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Foto: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO

A disputa pelo samba-enredo da Beija-Flor de Nilópolis para o Carnaval 2027 ganhou ainda mais força na noite desta quinta-feira. Em uma eliminatória marcada pelo alto nível das apresentações e pelo equilíbrio entre as obras, seis parcerias subiram ao palco da quadra da escola, e cinco garantiram vaga na próxima fase. O samba 77, da parceria de Márcio França, foi eliminado. A escola de Nilópolis levará à avenida o enredo “Zeneida: O Sopro do Pó de Louro”, em homenagem a Zeneida Lima, última pajé marajoara. Abaixo, a análise do CARNAVALESCO dos cinco sambas classificados.

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Parceria de Júnior Trindade: O samba 05, assinado por Júnior Trindade, Samir Trindade, Laura Romero, Cleiton Roberto, Doguinha Guaracimir e Marcão da Gráfica, mostrou capacidade de construir uma narrativa essencialmente musical para contar a trajetória de Zeneida. Defendida por Bruno Ribas, a obra teve uma passagem segura pela quadra, com andamento confortável e uma linha melódica que privilegia a interpretação e o desenvolvimento da história. A composição escolhe um caminho bastante imagético para apresentar a personagem. Logo na abertura, “Do norte / Sopro pó de louro de minhas mãos / Borboletas revelam voltei nesse chão / Eu sou Zeneida / Energia da natureza” estabelece uma atmosfera de encantaria e espiritualidade. A letra não trata Zeneida apenas como personagem histórica: procura colocá-la dentro do universo simbólico da natureza, da pajelança e das forças que atravessam sua trajetória. Em seguida, a obra ganha força ao conectar a missão espiritual de Zeneida às manifestações culturais do Pará. “É carimbó, ô roda saia, é siriá / O canto e dança tradição do meu Pará” apresenta uma passagem de fácil assimilação e acrescenta movimento à composição. A letra também introduz o conflito com a intolerância religiosa em “Contra inquisição, faço ritual / Rezo pra quem me fez o mal”, antes de conduzir a narrativa para um momento de maior carga emocional. É justamente nessa transição que aparece um dos trechos mais interessantes da composição: “Mãe luz de Nazaré / Me mantém de pé na esperança / Por Deus, pelos ancestrais / Nas lutas sociais, proteja as crianças”. O samba amplia o olhar sobre Zeneida e transforma sua espiritualidade em instrumento de proteção e resistência. A construção também permite que a melodia cresça até desembocar no refrão principal. O fechamento é o momento de maior identidade comunitária da obra. “Ixé a-îkobé, Opá ara / Te dei meu poder, se fez vencedor / Meu filho anajá, na mata incorporou / A soberana caruana Beija-Flor” reúne a dimensão espiritual da personagem com a própria escola. É um refrão que concentra símbolos importantes da narrativa e tem condições de ganhar força quando sustentado pelo canto coletivo. Na apresentação, a torcida esteve presente e respondeu especialmente nos momentos de maior apelo da composição. O grupo que acompanhou a parceria era numeroso e manteve boa participação, embora tenha faltado um pouco mais de entrega justamente no momento em que os intérpretes buscaram dividir o canto com o público. Como o regulamento da noite estimulava essa interação, esse foi um aspecto em que a apresentação poderia ter alcançado um nível maior de envolvimento. No conjunto, o samba 05 apresenta uma construção melódica agradável e uma letra que consegue percorrer diferentes dimensões da história de Zeneida sem perder completamente o fio narrativo. Seu principal trunfo está na capacidade de alternar momentos contemplativos, referências culturais e passagens de maior impacto coletivo.

Parceria de Júnior PQD: Um dos grandes destaques da noite foi o samba 02, de Júnior PQD, Ailson Picanço, Junior Billy Mandy, Geral M., Felício, Marquinho Paloma e Marcelo Moraes, defendido por Pitty de Menezes. A obra mostrou capacidade de unir uma letra rica em imagens e referências amazônicas a uma melodia envolvente, que cresce especialmente nos momentos de maior intensidade. A composição começa com força em “M’Barayó / povo soberano nunca anda só / ergue suas lanças feitas de cipó”, trecho que apresenta a identidade da obra logo nos primeiros versos. A melodia tem swing e conduz bem a narrativa, que passa pelos mistérios da floresta, pelos saberes da mata e pela trajetória de Zeneida. “Três luas te aguardaram na floresta / pintando a sua tez morena / acende o braseiro pra aldeia tremer” é outro momento de destaque, com versos que criam imagens fortes e ajudam a transportar o ouvinte para o universo apresentado pelo enredo. O samba também apresenta bons momentos de construção poética, como em “Tecer pelas mãos da curandeira / o azul dessa bandeira que o céu vai colorir”. O trecho consegue relacionar os elementos da narrativa à própria identidade da Beija-Flor, sem abandonar o caráter simbólico da composição. O refrão de meio mantém a dinâmica da obra e cria uma passagem de maior intensidade antes da chegada ao refrão principal. “Ô, já chamou na doutrina / ventou na barreira do mar / fez do rio, igarapé” tem boa movimentação melódica e contribui para que o samba não fique restrito a uma única região de força. A obra consegue alternar trechos mais contemplativos com outros de maior explosão, o que favorece a apresentação ao vivo. Mas é no refrão principal que o samba encontra seu momento mais forte. “Ê pajé / traz a força de Auí / benze o nosso povo, reza o meu tambor / sopra o pó de louro sobre a Beija-Flor” é um refrão de fácil assimilação, melodia marcante e grande potencial de canto coletivo. A repetição de “Ê pajé / traz a força de Auí” funciona como um gancho eficiente e ajuda a fixar o trecho rapidamente. Pitty de Menezes teve novamente um desempenho muito seguro. O intérprete conduziu a obra com potência e vigor durante as seis passadas, explorando bem os momentos de maior crescimento da melodia. A torcida também fez uma apresentação forte, cantando durante toda a execução e contribuindo diretamente para o impacto do samba na quadra. No geral, o samba tem bons desenhos melódicos, uma narrativa rica em referências e, principalmente, um refrão principal com potencial de comunicação imediata com a comunidade. Com a apresentação desta quinta-feira, a parceria de Júnior PQD sai fortalecida e mantém seu nome entre os destaques da disputa.

Parceria de Sidney de Pilares: O samba 39, de Sidney de Pilares, Pedro Marajoara, Dudu Nobre, Marcelo Lepiane, Salgado Luz e João Conga, foi defendido por Igor Vianna e Dudu Nobre. O samba mostrou caminhos melódicos interessantes e uma preparação eficiente para o refrão principal. A abertura, “Guarda, Caruana Beija-Flor! / O sopro que me leva a te encontrar / O caminho você me mostrou e me ensinou / Sozinho o nosso povo nunca vai estar”, apresenta uma melodia que conduz bem a narrativa e estabelece desde cedo a relação entre Zeneida, a espiritualidade e a Beija-Flor. Na sequência, a composição mergulha em referências à floresta, aos ancestrais e aos saberes da pajelança, construindo uma narrativa bastante ligada à personagem central do enredo. O refrão de meio é um dos momentos mais interessantes do samba. “De pajé pra pajé vou curar / esse mundo repleto de dor / pela pena dos meus maracás / vivem os rituais que Mestre Mundico deixou” possui swing e boa movimentação melódica, além de reforçar a dimensão espiritual da narrativa. A passagem funciona como uma preparação eficiente para a sequência da obra, que cresce até chegar ao refrão principal. Outro momento de destaque está em “Canta que o canto é reza / canta meu curió / evoco a força Guará / do rio-mar do Marajó”. O trecho tem boa musicalidade e cria uma atmosfera diferente dentro do samba, especialmente pela maneira como os intérpretes exploram a repetição de “do Marajó”. É um dos pontos em que a defesa vocal consegue fazer a obra brilhar, valorizando uma melodia que talvez não tenha o mesmo impacto quando observada apenas no papel. O refrão principal, por sua vez, é o grande cartão de visitas da composição. “Firma a curimba na gira do carimbó! / firma a curimba na gira do carimbó! / é a pajelança nilopolitana / o meu Beija-Flor incorpora Caruana” tem força, fácil assimilação e uma construção que favorece o canto coletivo. A preparação realizada nos versos anteriores faz com que a chegada ao refrão seja ainda mais eficiente, criando um crescimento natural até o momento de maior explosão da obra. A torcida também apresentou uma participação efetiva. Apostando bastante na caracterização e cantando bem, ajudou a criar uma atmosfera favorável para a apresentação.

Parceria de Diogo Rosa: Outra composição classificada da noite foi o samba 01, de Rosa, Julio Assis, Kirraizinho, Manolo, Clay Rodolfo e Dr. Luiz Claudio, defendido por Tinga. A obra apresentou uma passagem potente durante as seis passadas, sustentada por uma construção melódica que alterna momentos mais líricos com trechos de grande força. A composição encontra caminhos interessantes para contar a trajetória de Zeneida e explorar o universo místico e espiritual presente no enredo. A cabeça do samba é um dos grandes acertos da obra. “Moço, espia só / invisível vira folha / folha vira pó / pó de louro, caminho aberto” apresenta uma construção poética muito particular e utiliza a pausa musical como recurso para criar expectativa. A quebra entre “folha vira pó” e a continuação “pó de louro, caminho aberto” dá movimento à narrativa e faz com que o ouvinte acompanhe cada imagem construída pela letra. A composição mantém esse jogo ao longo de outros trechos, como em “Mundiada em ventania… o tempo parou / parou… pra ver! / o Brasil dos maracás”. A suspensão novamente funciona como recurso melódico e poético, criando pequenas falsas conclusões que são resolvidas na sequência. O refrão de meio é bastante forte e apresenta uma construção que cresce naturalmente: “Parou… pra ver! / o Brasil dos maracás / pra se render à fé dos ancestrais / Amazônia sustentada pela força de Majé / ver o Norte ser um Norte desse meu país mulher”. O trecho combina força melódica e conteúdo narrativo, ampliando a dimensão da personagem e destacando a presença feminina e amazônica na composição. Na segunda metade, a obra passeia por diferentes referências culturais, como a piracema, o curimbatá marajoara, a pajureba e o carimbó. A chegada ao refrão principal é muito bem construída. “Chama Karuana que a Baixada incorporou / chama Karuana que a Baixada é Beija-Flor” possui grande força de canto e estabelece uma ligação direta com o universo amazônico. A sequência “Pajelança cabocla sawé! Sawé! / na magia da floresta o segredo pra vencer” amplia ainda mais a explosão do refrão, que funciona como o grande momento de comunicação coletiva da obra. Tinga conduziu a apresentação com potência e segurança, explorando bem as diferentes regiões melódicas do samba. A torcida também teve participação importante, numerosa e bastante cantante, apostando em uma apresentação visual que trouxe elementos da mata, sons de pássaros e até uma encenação de Zeneida Lima, com uma senhora soprando pó de louro. Com uma apresentação consistente e vigorosa, o samba 01 se mostrou muito competitivo. A força do refrão principal, a riqueza das imagens construídas pela letra e a capacidade de Tinga de conduzir a obra fizeram da parceria de Diogo Rosa um dos destaques da noite.

Parceria de Marquinho Beija-Flor: O samba 13, de Marquinho Beija-Flor, Claudio Russo, Chacal do Sax, Rômulo Massacesi, Julio Alves e Léo Freire, teve uma apresentação de grande impacto na quadra, defendido por Pixulé. A composição alia uma narrativa objetiva sobre a trajetória de Zeneida a uma melodia que cresce gradualmente, encontrando seus momentos de maior força nos dois refrões. Com uma letra carregada de identidade e uma execução marcada pelo canto coletivo, a obra ocupou a quadra com bastante presença. A abertura, “Voltei guiada pelo vento / trago cada elemento que da natureza emana / Auí fez de mim seu instrumento / sob a lua o encantamento da magia caruana”, apresenta rapidamente o universo espiritual da composição. Um dos momentos mais interessantes da primeira parte está em “A pajerama então Anhanga foi flechar / dezessete dias amarrada no cipó / eu, filha das águas, floresci em minha fé / foi o meu chamado, mas eu não estava só / a mata me assentou pajé”. O trecho possui força narrativa e uma boa construção melódica, apresentando a trajetória da personagem de maneira lírica e afirmativa. O refrão de meio é um dos grandes pontos altos da composição. “É de pena e maracá! / é de pena e maracá! / eu sou cabocla com herança africana / Mestre Mundico me ensinou a dar o nó em caruá! / eu tenho a alma nilopolitana!” reúne identidade, ancestralidade e pertencimento em uma passagem de forte apelo comunitário. Na segunda parte, a composição encontra uma boa variação melódica em “Vem no balanço do siriá / marujada e carimbó / quem ensina é aguaguara / no curumim vi o futuro no olhar / a Baixada a invocar a força marajoara”. O trecho traz movimento e areja a construção da obra, incorporando diferentes manifestações culturais sem interromper a narrativa. A preparação para o encerramento também merece destaque. “Do povo eu sou, muiraquita / pajé Zeneida, soberana, campeã” funciona como uma afirmação final antes da explosão do refrão. A passagem cria expectativa e permite que a chegada de “E… incorpora, caboclo!” tenha ainda mais impacto. O refrão principal é o grande momento de comunicação da obra. “Incorpora, caboclo! / incorpora, caboclo! / quero ver incorporar!” é simples, direto e extremamente contagiante. A repetição facilita a assimilação e favorece o canto coletivo, enquanto “Do ventre do meu Pará, o pó de louro soprou / comunidade, Caruana Beija-Flor!” amplia o refrão e fecha a composição, relacionando a origem amazônica de Zeneida à identidade nilopolitana. Pixulé teve uma apresentação muito potente e segura. O intérprete soube trabalhar os diferentes momentos da composição e conduziu com eficiência a preparação até o refrão principal, mantendo a energia durante as seis passadas. A torcida também foi fundamental para o impacto da obra, cantando de forma constante e contribuindo para uma atmosfera de grande envolvimento na quadra. O samba 13 reúne uma letra de fácil compreensão, identidade muito bem definida e uma construção melódica que sabe guardar seus principais momentos de explosão. Com uma apresentação potente, uma defesa segura de Pixulé e uma torcida bastante cantante, a parceria de Marquinho Beija-Flor entregou um dos momentos mais fortes da disputa desta quinta-feira.