Os desfiles do Carnaval de Vitória abriram o calendário dos desfiles fora de época. Anualmente, a festa popular acontece na capital uma semana antes da data oficial do Rio de Janeiro e São Paulo. Desta vez, por ser em abril, e os próximos dias fazerem parte da semana santa, RJ e SP terão seus desfiles em 15 dias. Na noite do último sábado, sete agremiações colocaram belíssimos espetáculos na passarela do Sambão do Povo. Vale ressaltar o excelente número de pessoas presentes nas arquibancadas que abrilhantaram ainda mais cada desfile apresentado.

Boa Vista, Mocidade Unida da Glória e Novo Império fizeram grandes desfiles. Porém as três irão perder pontos: por ultrapassar o tempo regulamentar, desacoplagem de seus carros alegóricos e ausência do tripé da comissão de frente, respectivamente. Apesar disso, a escola que errou menos e sofrerá uma perda mínima de perda de décimos é a Independente de Boa Vista, que pode se tornar tricampeã. Jucutuquara e Piedade também podem sonhar com boas posições, já que seus erros foram quase nulos. Imperatriz do Forte e Andaraí foram as escolas que mais sofreram com os problemas financeiros que atingiram as escola e vão brigar décimo a décimo para se manter no grupo de elite do carnaval capixaba.

Jucutuquara

A primeira escola a pisar na passarela foi a Unidos de Jucutuquara. Presidida por Rogério Sarmento, a escola falou de suas raízes. Com o enredo “O povo inteiro vai saber, é Jucutuquara que vem lá”, os carnavalescos Jorge Mayko e Wanderson Cesar idealizaram na avenida uma homenagem aos 50 anos da escola. A terceira colocada no carnaval de 2020 entrou na passarela pontualmente às 22h. A harmonia da escola junto com o samba-enredo foram alguns dos destaques. No carro de som estava o experiente intérprete Igor Sorriso, que tem passagens por escolas pela São Clemente, Vila Isabel e atualmente Mocidade Alegre (SP). Mesmo sem ter ido a tantos ensaios, o cantor demonstrou segurança e bastante entrosamento com a bateria de mestre Serginho, que executou diversas bossas ao longo da avenida. * VEJA AQUI FOTOS DOS DESFILES

Uma delas, no trecho ” Lembro a vibração na arquibancada / Nos bares a torcida apaixonada / E o bloco pelas ruas desfilar, além de paradinha, os ritmistas batiam palma com as mãos pra cima, momento que causava grande frisson. Outro que teve bastante conexão com o público foi a apresentação da comissão de frente. Os bailarinos representavam tecelões e ao final da coreografia desfraldavam o primeiro pavilhão da escola, ainda como bloco carnavalesco. Em seguida de forma rápida a atual bandeira era exibida.

O primeiro casal da escola formado por Gessya Santana e Arhur Astori vestia uma bela fantasia envolta por penas verdes em diferentes tons. Nas pontas, os fuês em verde claro embelezavam ainda mais a indumentária da saia da porta-bandeira. A troca de olhares entre os dois no decorrer da apresentação mostrava confiança e certeza de que estavam apresentando o que havia sido ensaiado. A evolução da escola foi prejudicada alguns momentos, e apesar de não ter precisado correr para desfilar no tempo regulamentar, alguns buracos entre alas foram vistos na avenida.

Imperatriz do Forte

Presidida por Artur Kadratz, a escola do Forte São João levou para avenida o enredo “Em busca do 10”, do carnavalesco carioca Márcio Puluker. Algumas complicações em alegorias fizeram com que a agremiação demorasse cerca de 15 minutos após o sinal verde para dar seu pontapé inicial. A comissão de frente do jovem coreógrafo Vinicius Couti abria o desfile uma coreografia baseada em movimentos indianos. Com movimentos de extrema sintonia, os bailarinos vestiram roupas nos tons verde e rosa da agremiação, dando um belíssimo efeito visual já no primeiro setor. * VEJA AQUI FOTOS DOS DESFILES

Estreando na escola, o casal de mestre-sala e porta-bandeira Vinícius Costa e Júlia Mariano estava com uma indumentária que valorizava ainda mais as cores da agremiação. Com uma saia um pouco mais curta que os demais casais da noite, Júlia conseguiu desenvolver muito bem a apresentação ao lado do seu parceiro. A coreografia também possuía alguns rápidos movimentos que lembravam a cultura indiana, abrilhantando ainda mais a sintonia de ambos.

Caracterizada por ter uma bateria repleta de pratas da casa, mestre Vitor Rocha e seus ritmistas fizeram apresentações bastante consistentes, sendo esse o quesito que mais se destacou. Já na abertura das notas de alegorias e adereços a escola vai passar por alguns percalços. Problemas de acabamento foram reparados e alguns queijos estavam sem seus respectivos destaques.

Novo Império

A azul, branco e rosa do Caratoíra, presidida por Alessandro Souza, foi mais uma escola que optou por olhar para suas raízes nesse carnaval. Com o enredo “Santo Antônio, olhai por nós”, desenvolvido pelo experiente carnavalesco Paulo Balbino, a agremiação se propôs levar para a passarela um tema que se comunicasse de ponta a ponta com o folião, pelo fato de homenagear o santo e o bairro onde fica localizada sua comunidade. * VEJA AQUI FOTOS DOS DESFILES

Apesar da confiança e do clima positivo do pré-carnaval da escola, um grave problema no elemento cenográfico da comissão de frente impediu que ele entrasse. O quesito que dependia completamente do elemento – um globo terrestre envolvido pela coroa (símbolo da escola) – deverá ser bastante penalizado. Além disso, deverá também perder pontos em enredo, por não desfilar de acordo com o que estava escrito na pasta de jurados e será despontuada por ter mais de 15 componentes aparentes na comissão.

Kleyson e Amanda, que formam o primeiro casal da agremiação, vestia uma bela fantasia com penas em tons azul e branco. Juntos desde 2018, os dois fizeram coreografias com bastante sincronia e via-se na expressão de ambos a certeza de que estavam executando de maneira correta.

Responsável por conduzir o belo samba-enredo da agremiação, Kleber Simpatia mais uma vez se destacou e mostra porque é considerado um dos grandes nomes do carnaval. A bateria da escola, apelidada de Orquestra Capixaba de Percussão, fez apresentações ousadas durante toda a extensão da avenida e com várias coreografias. Uma delas foi o ato de ajoelhar, feito por todos os ritmistas durante o trecho “A benção, conceda o meu último pedido, a sétima estrela em meu pavilhão, soltar o grito: É campeão”. Ao concluir seu desfile no tempo regulamentar as arquibancadas e camarotes ovacionaram a escola com gritos de “é campeã!”.

Boa Vista

Quarta escola a pisar no sambão do povo, a Independente de Boa Vista entrou na passarela com o objetivo de mostrar porque é a atual bicampeã e que merecia levar o tri para Cariacica. O enredo “O pássaro de fogo traz a boa nova… É tempo de amar!” desenvolvido por Robson Goulart contou sobre a lenda do surgimento do Moxuara e Mestre Álvaro, cartões postais do Espírito Santo. * VEJA AQUI FOTOS DOS DESFILES

A comissão de frente da fez uma bela e sincronizada apresentação, com referências a passos de rituais indígenas. O xamã, presente também na comissão, foi o grande destaque tanto pela sua entrega no personagem quanto pelo figurino que estava vestindo. Nos quesitos plásticos, a escola deve garantir as notas. Suas enormes alegorias estavam bem acabadas e sem grandes defeitos aparentes.

As fantasias, tinham bastante volume mas sem impedir o componente de desfilar e se divertir. Emerson Xumbrega, presidente, cantor e um dos compositores do samba-enredo conduziu muito bem a parte musical da escola, com muito entrosamento com a bateria dos mestres Gustavo e Vitor. O trecho “O pássaro de fogo anunciou: A “Tribo Boa Vista” chegou!” era cantado a plenos pulmões pelo chão da agremiação. O casal Bruno Simpatia e Vanessa Benittez vestia uma indumentária nas cores azul, verde e preto. Com faisões apontando pra cima em sua saia, somado ao belíssimo costeiro de seu parceiro, ambos fizeram uma apresentação que garantiu aplausos nas cabines julgadoras.

Foi um desfile próximo a perfeição técnica, como a Boa Vista tem feito nos últimos anos, com regulamento debaixo do braço. E com isso, é a grande favorita para ser campeã do carnaval capixaba em 2022.

MUG

A Mocidade Unida da Glória levou para passarela do samba o enredo  “O Leão em caravana traz ao palco da folia a imagem e a semelhança com um quê de fantasia”, desenvolvido pelo carnavalesco Osvaldo Garcia, que tinha como proposta levar uma grande caravana de bonecos e personagens para avenida, mostrando a importância desses elementos e sua constante presença no dia-a-dia das pessoas e que muitas vezes passa despercebida. * VEJA AQUI FOTOS DOS DESFILES

Um dos destaques do desfile foi o reencontro entre a MUG e seu intérprete Ricardinho, que havia se afastado da agremiação desde 2011. A volta dele ao microfone oficial e a forma com que conduziu o samba-enredo foi um dos grandes destaques do leão da Glória.

Outro destaque positivo foi a grandiosidade e exuberância das alegorias. Extensas e muito bem acabadas, esse foi sem um dos melhores conjuntos alegóricos que passou pela avenida. Apesar de estarem muito bem acabadas e de bastante bom gosto, o primeiro carro da agremiação passou por alguns problemas, Com 30 metros de comprimento, a alegoria que continha os leões guardiões da caravana de gepeto teve dificuldade para ficar alinhada corretamente. E por algumas vezes os leões ficaram desgovernados e desacoplados. Prejudicando a escola no quesito enredo, e também nas obrigatoriedades.

A comissão de frente, comandada por Marcelo Lages, apesar de não possuir elemento cenográfico, contracenava com a primeira parte do abre-alas. Os bailarinos deram vida a uma apresentação extrovertida e bem entrosada. Destaque para os bonecos suspensos que chamavam bastante atenção do público.

A bateria do mestre Carlos Magno executou bossas que devem garantir mais uma vez o gabarito no quesito. Klaura e Hudson, que juntos formam o primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira, vestiram uma bela fantasia em tons de roxo com dourado. Eles representavam o faraó e a boneca. Sem grandes ousadias na apresentação, e focada no cortejo que o mestre-sala deve fazer a sua dama, a coreografia foi correta. O samba-enredo composto por Diego Nicolau e Dudu Nobre caíram no gosto do muguiano que estava desfilando e também dos presentes assistindo. O trecho “Minha MUG é, sonho de esperança” no refrão principal era gritado por todos.

Piedade

Com o desejo de trazer de volta os tempos áureos da escola, a diretoria da escola optou levar para avenida uma reedição do enredo  “Da riqueza do café, sua força e majestade”, que foi tema do último campeonato da agremiação, em 1986. Apesar de ser uma reedição do tema, é importante ressaltar que o samba-enredo foi reescrito e não é o mesmo daquela época. * VEJA AQUI FOTOS DOS DESFILES

A comissão de frente, coreografada por Mauro Marques, representou a vinda do grão pela do palheta. Optando por não ter nenhum elemento cênico de grande escala, os bailarinos interagiam apenas com um baú que era para transporte dos objetos cênicos e também participava da apresentação. Entrosados e com samba na ponta da língua, a coreografia era finalizada com as palavras “Café” e “Piedade” sendo formada por elementos que estavam nas mãos dos bailarinos.

Atrás da comissão estava o primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira, Luzimar e Layli, vestidos com uma indumentária nas cores marrom, laranja e dourado. A saia com faisões e plumas viradas para o chão davam um belíssimo efeito no momento do giro da porta-bandeira. Enquanto ela rodopiava, seu parceiro riscava o chão com maestria, resultando numa bela apresentação do casal da escola.

Desenvolvido pelo carnavalesco Jorge Caribé, artista que já assinou diversos carnavais no Rio de Janeiro, e com passagens recentes pela Novo Império (2016-2018), o desfile começou imponente com um belo letreiro com o nome da escola acoplado ao abre-alas da escola. Segundo regulamento e organização dos desfiles, a Piedade deveria ter entrado na avenida por volta das 4h da manhã, ainda de madrugada. Porém, um problema técnico num dos guindastes que leva as composições as alegorias atrasou o desfile da agremiação, fazendo com que ela entrasse na avenida com os primeiros raios de sol.

Como isso não estava planejado, praticamente todo efeito de iluminação que a Piedade havia proposto ficou ofuscado pela luz solar. Em seu primeiro ano como intérprete oficial da Unidos da Piedade, Thiago Brito, que até 2020 era intérprete da MUG, conduziu com muita qualidade o belo samba. Ele, que também é um dos autores do samba, mostrou um ótimo entrosamento com a bateria Ritmo Forte, comandada pelo mestre Tereu. A bateria ousou nas bossas e paradinhas que exaltavam ainda mais o chão da escola.

Andaraí

A campeã do grupo de acesso A em 2020 foi a última a desfilar no Sambão do Povo. Com o dever de encerrar os desfiles de 2022, o Andaraí desfilou com o enredo “Mulemba”, desenvolvido por Alex Santiago, que visava resgatar a história do bairro onde a escola fincou suas raízes. Coreografada por George Falcão, a comissão de frente representava os guardiões da árvore sagrada. Eram 12 bailarinos vestidos de guardiões, metade na cor verde e metade na cor rosa. Cores essas que também estampam o pavilhão da agremiação. No decorrer da apresentação, figuras místicas do folclore saiam de dentro do pé de mulembá, que estava como elemento cenográfico, e faziam parte da coreografia. Santa Martha, que também é nome do bairro onde fica localizada a escola, finalizava a apresentação do quesito. * VEJA AQUI FOTOS DOS DESFILES

Em seguida, o Andaraí apresentou o início de um setor mais afro diaspórico, com referências a orixás e religiosidade. Nas fantasias, foi possível perceber infelizmente uma reclamação que era feita por todos os presidentes. A dificuldade de vendê-las afetou bastante o número de contingente das alas, deixando um pouco a desejar no volume para preencher com totalidade as linhas de desfile.

Outro ponto negativo a ser mencionado foi a falta de acabamento em algumas alegorias. Ostentando o pavilhão da agremiação, o casal Wesley Blank e Alana Marques vestiam uma bela roupa em tons dourados e laranja, as cores se misturavam e davam um lindo efeito compondo os giros da porta-bandeira. Ciente das dificuldades que é para uma escola recém-chegada ao grupo especial, o Andaraí “compensou” a falta de verba e investimento nos quesitos plásticos, com o forte canto de sua comunidade nos quesitos de chão. A bateria fez paradinhas pontuais em trechos do samba, que era cantado forte pelos componentes principalmente no trecho final do refrão: “Andaraí somos filhos desse chão”.

APURAÇÃO

Na próxima quarta-feira, conheceremos a escola campeã do carnaval capixaba em 2022. Encerrando assim um ciclo de trabalho que durou mais de 2 anos. A partir das 16h30 inicia-se a leitura dos envelopes com as escolas que desfilaram na quinta-feira, em seguida escolas do grupo A – que desfilaram na sexta – e por fim, das agremiações de sábado.

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