tuiuti enredistas
Foto: Mariana Santos/CARNAVALESCO

Para ter uma comunidade engajada, o pertencimento se mostra como um ponto essencial. Durante o “Samba Enrena”, realizado no Renascença Clube, no Andaraí, a enredista Josyane Almeida e o pesquisador e compositor Claudio Russo afirmaram ao CARNAVALESCO que o fortalecimento do vínculo entre componentes e os enredos é fundamental para que os integrantes se reconheçam nas histórias contadas na Avenida e se tornem parte da narrativa apresentada pela escola. Sambas como “Lonã Ifá Lukumi” e “Quem tem medo de Xica Manicongo?” não bateram recordes nas plataformas de streaming nem se popularizaram entre torcedores da noite para o dia. Isso é fruto de um trabalho de pesquisa que aprofunda a relação entre a comunidade e os enredos defendidos a cada ano. Segundo Claudio Russo, enredos que se comunicam com histórias e desejos da comunidade são cada vez mais necessários e impulsionam um bom desempenho na Avenida.

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“O carnaval é muito diferente do que era há vinte anos. Um dos pontos principais é que o carnaval, que antes era uma cultura hegemônica, passou a ser uma cultura de gueto. Então a gente tem que fortalecer o gueto. Se você for ver bem, cada escola sai com, em média, um pouco mais ou um pouco menos, três mil pessoas. Não tem mais ala comercial. Aquelas três mil pessoas que vão por livre e espontânea vontade precisam estar inseridas no projeto e entender a história que vão contar, porque estão lá, no caso da Tuiuti, toda segunda-feira ensaiando. Se elas não se identificarem com as histórias, vai ser muito ruim fazer o desfile”, explicou.

Para isso, o diálogo com a comunidade do Tuiuti tem sido cada vez mais próximo e tem assumido um processo didático. Os enredistas fazem um evento de explanação dedicado à comunidade, no qual explicam cada frase, conceito e a importância de cada personagem e cenário trazido no enredo, bem como o porquê de terem sido escolhidos, a fim de aprofundar o pertencimento e a garra dos componentes. Para 2027, quando levarão para a Sapucaí a história de Tia Ciata, matriarca do samba, não será diferente.

“Através dessa dinâmica que eles apresentam na quadra, como uma audição ou até mesmo uma aula de canto, eles vão passando conhecimento para a nossa comunidade, que é o mais importante. Acredito que a grande maioria ali não sabia da importância da Tia Ciata. Com esse ato tão humilde e tão grandioso deles, sentando, explicando e tendo paciência, conseguem transmitir esse conhecimento. Eu sentia falta disso no carnaval. As escolas simplesmente lançavam o samba, o componente tinha que se virar para aprender e muitas vezes nem sabia o que estava cantando. Diversas vezes vimos componentes dando entrevistas sem conseguir explicar o que estavam cantando ou qual era o enredo. Acho que o Tuiuti vem fazendo isso hoje, e todas as escolas deveriam fazer. Ninguém é obrigado, mas é muito importante o componente conhecer a história que está sendo contada”, defende Josyane.

A enredista e presidente da escola mirim Netinhos do Tuiuti ressalta que o fato faz diferença na relação dos componentes com cada história contada e ganha um contorno ainda mais profundo ao dialogar com o apagamento da história negra do Brasil.

“A gente sabe que a história dos negros foi apagada dos livros de história. O que você encontra hoje é que os negros foram escravizados, sofreram e foram açoitados. Mas e a história de sucesso dos negros? Como eles chegaram aqui? Como nasceu o samba? Como nasceu a capoeira? Isso não aconteceu de um dia para o outro. Existe uma história, um contexto, vidas, choro, lágrimas e sangue. Quando você tem uma pessoa como Cláudio Russo disponível para explicar isso, tudo fica muito mais fácil. As pessoas acabam entendendo as suas origens, de onde vieram e o contexto da sua vivência. Isso é muito importante”, ressaltou.

Mais uma vez, o Tuiuti segue sua tradição de pensar um samba bem alinhado à sinopse e à proposta de carnaval, conduzido por um time coeso de compositores-enredistas. Segundo Russo, a dupla jornada oferece uma visão mais profunda sobre a mente dos compositores e, por outro lado, traz uma abordagem mais poética e lúdica à sinopse, de forma intencional.

“Eu acho que ajuda muito porque, sendo enredista, pesquisador e compositor, eu entendo o que um compositor quer ler. Vou ser muito sincero: temos possibilidade de fazer doze grandes enredos, mas, se não for lúdico, poético e envolvente para o compositor, não vai resultar em um grande samba. Não adianta fazer uma tese de mestrado ou doutorado. O compositor precisa entender. Se a sinopse for excessivamente intelectualizada, ele não vai compreender, porque ela precisa alcançar todos. Não apenas a imprensa, os possíveis jurados ou a intelectualidade do Rio de Janeiro e do Brasil. Ela tem que alcançar todo mundo. Como enredista, sabendo qual é o olhar e o ouvido do compositor, eu tento fazer algo mais poético, trazer uma narrativa mais bonita para a sinopse. Não é apenas despejar informação e colocar nota de rodapé. Isso não fala ao coração do compositor”, avaliou.

Neste ano, o trabalho alcançou um nível ainda maior de integração: Claudio Russo conta que o samba foi escrito simultaneamente à sinopse do enredo, assim como os desenhos das fantasias, feitos por Renato Lage.

“O presidente Thor pediu para mim e para o Simas pensarmos em enredos. Ele sempre fala que já tem dois caminhos em mente e costuma refletir bastante sobre os enredos. Conversou também com o Renato e marcamos um encontro três dias antes. Foi nesse momento que surgiu a ideia desse arco narrativo. Eu escrevi um pequeno texto, e ele foi aprovado imediatamente naquele jantar. Esse pequeno texto acabou se tornando o embrião da sinopse e do samba”, concluiu.