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Foto: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO

A Mocidade Independente de Padre Miguel realizou, no último domingo, mais uma etapa da disputa de sambas-enredo para o Carnaval 2027. Em clima de mata-mata, nove obras subiram ao palco da quadra da Vila Vintém, em uma noite de apresentações marcadas pelo equilíbrio. Ao fim da etapa, três parcerias foram eliminadas e seis garantiram vaga nas quartas de final, que acontecem no próximo domingo. A escola levará para a Avenida o enredo “Latinamente Independente: Nosso Norte é o Sul em Remanifesto”, desenvolvido pelo carnavalesco Jack Vasconcelos. O CARNAVALESCO analisa abaixo as apresentações dos sambas classificados.

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Parceria de Franco Cava: Abrindo a noite de apresentações, a parceria de Franco Cava, Juca, Nito de Souza, Marcinho.com, Anderson Migão e Gule Machado teve Tuninho Junior como cantor principal. A obra apresentou uma proposta de andamento envolvente, sustentada por uma boa interpretação e por uma condução melódica segura. O refrão principal, “de punhos cerrados pro céu, na boina, a estrela de Padre Miguel, alma latina de quem não se rende, avante, Mocidade Independente”, mostrou força para marcar a apresentação. Já o refrão do meio, “evoco os donos da mata, Jurupari é quem manda, enquanto o branco desmata, Tupana vence demanda, o sol de maio na pele marrom, Guantanamera é revolução”, manteve o bom rendimento e se destacou especialmente pela melodia forte e de fácil assimilação. Na construção da letra, a parceria investiu de maneira evidente nas referências às ancestralidades negra e indígena, elementos que ocupam espaço importante ao longo da narrativa. A apresentação cumpriu bem o papel de abrir a disputa, com uma performance equilibrada e sem grandes oscilações.

Parceria de Santana: Santana, Paulo Senna Poeta, Carlos Augusto, Saulinho, Edvaldo Lucas e Everaldo Silva tiveram o samba defendido por Dowglas Diniz e Leonardo Bessa. A obra apresentou uma passagem marcada pela garra dos intérpretes e por uma boa melodia, que contribuiu para um bom rendimento do samba durante a apresentação. O refrão principal passou de maneira correta, mantendo a fluência necessária. Mas o grande momento da obra esteve no refrão do meio: “Okê, okê, okê arô, okê, okê, arô, se ontem eu fui a caça, hoje eu sou caçador”. O trecho ganhou muita força na quadra, especialmente na frase final, que traduz de maneira direta a ideia de resistência, transformação e afirmação presente no enredo. A letra percorre uma narrativa de enfrentamento e bravura, valorizando a identidade latino-americana e a capacidade de resistir diante das adversidades. A parceria também encontrou espaço para inserir certa irreverência em meio à narrativa, como nos versos “em cada canto um guardião, se quer me levar, vai ficar no cheiro, na essência de um batuque verdadeiro”. No conjunto, foi uma apresentação aguerrida, com boa condução dos intérpretes e uma melodia que se mostrou um dos pontos positivos da obra.

Parceria de Leo Peres: O samba de Léo Peres, Leandro Fregonesi, Felipe Pires, Rogerinho, Wilson Paulino e Bruno Serrinho foi defendido por Bruno Ribas e Igor Pitta. A obra teve uma apresentação satisfatória nas três passadas, com uma melodia eficiente, que manteve o samba bem conduzido mesmo com poucas variações ao longo da composição. Os refrões foram os grandes destaques da parceria. O principal, “Dale Mocidade, canta, incendeia a avenida, se a latinidade é forte, o Sul vira norte, gracias a la vida”, ganhou muita adesão da quadra e ajudou a elevar a apresentação. A torcida também teve participação importante, entre as mais empolgadas da noite, contribuindo para potencializar a força do trecho. O refrão do meio, “vade retro, invasor, kaô, laroyê, ai se eu te pego no maculelê, feito a guerrilha e o raiar do sol de mayo, um outro raio pra expulsar quem se atrever”, também mostrou força e reforçou a proposta de resistência presente na obra. A letra constrói uma narrativa de enfrentamento e afirmação latino-americana, reunindo referências indígenas, negras e populares para defender a ideia de um continente que se levanta e reescreve o próprio destino. No geral, o samba encontrou nos refrões seus momentos de maior impacto e conseguiu manter um bom rendimento durante toda a apresentação.

Parceria de Paulo Cesar Feital: Paulo Cesar Feital, Alex Saraiça, Denilson do Rozário, André Russo, Carlinho da Chácara e Fábio Bueno apresentaram uma obra de perfil melódico, poético e lírico. Mesmo sem a presença de Zé Paulo Sierra, os cantores conseguiram conduzir bem o samba, que contou ainda com boa resposta da torcida e adesão da quadra. A composição se destaca por uma letra de forte conteúdo político, construída a partir de imagens de resistência, ancestralidade e enfrentamento à opressão. O discurso ganha diferentes nuances ao longo da obra, passando pela denúncia social e chegando à afirmação de uma identidade latino-americana que se recusa a abrir mão de sua liberdade. O refrão do meio, “eu sonhei com Obatalá e Tupã lá no Orum, Caetés na Casa Branca, a Colômbia e o Peru, na soberania plena todos juntos somos um, Pindorama era o quilombo dos saberes de Ogum”, se sobressai pela riqueza poética e pelo diálogo entre referências indígenas, africanas e latino-americanas. O trecho teve boa execução e funciona como um importante ponto de sustentação narrativa da obra. Na sequência, a letra apresenta versos de forte carga simbólica, como “os sabores do amor têm punhados de alegria, preparados no calor da rebeldia” e “no Brasil, meus companheiros são heróis da resistência”. São passagens que ajudam a dar densidade ao discurso político do samba sem abandonar o lirismo. O grande momento musical está no refrão principal: “toca o agueré, pra fazer revolução, toca o agueré e respeita essa nação, o meu norte sempre foi nossa pátria mãe gentil, Mocidade Independente do Brasil”. Forte, envolvente e de fácil assimilação, o trecho teve excelente rendimento e recebeu grande adesão da quadra. A apresentação, no conjunto, mostrou uma obra de personalidade, que equilibra poesia e discurso político com bons momentos melódicos.

Parceria de Jefinho Rodrigues: Jefinho Rodrigues, Xande de Pilares, Marquinho Índio, Estevão Ciavatta, Cleiton Roberto e Prof. Renato Cunha tiveram o samba conduzido por Wander Pires, que foi um dos grandes destaques da apresentação. O intérprete aproveitou muito bem as possibilidades oferecidas pela composição e imprimiu personalidade à passagem, valorizando especialmente a beleza melódica presente na obra. A segunda parte trouxe um dos melhores exemplos desse trabalho, no trecho “ginga no samba e na salsa, pra celebrar, tem colorido pra desnortear o teu olhar”. A melodia ganha movimento, permitindo que Wander explore diferentes nuances e dê mais dinâmica ao samba. O resultado foi uma apresentação de ótimo rendimento, com o cantor contribuindo diretamente para potencializar os principais momentos da composição. O refrão central, “o amor serpenteou, o vento anunciou, a luz tá no saber de Pachamama, Kosi Ewé, o que será do amanhã, se não reverdejar o Pindorama”, aparece como outro ponto alto da obra. É um trecho de beleza melódica, com imagens poéticas que conectam ancestralidade, natureza e a preocupação com o futuro. A passagem foi bem aproveitada na quadra e ajudou a criar uma mudança de atmosfera dentro do samba. A letra consegue traduzir com clareza diferentes elementos propostos pelo enredo. A primeira parte, especialmente, apresenta uma narrativa de resistência e afirmação, ao colocar o latino como protagonista de sua própria história e defender a inversão da lógica imposta pelo invasor. Referências afro-indígenas aparecem ao longo da composição, como em “sangue afro-tupi” e “retupinizar a nossa voz”, reforçando o discurso de valorização das raízes. A obra também encontra espaço para trabalhar a identidade de Padre Miguel por meio de versos como “o meu sorriso é resistência ancestral, Padre Miguel, essência do carnaval”, aproximando a narrativa ampla do enredo da própria Mocidade. No refrão principal, “Arriba la Mocidade, leva mi corazón, faz valer tua verdade, teu chão, mostra pro mundo o que só a gente tem, dale ritmo caliente, molho da Vila Vintém”, a composição aposta em uma construção contagiante, com boa força de canto e referências diretas à identidade da escola e de sua comunidade. No conjunto, foi uma apresentação muito consistente, em que a qualidade da melodia encontrou em Wander Pires um intérprete capaz de explorar suas nuances e elevar o desempenho do samba.

Parceria de Richard Valença: Richard Valença, Orlando Ambrósio, Renan Diniz, Jorginho Via 13, W. Corrêa e Cabeça do Ajax encerraram a noite com uma apresentação de muita intensidade. Mesmo sem a presença de Tinga, os cantores conseguiram sustentar a energia da obra e garantir um desempenho de destaque. A composição tem como uma de suas principais características uma melodia linear, mas capaz de imprimir força à apresentação. O samba não depende de grandes passeios melódicos para funcionar e encontra justamente na contundência de sua construção um dos seus principais atributos. Um dos momentos mais fortes está na sequência “pelo sangue derramado, pelo sol da liberdade, sou o braço rebelado, manifesto a Mocidade”, seguida pelo trecho “O mapa que vira, virou, refez o passado, independente não vai ser colonizado, o mapa que vira, virou, nos faz ir além, são outros quinhentos na Vila Vintém”. A estrutura, mesmo sem recorrer ao bis, ganhou caráter explosivo na quadra e ajudou a manter a apresentação em alta. A letra também se destaca pela objetividade com que desenvolve a ideia de resistência e retomada. Versos como “quero meu povo em cada busto, nossa memória muito além do museu, nasci índio batizado, pois você brincou de Deus, vim pra retomar o que é meu” apresentam um discurso direto, trabalhando memória, identidade e enfrentamento à imposição histórica. O samba ainda estabelece uma conexão interessante entre a narrativa do enredo e a identidade da Mocidade, especialmente ao trazer a Vila Vintém para dentro do discurso. No conjunto, foi uma passagem de grande força, marcada pela empolgação dos intérpretes, pela boa resposta da quadra e por uma obra que encontrou na contundência melódica e na clareza da narrativa seus principais trunfos.