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Foto: Divulgação/Vigário Geral

 

 

 

 

Prefácio

Passeando pelos trilhos da história, descobrindo novas e significativas memórias, o som do sino anuncia a chegada do transporte que se tornou parte da cultura contemporânea. Nosso pavilhão torna-se o bilhete de embarque para que um Vigário sonhador delire neste carnaval.

Sonhos delirantes, saudades do passado, ancestralidade viva, que faz dos caminhos percorridos destinos levados aos braços de todos os sambistas, que sabem que, nesta trajetória, irão redescobrir a Estação Felicidade.

Cantem e sambem! O carnaval hoje desembarca na Sapucaí. É ele imperial, como o início da história que iremos contar. É ele boêmio, como a localidade mais conhecida de todo este passeio, que fez de seus arcos o cenário perfeito para admirarmos. É ele a grande festa que evoluiu, que brincou e fez marchinha, posteriormente fazendo samba para malandro bom dançar.

É ele, o bonde, a descarregar nossa gente na avenida mais famosa, na avenida dos sonhos, onde tudo é possível e tudo ganha vida. Na alegria de um folião, chegou o “Bonde da Vigário”, festejando o direito de uma comunidade de ser feliz!

No bonde da alegria. Partiu! Vigário Geral.

“A mulher do padeiro
Trabalhava noite e dia
Ê ê ê ê, ê ê ê ê ê ê ê
E viajava só no Bonde de Alegria
Cantava e pulava
E o padeiro não sabia”

(Joel e Gaúcho)

Sinopse

Em uma terra tropical, o futuro chegou transportando a corte de um imperador. Nesse mesmo tempo, um vigário motorneiro e seu condutor viram despertar o embrião de uma cidade maravilhosa.

Nosso passeio começa em 1859, no Rio de Janeiro, quando o Barão de Mauá, conhecido por ser um dos pioneiros da industrialização brasileira, incentiva a instalação dos bondes na capital do Império. Foi apresentado, então, um sistema simples, puxado por animais, que, a princípio, fazia seu trajeto entre o centro da cidade e o bairro de São Cristóvão, localidade importante, pois ali ficava o então Palácio Imperial.

Era o tempo de um Brasil comandado pelo imperador Dom Pedro II, qual, entre bananas e abacaxis, via a modernidade chegar à sua nação com orgulho e admiração. A modernidade aventurava-se em meio à natureza que emoldurava o lugar. E foi sobre trilhos e sem motor que ali estava ele, o bonde, iniciando sua jornada.

Diferente, ousado e puxado, na maioria das vezes, por jumentos, era uma “gambiarra” moderna que atravessava as ruas em meio a escravos, vendedores de frutas e toda a sociedade local, que se identificava e via naquela “máquina” um vislumbre dos dias futuros.

Mas, para que esse futuro se tornasse realidade, o Rio precisava ser modificado, modernizado.

Aqui, nesta parte de nosso passeio, embarcamos um dos heróis de nossa história: André Rebouças.

André foi um engenheiro negro, amigo pessoal e defensor do regime do então imperador Dom Pedro II. Figura respeitada na então “corte tropical”, atuou entre 1840 e 1889, participando de projetos de infraestrutura e, principalmente, de obras de abastecimento de água. Sua atuação e suas ideias foram fundamentais para a modernização da então capital imperial brasileira. Não foi ele o projetista das linhas, mas contribuiu para a melhoria das ruas e da circulação urbana, favorecendo a expansão organizada destas, por meio de suas obras e de sua visão à frente do tempo, tornando as vias da cidade adequadas para a circulação dos transportes coletivos.

O tempo passou e novas linhas foram implantadas. O Império caiu, mas o bonde resistiu.

Dessa resistência, ele evoluiu: passou a ser movido a vapor e, posteriormente, à eletricidade, ligando o subúrbio às partes mais importantes da estrutura social carioca. Tornou-se símbolo maior de uma gente que possuía um gingado diferente a qual, malandramente, soube fazer de um meio de transporte o sinônimo de toda uma esfera social.

— Bem-vindos à Lapa! — Disse o vigário motorneiro.

E, se a Lapa é o cenário perfeito para que este passeio embarque mais personagens, destacamos aqui que, da Lapa até Santa Teresa, o bondinho, como é chamado, encantou gerações. Passeou pela história e deu vida aos famosos Arcos da Lapa, a qual nada mais eram do que um aqueduto colonial mais tarde adaptado para o trânsito dos bondes.

Na Lapa, o bonde testemunhou a malandragem, viu a chegada de marinheiros e transportou belas mulheres que encantavam o mundo, o mesmo mundo, que adentrava o Brasil pelo porto carioca. Entre nossos ilustres passageiros, reverenciamos Madame Satã, que, entre uma aventura e outra, utilizava os bondes como refúgio para escapar das perseguições policiais.

— Hora de partir! — Disse o vigário motorneiro.

E, com toda essa riqueza social, despedimo-nos desse cenário que hoje, entre copos, brindes e toda a boemia, faz do bonde um forte elemento da identidade cultural de nossa cidade.

Memórias que vêm, memórias que vão. Sentimento de saudade de um tempo que se foi. Das caixas de ferramentas, responsáveis pela manutenção de tantos bondes, restam sucatas.

Preservar a memória e valorizar o braço forte de todos aqueles que trabalharam ou ainda hoje trabalham por um sistema de transportes digno para toda a população é preciso. Com carinho, lembramos daqueles que um dia conduziram a memória, visando à resistência social e cultural coletiva desse meio de transporte.

Mas nem tudo ficou no passado. Nosso passeio ainda nos leva à última e mais charmosa de todas as estações.

Bem-vindos à Estação Carnaval!

Nas ruas, a festa é geral, mas, sobre os trilhos, não existe nada igual. Alegria, euforia e descontração. Entre fantasias e batalhas de confete e serpentinas, lá estava ele, circulando pela cidade e levando um bando de foliões para onde quisessem ir.

As marchinhas eram o carro-chefe musical, em um tempo em que o carnaval brincava consigo mesmo, quando até mesmo a mulher do padeiro foi lembrada. O bonde se “travestia” e tornava-se o “Bonde da Alegria”, que, ironicamente, passeava por São Cristóvão, o mesmo chão de onde um dia partiram os primeiros bondes.

Os blocos de rua exibiam uma variedade de fantasias, e a cidade era tomada pela verdadeira essência da festa carnavalesca. O vigário motorneiro então rendeu-se a toda aquela agitação e, na placa de destino à frente daquele vagão, escreveu sutilmente a palavra “Alegria”, imortalizando uma das passagens mais singelas e verdadeiras do carnaval carioca.

História e imaginação, passado e futuro. Seria o bonde o precursor do VLT? A resposta vem do próprio vigário que, encantado, leva seu bonde até a Marquês de Sapucaí, onde recebe o pavilhão da escola que leva seu nome, honrando o povo que o ama e representando uma comunidade que luta, resiste e celebra a felicidade, expulsando as mazelas da vida e pulando, divertidamente, o carnaval.

E é com essa energia e embarcados na história, que convidamos todos a se tornarem foliões, para pular e sambar neste dia, revivendo o famoso Bonde da Alegria, que chega soando o sino da saudade pelos trilhos do coração, mostrando a força de uma comunidade que atravessa a avenida, chegando de bonde e fazendo, mais uma vez, a verdadeira festa aos olhos de uma cidade ainda mais maravilhosa.

CARNAVALESCOS
PULUKER E ROBSON GOULART

ENREDISTA
FELIPE D. MARINHO