angelina rosas
Foto: Gustavo Lima/CARNAVALESCO

São 22 anos à frente da presidência da Rosas de Ouro. Para muitos, Angelina Basílio é uma figura folclórica do carnaval, enquanto, para outros, é reconhecida como uma grande gestora. A presidente da Rosas de Ouro carrega uma extensa trajetória no carnaval, especialmente dentro da própria escola, onde deu continuidade ao legado de seu pai, Eduardo Basílio. À frente da Roseira, Angelina participou de momentos marcantes da agremiação, que revelou diversos nomes para o carnaval de São Paulo e levou enredos memoráveis ao Anhembi. Durante sua gestão, a escola conquistou dois títulos, sendo o mais recente em 2025. No quadro ‘Entrevistão’, do CARNAVALESCO, a presidente conversou com a equipe e abordou temas importantes, entre eles o recente rebaixamento da Rosas de Ouro para o Grupo de Acesso 1.

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Falando sobre a sua presidência, o que mais mudou na escola desde que você assumiu, em 2004?

“O carnaval mudou muito. Hoje, quase todos os presidentes consideram que o carnaval está engessado pelos critérios de julgamento. Alguns concordam, outros não. Em 2004, o carnaval era mais solto. Nós estávamos conversando sobre isso outro dia e lembramos que existia, por exemplo, ala de pandeiristas, com quatro ou cinco pessoas tocando pandeiro. Era muito legal. Existem tradições que fazem parte da história e da cultura do carnaval e precisam ser preservadas, como o mestre-sala e a porta-bandeira e as baianas. Ao mesmo tempo, estamos perdendo a espontaneidade do componente. Está ficando até chato desfilar, porque não pode isso, não pode aquilo. Tem que desfilar em fila, tem que contar grade. Isso não é carnaval. O componente precisa cantar o samba. Antigamente, nos anos 1980 e 1990, não era assim. A pessoa vestia a fantasia, se sentia dentro dela e podia se movimentar no ritmo, na cadência do samba, acompanhando a bateria. Hoje, já fizeram até sátiras mostrando um desfile de 7 de Setembro com uma escola de samba. Nós somos uma escola de samba. O componente precisa se sentir leve, espairecer, vestir a fantasia, ser um folião e cantar o samba”.

Uma escola de samba também exige organização e gestão. Qual é o maior desafio de administrar uma estrutura desse tamanho?

“Podemos comparar uma escola de samba a uma empresa em alguns aspectos, principalmente na organização, administração e gestão. Mas existe uma grande diferença: uma empresa pode não ter uma data específica para entregar o seu produto final. No carnaval, temos hora, dia e local determinados para tudo acontecer. Também não dá para comparar o amor à camisa e ao pavilhão. Eu posso vestir a camisa de uma empresa, mas, quando vou embora para casa, não tenho necessariamente o mesmo comprometimento. Em uma escola de samba, existe paixão, existe amor ao pavilhão. Você vive a escola. Hoje estou com a camisa da Rosas de Ouro e será assim 24 horas”.

Depois de 22 anos na presidência e dois títulos conquistados, o que ainda falta realizar na Rosas de Ouro?

“Tenho muitas coisas que ainda quero realizar. A Rosas de Ouro é uma escola tradicionalíssima de São Paulo, e não se trata apenas de conquistar títulos. É preciso formar grandes sambistas, mestres-salas e porta-bandeiras, ritmistas, diretores de carnaval e tantos outros profissionais. A escola precisa revelar pessoas. Hoje, por exemplo, temos os ateliês de volta para a quadra. Eu estava passeando por aqui e encontrei a nossa musinha, a Ana, que deve ter uns seis anos. Olha aí o futuro da Rosas de Ouro! A escola forma passistas, aderecistas e profissionais de diversas áreas. A Rosas de Ouro é uma escola de formação. O mestre da bateria veio do projeto “Samba se Aprende na Escola”, assim como a Isabel Casagrande, nossa primeira porta-bandeira. Esse é o papel de uma escola de samba que eu quero continuar exercendo”.

O título de 2025 representou um alívio depois de 15 anos sem conquistar o campeonato?

“Foi um alívio muito grande. Eu sempre fui muito perseverante e nunca desisti. Alguns familiares me perguntavam: “Angelina, você acredita que a Rosas de Ouro vai voltar a ser campeã?”, e eu respondia: “Sem dúvidas, acredito”. Eu acreditava porque estávamos formando uma comissão de carnaval e novas lideranças. Também formamos profissionais de harmonia e coordenadores de alegoria. Eu sempre dizia: “Nós vamos ser campeões”. Depois de 15 anos, eu sempre falo para os jovens: acreditem nos seus sonhos, porque eles podem se tornar realidade. Hoje é muito difícil ser campeã, principalmente no Grupo Especial. Em 2025, essa conquista aconteceu porque eu acreditei. Eu acordava e dormia pensando nisso. Chegava a acordar às três horas da manhã, a hora da misericórdia, pensando no título. E a Rosas de Ouro conseguiu ser campeã. É sempre uma questão de acreditar, ajustar a equipe, corrigir as coisas e aprender. Em uma escola de samba, você aprende todos os dias. E nós conseguimos vencer”.

A comunidade da Rosas de Ouro tem demonstrado muito engajamento nos últimos anos. Qual é a importância do projeto “Sou Roseira”?

“Eu amo esse projeto! Quero agradecer toda a minha equipe e minha diretoria, mas o Alan e o Ismael são muito importantes nesse trabalho. O Alan é muito perseverante no projeto “Sou Roseira”. Estamos fazendo um recadastramento, que vai fortalecer ainda mais a relação com a escola. Fazer esse recadastramento antes de iniciar um novo cadastramento é muito importante. Achei excelente”.

No Carnaval 2026, a Rosas de Ouro acabou rebaixada para o Grupo de Acesso 1. O que esse momento representa para você?

“Posso falar sobre o descenso agora. É a primeira vez que falo sobre isso, e é para o CARNAVALESCO. Acho que nada é por acaso e nunca tinha falado isso dessa forma. É algo muito dolorido, porque a Rosas de Ouro estava havia mais de 50 anos no Grupo Especial. É lamentável, mas aconteceu. A Rosas de Ouro estava desde 1975 na elite, mas eu sou uma mulher de muita fé. Somos uma escola muito grande, com um nome muito emblemático. “Rosas de Ouro” já é um nome maravilhoso. Acho que tudo isso é um grande aprendizado. Não vou crucificar nem condenar ninguém. Tenho muita fé e acredito que Deus sabe de todas as coisas. Agora, precisamos corrigir muitas questões administrativas e de gestão dentro da Sociedade Rosas de Ouro”.

A escola acabou sendo rebaixada por uma diferença de pontuação que envolveu a punição de 0,5 ponto pelo prazo de entrega da pasta de jurados. Você considera essa penalização excessiva?

“Estou com o regulamento aqui, mas ainda não terminei de ler. Parece que haverá também uma multa financeira. Na minha opinião, é uma punição muito severa. Ainda preciso terminar a leitura do regulamento, porque já vamos ter que assiná-lo. Acho muito duro, principalmente pelo momento atual do carnaval. A disputa é muito acirrada e os critérios de desempate também são rigorosos. Mas estou preparada para dizer que a Rosas de Ouro continua sendo uma escola tradicional de São Paulo. São oito títulos no Grupo Especial, sendo dois na minha gestão. Quantos presidentes podem dizer que têm isso? Salvo alguns. Acredito que Deus escolhe quem está preparado para passar por determinadas situações”.

E, olhando especificamente para as notas, você considera que a Rosas de Ouro foi avaliada de forma justa em 2026?

“Tivemos um problema pontual. O que aconteceu foi que houve um atraso no desfile porque a escola que veio antes teve um problema. Depois conversei com os presidentes dessa escola e eles disseram que nem sabiam que aquele equipamento, acredito que um gerador, estava soltando óleo. Não fizeram aquilo de propósito. Até o casal de mestre-sala e porta-bandeira caiu. Nós realmente precisávamos esperar, mas essa espera foi muito prejudicial para a Rosas de Ouro. Ficar uma hora e quinze minutos no esquenta não é fácil. Quando voltei do banheiro, as baianas ainda estavam lá. Para quem tem mais idade, ficar tanto tempo esperando na concentração, sem condições adequadas, é muito difícil. Infelizmente, ainda aconteceu um incidente com um menino da comissão de frente, que desmaiou. Não sei se foi por causa da espera, mas foi uma situação muito difícil”.

Você já declarou, no nosso primeiro podcast, que “Mar de Rosas”, de 2005, é um dos seus desfiles favoritos. O que representa a possibilidade de reeditar esse carnaval?

“Você sabe que eu sou muito antiga no carnaval. Na minha época, não existia essa possibilidade de reedição. Hoje podemos fazer tudo novamente, e isso é maravilhoso. Até parece que Deus está dando esse presente para a gente. Quero explicar uma coisa para vocês, que são mais jovens: em 2005 não existia Instagram nem Facebook. O carnaval foi passando pelos anos e, depois, as pessoas começaram a publicar aquele desfile. Eu pensava: “Mas de onde vem isso?”. A gente tinha conquistado o sétimo lugar naquela época, e hoje os jovens que tinham quatro anos estão assistindo ao desfile, Atualmente, todo mundo assiste ao YouTube e às redes sociais. Somos muito dependentes da internet. Mas, apesar da dor que estamos vivendo, vejo tudo isso como um aprendizado. Estamos aqui para aprender todos os dias, e acredito que Deus escolheu a Rosas de Ouro para que aprendêssemos ainda mais”.

Para esse desafio, a escola promoveu Yago, que era projetista, a carnavalesco e trouxe Bruno Oliveira. O que pesou nessa escolha e na formação da dupla?

“Eu brinco com eles, chamando de “Zé Marmita e Passa-Fome”, “Cibalena e São João”. Foi um casamento perfeito, muito bacana. O Yago já conhecia a comunidade e todo mundo dentro da escola. Para o Bruno, ficou mais fácil. O Yago também tem um status de carnavalesco, e os projetos dele mostram isso. Eu me sinto muito feliz, apesar da dor que venho sentindo desde fevereiro e que estou aprendendo a superar, assim como nossos componentes. Vamos ensaiar mais para voltar ao Grupo Especial. Foi muito bom conhecer o Bruno, que é um grande profissional”.