carnavalescos ech
Foto: Mariana Santos/CARNAVALESCO

A escola de Cavalcanti segue para mais um ano sob as bênçãos ancestrais femininas. Para 2027, a escola levará para a avenida o enredo “Luzia Pinta – Da Calunga Grande aos Calundus da Cura”, de Cahê Rodrigues e Rodrigo Almeida. O enredo aborda a história de Luzia Pinta, uma africana escravizada no Brasil que carrega uma trajetória marcada por perseguições e acusações de feitiçaria. A escola apresentou a nova equipe e o tema para o próximo carnaval em evento na Barra da Tijuca.

O enredo segue uma linha conceitual similar ao enredo “Salve Todas as Marias – Laroyê, Pombagiras”, de 2026, em que exaltaram as pombagiras como forças femininas ancestrais, de resistência e identidade. A escola projeta ampliar esse olhar, reafirmando o compromisso com o protagonismo feminino e gerando reflexão sobre seus legados na cultura brasileira contemporânea. Rodrigo Almeida, carnavalesco, afirma que a “energia espiritual feminina” coincide com o momento atual da escola.

* Seja o primeiro a saber as notícias do carnaval! Clique aqui e siga o CARNAVALESCO no WhatsApp

“Acho que a escola gostou muito. A energia feminina, a energia espiritual ancestral, é uma coisa que a escola trouxe para ela, é uma coisa que só fortifica a ideia dessa reconstrução, dessa ascensão da escola. Acho que essa energia feminina se adaptou bem à escola. A gente não pode esquecer que Pomba Gira é uma coisa que roda, que gira, é uma entidade que… Tem um ditado africano que diz: ‘Exu matou um pássaro com a pedra que jogou ontem’. Pomba Gira veio para abrir os caminhos para Luzia Pinta e, com certeza, a Luzia Pinta agora vai ser um sucesso na avenida”, afirmou.

O enredo cumpre a missão do carnaval de levar para a avenida histórias de diversas pessoas simbolizadas em uma só. Para Cahê, Luzia reflete histórias de amigas e líderes religiosas que passaram por sua vida: mulheres negras, corajosas, que lutam para exercer sua religiosidade sem amarras.

“Hoje existem muitas mulheres que podem exercer a sua prática religiosa com liberdade e segurança, mesmo sabendo dos preconceitos que as religiões de matriz africana enfrentam no Brasil. Mas a escola de samba está aí para isso: reforçar essa narrativa do quanto é importante exaltar essas mulheres. E a Luzia Pinta traz justamente essa saga, essa força dessas mulheres que a gente vai conduzir lindamente através do desfile da Em Cima da Hora”, declarou.

Dentre tantas histórias que Luzia reflete, Cahê destaca uma em especial, que parte de uma memória afetiva: Dona Janete, esposa de Chiquinho, dono da tradicional loja Babado da Folia e ex-diretor de carnaval da Mocidade. Dona Janete foi responsável por auxiliar e cuidar da mãe do carnavalesco em um momento espiritual delicado.

“Hoje minha mãe é convertida, segue a vida religiosa dela, mas naquele momento em que a gente precisou desse acolhimento, Dona Janete abriu as portas do terreiro dela, em Campo Grande, e recebeu minha mãe com muito carinho. Ali eu pude presenciar o amor que ela colocava dentro da prática dela. Aquilo fez toda a diferença para a minha vida, porque eu não tinha muito conhecimento sobre a religião e, a partir das práticas daquela mulher, tudo fez sentido para mim. Eu pude entender o amor que ela tinha em cuidar de pessoas. Quando eu leio sobre Luzia Pinta e quando a gente pesquisa sobre Luzia Pinta, eu lembro dessa mulher, porque era exatamente isso. Ela é uma dessas Luzias Pintas espalhadas pelo mundo”, relatou.

Cahê Rodrigues retorna ao carnaval carioca, somando sua experiência à de Rodrigo, que atua na escola desde 2024. O trabalho no barracão ainda não começou, mas, desde já, a dupla exalta a sintonia e a forma orgânica como a parceria tem sido construída.

“A gente se uniu para fazer um projeto. Não existe uma fantasia do Cahê ou uma alegoria do Rodrigo. É tudo junto. A gente rabisca junto, cria junto, tem ideias loucas juntos. Ele quer me matar porque eu ligo para ele de madrugada, ele me liga de manhã e a gente fica bolando: ‘o que você acha disso, daquilo?’. Não existe divisão. É uma coisa que flui. É realmente um rio fluindo em direção a isso”, explicou Rodrigo.

“A gente ganha esses presentes na vida, e Rodrigo, nesse meu retorno para o carnaval do Rio, em que eu precisava desse acolhimento, desse abraço, eu recebo esse presente de um cara com um coração gigante. Eu posso chamar de ‘menino’, porque eu sou mais velho do que ele, e digo que me emociona ouvir que eu fui inspiração para ele, isso é muito especial para mim. Eu estou muito feliz com a parceria, a gente, de verdade, tem uma troca muito saudável, a gente se fala quase todo dia, quase toda hora. A gente não está no barracão ainda, fica em casa trabalhando, faz chamada de vídeo, a gente se entope de mensagens e de referências o tempo todo. Parece que eu estou me reencontrando no carnaval, dentro desse processo criativo. Está sendo muito especial”, disse Cahê.

Além da chegada de Cahê, a escola também recebeu, para o Carnaval 2027, o intérprete Igor Vianna, que cantará junto ao parceiro Igor Pitta; o coreógrafo da comissão de frente, Patrick Carvalho; o diretor de carnaval, Wallace Capoeira; o diretor de harmonia, Marcelo Varanda; além da nova rainha de bateria, a cantora Lexa. O carnavalesco Rodrigo Ameida projeta um carnaval ainda maior do que o de 2026.

“Um grande carnaval. Já temos um grande enredo, temos certeza de que virá um grande samba e quem viu a Em Cima da Hora no passado pode aguardar coisa maior, pode aguardar uma escola disputando o título, querendo o Grupo Especial. É uma escola de tradição, uma escola que tem a sua bandeira, tem a sua história, podem aguardar uma grande Em Cima da Hora, um grande trabalho, não só dos carnavalescos, mas de toda a equipe que está na escola”, declarou.