
Escolas ligadas a torcidas organizadas aproximam futebol e carnaval, mas as apostas nas duas modalidades seguem regulamentações distintas.
A estreia da Botafogo Samba Clube na Série Ouro, na Marquês de Sapucaí, em 2025, reacendeu uma ligação que já dura décadas na cidade: a de torcedores que também são sambistas. Escolas como a Fla Manguaça e a Imperadores Rubro-Negros nasceram justamente dentro de torcidas organizadas, reunindo componentes que levam para dentro da quadra a mesma intensidade que carregam na arquibancada do estádio.
Os presidentes Felipe Amorim e Serginho Aguiar falaram ao Carnavalesco sobre os desafios dessas agremiações e sobre o que aproxima e separa os dois universos. A conversa expõe algo além do preconceito ainda enfrentado por essas escolas: mostra como duas paixões nascidas do mesmo público seguem, hoje, regras completamente diferentes quando o assunto é aposta esportiva.
Uma ligação que vem da arquibancada
A Fla Manguaça carrega no nome a torcida organizada que lhe deu origem, e o mesmo vale para a Imperadores Rubro-Negros. Serginho Aguiar contou que iniciativas como o “encontro das paixões”, realizado durante a pandemia entre Guerreiros Tricolores, Botafogo Samba Clube e União Cruzmaltina, ajudaram a mostrar que torcidas rivais podem conviver dentro do carnaval sem transportar para lá a rivalidade do futebol. Segundo ele, essa integração também tem um efeito prático: atrair um público mais jovem, que acompanha o futebol desde criança e enxerga na escola ligada ao seu time uma porta de entrada mais próxima para o desfile.
O preconceito que ainda resiste
Apesar dos avanços, Felipe Amorim reconhece que ainda existe um olhar diferente sobre escolas de samba associadas a times de futebol, sobretudo por parte da imprensa e de dirigentes mais antigos do carnaval. Serginho Aguiar vai além e resume o incômodo que o acompanha desde que assumiu a Imperadores Rubro-Negros: “Por que não pode ter uma escola de samba que é de time de futebol?”, questiona.
Onde a lei traça uma linha
O paralelo entre torcida de escola e torcida de time, porém, esbarra em uma diferença concreta desde 2025. O novo marco regulatório das apostas esportivas, em vigor desde 1º de janeiro daquele ano, passou a exigir que qualquer mercado de aposta esteja vinculado a um evento real de temática esportiva, com resultado desconhecido no momento da aposta e organizado sob regras esportivas oficiais. Um desfile de escola de samba, decidido por votos de jurados e não por uma disputa esportiva, não se enquadra nessa definição, o que deixou os desfiles do Grupo Especial fora de qualquer mercado de aposta.
Na prática, essa exigência define quais eventos podem ser oferecidos por um site de apostas regulamentado. As plataformas licenciadas só podem disponibilizar mercados relacionados a competições esportivas que atendam aos critérios previstos na legislação, com resultados objetivos e verificáveis. É justamente por isso que modalidades baseadas em avaliação artística, como os desfiles das escolas de samba, ficaram fora da regulamentação, mesmo sendo disputas competitivas e acompanhadas por milhões de brasileiros.
Segundo levantamento da KTO, o futebol concentrou 90% das apostas realizadas na plataforma em 2024, reflexo de um mercado estruturado em torno de partidas e campeonatos esportivos, e não de competições decididas por critérios subjetivos. Por isso, mesmo avaliado com todo o rigor de uma disputa, o Grupo Especial não gera o tipo de resultado esportivo verificável que uma aposta exige, o que ajuda a explicar por que a Sapucaí ficou de fora da regulamentação que formalizou as apostas no país.









