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Fotos: Pedro Ribeiro/CARNAVALESCO

Por Pedro Ribeiro

No segundo dia do Congresso Nacional das Escolas de Samba (CONASAMBA) 2026, realizado na Fábrica do Samba, em São Paulo (SP), um debate com profissionais, artistas e empreendedores do Carnaval brasileiro possibilitou reflexão e diálogo acerca dos principais desafios para a comunidade envolvida diariamente com a folia, também conhecida como trabalho. O CARNAVALESCO esteve presente para registrar os principais momentos das exposições desse painel repleto de pluralidade. Comandado por Célia Domingues, o debate iniciou-se com a fala de Vanessa Alves, musa da União de Maricá. A nutricionista trouxe para o centro da conversa o empreendedorismo feminino, o cuidado com o corpo para as mulheres e o resgate da autoestima. Ao ser perguntada sobre melhorias para as trabalhadoras e os trabalhadores no Carnaval, a musa apresentou uma defesa potente da necessidade de valorização das mulheres sambistas, incluindo propostas efetivas para esse fim, como transformar o samba das musas, madrinhas e rainhas em quesito.

“A gente pode fazer com que as escolas de samba valorizem essas meninas, as musas. A partir daí, se for exigido que seja quesito, a gente não vai ter mulheres que não são da nossa arte usurpando lugares de meninas da comunidade (…). Eu não estou dizendo que uma menina não pode vir a ser do Carnaval. Mas ela vai ter que aprender a história do Carnaval, a nossa ancestralidade e a nossa dança. Ela vai aprender a cumprimentar o pavilhão (…). Já passou da hora de a gente profissionalizar as meninas do samba: rainhas, musas e integrantes da ala de passistas. A gente tem um coordenador da ala de passistas que recebe; mas e as meninas?”, disse Vanessa.

Após a abertura da musa e rainha Vanessa Alves, foi a vez do cantor e compositor Sandro Ferraz, dez vezes campeão do carnaval gaúcho. Filho do Carnaval, o intérprete escolheu uma argumentação voltada para o fundamento cultural de pertencimento, acolhimento e construção de caráter e valores que emergem do que a escola de samba é em sua essência.

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“Um grande amigo meu dizia que as escolas de samba são os quilombos urbanos que nós temos nos dias de hoje. Então, lá se discute a drogadição, se discute a menina que engravidou muito precocemente, se discute a comida que não se tem na mesa. (…) Escola de samba é um local de acolhimento. Mas, acima de qualquer coisa, escola de samba é lugar de aprendizado”, afirmou Sandro.

Antes de encerrar suas contribuições e partindo da lógica da agremiação como lugar de aprendizagem, Sandro Ferraz trouxe um ponto de vista mais concreto sobre a ampliação das capacidades formativas das escolas. Segundo ele, um dos caminhos poderia ser formar pessoas que tenham condições de escrever projetos e buscar encaminhamentos para trazer recursos públicos ou privados para dentro das escolas.

No sentido legítimo do Carnaval como cidadania, trabalho, política pública e profissão, o carnavalesco e enredista mineiro Felipe Diniz trouxe uma abordagem sobre as barreiras do preconceito que ainda perduram no entendimento da sociedade em torno dessa legitimidade. Ao expor, com exemplos, as ilações às quais os profissionais do Carnaval estão submetidos por uma parcela preconceituosa da população, que sequer reconhece esse labor como “trabalho”, o mineiro retrata o tamanho da luta contra o preconceito em lugares em que o Carnaval possui porte considerado médio no país, como é o caso de Belo Horizonte. Ele também aponta dificuldades ao afirmar que a verba é liberada faltando apenas 20 dias para o desfile. Por isso, os conceitos que ajudam a quebrar esse estigma são necessários.

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“É importante esse reconhecimento. Esse empreendedorismo carnavalesco. Não só para a gente, mas para o Carnaval como um todo. É a nossa ancestralidade. (…) Se fosse ruim, ninguém copiava. Então, acho que o nosso produto tem que ser respeitado. As nossas profissões têm que ser respeitadas”, defendeu Felipe.

O dilema em que o carnaval transita entre empreender e aprender, compor ou resistir, e a defesa da cultura e da ancestralidade em um território suscetível às demandas pragmáticas do mundo dos negócios mostrou-se um excelente desafio para o painel e para o que nascerá dele. O compositor da Baixada Santista, Rubens Gordinho, abordou, de forma cordial e firme, a defesa instransponível da importância de preservar a memória e a história do Carnaval e das pessoas que o construíram em tempos muito mais miseráveis e persecutórios para os sambistas. Em sua abordagem, defendeu que o futuro não pode se esquecer do passado.

“Eu tenho certeza de que esse debate sobre empreendedorismo é muito interessante, porque fomenta o futuro da escola de samba. (…) É muito importante também a preservação da memória, da história do samba e dos nossos sambistas. (…) É preciso empreender na preservação dessa história, para não acontecer um apagamento”, destacou Rubens.

Para encerrar o conjunto de convidados previstos para o painel, o empresário Renato Cândido trouxe para a conversa sua experiência em captação de recursos para o Carnaval. Os recursos e as necessidades, tanto das escolas de samba quanto de seus integrantes, costumam ser inadiáveis, assim como ocorre para a maioria dos brasileiros. Com uma visão mais pragmática, Renato organizou seu ponto de vista de forma didática, ao brincar sobre equiparar a captação de recursos para o Carnaval a um quesito tão crucial quanto qualquer outro. “É o décimo quesito”, brincou.

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A sustentação de que a formação de captadores de recursos dentro das próprias comunidades é central para que a cultura, que também é produto, aconteça e cresça foi um dos pontos defendidos por ele: “Alguém tem que pagar a conta. Esse profissional tem que estar preparado para falar da sua agremiação. É ele quem tem que saber qual é a conduta e quais são as cores do projeto. (…) O cliente está do nosso lado. O cliente é a padaria que conhece sua mãe, seu pai e você. (…) Isso é captação de recurso”, complementou.

O painel, que misturou conflitos capazes de caminhar juntos e alicerçar avanços reais para o carnaval brasileiro, ainda reservou tempo para uma manifestação de Sandro Santos, coordenador-geral do Sistema Nacional de Cultura (MinC), sobre a importância do debate e o panorama relacionado à descentralização dos recursos atuais do Ministério da Cultura:

“Está sendo descentralizado para a Política Nacional Aldir Blanc, que vai para os estados e municípios. Então, temos que fazer a discussão com os municípios, que realizam a relação operacional. Com os estados, fazer a discussão tática; e, cada vez mais, o Governo Federal fica com a decisão estratégica. Portanto, compreender essas discussões e nuances da política cultural é importante”, afirmou Sandro Santos.