Foto: Divulgação/Porto da Pedra

A escola de São Gonçalo levará para a Sapucaí o enredo “Porto Calunga”, de Alex Carvalho e Caio Cidrini, com pesquisa de Thainá Santos e Beatriz Chaves. O tema trata da expedição popularmente conhecida como ‘Projeto Kalunga’, em que uma série de artistas da MPB foi convidada para se apresentar em Angola durante 12 dias, passando por Luanda, Benguela e Lobito, em meio à Guerra Civil Angolana.

Cerca de sessenta artistas brasileiros, Dorival Caymmi, Dona Ivone Lara, Chico Buarque, Martinho da Vila, Clara Nunes, Elba Ramalho, além de compositores, percussionistas, pessoas do teatro e da fotografia, participaram da expedição, que os carnavalescos consideram um ‘movimento artístico’, e retornaram de Angola com suas vidas e visões artísticas impactadas pela experiência.

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Os frutos dessa expedição foram grandes sucessos que os artistas trouxeram na bagagem, como a canção “Morena de Angola”, composta por Chico Buarque. Martinho da Vila gravou “Velha Chica”, do compositor angolano Waldemar Bastos. O álbum “Seduzir” (1981), de Djavan, também nasce sob influência dos momentos em Angola, além dos clássicos “Nvula Ieza Kia/Humbiumbi” e “Luanda”. E o carnavalesco Caio revela que os relatos do projeto são o ponto mais tocante da pesquisa do enredo, o que expõe o sentimento genuíno de artistas que encararam as memórias de seus antepassados e tiveram a oportunidade de retornar ao território ancestral levando arte.

“O que eu acho mais encantador, potente e forte são os depoimentos desses artistas que foram lá. Existem vários trechinhos em alguns documentários. Tem um documentário da Clara Nunes em que ela fala um pouco sobre Angola. A Alcione não foi em 1980, mas ela vai em 1981 e 1982 para lá também. Há trechinhos em que aparecem Dona Ivone Lara, Dorival Caymmi e Djavan. Tem trecho dele em programa da TV Cultura falando sobre isso e sobre como eles falam de forma genuína, apaixonada e transformada. Dorival vai para uma ilha em Luanda e se emociona porque lembra a Bahia dele. Djavan diz que só se encontra pleno artisticamente, com a identidade musical dele, quando pisa lá. E ele volta, compõe ‘Humbiumbi’, que é um pássaro angolano, e dá esse nome à música. Martinho vira praticamente o embaixador, ele ama Angola, faz kizomba, escreve tantos livros sobre Angola… Dona Ivone fala que, quando vê o mar da África, se arrepia e tenta não chorar”, contou.

Em busca de uma recolocação no Grupo Especial, a direção da escola já desejava um enredo afro. E Caio conta que o desejo coincidiu com a ideia que nasceu ao frequentar uma aula do mestrado na UERJ, sendo logo aceita pela agremiação.

“Teve uma aula na exposição do Museu de Arte do Rio que tinha um framezinho de 30 segundos de um documentário alemão sobre o Projeto Calunga. E, quando a gente viu isso, até fomos depois juntos, eu, Alex e as enredistas, para ver, falamos: ‘Pô, esse negócio dá um carnaval, né?’. E começamos a trocar ideias, e o Alex disse: ‘Cara, estou calunguizado’”, compartilhou.

A Porto da Pedra conta com um time de peso para trazer “Porto Calunga” à vida. Além de Alex e Caio, Thainá Santos e Bia Chaves integram a equipe como enredistas. Thainá Santos, escritora e ativista negra, já era amiga de Alex, que fez ilustrações para seus livros. Beatriz Chaves é uma enredista premiada, com Estandarte de Ouro de 2024 por “Um Defeito de Cor”, na Portela.

“É a primeira vez que a gente trabalha com enredistas. Acho que, por várias questões, por rede de relacionamento e, às vezes, por recurso financeiro também. Mas a gente chegou à Porto da Pedra nesse momento, numa escola que a gente sabe que já tinha uma estrutura de enredista também. O Mauro Quintaes tinha, o próprio Diego Araújo. É uma escola que está acostumada a ter enredista. A gente agora está trabalhando em outras equipes de criação. Trabalhamos com o Lucas no Especial e com Alexandre Louzada na UPM; com o Antônio, no passado, na Grande Rio; agora com o Edson, lá na Maricá. Na UPM era o Clark e o Vitor; o Jader Moraes na Grande Rio; agora o Mauro Cordeiro na Maricá. A gente vai entendendo o papel. É importante você ter um pesquisador, ter outros olhares sobre o mesmo tema”, contou Caio.

Ainda em estágios iniciais de pesquisa do enredo, o casamento vem dando certo, com o trabalho em equipe e colaborativo sendo um dos pontos fortes da dupla.

“Ninguém faz nada sozinho, a gente aprende isso. O carnaval não se constrói sozinho, nada na vida, na verdade. E a gente tem essa filosofia mesmo de somar com pessoas que querem estar ali somando, como a gente tem essa vontade. Está sendo uma troca, uma experiência maravilhosa estar com elas nessa nova casa, que é a Porto da Pedra”, refletiu Alex.

A dupla de carnavalescos começou a parceria na escola mirim Pimpolhos da Grande Rio, como voluntários. Atuaram na Chatuba de Mesquita, escola do último grupo do Carnaval carioca, onde montaram um carnaval sem recursos. Passaram pela Série Prata, onde conheceram Lucas Milato e se tornaram assistentes dele. Assim, também colaboraram com Alexandre Louzada ao chegarem à Série Ouro. Assinam a primeira escola na Sapucaí na Vigário Geral, coincidindo com a assistência criativa a outras escolas do Grupo Especial. A Porto da Pedra vem para dar o peso e a importância de representar uma cidade inteira na Sapucaí.

“Representar uma cidade é um peso grande. A gente sabe da história da Porto da Pedra. É uma escola que passou muito tempo no Especial, uma escola de comunidade, que representa uma cidade. A nossa intenção é levá-la de volta para o lugar em que sempre esteve e merece estar, que é o Grupo Especial. E o convite foi tranquilo. A gente já tinha saído da Vigário, estávamos abertos a propostas. Quando o Fábio Montebello ligou para a gente e perguntou se tínhamos interesse, claro que tínhamos. Sentamos para conversar e tudo foi muito natural. Acho que a gente está no lugar certo, na hora certa, com as parcerias certas, para fazer o melhor carnaval possível”, disse Caio.