salgueiro 2108
Foto: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO

O Salgueiro realizou no último sábado a terceira noite de eliminatórias de sambas-enredo para o Carnaval 2027, marcada pela junção das chaves branca e vermelha na disputa. Em um dia de alto nível, os dez sambas apresentados mostraram diferentes caminhos para contar a história de Xica da Silva e sua relação com a Pomba Gira, combinando força melódica, referências históricas, ancestralidade e religiosidade. Com apresentações consistentes e momentos de grande resposta da quadra, a disputa começa a ganhar contornos cada vez mais definidos. A seguir, confira a análise do CARNAVALESCO dos dez sambas.

* Seja o primeiro a saber as notícias do carnaval! Clique aqui e siga o CARNAVALESCO no WhatsApp

Parceria de Liesbeth Nunes: O samba 05, assinado por Liesbeth Nunes, PJ do Samba, Roberto Felinto, Diego Pomar, Vitor França, PC Lopes, Krys Fonseca, Vera Guedes, Cláudia Rejane e Andressa Castro, abriu a noite com uma proposta mais melódica e menos explosiva, mas apresentou bom desempenho ao longo da passagem. Interpretada por Niu Souza, a obra aposta em uma Xica da Silva de personalidade forte, atravessada pela ancestralidade, pela resistência e pelo poder simbólico da Pombagira. A composição entra na quadra já estabelecendo esse tom de enfrentamento: “Arreda! Voltei pra botar fogo no congá / De saia vermelha e incorporada, é Mojibá!”. A abertura tem impacto e apresenta a personagem dentro do universo religioso que conduz parte importante da narrativa. O “Laroyê! Abre a roda que dona da roda baixou!” reforça essa atmosfera e cria uma chamada que favorece a participação do público. A letra encontra um de seus melhores momentos no trecho “Fui encruzilhada entre açoite e liberdade / Não se prende na corrente, ideais de majestade”. A imagem da encruzilhada sintetiza os conflitos que atravessam a trajetória de Xica e dá à composição uma dimensão poética interessante. Na sequência, “Se a mentira me vestiu de ilusão e fantasia / A justiça vem à tona hoje em verso e poesia” transforma a própria narrativa em instrumento de reparação histórica. É uma passagem que sustenta o caráter afrontoso do samba sem abandonar a construção literária. O refrão do meio é o trecho em que a obra ganha maior dimensão cênica e narrativa. “Quando a gira girou! / Fiz da avenida meu terreiro / Aquela que encantou o mundo inteiro / Desfilando luxo e esplendor” apresenta a imagem de Xica ocupando a avenida como espaço de afirmação. A ideia se conecta diretamente à força da personagem caracterizada como Pombagira, que, durante a apresentação, rodopiou pelo palco e circulou entre os torcedores, levando a proposta do samba para além da letra. Outro ponto de interesse aparece na parte final da segunda estrofe. “Nos olhos dos meus filhos refletiu o meu amor / Lutando sem perder a identidade / No ouro das Gerais plantei herança em cada mulher / Semeio a esperança” humaniza a personagem e amplia sua importância para além do luxo e da imagem construída em torno de Xica da Silva. O refrão principal concentra a identidade da parceria: “Xica da Silva / Consagrada no chão desse terreiro / Emana axé da Academia / A Pombagira mulher, do meu Salgueiro”. É um fechamento direto, com forte associação entre personagem, entidade e escola. A repetição do nome de Xica facilita a assimilação, e o último verso estabelece uma assinatura clara para o samba. Na apresentação, a obra contou com uma torcida participativa e com elementos cênicos que ajudaram a materializar sua proposta. A presença da Pombagira, especialmente nos momentos de maior interação com o público, acrescentou força visual à passagem. Musicalmente, o samba não teve uma explosão tão acentuada quanto outras propostas podem apresentar, mas manteve um andamento seguro e uma melodia que permitiu o desenvolvimento da narrativa. No conjunto, o samba 05 apresenta como principais trunfos a identidade temática, a força poética de alguns versos e a maneira como transforma a Pombagira em elemento central da construção de Xica da Silva. A obra consegue unir ancestralidade, resistência, representação e afirmação feminina, com um refrão principal de fácil identificação. É um samba que aposta mais na construção da personagem e no desenvolvimento melódico do que na explosão imediata, mas encontra força justamente na coerência entre letra, interpretação e proposta cênica.

Parceria de Bernardo Nobre: O samba 07, assinado por Bernardo Nobre, Thiago Meiners, Leandro Pereira, John Bahiense, João Moreira, André de Souza, Ribeirinho, Diego Alba, Jonathan Tenório e Luiza Vieira, apresentou uma obra consistente. Com Pitty de Menezes, Igor Vianna e Chicão na defesa, a obra manteve bom rendimento nas três passadas e mostrou uma construção melódica que cresce gradualmente até alcançar seu principal momento de explosão. A composição começa apresentando Xica em um cenário de terreiro e encruzilhada. “Ô dona Xica aos pés do Morro do Salgueiro / Porteira aberta convidava pro terreiro” coloca a personagem diretamente no universo simbólico da escola. A sequência, com referências ao Exu, ao atabaque, às rosas vermelhas e ao marafo, cria uma ambientação forte e bastante visual. O trecho “Quem governa minha rua, malandragem de mulher” reforça a personalidade desafiadora de Xica e prepara um dos momentos de maior apelo popular da obra. “Tá pra nascer, meu Deus / Quem enfrenta uma moça igual a ela” funciona como uma chamada de forte identificação. O refrão do meio é um bom momento da obra: “Pombogira ê pombogirá / A flor mais bela na gira / Na reza do congá ou na capela”. A melodia conduz bem a passagem e encontra um bom equilíbrio entre a temática religiosa e a exaltação da escola. O verso “Vi meu povo deslumbrante / A corte do Orun num instante / Desceu pra ver o Salgueiro em seu apogeu” amplia a dimensão da cena e transporta a narrativa para uma celebração da própria agremiação. Na segunda parte, o samba ganha densidade ao tratar da representação de Xica e das marcas deixadas pelo racismo. “O capricho da negrura / A ribalta eternizou / Fez da noite ironia / A nobreza revirou” trabalha a contradição entre o destaque alcançado pela personagem e os limites impostos pela sociedade de seu tempo. A composição segue por um caminho mais crítico em “A tinta apagou os moralistas / O amor a te fazer protagonista”, transformando a trajetória de Xica em uma resposta aos discursos que tentaram diminuir sua importância. O fechamento dessa passagem é particularmente adequado ao universo do Salgueiro: “Pra que sejamos arte em reparação / Por essa banda, onde mora a justiça / Mais uma vez o samba é revolução”. A melodia encontra seu maior ponto de força na preparação para o refrão principal. Depois de uma construção progressiva, o samba desemboca em “Malelê malelê / Kaô kabecilê”, criando uma mudança de intensidade que favorece a explosão da apresentação. A associação entre Pomba Gira e Xangô, padroeiro do Salgueiro, é um dos principais acertos da obra: “Meu Salgueiro corre gira, mojubá laroyê / Toca o barravento, firma o alujá / Na casa de Xangô, eu vim Pombogirar”. No conjunto, o samba 07 se destaca pela regularidade da apresentação, pela boa condução melódica e pela capacidade de criar momentos de participação do público. A principal força está justamente na forma como a composição une religiosidade, identidade salgueirense e discurso de afirmação negra. O refrão principal é seu grande ponto de impacto, mas a obra chega até ele bem construída, fazendo da progressão musical e narrativa um dos seus principais trunfos.

Parceria de Raoni Ventapane: Evandro Mallandro defendeu a composição de Raoni Ventapane, Dudah, Thales Nunes, Daniel Guimarães, Clara Ferreira, Denis Moraes, Vitor Menezes, Wibson Fernando, Carlinhos e Hugo Oliveira. Com Zé Paulo Sierra ausente, Evandro assumiu a interpretação e, mesmo precisando consultar a letra durante a apresentação, manteve bom desempenho e sustentou a obra ao longo das passagens. O samba começa construindo uma Xica diretamente ligada ao universo da encruzilhada e da Pomba Gira. “Daí-me licença, povo da encruzilhada / Sou do verbo gargalhada, voz de toda Pombagira” estabelece a personalidade da personagem e prepara uma sequência de versos que reforça seu caráter insubmisso: “A fogueira pra mentira, a coragem que inspira / Corpo-espelho da ralé, o retorno que atiça”. A passagem concentra força poética e apresenta uma Xica que transforma enfrentamento e resistência em elementos de sua identidade. A composição também aproxima a personagem da história do Salgueiro. “Com Arlindo fiz história, meu torrão eternizei” é uma referência direta ao samba de 1963, criando uma ponte entre a trajetória de Xica e a memória da própria escola. A sequência “O passo marcado, do morro à nobreza / No peito a certeza da revolução / Aquela que manda, que rompe barreiras / O luxo na cara da segregação” resume bem a proposta da obra: apresentar a ascensão da personagem sem apagar as contradições sociais e raciais que marcaram sua trajetória. O refrão do meio é um dos momentos mais interessantes do samba. A repetição de “Ela é Maria, Mariá” traz uma referência à tradição dos pontos de Pomba Gira e cria uma passagem de forte identidade melódica. “Na tela incorporei / As regras eu rasguei” amplia a construção da personagem para suas representações no imaginário popular, enquanto “Liberdade da mulher nas curvas de Zezé / Não é roteiro a bel-prazer de quem quiser” trabalha a ideia de autonomia feminina. A segunda metade ganha peso histórico com “Herdei a coragem da Costa da Mina / Transgredi a minha sina nas ladeiras do Arraial”. A letra apresenta a ancestralidade como elemento fundamental para compreender a trajetória de Francisca. “Meu sangue é herança ancestral / Francisca parda, mercadoria / Venci a chibata, ganhei alforria” sintetiza a violência do período escravista e a transformação da personagem em símbolo de resistência. O grande momento da obra está justamente no fechamento: “Arreda homem que aí vem Salgueiro / Arreda homem que aí vem Salgueiro / Sou a Xica macumbeira, Pambunjila! Mojubá! / A faísca que acende a Furiosa no gongá”. É um refrão de forte apelo, com uma melodia vibrante e uma associação muito clara entre Xica, a Pomba Gira e a bateria salgueirense. A repetição de “Arreda homem” funciona como chamada coletiva e dá ao samba uma conclusão explosiva. Na apresentação, a obra teve bom rendimento geral, apesar das dificuldades pontuais. O trecho “A fogueira pra mentira…” também apresentou alguma irregularidade na segunda passada, mas não comprometeu o desempenho do conjunto. No conjunto, o samba se destaca pela força do refrão principal, pela variedade de referências e pela construção de uma Xica marcada pela insubmissão. A ligação com a história do Salgueiro, as referências à Pomba Gira e a abordagem da ancestralidade dão identidade à composição. Seu principal trunfo está na capacidade de transformar diferentes momentos da trajetória de Xica em uma narrativa musical crescente, que encontra no refrão final seu ponto máximo de impacto.

Parceria de Xande de Pilares: Charles Silva defendeu com segurança a composição de Xande de Pilares, Fred Camacho, Betinho de Pilares, Miguel Dibo, Renato Galante, Jorginho Via 13, W. Correa, Orlando Ambrosio, Jefferson Oliveira e Rafael Gigante. O samba 06 apresentou uma das performances mais fortes da noite, sustentado por uma melodia potente e por uma construção que cresce gradualmente até desembocar em um refrão principal de grande impacto. A composição organiza a trajetória de Xica da Silva a partir do encontro entre a personagem histórica e a Pomba Gira apresentada pelo enredo. Um dos melhores momentos aparece justamente na preparação para o refrão principal: “Francisca da Silva de Oliveira / A Xica da Silva Teles”. Além de apresentar o nome completo da personagem, o trecho carrega uma referência particular ao endereço da quadra do Salgueiro, localizada na Rua Silva Teles. É um detalhe que aproxima a narrativa de Xica da identidade territorial da escola e transforma uma informação histórica em elemento de conexão com a comunidade. A melodia cresce de maneira natural e prepara a quadra para uma mudança de intensidade, fazendo do refrão principal o grande ponto de explosão da apresentação. O fechamento é particularmente eficiente ao recuperar características fundamentais de Xica e transformá-las em afirmação. A alcunha “Chegou a Xica que manda” funciona como síntese da personalidade apresentada ao longo da obra e ganha força quando associada ao refrão. É uma escolha simples, de fácil assimilação e com potencial para ser cantada coletivamente. Na apresentação, Charles Silva manteve boa condução e sustentou o crescimento do samba. A defesa teve segurança, ritmo e empolgação, permitindo que a melodia alcançasse seus principais momentos sem perder intensidade. No conjunto, o samba 06 foi um dos destaques da noite. A força da melodia, a boa construção narrativa e, principalmente, a preparação eficiente para um refrão principal muito potente fizeram da obra uma das apresentações mais completas da disputa. O detalhe envolvendo “Silva Teles” acrescenta identidade à composição, enquanto o fechamento reafirma a personalidade de Xica e entrega um momento de grande impacto coletivo.

Parceria de Ian Ruas: Grazzi Brasil, Dowglas Diniz e Vitor Cunha defenderam a composição de Ian Ruas, Caio Miranda, Zé Carlos, David Carvalho, Luiz Fernando, Luana Rosa, Fabiano Mattos e Carlão. O samba 08 teve uma apresentação segura nas três passadas e se destacou pela boa melodia e pela capacidade de sustentar a intensidade sem perder rendimento. A obra encontrou equilíbrio entre narrativa e força musical, com um refrão principal que funcionou como seu principal ponto de impacto. A composição escolhe caminhos menos literais para apresentar Xica da Silva. Em vez de se limitar aos episódios mais conhecidos da trajetória da personagem, a letra amplia o olhar para as diferentes formas como sua imagem foi construída ao longo do tempo. “Tal qual a trama da atriz / Que encenou, de uma vida, um capítulo só” é um exemplo dessa abordagem, ao fazer referência às representações de Xica no cinema, no teatro e na televisão sem citar diretamente essas linguagens. A composição avança para uma afirmação mais ampla no refrão principal: “Toda mulher tem direito à própria história / Meu Salgueiro é a memória que eu voltei pra consagrar”. O trecho consegue conectar Xica à discussão sobre o direito de mulheres negras contarem e preservarem suas próprias trajetórias. Ao mesmo tempo, o verso final estabelece uma ligação direta com o Salgueiro, colocando a escola como espaço de memória e consagração. Musicalmente, o samba apresenta uma melodia bem construída e consegue manter a cadência intensa ao longo da apresentação. O refrão principal é o grande ponto de força da obra, com uma estrutura que favorece o canto coletivo e ganha dimensão especialmente quando os intérpretes aumentam a intensidade da defesa. A melodia também ajuda a impedir que a narrativa fique excessivamente pesada, criando movimento entre os diferentes momentos da composição. No conjunto, o samba 08 se coloca entre os destaques da noite pela combinação de boa melodia, narrativa criativa e força dos refrões. A obra encontra personalidade ao abordar Xica por ângulos menos óbvios, especialmente na discussão sobre sua representação e sobre o corpo da mulher negra. Com uma defesa consistente e um refrão principal de impacto, a parceria apresentou uma passagem equilibrada e de alto rendimento.

Parceria de Rafa Hecht: Pixulé, Marquinho Art’Samba e Leonardo Bessa defenderam a composição de Rafa Hecht, Samir Trindade, Thiago Daniel, Deco, JP Figueira, Clairton Fonseca, Laura Roméro, Guiga Corrêa, Geraldo M. Felicio e Jefinho Rodrigues. O samba 11 apresentou uma obra de grande potência, com boas variações melódicas e um refrão principal explosivo. O refrão do meio começa com uma declaração de identidade: “Eu voltei pra ficar e dizer quem eu sou / Pra escandalizar, zombar de quem me julgou”. O tom afrontoso combina com a personagem construída pelo samba e encontra continuidade em “Já vou avisar, ninguém vai impedir / E quem é de santo, cuidado pra não cair”. A composição assume a voz de uma Xica desafiadora, que não aceita ser novamente silenciada. A parte seguinte é uma das mais densas da obra. “Da Costa da Mina, os meus / Francisca da Silva, sou eu” recupera a ancestralidade, enquanto “Da arte dos catopês, da elite e das ralés” amplia a trajetória da personagem para diferentes espaços sociais. A sequência “Dancei no peito do contratador / Roguei aos pés de nosso senhor / Pari liberdade, me reconheci / E dei aos meus filhos caminho a seguir” humaniza Xica e apresenta sua trajetória também a partir da maternidade, da sobrevivência e da conquista de autonomia. O samba ganha ainda mais dimensão espiritual em “Me encantei, ouvi os aflitos / Do Orum, voz dos oprimidos”. A imagem da personagem ouvindo os oprimidos conecta sua trajetória histórica à dimensão religiosa do enredo. “Na gargalhada estremecer, a cada gira eu renasço / Nunca temer, o meu destino eu faço” reforça a ideia de renascimento e autonomia, antes de a composição entrar em uma passagem de maior apelo popular. “Abre a roda, abre a roda, deixa a nega trabalhar / Sou formosa e dou carinho, também sei fazer chorar” cria uma mudança de dinâmica e prepara o samba para seu fechamento. A sequência “Abre a roda, abre a roda, sou apenas diferente / Se bater de frente, a Furiosa vai passar!” funciona como chamada para a chegada do refrão principal e recupera uma característica importante do Salgueiro: a associação entre a personagem e a força da bateria. O refrão principal é o grande trunfo musical da obra: “Faz ebó, veste vermelho e firma o ponto / Deixa que o meu segredo eu conto / A dona da casa protege o terreiro / Ninguém faz macumba igual meu Salgueiro”. A melodia é forte, o trecho tem fácil assimilação e concentra os principais símbolos do samba. “Ninguém faz macumba igual meu Salgueiro” é especialmente eficiente por trazer uma afirmação direta da identidade da escola e provocar a participação da torcida.

Parceria de Marcelo Adnet: Wander Pires defendeu a composição de Marcelo Adnet, Gustavo Albuquerque, Babby do Cavaco, André Capá, Bruno Zullo, Igor Marinho, Pedro Ayres, Sergio Pimentel, De Lima e Fabiano Paiva. O samba 15 apresentou uma passagem segura, com melodia agradável, boa sustentação e um refrão principal direto, de fácil assimilação. A composição abre colocando Xica dentro do universo da Pomba Gira: “Baixei de novo, sou eu Exu-mulher / Baixei pro morro inteiro festejar / Laroyê, axé”. A escolha de iniciar com a entidade já estabelece o tom do samba e cria uma conexão imediata com a proposta do enredo. A composição encontra um momento de forte apelo no trecho “Tá pra nascer nesse mundo de meu Deus / Homem que vai aguentar uma mulher igual a eu”. A passagem dialoga com a tradição dos pontos de Pomba Gira e apresenta uma Xica provocadora, independente e consciente de sua força. O refrão do meio é um dos pontos altos da obra. “Avisa na casa grande, meu nome é Francisca / Filha de Maria da Costa da Mina” resgata a identidade da personagem e sua ancestralidade. Na sequência, “Vivi em Taís, Isabel e Zezé / Arreda, moço, Xica dá o que quiser!” estabelece uma ponte entre a figura histórica e suas diferentes representações artísticas, além de fazer uma referência direta a Jorge Ben. O trecho ganha força justamente por reunir história, cultura popular e memória da personagem em poucos versos. Um dos versos mais interessantes aparece na transformação da rosa em instrumento de resistência: “A rosa que achei na encruzilhada / Virou faca afiada na voz das multidões”. A imagem combina o universo da Pomba Gira com a ideia de enfrentamento e transforma um símbolo tradicionalmente associado à entidade em metáfora de luta. A construção desemboca no pré-refrão “Quero ver bater de frente com a escola de Xangô!”, que aumenta a intensidade e prepara a chegada do refrão principal. Na apresentação, Wander Pires conduziu o samba com segurança e manteve a quadra envolvida durante toda a passagem. A melodia favoreceu a interpretação e permitiu que os diferentes momentos da letra fossem apresentados sem perda de ritmo. O refrão principal, apesar de mais simples em sua construção, funcionou justamente pela objetividade e pela facilidade de ser acompanhado pelo público. No conjunto, o samba 15 apresenta como principais qualidades a boa melodia, a narrativa bem organizada e a capacidade de criar momentos de identificação. O refrão do meio é seu trecho mais elaborado e interessante, enquanto o refrão principal aposta na simplicidade para ganhar força coletiva. Com uma apresentação estável e sem quedas de rendimento, a parceria entregou uma passagem consistente e mostrou boa capacidade de comunicação com a quadra.

Parceria de Gui Salgueiro: Luana Pinheiro e Guto defenderam a composição de Gui Salgueiro, que apresentou uma boa passagem pela quadra, com andamento seguro e uma melodia que consegue alternar momentos de maior intensidade com trechos mais narrativos. O samba 18 aposta na construção de uma Xica marcada pela força, pela ancestralidade e pela capacidade de romper com os papéis impostos a ela, enquanto aproxima a personagem da identidade do Salgueiro. A composição constrói uma imagem de Xica associada à nobreza negra. “Nas encruzilhadas do tempo / ‘Cavalas’ de garra e talento / Pra história certa escrever, elegi / Nobreza preta, requinte e luxo” apresenta a personagem por meio de uma perspectiva de afirmação e conquista. A passagem seguinte, “Meu torrão amado, meu velho Tijuco / Com grande beleza, por vezes temida”, situa a narrativa em Diamantina e ajuda a contextualizar o ambiente em que Xica construiu sua trajetória. O “Ôôô ôô, baixei na avenida” funciona como uma chamada eficiente e cria uma transição natural para o refrão do meio. É um recurso simples, mas que dá identidade à obra e aproxima o samba da tradição dos grandes momentos de canto coletivo do Salgueiro. O refrão do meio começa com força: “Voltei à rua pra vencer / Sou fogo no gongá / Do luar ao sol nascer, quem manda é Xica”. A melodia cresce e apresenta uma personagem determinada, antes de avançar para uma referência marcante à sua relação com a cultura e a arte: “Pés descalços, marquei passo no Municipal / Venço o preconceito, ganho o carnaval”. O trecho associa a trajetória de Xica à ocupação de espaços historicamente restritos à população negra. O final da segunda parte amplia o legado da personagem: “Deixei de herança arte e ciência / As joias e a educação com devoção”. A composição evita limitar a herança de Xica ao luxo e introduz conhecimento, cultura e educação como elementos de permanência. “Encontro no Orun a liberdade / Mãos dadas com a ancestralidade / Renasço estrela no meu pavilhão” conclui essa trajetória, aproximando a personagem da espiritualidade e, finalmente, do próprio Salgueiro. O refrão principal é direto e de fácil identificação: “O toque do tambor chamou, eu regressei / Sou rainha desse ilê, minha palavra é lei / Paixão encarnada, amor verdadeiro / Sou Xica da Silva e do Salgueiro”. Na apresentação, Luana Pinheiro e Guto tiveram bom desempenho e mantiveram a obra estável nas passagens. O andamento favoreceu a compreensão da letra, e a melodia ofereceu segurança aos intérpretes, principalmente nos momentos de transição entre as partes. O samba não depende de uma única explosão para funcionar: sua força está na construção progressiva e na maneira como a narrativa vai ganhando significado até chegar ao refrão final. No conjunto, o samba 18 apresenta uma composição bem estruturada, com boa melodia e uma narrativa que percorre a religiosidade, a história e a representação de Xica da Silva. Seu principal mérito está em dar voz à personagem e apresentar sua trajetória como resultado de resistência, estratégia e ancestralidade. Com uma defesa segura e um refrão principal de fácil assimilação, a parceria entregou uma apresentação consistente e de boa qualidade.

Parceria de Moisés Santiago: Tem-Tem Júnior e Rafael Tinguinha defenderam a composição de Moisés Santiago, Sereno FDQ, Rodrigo Feijú, Aldir Senna, Mateus Pranto, Marquinho Bombeiro, Marcelo Martins, Alexandre Cabeça, Sandro Nery e Marcelo Batista. O samba 01 apresentou forte desempenho e encontrou na melodia e, principalmente, no refrão principal, seus maiores pontos de força. A composição apresenta Xica como uma entidade que atravessa a história da escola: “A entidade eternizada por Arlindo / Por Anescar e Noel Rosa de Oliveira / Fiz Isabel me incorporar / Pra revolucionar a cultura brasileira”. A referência aos compositores do histórico samba de 1963 estabelece uma ponte direta com a tradição salgueirense e reforça a ideia de que Xica não é apenas uma personagem do enredo, mas uma figura que faz parte da memória da Academia. O refrão do meio é um dos grandes momentos da obra. “Axé! Pode preparar a gira / O meu corpo tem dendê / Canjira, magia de enfeitiçar / Me chamaram de mucama, mas nasci pra ser sinhá” concentra força melódica e apresenta uma Xica que se recusa a aceitar o lugar que lhe foi imposto. A oposição entre “mucama” e “sinhá” é direta e resume a transformação social da personagem, sem perder a dimensão de enfrentamento. A ancestralidade aparece em “Da Costa da Mina herdei a força pra vencer”, enquanto “Mãe corajosa, a mecena de poder” amplia a personagem para além da figura de luxo e sedução. A sequência “A nega de tanta fé, Francisca de devoção / Enfrentei a casa-grande e zombei da opressão” reforça a leitura de uma Xica que utiliza fé, inteligência e coragem para desafiar as estruturas de seu tempo. O samba cresce novamente na passagem “Bate tambor nesse chão que me consagrou / Toda falange de vermelho e branco baixou / Voltei… voltei pra abraçar o meu povo na encruza”. Na apresentação, Tem-Tem Júnior e Rafael Tinguinha tiveram atuação potente e conseguiram explorar os principais momentos da composição. A melodia ofereceu espaço para variações de intensidade, e os intérpretes sustentaram bem o crescimento do samba até o refrão final. O desempenho foi especialmente eficiente nos trechos de maior apelo coletivo, quando a obra assume um caráter mais afirmativo. No conjunto, o samba 01 se destacou pela força da apresentação, pela identidade salgueirense e por uma composição que trabalha bem a relação entre Xica, Pomba Gira e a memória da escola. O refrão principal é seu grande trunfo, mas a obra chega até ele construída por uma narrativa consistente, com referências históricas e versos de forte afirmação.

Parceria de Marcelo Motta: Tinga e Wic, acompanhados pelos cantores de apoio, defenderam a composição de Marcelo Motta, Dudu Nobre, Pedrinho da Flor, Leonardo Gallo, Jorge Arthur, Julio Alves, Gilberth Castro, Josy Pereira, Bruno Dallari e André Braga. O samba 08 fechou a noite com uma apresentação vigorosa e mostrou bom desempenho dos intérpretes, sustentado por uma melodia consistente e refrões de forte apelo. A obra aposta principalmente na negritude, na resistência e na dimensão religiosa de Xica da Silva. A abertura já apresenta a personagem dentro do universo afro-religioso: “Deu meia-noite / Galo canta na calunga / É Xica quem faz macumba”. A repetição do verso dá identidade imediata ao samba e estabelece uma atmosfera de terreiro. “A majestade do terreiro” sintetiza essa construção e prepara a sequência de referências às diferentes representações de Xica: “Eu sou a potência transgressora de Zezé / O corpo de Taís / Mil faces de mulher”. Esse trecho é importante porque amplia a personagem para além de uma única representação. Xica aparece como uma figura reconstruída por diferentes mulheres e linguagens, mas que preserva uma essência de transgressão. “Giro de Pambunjila, que vence quizila / Pra ser quem quiser” reforça a dimensão espiritual e, ao mesmo tempo, estabelece uma ideia de liberdade que atravessa toda a composição. O grande momento dessa parte é “Chama Padilha, Mulambo, que tem demanda”. A estrutura repetitiva aproxima o trecho de um ponto afro-religioso e cria uma resposta imediata da quadra. Na terceira passada, a maioria dos presentes acompanhou o trecho com palmas, potencializando sua força. A escolha funciona tanto musicalmente quanto dentro da narrativa, porque transforma a convocação das entidades em um momento de afirmação coletiva. Outro recurso interessante aparece em “Apesar da dor”, que utiliza uma interpolação rítmica em alusão à melodia do samba salgueirense de 1963. A referência é discreta, mas funciona como diálogo musical com a memória da escola. Na sequência, “Do tempo colono / Amor imposto, o preço é alforria” retoma a violência da escravização e mostra que a ascensão de Xica esteve inserida em uma estrutura marcada pela desigualdade. A parte final reúne maternidade, religiosidade e resistência: “Por toda Maria que não teme dono / Na fé, senhora, mãe fiel do meu rebento”. A composição então retorna ao universo espiritual em “Encantada, do Orum / Nessa casa me apresento”. O fechamento “Francisca da Silva, a fúria contra injúria / Incorporada vermelho fundamento” transforma Xica em uma entidade de combate, antes de concluir com a ideia de reparação: “Que finda apagamento nessa encruzilhada”. O refrão principal é outro ponto forte da obra: “Vira no santo, iaiá, virou Salgueiro / Nessa canjira, Pomba Gira, Aluvaiá / Ninguém segura o meu povo macumbeiro / Laroyê, sou eu, emojubá!”. A construção reúne movimento, religiosidade e identidade salgueirense. “Ninguém segura o meu povo macumbeiro” é especialmente eficiente por assumir de maneira frontal uma expressão historicamente utilizada de forma pejorativa e transformá-la em orgulho coletivo. Na apresentação, Tinga e Wic mantiveram bom desempenho e sustentaram a intensidade durante as três passadas. Mesmo sem a formação completa dos intérpretes habituais da parceria, a defesa funcionou bem e valorizou os principais recursos da obra. O encerramento foi vigoroso e deixou os refrões como os momentos de maior comunicação com a quadra. No conjunto, o samba 08 se destaca pela personalidade, pela força dos refrões e pela abordagem aguerrida da negritude de Xica. A composição utiliza referências religiosas, históricas e musicais sem perder seu eixo central de resistência. A convocação de Padilha e Mulambo e a interpolação de “Apesar da dor” são recursos criativos que elevam a apresentação, enquanto o refrão principal entrega um fechamento forte e diretamente conectado à identidade do Salgueiro.