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O carnaval é feito de gente. Intérpretes, passistas, mestres, casais de mestre-sala e porta-bandeira, carnavalescos, profissionais de barracão e tantos outros trabalhadores dedicam meses de suas vidas para colocar uma escola de samba na Avenida. Mas, em meio às disputas e paixões que movimentam o mundo do samba, as redes sociais vêm se transformando também em espaço para ofensas e julgamentos que ultrapassam os limites da crítica. Neste domingo, profissionais ligados a diferentes escolas do Rio de Janeiro utilizaram o X (antigo Twitter) para demonstrar preocupação com o ambiente criado nas redes. As manifestações surgem em um momento no qual artistas passaram a ser alvos frequentes de comentários agressivos, muitas vezes feitos por perfis que se escondem atrás do anonimato.

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Diretor de carnaval da Mangueira, Dudu Azevedo chamou atenção para o que classificou como preconceito presente em parte das manifestações virtuais. Na avaliação dele, opiniões publicadas nas redes acabam carregadas de preconceito e ódio contra profissionais que vivem a realidade das agremiações. “Somos muitos que ficamos felizes com as oportunidades dadas para nós que crescemos e vivemos aqui nas Escolas de Samba”, escreveu.

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A apresentadora do Rio Carnaval, Wic Tavares, também lamentou o cenário. Para ela, determinados comentários são apresentados como simples opiniões, mas escondem uma carga muito maior de hostilidade. “Triste demais o que anda acontecendo com os sambistas e profissionais do samba nas redes sociais. Não sei onde a gente se perdeu. São disfarçados de opinião, mas carregam tanto ódio por trás”, publicou.

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A discussão ganhou ainda mais força com a manifestação de profissionais que conhecem de perto o cotidiano das escolas. Diretor da ala de passistas da Vila Isabel, Gabriel Castro afirmou que o ambiente virtual tem reforçado uma divisão que, muitas vezes, não corresponde à realidade vivida dentro das agremiações.

“É por isso que a cada dia que passa tenho mais certeza que a maioria dos torcedores de internet por vezes escondidos atrás de um fake estão de um lado, eu estou de outro”, afirmou Castro.

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Diretor de barracão da Vila Isabel, Luiz Martins foi ainda mais contundente ao criticar o comportamento de parte dos usuários das redes sociais. Para ele, existe uma parcela que acompanha o carnaval pela internet movida mais pelo conflito do que pela paixão pelo samba.

“O quão tóxica virou essa galera que se diz sambista mas estão só pelo ódio de uma batalha dentro das escolas que só existe na cabeça dele”.

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As manifestações acontecem em uma semana marcada por dois episódios envolvendo intérpretes. Na sexta-feira, Diego Nicolau anunciou sua saída da Estácio de Sá, onde dividiria o carro de som com Guto no Carnaval 2027. Ao comunicar a decisão, o cantor agradeceu à comunidade do Morro de São Carlos, mas afirmou: “Infelizmente, hoje não me sinto mais à vontade em seguir esse sonho”. O episódio ganhou relevância justamente em um ambiente no qual os profissionais do varnaval relatam crescente pressão e hostilidade nas plataformas digitais. No último sábado, outro intérprete esteve no centro de publicações ofensivas nas redes: Dowglas Diniz, voz e cria da comunidade da Mangueira.

Opinião é fundamental

Criticar uma interpretação, samba, escolha artística ou o trabalho de uma escola faz parte do carnaval. O debate, inclusive, é fundamental. O problema começa quando a crítica deixa de discutir o trabalho e passa a atacar a pessoa e sua reputação. O artista não é um personagem de rede social. Existe um profissional com uma trajetória construída durante anos, muitas vezes dentro da própria comunidade. Existe família e uma carreira que pode ser afetada por uma publicação irresponsável. As manifestações de Dudu Azevedo, Wic Tavares, Gabriel Castro e Luiz Martins ajudam a colocar uma questão necessária no centro do debate: que tipo de ambiente o mundo do samba quer construir nas redes sociais?

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A paixão por uma escola não precisa significar ódio à outra. Torcer por um intérprete não exige destruir outro. Defender um samba não dá o direito de desqualificar quem escolheu uma composição diferente. O samba sempre foi território de encontro, resistência e pertencimento. As redes sociais podem ampliar essa potência, aproximando artistas, comunidades e torcedores, mas também podem produzir o efeito contrário quando o anonimato vira licença para ofender.

O carnaval precisa de crítica e debate. O que não precisa é de ódio. Quando a internet transforma sambista em inimigo, quem perde não é apenas o artista atacado. Perde o próprio carnaval.