aparecem alguns dos versos mais interessantes da obra, como “Carrego na minha cor / Verbo eternizado” e “Sagrado é guardar os segredos / Pro mundo saber”. A sequência ganha ainda mais força ao transformar a escola em espaço de preservação da memória: “Samba escola viva entidade / Arquivo da memória preta / Grito à ancestralidade”. O refrão principal é forte e aposta na repetição da expressão “Ê káàlẹ̀”, chegando a “A Viradouro é sangue de griô”, verso que sintetiza de forma direta a relação entre a escola e o conceito central do enredo. Com letra excelente, melodia diferenciada e refrões de forte apelo, o samba se mostrou uma composição bastante completa. A apresentação vigorosa, aliada ao canto dos segmentos, potencializou uma obra que reúne qualidade poética, fluidez melódica e boa capacidade de comunicação com o público.
Parceria de Felipe Filósofo: O samba 8 apresenta uma proposta mais melódica, com uma linha que privilegia o desenvolvimento da narrativa e encontra no refrão principal seu momento de maior força. A apresentação foi regular, com uma condução que manteve a composição organizada, embora sem alcançar o mesmo impacto em todos os momentos. A letra estabelece desde o início uma relação entre memória, oralidade e ancestralidade. “Busco a memória da terra numa prece / Palavra feita a barro não se esquece” é uma passagem que sintetiza bem a ideia de preservação do conhecimento, enquanto “É fio da narrativa / Na cabaça a herança viva / A teia que te ensina a existir” retoma a simbologia de Ananse para reforçar a transmissão dos saberes. O refrão do meio amplia essa trajetória ao apresentar o Mali e a figura do griô como conselheiro e guardião da memória. A passagem “Tenho o dom de aconselhar / Ergui reinados nos acordes do korá” valoriza a importância da palavra e da música na construção das sociedades africanas. Na sequência, a letra faz a travessia para o Brasil e aproxima a ancestralidade africana dos terreiros, da dança e da resistência negra, culminando em “Faço coro na luta do preto que não se cala jamais!”. A segunda parte também constrói uma boa ponte narrativa para o refrão principal. Ao afirmar “Renasci escola de bamba, arte brasileira / Reacende o carnaval que não acaba quarta-feira”, o samba desloca o conceito do griô para o universo das escolas de samba e prepara a chegada da identidade da Viradouro. O refrão principal é o grande destaque da composição. “Sou Viradouro, Griô do Samba / Dinastia de Rei Xangô” apresenta força e boa capacidade de canto, enquanto “Vou contar meu enredo / Que a pedreira ensinou” encerra o samba retomando a tradição oral e a identidade da escola. No conjunto, é uma obra de perfil mais melódico, com letra consistente e bons recursos de construção narrativa. A apresentação foi regular, mas o samba encontra seus principais méritos na abordagem da memória e da ancestralidade, na boa ponte para o refrão e, principalmente, na força do refrão principal.
Parceria de Lucas Macedo: O samba 15 fechou muito bem a noite e apareceu entre os destaques da disputa deste sábado. Cantada pelos segmentos da escola, a obra contou com uma condução segura de Charles Silva e Dudu Nobre e apresenta uma estrutura bem dimensionada, sem excessos que possam comprometer o rendimento na avenida. A fluidez é uma de suas principais características. A primeira parte é um dos pontos fortes da composição. Desde a abertura, “Ê Laroyê! Ô Corre Gira!”, a melodia estabelece uma cadência própria e conduz com naturalidade a narrativa. O samba mantém esse bom movimento e encontra no refrão de meio um recurso melódico diferenciado, que quebra a dinâmica e acrescenta um caráter mais dançante à obra, favorecendo o envolvimento de quem canta. Na segunda parte, a composição muda de atmosfera e passa a trabalhar uma melodia mais melodiosa e dolente. A alteração de dinâmica valoriza versos como “Toda cicatriz foram pedras no caminho, liberdade” e “Itãs e Orikis fundamentam meu terreiro, ancestralidade”, criando um momento de maior carga emotiva e evitando que o samba siga por uma única linha melódica. O refrão principal aposta na repetição de “I Ni Baraji Djeliba Griô” e conduz a obra para um fechamento bastante eficiente: “Viradouro vira verso / Cada verso vira vida”. De fácil assimilação, o trecho reforça a relação entre a figura do griô, a palavra e a própria escola. No conjunto, é uma composição bem arquitetada, com ótima primeira parte, um refrão de meio que apresenta recurso melódico diferenciado e uma segunda parte capaz de mudar a atmosfera do samba. A boa resposta dos segmentos e a segurança do carro de som ajudaram a potencializar uma obra que terminou a noite em alta.









