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Foto: Divulgação/Grande Rio

SANKOFA TABON Os retornados da Costa do Ouro e a Estrela Negra da liberdade

 Ekome feemó[1]

Eu nasci antes de mim.

Carrego o que é passado e o que ainda virá, como o próprio tempo que trama destinos em tecidos de algodão e borda as cores de cada caminho. Sou como o kente[2] em que minha mãe me embalava enquanto contava quem somos, a nobreza que carregamos e o orgulho de ter a pele que brilha como a estrela negra no céu de África.

Sou travessia e atravessamento. A história que retorna para ser reescrita. Vou nas asas de Sankofa, pois sou como ele, o pássaro dourado que caminha em frente, sempre olhando seu passado, sua raiz. Retornar a si mesmo é poder se transformar. Vou para a Costa do Ouro, ao reencontro com o mais profundo do que sou, para colher sonhos de liberdade e paz.

  1. O retorno

Das poucas lembranças da minha terra natal, guardo a memória de minha mãe dizendo que somos valiosos como o ouro que reluzia à luz do sol em nosso chão, e que a perversidade do mundo jamais seria capaz de separar nossa alma de nosso próprio lar. Ainda criança, embarquei no navio agourento que trouxe minha família ao Brasil. Cruzamos o oceano das incertezas para o desconhecido. Agora chegou a hora de enfrentar as marés para me reconhecer. Voltar à África, pisar meu chão.

Meus parentes ainda estarão lá? O que me espera do outro lado? O vento toca meu rosto e traz com ele uma ave que brilha como se fosse esculpida em ouro. Ela posa ao meu lado e diz: “é hora do retorno”. Sankofa, a ave se apresenta. Repete as histórias que minha mãe me contava sobre a riqueza, o poder e a glória dos Ashanti, a força dos tambores e dos povos que construíram o grande império e as belezas da Costa do Ouro. Diz que venho da terra onde o tempo não termina: se renova. Terra em que os símbolos Adinkra[3] guardam ensinamentos longevos, onde meus ancestrais são reis e rainhas, de onde vem a nobreza que corre no sangue de cada negro africano que chegou aqui no Brasil. Sankofa é o próprio destino, para mostrar o caminho, revelar o valor do retorno e fazer da memória uma forma de eternidade.

Embarco porque, nessa terra que também aprendi a amar, eu lutei. Participei de revoltas que sacudiram a Bahia. Jamais nos conformamos. No Levante Malê, o maior entre todos, fomos centenas nas ruas da capital, trajados de branco, armas em punho, em batalha por nossa liberdade. O poder do Império do Brasil tremeu. Temerosos de nossa força, estão nos mandando de volta.

Eles nos enviam como punição, sem saber que este retorno habita meus sonhos desde a infância. Carrego dor, mas também esperança.

Mais uma vez atravessaremos o imenso mar, o Atlântico que é negro feito nós, das águas salgadas que se confundem com os prantos indizíveis.

Somos centenas, novamente em travessia. Iorubás, hauçás, jejes, fons, nagôs. Retornados. Levamos conosco o que aprendemos nesta terra: o trabalho, a música, as crenças e os ritos nascidos do encontro entre tantas Áfricas que constituíram quem somos. Do outro lado do mar, não chegaremos de mãos vazias.

Que Xangô, orixá da Justiça, nos conduza.
Que Nyame, Deus supremo da minha terra, nos receba.
Porque quem retorna ao seu povo jamais caminha sozinho.

  1. O encontro

A Costa do Ouro brilha e, em meus olhos marejados, parece ainda mais rica do que minha mãe me dizia. Tesouro que não se mede apenas pelo ouro, pelos metais ou pelos rios que irrigam a vida e cortam esse chão onde agora pisam meus pés descalços. A maior riqueza desta terra respira e tem alma. Está na profusão de línguas que desconheço, nos rostos que me sorriem como se nunca tivéssemos nos distanciado, nas mãos que se estendem ao encontro das minhas.

Os Akan são os primeiros a nos acolher. A herança das grandes mães, a força das florestas e a fertilidade que perpetua o matriarcado. Reconheço os Ashanti por seus mantos coloridos, os mesmos que me embalavam quando bebê e que parecem caminhar antes mesmo de seus corpos, como se carregassem a memória de seu povo em cada fio. Ao lado dos Fanti, aprendemos o tempo do plantio e da colheita, e que a paciência da terra também ensina a paz entre os homens. No cair da noite, conhecemos os Ewe, povo do vodun e da dança sagrada em honra a Mawu, e os tambores falantes dos Dagomba.

Com os Gás, enfim, compreendemos o verdadeiro sentido do pertencimento. Mantse Nii Ankrah, chefe supremo desse povo dedicado ao comércio e à pesca, recebeu-nos, protegeu-nos e ofereceu a terra onde hoje habita nossa comunidade. E então, erguemos construções grandiosas, fizemos brotar água do solo árido, vestimos os trajes dos poderosos e cultivamos frutos e sementes que trouxemos do lado de lá.

Como nosso português lhes soava estranho, nossos irmãos guardaram a expressão que mais nos ouviam repetir nas feiras e nas conversas: “está bem”, “está bom”, “tá bom”. Desse entendimento nasceu um nome que atravessou toda a Costa do Ouro. Deixamos de ser apenas viajantes. Tornamo-nos um povo: os Tabons. Brasileiros em Gana, africanos retornados, o povo do Agbê.

Dabi m’beru agbê, kim be wa jo yee!
Dabi m’beru agbê, kim be wa jo eee![4]

O som dos tambores percorre cada viela de Otublohum, pois essa sexta é de celebração. Ouço o agbê soar alto: o malinwo[5] conduzindo a música, o agogô dando a textura do som, o canto da comunidade respondendo em iorubá, como aprendemos no Brasil. As mulheres ocupam o centro da roda, alimentos sagrados são oferecidos e os ritos se cumprem. É tempo de saudar Xangô.

O Orixá da Justiça nunca foi cultuado na Costa do Ouro. Fomos nós, os retornados, que o trouxemos para esta terra. Desde então, ele se faz presente em nossas festas, celebrações e despedidas. É quando Bahia e África deixam de ser duas margens e voltam a ser uma mesma memória.

A Xangô tudo devemos. Foi ele quem protegeu nossa embarcação no retorno, quem vomitou ouro à porta das nossas casas, quem atravessou o oceano na forma de uma cobra para jamais nos abandonar. Por isso, todos os anos realizamos este grande festival em sua homenagem. Em seu templo, oferecemos aguardente, nozes e dendê, evocamos nossos antepassados e buscamos a sabedoria dos mais velhos.

Nos últimos tempos, nossas preces têm sido também por proteção a essa terra, que tem sofrido grande ameaça. Os brancos avançam sobre a África, dominando nações, impondo seus modos de vida e saqueando suas riquezas. Pergunto-me se viveremos sob poder estrangeiro, como aconteceu no Brasil.

Penso em me juntar às lutas que explodem por todo esse território. Mas sei que minhas forças já se despedem de mim. Meu desejo é fazer correr o tempo para testemunhar a vitória daqueles que lutam pela Justiça. Conforta-me saber que, como ancestral, verei, pelos olhos de meus filhos e netos, o sonho do povo do ouro acontecer.

III. O sonho

E que sonho é este, que me une a este povo que também é meu, que também eu sou? O pássaro do retorno, que jamais me abandonou e segue ao meu lado neste momento de despedida, novamente me abraça, aponta para o futuro e revela o destino que aguarda nossa gente. Me mostra os sonhos bons que irão se realizar.

O sonho de “um povo livre e independente”. De uma nação “livre para sempre”[6].

Vejo, enquanto meus olhos lentamente se fecham, um povo que não cessa de lutar para destruir o fardo dos dominadores e construir seu próprio caminho. Um povo marcado por traumas que atravessam gerações, mas que são incapazes de apagar sua história, a beleza de sua cultura e a grandeza criadora do tambor.

O sonho pan-africano, pois “nossa independência não tem sentido a menos que esteja ligada à libertação total da África”6.

A estrela para a qual Sankofa agora me conduz, com a mesma asa que um dia, na Bahia, apontou o mar, é negra como aquela que habitava as memórias de minha mãe. Brilha sobre todo o continente, do norte ao sul, do oriente ao ocidente, unindo povos, línguas e territórios. É estrela e é bússola. Espelho da riqueza, do poder e da grandeza dos impérios da nossa costa do ouro e de tantas outras civilizações africanas. Um símbolo do que podemos ser, caso estejamos unidos, mesmo em nossas diferenças, lembrando que nossa raíz é a mesma, resistente, que se estende por essa terra, cresce como tronco forte e floresce como a liberdade.

Meu coração está leve, meu espírito em paz diante do que Sankofa me revela. Chegará o tempo da reparação. O que nos foi roubado será restituído, não pela bondade dos opressores, mas pela força de nossas ideias, de nossa memória e de nossa luta. Haverá um dia em que o mundo reconhecerá ter sido este o maior crime da história da humanidade. E então viveremos…

O sonho do dia em que, vencidas todas as batalhas e restituída a dignidade que o colonialismo tentou destruir, se fará ouvir por toda a África, e por todos os povos do mundo:

“Despertamos. Não vamos mais dormir. Hoje, a partir de agora, existe um novo africano no mundo!”6

Carnavalesco: Antônio Gonzaga
Pesquisa e texto: Jader Moraes e Antônio Gonzaga

[1] Saudação que abre as reuniões e ritos Tabon. Significa: “Estejamos reunidos”

[2] Tecido tradicional da cultura ganesa

[3] Ideogramas do povo Akan, com pensamentos, sabedorias e provérbios populares

[4] Traditional Tabon song, freely translated as: “We have begun the Agbê dance. Yes, we invite everyone to come and dance the Agbe

[5] A traditional drum of the Agbe

[6] Excerpts from Ghana’s historic Independence Speech, delivered by Kwame Nkrumah on March 6, 1957

Referências:

Textos

Amakye-Boateng, Benjamin. Music of the Tabom: An Emblem of Identity. Humanities, v. 8, n. 2, art. 95, 2019.

AMOS, Alcione Meira. Os que voltaram: a história dos retornados afrobrasileiros na África Ocidental no século XIX. Belo Horizonte: Ed. Tradição Planalto, 2007

Fonseca, Carlos. Os retornados: a história dos ex-escravizados que deixaram o Brasil e formaram comunidades afro-brasileiras no golfo do Benim. Rio de Janeiro: Record, 2024.

Lima e Souza, Mônica. Entre margens: o retorno à África de libertos no Brasil. 1830-1870. Rio de Janeiro: UFF, 2008. (tese de doutorado)

Ogot, Bethwell Allan (ed.). História geral da África, V. Brasília: UNESCO, Instituto Humanize, 2021

Schaumloeffel, Marco Aurelio. Tabom: a comunidade afro-brasileira do Gana. São Paulo: Geração Editorial, 2008.

Audiovisual

Tabom na Bahia (Documentário | Disponível no Youtube)

Ghana’s Independence Day Speech by Dr. Kwame Nkrumah (Discurso | Disponível no Youtube)

Quem são os retornados? O Brasil que renasceu em Gana (Brasil de Fato | Disponível no Youtube)

Agradecimentos

A Grande Rio agradece, de forma especial, à Embaixada do Brasil em Gana e a todas as pessoas que nos receberam em Accra, durante visita realizada em junho de 2026:

Excelentíssima Senhora Mariana Gonçalves Madeira, Embaixadora do Brasil em Gana
Excelentíssimo Senhor Nii Amasah Namoale, Embaixador de Gana no Brasil
Ministério do Turismo, da Cultura e das Artes Criativa de Gana
Heather Mamuna Nelson
Nii Aruna III (Tabon Weku Onukpa )
Alhaji Mustapha Ankrah
Nii Quao Ribeiro I (Tabon Nifahene)
Mr. Adamu Morton
Bishop Michael Boateng Fiscian
Rev Fr Dr Edward Nelson
Mr. Stephen Dodoo Ofei (Dodoo Nsakie Weku Onukpa)
Mr. Dan Agudey